Castell

14 Geu II - Graventown


Do topo de um penhasco, um jovem observava a cidade abaixo. Sua jornada havia sido longa e o cansaço se evidenciava nas feições do rosto, mas finalmente estava diante de seu objetivo. A despeito disso, não demonstrava sinal algum de satisfação em seu olhar fosco. Ele tinha cabelos negros e curtos que se alinhavam naturalmente para o lado esquerdo, calças jeans, sapatos de couro marrom, uma camisa azulada de botões e, por cima de tudo, uma jaqueta preta.

–Consegui chegar até aqui, mas a troco de quê?

Já há algum tempo ele vinha questionando o próprio propósito, e lutar sozinho só o ajudava a se sentir ainda mais isolado. A frustração se agitava no âmago de sua alma como um turbilhão furioso, pois por mais que se esforçasse, por mais que desse passos adiante, o caminho pelo qual seguia parecia apenas se tornar um suplício cada vez maior. Com efeito, temia que chegasse o ponto em que sua alma seria fragmentada de tal forma que não conseguiria mais reconstruí-la.

–Bom, é verdade que a vida tem me dado umas cartas bem ruins ultimamente. – Ele fechou os olhos e suspirou. Então, quando os abriu novamente, havia um fulgor que os fazia parecer pequenos citrinos. Era um olhar afiado, muito diferente do anterior, direcionado para o alto. – Mas eu não tenho escolha, não é mesmo? Se esse caminho realmente vai me levar à destruição, será melhor que viver cheio de arrependimentos.

O rapaz então voltou novamente sua visão para a cidade abaixo de si e saltou, descendo vertiginosamente em direção à base do penhasco.

–Vou continuar lutando até conseguir a carta que conectará todas as outras. Nesta hora, tenho certeza que todo esse esforço não terá sido em vão.

Quando Sayd e Geu finalmente chegaram a Graventown, já era tarde da noite. Cansados, deixaram suas aves de montaria sob os cuidados do dono de um estábulo e então seguiram a pé pelas ruas de pedra. O número de pessoas ao redor diminuía drasticamente enquanto cada vez mais pingos de chuva molhavam o chão. Logo, os dois amigos se viram correndo enquanto tentavam localizar algum lugar onde pudessem passar a noite.

–Veja, Geu, que tal ali? – Apontou o capitão.

–Hotel Atlandis Palace. Parece ser um lugar decente.

Uma vez que não estavam em posição de ser exigentes, eles atravessaram o saguão de entrada em direção ao balcão, onde um rapaz baixo e de cabelos rosados sorria, conversando com um cliente. Depois de registrados, pegaram a chave do quarto e seguiram outro funcionário escada acima.

Nem mesmo um minuto se passou e uma figura encapuzada deixou as ruas chuvosas, e, uma vez dentro do saguão, revelou o próprio rosto. Era a garota de cabelos negros e olhos reluzentes, que também fez uma reserva. Diferente das pessoas que vinha seguindo, contudo, ela tomou uma direção diferente após recolher a chave.

Logo na entrada do bar, viu uma grande placa na parte superior da porta onde se lia “Dyson Bar”. A decoração interior, que lembrava o interior de uma espaçonave, a agradou bastante. Depois de olhar ao redor por uns instantes, a jovem se dirigiu até um dos assentos de frente para o balcão, chamando a atenção de um homem alto de cabelos compridos e prateados que limpava um copo com um pano.

–Pois não, senhorita, como posso lhe ajudar?

–Quero uma garrafa de coca-cola.

Enquanto esperava sua bebida, ela puxou uma folha de papel e um lápis do interior de suas vestes e começou a desenhar. Continuou a fazê-lo entre um e outro gole, até que finalmente se cansou e subiu também para os andares superiores. Na cobertura do hotel encontrou, satisfeita, um cassino chamado Heaven’s Strings. Lá pôde matar tempo até que o cansaço finalmente tomou conta e a forçou a descer para seu quarto.

Pela manhã, quando Geu e Sayd desceram até o bar para tomar o café da manhã, a garota já estava lá, esperando.

Embora fosse cedo pela manhã, as ruas da cidade já se encontravam agitadas com a movimentação dos moradores e estrangeiros. Os dois residentes do castelo caminhavam entre um aglomerado de tendas que vendiam bens diversos, e Sayd não pode deixar de notar a quantidade incomum de obras de arte.

–Que curioso. Nunca vi tantas pinturas, estátuas e enfeites sendo vendidos no mesmo lugar.

–Não é de se surpreender. – Apontou Geu, altivo ao falar, pois tinha orgulho de seu extenso conhecimento. – O prefeito de Graventown é um famoso amante das artes e patrocina diversos profissionais do ramo. Dizem que não há cidade no mundo que supere esta aqui em termos de cultura artística.

–Entendo. Certamente será uma ótima ideia eu comprar um souvenir para a minha mãe, mas que tal antes descobrirmos onde diabos ela está?

–Não se afobe, meu caro amigo. Lembre que você está acompanhado do melhor detetive que já existiu. – Abraão mantinha uma postura impecável de serenidade. – Não pense que tudo o que faço é me basear apenas em escritos fleumáticos de roteiro.

O capitão dirigiu um olhar um tanto quanto cético para seu amigo, mas não o interrompeu.

–Você certamente deve se lembrar bem que parte do sustento da sua família vinha dos trabalhos de marcenaria do seu pai, certo?

–Sim, é verdade.

–Bem, eu fiz minha pesquisa e soube que sua família foi obrigada a abandonar as terras que possuía devido à guerra entre as famílias nobres Gestoma, a quem seus pais pagavam tributo, e Nekrauz, que saiu vitoriosa no confronto. Depois que a batalha terminou seus pais não puderam mais retornar

–Até aí eu já sei. – Disse Sayd, entediado enquanto ambos continuavam a caminhar.

–Não me interrompa! – O detetive retrucou rispidamente, mas logo retomou a postura. – Como eu dizia, sua família teve que fugir, e não havia outras terras disponíveis que eles pudessem ocupar. Logo, era evidente que a única forma de sobreviver seria buscando um lugar onde seu pai pudesse exercer seu talento. O que nos leva até Graventown.

–Será que pode chegar logo à conclusão? Chega de tanto suspense!

Geu abriu um grande sorriso de contentamento.

–Graventown era convenientemente próxima das terras dos Gestoma e bastou cavar um pouquinho para descobrir que até mesmo o prefeito solicitou os serviços de uma oficina de móveis sob medida chamada Nebrask.

–Nebrask?! – Sayd exclamou. – Mas esse é meu sobrenome!

–Precisamente. A minha pesquisa me levou a concluir que seu pai trabalhou aqui por um tempo considerável, e a julgar pelo renome que conseguiu, é provável até que tenha feito uma pequena fortuna. Então tudo que precisamos fazer é investigar por aqui e conseguiremos alguma indicação concreta do que aconteceu com sua família.

O rosto do capitão havia se tornado radiante. Diante das palavras de seu companheiro, ele não tinha como evitar um surto de esperança.

–Tomara que você esteja certo. Só de pensar que meus pais não sofreram tanto quanto eu imaginei já fico mais aliviado.

Naquele momento, contudo, os dois estancaram de imediato. Inesperadamente, haviam encontrado uma figura familiar naquele lugar tão distante. Era um homem de pele morena, cabelos raspados e olhos marrons, que normalmente vestia um conjunto de armadura leve, mas desta vez estava portando apenas suas duas lâminas especiais. Tratava-se de ninguém menos que Juca, o principal cavaleiro a serviço de Akane, vestido com um manto de viajante e carregando um saco cheio de bugigangas.

–Juca, é você mesmo? O que está fazendo aqui? – Perguntou Sayd, surpreso.

–Estranho, eu não tinha visto nada sobre a aparição dele neste capítulo. Deve ter sido uma mudança de última hora... – Balbuciou Geu, mas os outros dois o ignoraram.

–Eu estou fazendo compras a pedido da Akane. Ela decidiu que queria enfeitar um pouco o castelo e por isso me mandou para cá. – Explicou o cavaleiro.

–Mas por que justo você? Ela com certeza deve ter outros serviçais que pudessem resolver esse problema. – Propôs o capitão.

–É verdade, mas como eu morava aqui antigamente ela achou que seria mais fácil para mim. Isso e também o fato de que eu sou quem melhor entende os gostos dela lá em Nadeko. Mas e você, Sayd, o que está fazendo tão longe do castelo do dragão?

–Estou numa missão particular. Quero encontrar meus pais e, de acordo com a investigação do Geu, parece que podemos descobrir algumas pistas do paradeiro deles aqui em Graventown.

Ao ouvir aquilo, a expressão de Juca mudou, adquirindo tons de inquietação. Suas sobrancelhas se contorceram enquanto ele fazia um grande esforço mental, até que finalmente se recordou daquilo que desejava.

–O nome da sua família é Nebrask, correto?

–Sim, é isso mesmo. – O capitão se viu igualmente tenso diante daquela pergunta.

–Nunca tinha feito a ligação, mas agora que paro para pensar, acho que pouco antes de eu ser demitido da fábrica de balas, ela tinha sido adquirida por um homem chamado Nebrask. E pelo que sei, o atual dono da fábrica mora numa mansão nos arredores da cidade.

–Espera um pouco, isso significa que...! – Sayd não conseguia acreditar, muito menos se conter de animação.

–Viu só? Eu disse que era o melhor detetive que já existiu. Encontramos sua família em menos de uma semana! – Gabou-se Geu.

–Eu realmente vou revê-los depois de tanto tempo! Geu, Juca, nunca vou conseguir agradecer o suficiente! Vocês são demais!

–Fico feliz pela oportunidade de ajudar. É bom ver um amigo feliz. – Disse o cavaleiro, contente pelo apoio que prestou.

–Bom, primeiro precisamos nos certificar. Façamos o seguinte, Sayd: enquanto eu investigo a fábrica de balas para saber se o seu pai realmente está envolvido com ela, você aproveita para lavar esse terno, escolher uma lembrança e fazer qualquer outra coisa que ache necessário. – Sugeriu o detetive. – Se tudo der certo, vamos visitar sua família amanhã de manhã.

–Parece ótimo!

Enquanto Geu seguia em frente sozinho, Sayd continuou junto de Juca, que se dispôs a levar o capitão até uma lavanderia na condição de que ele o ajudasse a carregar as obras de artes encomendadas pela duquesa.

Dois homens se encaravam fixamente enquanto seus cabelos balançavam de forma furiosa. Eram Rec, o mordomo-chefe do castelo, e Mizu, o irmão do lorde. Não satisfeito por ter a disputa anterior interrompida por Dan, dessa vez o mestre da água estava determinado a ser vitorioso. Para o desafio em questão eles estavam montados em bodes e correndo em círculos por um circuito montado no interior do salão principal.

Ambos mantinham um equilíbrio tênue, com os animais emparelhados num ímpeto frenético. Somente com grande perícia ambos conseguiam conduzi-los pelas curvas e obstáculos do percurso. Com a última volta se aproximando, o espírito de luta dos dois homens se inflamava de exponencialmente.

–Eu o parabenizo por ter aguentado até aqui, mas esta batalha termina agora, Mizu! Está na hora de ativar o nitro do meu bode! – E tendo dito isto, o mordomo fez sua montaria engolir uma pimenta ardente. No mesmo instante, o animal atingiu uma velocidade que ameaçava quebrar a barreira do som. – Sim, eu vou venceeeeeeer!

Rec nem sequer conseguia mais se manter sentado sobre a besta e, ao invés disso, sacudia violentamente sobre o lombo dela enquanto segurava com firmeza as rédeas. Mas aquela velocidade insana sofreu uma drástica redução quando o recinto inteiro foi inundado.

Enquanto tentava entender o que acontecia, o mordomo viu seu rival passar ao seu lado, e que o bode dele, agora dotado de uma cauda de peixe, conseguia se movimentar com visível facilidade no ambiente submerso.

–“Se pensa que vou perder assim tão fácil está me subestimando demais, Mizu! Vou mostrar a você o poder secreto Cyber que eu consegui com o lorde!”

Rec, que não tinha a menor intenção de perder aquela disputa, puxou uma carta verde do bolso e iluminou o salão principal com um breve lampejo. O irmão do lorde olhou para trás a fim de entender a razão daquilo e se espantou ao notar que a montaria do outro competidor havia se transformado num bode cibernético com um poderoso propulsor que o permitia avançar pela água numa velocidade maior do que o bode-tritão.

–“Mas nem ferrando! Quem vai vencer sou eu!”

Os dois se aproximavam da linha de chegada, com a distância entre ambos diminuindo rapidamente a cada momento. A disputa seria decidida em apenas um instante, mas antes que tal instante viesse a ocorrer, os portões se abriram e toda a água escoou para fora. Mizu e Rec foram arrastados e se viram caídos no pátio.

A corrida estava arruinada, mas esse não era o maior problema com que eles tinham de lidar. Estavam agora diante de três pessoas encharcadas, e uma delas, a mais furiosa, era ninguém menos do que a própria Er. Ao vê-la, o irmão do lorde deixou escapar um grito agudo de espanto e desapareceu sem deixar traços.

–Mas que filho da...

Antes que o mordomo terminasse o xingamento, a dama responsável pelos assuntos internos deu alguns passos adiante, sentindo que era sua responsabilidade lidar com aquele assunto.

–Rec, que diabos foi isso?

–Calma, eu posso explicar!

–É bom mesmo, senão eu mesma vou lhe dar uma punição!

Cerca de meia hora e um banho relaxante depois, Rec terminou de explicar, enquanto passava o secador nos cabelos de sua superior, como uma conversa inofensiva acabou se tornando uma corrida de bodes.

–Tudo bem, vou dar um desconto porque você ainda não tem muita experiência como mordomo, mas espero que isso não se repita! – Retorquiu Er.

–Prometo que não acontecerá.

–Bom. A propósito, tivemos notícias do Sayd? Nossas defesas ficam muito defasadas sem o poder de retranca dele.

–Quanto a isso, pode ficar ainda mais tranquila. Tenho um agente vigiando Sayd para garantir que nada de ruim aconteça a ele e, pelo que li do último relatório, dentro de um ou dois dias ele já deve começar sua viagem de volta.

Tarde da noite. Os guardas postados no portão da casa luxuosa nem sequer desconfiaram que uma invasão estava ocorrendo naquele exato momento. Mas como poderiam? Quem sobrevoou os muros como uma sombra e abriu uma das janelas num passe de mágica era Luke, o tapete mágico. Seria necessário fazer muito melhor que aquilo para detê-lo. Depois de entrar pela adega, ele seguiu para os corredores, buscando pistas de seus alvos. Sentiu-se com sorte por encontrar um mordomo desavisado e, depois de espancar o pobre homem, arrancou dele a informação que desejava.

Em menos de um minuto, Luke estava batendo na porta do quarto dos donos da mansão e ouviu um resmungo descontente autorizando sua entrada. Consentindo, ele abriu a passagem e deslizou para dentro do recinto iluminado onde o casal se encontrava deitado na cama.

–Senhor e senhora Nebrask, eu presumo. – Disse o tapete.

–Quem é você? – Perguntou o homem.

–Eu vim aqui a pedido de Rec, o mordomo chefe do castelo do lorde dragão. Ele precisa de vocês dois mortos, e como estou com um pouco de pressa, peço que me perdoem se eu for um pouco rude. Prometo que tudo estará terminado em instantes.