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15 Geu III - A Verdade


Sayd mal conseguiu dormir aquela noite, tamanha era sua ansiedade. Quando se encontrou com Geu no hotel mais cedo no mesmo dia e soube da notícia, que o dono da fábrica de balas Juquinha realmente tinha o mesmo sobrenome que o seu, imediatamente começou a pensar no que deveria dizer aos seus pais. Ficou até tarde imaginando como seria o reencontro e como poderia se desculpar por ter demorado tanto tempo para encontrá-los.

Pela manhã, o detetive teve de acordá-lo, mas o sono foi rapidamente vencido com a ajuda de um banho quente. Às nove da manhã, após o café da manhã, ambos deixaram o hotel para seguir em direção ao que haveria de ser o destino final daquela viagem. Como a mansão se localizava relativamente próxima da cidade, optaram por não utilizar nenhum meio de transporte. Desta forma, provavelmente chegariam lá em torno das onze horas.

Os muros e a construção de pedra eram imponentes e davam ao lugar a aparência de um pequeno castelo, reforçada ainda mais por quatro guardas de armaduras reluzentes posicionados diante do portão de ferro, a única entrada para o pátio. Geu se adiantou e tratou de explicar o motivo daquela visita inesperada, o que causou um pouco de estranheza, mas logo um empregado foi chamado para avisar os patrões.

Após uma espera de cinco minutos, o homem retornou, fazendo uma reverência aos visitantes e informando que já eram esperados na sala de estar. Sayd abriu o sorriso mais sincero de toda a sua vida e se apressou em seguir o empregado mansão adentro. Após atravessarem o hall de entrada, ele e Geu subiram um lance de escada e seguiram para o interior de uma sala ampla, com vários sofás, estantes repletas de livros e enfeites, uma lareira e alguns quadros.

—Meu Deus! Sayd, é você mesmo! – Exclamou um distinto senhor de bigode que se levantou de imediato de sua poltrona. Ele possuía cabelos negros esparsamente visíveis por baixo da cartola e vestia um terno ainda mais fino que o do próprio comandante das forças do castelo.

—Meu filho, como você cresceu! – Uma mulher que já estava em pé se aproximou e abraçou Sayd. Ela era muito bela, apesar de já ter certa idade, e trajava um vestido branco elegante com babados, além de calçar sapatos de salto alto. Seus cabelos negros eram compridos e encaracolados, ao que seus olhos verdes reluziam como esmeraldas.

—“Acho melhor eu não interferir nessa reunião de família. Pelo visto eles têm muito o que colocar em dia.” – Pensou Geu, afastando-se em direção a um dos cantos da sala, onde começou a folhear livros, procurando qualquer coisa que lhe interessasse. Mas mesmo sem dizer nada ele continuava prestando atenção, logo descobrindo que seus anfitriões se chamavam Ali e Jasmina.

Os três membros da família Nebrask se sentaram e deram início a uma longa conversa. Contaram a respeito de suas viagens e das dificuldades que enfrentaram até finalmente conseguir se estabelecer. Os pais como famosos artesões e depois como donos da maior fábrica de balas do reino. O filho como comandante das forças militares do infame lorde dragão, cujas histórias eram conhecidas até mesmo na distante Graventown.

—Eu nunca teria conseguido encontrar vocês sem a ajuda do meu amigo Geu. Ele provou que realmente é digno de ser chamado de o melhor detetive do mundo. – Disse Sayd, em dado momento.

—É verdade? Deveríamos lhe dar algum tipo de recompensa por trazer nosso filho para nós. Você tem nossa eterna gratidão, meu jovem. – Disse Ali.

—Ora, isso é desnecessário. – Respondeu Geu, desviando seus olhos dos livros por um momento. – Eu não poderia estar mais satisfeito em ajudar um amigo como Sayd. Ele realmente merecia um pouco de paz de espírito.

—Espero que todas as pessoas do castelo onde você trabalha sejam assim maravilhosas. – Comentou Jasmina.

—Acho que posso dizer que a maioria é. Vocês precisam me visitar lá qualquer dia desses. Tem uma garota que vão adorar conhecer!

Embora a reunião continuasse em tom bastante animado, o detetive assumia uma expressão cada vez mais desconfiada a cada livro que consultava. Quando cansou de folhear o quinto, simplesmente começou a correr o olhar pelas lombadas dos demais. Nisto, Sayd fez a pergunta fatídica.

—Mas, afinal de contas, a troco de que compraram uma fábrica de balas? Pensei que você gostasse de fazer trabalhos de artesanato, pai.

Um ar diferente se apoderou das feições dos dois adultos, algo que fazia o comandante sentir calafrios. Sua impressão era de que os rostos de seus pais haviam se tornado máscaras sinistras com sorrisos cínicos. Depois de um longo momento de tensão, Jasmina finalmente respondeu.

—Muita coisa mudou desde que nos separamos. Nós perdemos tudo por culpa da maldita guerra contra os Nekrauz, e no fim das contas os Gestoma, a quem pagamos tributo por anos, nos abandonaram. Nós pensamos até mesmo que você tinha morrido nas batalhas, e juramos vingança por todo o sofrimento que nossa família passou.

—Mas o que tem uma fábrica de balas a ver? – Perguntou Sayd, absolutamente perdido.

—Não é uma simples fábrica de balas, estou certo?. – Disse Geu, sempre afiado. – Inclusive, os senhores têm uma quantidade surpreendente de livros a respeito de biologia, química, genética e alquimia numa sala de estar, mas eu nunca vi ninguém que gostasse de ler um pouquinho sobre mutações para relaxar depois do jantar.

—Seu amigo realmente é bastante observador. – Comentou Ali. – A fábrica de balas é uma parte essencial do plano que bolamos em conjunto com os magos do grupo Majiaspecter.

—Majiaspecter?! – O comandante estava horrorizado. – Por que vocês estão se aliando a esses feiticeiros malignos?

—Eles nos forneceram os meios para criarmos um exército de mutante acéfalos. – O homem prosseguiu. – Nossas experiências com a fórmula já trouxeram muitos resultados satisfatórios e falta pouco para podermos produzi-la em massa e aplicá-la nas balas. O maior problema é que precisamos preparar um mutante mestre para controlar os demais telepaticamente.

—Nós queremos que você se torne esse mutante, Sayd. Os outros são meros fantoches, mas você vai se tornar um dos seres mais poderosos deste mundo e o líder do nosso exército. Reinará junto conosco sobre estas terras decadentes. – Completou Jasmina.

—Jamais! Kamo nunca me perdoaria se eu aceitasse participar de um plano desses!

—É uma pena, filho, mas você não tem opção. Vai nos ajudar por bem ou por mal.

A expressão de Ali se tornou terrivelmente severa enquanto ele disparava dezenas de feixes luminosos dos dedos da mão direita. Todos convergiram na direção de seu filho e o lançaram furiosamente contra a parede, que rachou. O rapaz foi imediatamente ao chão, inconsciente.

—Sayd!

O que Geu puxou do bolso parecia ser uma simples pistola, mas ao ter o gatilho apertado ela imediatamente se expandiu, até chegar ao tamanho de uma bazuca. Em questão de instantes a arma concentrou uma quantidade imensa de energia, que foi liberada num disparo cegante de luz verde.

Ele havia atirado com força suficiente para obliterar a outra metade da sala, pois sabia que não estava lidando com inimigos quaisquer. O que ele não esperava é que eles fossem poderosos a ponto de anular o ataque com uma muralha transparente que nem ao menos parecia ter sido danificada. Nem mesmo o grande detetive pôde evitar um passo de incerteza para trás.

—Criança tola. – Com rápidos movimentos das mãos, Jasmina desfez a barreira e lançou outro feitiço, travando todos os movimentos de Geu. Por mais que tentasse reagir, ele estava completamente indefeso. – Nós não temos utilidade para você. Acho que vamos usá-lo como uma cobaia nos nossos testes finais. Virar um mutante acéfalo é o que você merece por se achar tão espertinho.

O casal deixou a sala, levando Sayd consigo, e pouco tempo depois alguns dos guardas vieram buscar o detetive. Dominado por um sentimento de impotência que o enfurecia sobremaneira, ele nada podia fazer além de olhar ao redor, desesperadamente procurando algo que pudesse tirá-lo daquela enrascada. Por esta razão, foi o único a perceber a presença de um pequeno ser, à semelhança de um dragão branco e radiante, observando tudo pelo lado de fora. Antes de ser arrastado para fora, Geu viu a criatura ir embora voando.

O pequeno dragão alvo traçou o caminho de volta para Graventown veloz como um lampejo. Em meros dez minutos já estava no centro da cidade, parando apenas ao encontrar sua dona. Ela tomava um sorvete com calma, sentada num dos bancos da calçada. Era a mesma garota que até então vinha vigiando Sayd e Geu.

Sentindo a presença de sua mascote, ela olhou para o alto e observou a graciosa descida. Agora fitavam os olhos um do outro e, mesmo sem que a criatura dissesse qualquer palavra, ou mesmo fizesse algum som, a jovem entendeu telepaticamente a mensagem, demonstrando preocupação.

—Droga, eu sabia que deveria ter arriscado ir pessoalmente. Vou resgatar o detetive agora mesmo, enquanto isso encontre o rapaz de ontem e faça-o esperar por mim neste banco. Rápido, não temos tempo a perder.

A mascote acenou afirmativamente e desatou a voar novamente enquanto sua dona se colocava em pé de um salto, lançando para trás o sorvete inacabado e se preparando para correr. Mas num momento de assimilação, ela olhou para trás dando-se conta do que havia feito e sentiu uma pontada de arrependimento.

—Ah, droga. Depois eu compro outro.

A garota teve uma surpresa. Quando ainda estava na metade do caminho em direção até a mansão dos Nebrask, deparou-se com um homem de jaleco caído na estrada. Aproximou-se com cautela, percebendo que se tratava de ninguém menos que o próprio Geu, e se ajoelhou para tentar reanimar o rapaz inconsciente balançando seu tronco.

—Acorda, detetive! É melhor você não ter morrido, não estou nem um pouco a fim de salvar seu amigo sozinha!

Lentamente Abraão abriu os olhos e tossiu várias vezes, até que finalmente conseguiu se sentar. Observou a desconhecida com um olhar de desconfiança, mas concluiu que, pelo menos por enquanto, ela não representava uma ameaça.

—Quem é você?

Cerca de uma hora depois, Geu estava sentado ao lado da garota misteriosa num banco em pleno centro de Graventown. Ela estava terminando de devorar um novo sorvete quando Juca surgiu, correndo atrás do dragão. O cavaleiro de Nadeko estava visivelmente perturbado após ter sido obrigado a perseguir o monstrinho por metade da cidade, tentando recuperar sua carteira roubada.

—Peço desculpas pela confusão que o Denka causou, mas é que precisamos muito da sua ajuda, Juca. – Disse a menina, com um sorriso sincero, enquanto devolvia o objeto furtado.

—Você acha mesmo que eu vou ajudar a dona de um ladrão trombadinha? Quem diabos é essa doida, Geu? – Grunhiu o protetor de Akane com a cara mais fechada que conseguia fazer.

—Ela disse que seu nome é Polux e que é uma velha amiga do lorde, mas se recusou a explicar mais que isso. Não sei se podemos confiar nela, mas na situação em que estamos acho que não temos muita escolha.

—Você está todo acabado. Por acaso aconteceu alguma coisa? – Somente então o cavaleiro notou a falta de Sayd, o que o deixava um tanto preocupado.

—Sim, nós caímos em uma armadilha. Os pais do Sayd enlouqueceram e o capturaram. Querem transformá-lo em algum tipo de mutante e eu mesmo só escapei por muito pouco. Minha sorte foi que um dos guardas revistou meus bolsos e resolveu mascar o meu chiclete de estouro sônico. Isso os deixou nocauteados por tempo suficiente para que eu pudesse fugir.

—Onde Sayd está agora?

—Na fábrica de balas, com certeza, mas temo que teremos de enfrentar um exército de monstros para chegar até ele.

—Quanto a isso vocês não precisam se preocupar. – Afirmou Polux. – Eu posso manter as defesas deles ocupadas. Vocês dão um jeito de salvar o Sayd.

—Tem certeza disso? – Questionou o detetive.

—Não se preocupem comigo, eu sei me virar.

—Então acho que temos um plano, mas antes de mais nada eu preciso me preparar. O senhor e a senhora Nebrask são adversários formidáveis e não teremos condições de vencê-los sem um pouco de tecnologia.

—Já tem algo em mente? – Perguntou Juca.

—Você nem faz ideia, meu amigo. – Um sorriso afiado surgiu no rosto de Geu.

Já estava anoitecendo quando Polux, acompanhada apenas de Denka, se viu diante dos portões da fábrica de balas. Ela deixou escapar um pequeno suspiro de frustração. Agora que parava para pensar, realmente havia se envolvido em algo problemático demais para o seu gosto, mas era um tanto tarde para desistir.

—Vai ficar me devendo um favor, Juh.

Denka começou a reluzir cada vez mais intensamente a ponto de se tornar uma esfera de luz, traçando uma órbita diagonal constante ao redor de sua mestra. Finalmente pronta, ela absorveu aquela energia e seu corpo todo foi envolvido em luz.

—Cosmic Manipulation: Tachyon Dragon!

Uma robusta armadura dracônica de cor negra cobriu todo o corpo da garota, completa com vários pares de asas feitas tanto de placas escuras como de lâminas de cristal roxo. Graças a elas, Polux se elevou no ar e atravessou o portão por cima, imediatamente atraindo a atenção de todos os guardas de plantão.

—Nem ao menos preciso usar todo o meu poder para derrotar esses babacas.

Enquanto retornava ao chão, ela disparou feixes de energia para todos os lados, danificando containers e derrubando a maior parte dos inimigos. Os poucos que restaram, compreendendo o nível da ameaça que enfrentavam, se apressaram a libertar os mutantes acéfalos.

—Ótimo, até aqui tudo está correndo conforme o planejado. Agora o resto é com Geu e Juca.

Os monstros se aglomeravam, avançando em dezenas, formando uma onda de horror que faria qualquer humano pensar seriamente em fugir. Polux, contudo, não era humana.

—Senmetsu no Tachyon Spiral!

Uma poderosa rajada de energia roxa varreu as abominações e deixou uma cratera fumegante no chão. Mas por mais impressionante que o ataque fosse, era apenas uma medida temporária. Dezenas mais de inimigos avançavam através dos portões abertos da fábrica e os que haviam apenas sido arremessados pela onda de choque já estavam se levantando e retornando à multidão. Aquela batalha estava apenas começando.

Na escura rede de túneis abaixo da fábrica, Geu e Juca avançavam o mais rápido que conseguiam. O detetive corria na frente, usando uma lanterna para iluminar o caminho e guiar a si mesmo.

—Será que a Polux vai ficar bem encarando a segurança inteira sozinha? – Perguntou o cavaleiro, genuinamente preocupado. Antes que uma resposta pudesse ser dada, ambos se detiveram ao ouvir o reverberar de uma explosão.

—Acho que ela consegue se virar. – Comentou Geu. – Rápido, já estamos quase chegando na passagem que vai nos levar até a sala de manutenção.

Como previsto, a dupla logo encontrou uma escada de ferro presa à parede que os deu acesso ao andar superior. Haviam conseguido se infiltrar com sucesso, mas ainda restava a questão de localizar o objetivo.

—E agora, para onde vamos, Geu?

—Levando em conta as plantas que eu estudei, calculo que o lugar mais adequado para se esconder um laboratório secreto de pesquisas ilegais seria no setor de processamento, onde o trabalho é praticamente todo realizado por máquinas.

—Espero que você esteja certo e que não seja tarde demais. Eu detestaria ter que matar o Sayd.

—Não se preocupe quando a isso. – O detetive respondeu com uma expressão solene. – “Se chegar a esse ponto, eu mesmo me encarrego de dar um fim no sofrimento dele.”

Sem perder tempo, eles saíram para o corredor, continuaram pela direita e adiante por algum minutos, até que encontraram uma porta lacrada. O detetive rapidamente tratou de abri-la e os dois adentraram num ambiente cheio de máquinas enormes e barulhentas, responsáveis por misturar os ingredientes das balas. Instintivamente, Abraão já sabia que estavam no lugar certo, mesmo antes de ver uma cena que o encheu de raiva: o casal Nebrask, diante de um tubo de animação suspensa, dentro do qual estava o próprio Sayd.

—Quanto tempo ainda vai demorar para terminar o mapeamento genético dele?! – Exclamou Jasmina, impaciente.

—Calma, minha querida, não podemos cometer nenhum erro com nosso filho. De toda forma, logo tudo estará terminado.

—Você está certo. Logo tudo estará terminado para vocês! – Gritou Geu.

Os dois mentores do plano maligno se viraram para encarar os invasores. Não se mostravam nem um pouco surpresos, de fato já esperavam algo assim a partir do momento que foram atacados, mas mesmo assim não estavam nada contentes com a situação.

—Pensei que você fosse inteligente, detetive, mas agora vejo que estava enganado. – Disse Ali. – Se tivesse um pingo de bom senso entenderia que não é páreo para nós, mesmo trazendo seus amiguinhos.

—Foi mal, mas não podemos simplesmente deixar que vocês transformem nosso amigo em um monstro. Ele é um personagem muito importante nessa história! – Declarou Juca.

—E mais importante do que isso, eu vou mostrar a vocês que o maior erro que cometeram na vida foi me subestimar. – Abraão não estava para brincadeiras. Com seu orgulho em jogo, só aceitaria um único resultado: vitória inquestionável.