Castell
8 Dan IV - Passando dos Limites
Zen piscou rapidamente várias vezes e então permaneceu de olhos fechados por alguns instantes, até que eles se acostumaram o suficiente com a luz. Quando finalmente conseguiu assimilar seus arredores, percebeu que estava de volta à estrada e que Sayd se encontrava sentado ao seu lado.
—Ok, ele está vivo. – Comentou o comandante, que então fitou, desconfiado, os olhos do andarilho, mas, por não encontrar nenhum traço que pudesse acusar a presença de Nez, deu-se por satisfeito e levantou, juntando-se a Kamo. A garota angelical conversava com o estranho encapuzado num tom amistoso, o que levou Zen a concluir que não se tratava de um inimigo, apesar de nutrir um certo ressentimento pela situação em que havia sido colocado.—Eu não sei como não o reconheci. – Dizia a jovem. – Você não mudou nada, Cleber.—Tenho andado muito ocupado, para falar a verdade. O dever de um sábio é estar sempre no lugar certo para passar as mensagens às pessoas que precisam ouvi-las. Um tom de seriedade permeou o lugar. Os três viajantes sabiam muito bem o que essas palavras significavam: o encontro com Cleber não havia sido uma coincidência. Não, ele já sabia desde o começo que passariam por lá e os esteve esperando.—Quem é esse cara, Sayd? – Perguntou Zen.—Parece que é um velho conhecido da Kamo, mas não faço ideia do que ele queria conosco.—É verdade, Cleber, existe um motivo por trás de suas ações. – Argumentou a jovem. – Por que enviou nossas consciências para lugares distantes? Agora que ele estava sem capuz era possível discernir sua aparência. Tinha cabelos negros que desciam até a altura do ombro, com uma única trança do lado esquerdo e uma mecha ruiva no direito. Sua barba era farta e quase ocultou completamente seu sorriso ao ser questionado.—Sinceramente, não sei se vocês vão entender, mas posso tentar explicar. Num futuro não muito distante um amigo precisará de grande ajuda. Eu precisava testar a força de vontade de vocês para saber se seriam capazes de salvá-lo quando chegar a hora. De fato, tais palavras faziam sentido. Cada um deles teve de lidar com aquilo que trazia mais angústia e até mesmo o próprio Zen, que ainda se sentia um tanto desconfortável depois de sua experiência confrontando seu eu maligno, teve de concordar que aquilo o ajudou. Inclusive, agora ele desejava descobrir mais a respeito do tal espírito azulado. Sem dúvidas não teria sido capaz de derrotar Nez sem sua ajuda e ainda não entendia por completo o poder que havia compartilhado com ele. Se soubesse mais a respeito talvez pudesse encontrar a tranquilidade que desejava, mas, ao menos por enquanto, teria de se contentar com as próprias forças.—Quem é esse amigo de quem você está falando? – Perguntou Sayd, que, por sua vez, já estava decidido com relação ao que deveria fazer em seguida. Kamo estava calada e com uma expressão bastante séria. Ela já tinha uma noção de quem era a pessoa a que Cleber se referia, mas estava longe de ser uma certeza.—Isso é algo que por enquanto não cabe a mim dizer. Mas basta saber que se não puderem ajudá-lo, trevas profundas serão libertadas neste mundo. Como posso explicar...? – Depois de uma breve pausa, o sábio concluiu. – Bem, a verdade é que a situação ficaria bem complicada. O olhar da garota flutuante se tornou mais afiado e ela respondeu.—Não se preocupe, Cleber, vamos nos esforçar.—Isso é ótimo. Pelo que vi hoje, tenho a impressão de que vocês conseguirão impedir o pior. E agora, se me dão licença, preciso seguir viagem.—Para onde você vai? – Indagou Sayd.—Ao Condado de Nadeko. – E ao dizer isso o sábio cobriu novamente a cabeça com seu capuz, mas antes de efetivamente seguir seu caminho, ele deixou um último aviso. – Ah, e lembrem de dizer à Er e ao novo funcionário do castelo que eles precisarão tomar mais cuidado com os tapetes de agora em diante.—O novo funcionário? Você está falando de mim? – Perguntou Zen, agora sim completamente confuso.—Não, eu digo o... ah, vocês vão entender quando chegarem lá. Até mais! Num ritmo calmo, o sábio começou sua caminhada, seguindo pela estrada que levava ao condado. Os três viajantes trocaram olhares entre si, pois claramente nenhum deles sabia quem era o “novo funcionário” mencionado por Cleber. Por fim, quando finalmente voltaram a olhar adiante, perceberam que ele não estava mais em lugar nenhum.—Espera um pouco. Para onde ele foi?! – Espantou-se Sayd.—Esse é o Cleber. – Concluiu Kamo, rindo. As trevas que cercavam a dimensão paralela onde Dan, Rec e Mizu conduziam sua disputa se adensavam cada vez mais. Um enorme sorriso de satisfação se expandia no rosto do prisioneiro, a tal ponto que ele teve de usar suas cartas para ocultá-lo. Rapidamente se conteve, porém, afinal de contas não faria bem trair a si mesmo. Com sua melhor cara de pôquer, ele voltou a fitar seus oponentes. O mordomo chefe e o irmão do lorde ainda não haviam percebido, ou talvez nem ao menos pudessem perceber, pois daquele ponto em diante a disputa alcançaria uma intensidade tal que seria necessário todo o espírito de luta que tivessem para continuar no páreo. O verdadeiro jogo das trevas estava começando.
—“Vou admitir que foi até divertido, mas de agora em diante já não será mais a sorte que definirá o resultado desta partida.” – Pensamentos perniciosos fluíam pela mente de Rec. – “Quero só ver se algum de vocês dois tem força de vontade suficiente para tornar a decisão pelo menos um pouco emocionante.” Uma nova aura se espalhou pela mesa, alcançando as almas dos duelistas, inflamando a sede de vitória. As próprias cartas em suas mãos e até mesmo aquelas no baralho se impregnaram com o espírito transbordante, alinhando-se aos desejos de cada um conforme eles substituíam aquilo de que não precisavam. E então começaram as apostas. A magia do jogo das trevas ainda não havia se arraigado o suficiente no íntimo daqueles três, mas já podia ser sentida na ousadia de propostas cada vez mais elevadas. Era apenas uma questão de tempo para que alguém gritasse, sem um pingo de hesitação, “All In”.—Muito bem, eu tenho uma full house. Quero só ver vocês competirem com isso! – Gabou-se Dan.—Você só pode estar brincando comigo que isso é o melhor que pode fazer. – Mizu riu em puro deboche e então revelou sua mão. – Aqui está uma quadra só para vocês. Naquele momento, Rec já não conseguia mais se conter. Perdeu-se numa gargalhada sinistra o suficiente para fazer com que o mordomo chefe tivesse calafrios. Era impossível evitar ao ver que tudo estava correndo de acordo com seus desígnios. E então, para o extremo desgosto do irmão do lorde, lentamente baixou suas cartas para revelar uma quadra feita com cartas maiores.—Eu não posso acreditar! – O rapaz de vestes azuladas bateu o punho na mesa, enraivecido.—Vocês são tão meigos que dá até vontade de abraçar. – O prisioneiro fez uma careta. – Ah, é só brincadeira. A única coisa que tenho vontade de fazer agora é acabar com a graça desse jogo. Porém, ao invés de enfraquecer seus rivais, as palavras dele aumentaram ainda mais as chamas que os engoliam. Seus espíritos de luta haviam se elevado a tal ponto que praticamente se tornavam palpáveis.—Você está sendo muito leviano, Rec. – Desafiou Dan. – Eu só estou me aquecendo, ainda não comecei a jogar de verdade.—Eu só digo uma coisa a vocês: podem vir quentes que eu estou fervendo! – Garantiu o irmão do lorde.—Isso não é aula de química para você entrar em ebulição, “Mizu”. – Brincou Rec.—Mas que trocadilho mais estúpido foi esse? – Foi a resposta em reclamação.—De fato eu já usei trocadilhos melhores. – Ponderou o autor, que então decidiu ignorar a piada sem graça e continuar com a acirrada disputa. Novas cartas foram dadas enquanto o jogo caminhava a passos rápidos em direção ao clímax. A busca de Luke pelo castelo foi exaustiva. Mesmo procurando Mizu em todos os lugares a que tinha acesso, nem mesmo os serviçais pareciam tê-lo visto. Não era a primeira vez que o irmão do lorde desaparecia sem deixar rastros, contudo, e sua intuição lhe dizia que quando o nobre reaparecesse, certamente seria para colocar algum plano escuso em ação.—É, não tem jeito. Vou ter que dizer ao Dan que não tem nem sinal do Mizu no castelo inteiro. – O tapete flutuava lentamente a cerca de dois metros acima do chão do salão de baile. A maior parte daquele recinto extenso era desprovida de mobília, para permitir amplo espaço a quaisquer convidados que viessem a participar de uma festa, e várias mesas circulares se espalhavam nas bordas. No centro de uma das paredes havia também um palco coberto com panos prateados e vários instrumentos musicais cuidadosamente posicionados em seus suportes. – Se duvidar é capaz de ele ter se escondidos nos aposentos celestiais enquanto Kamo está fora. Então, algo capturou a atenção do objeto mágico. Por ser um tapete com consciência, sua forma de perceber o mundo ao redor era completamente diferente de um humano, que para isso dependia de seus cinco sentidos. Luke possuía algo além disso, mais forte até que a intuição, que algumas pessoas chamam de sexto sentido. O que o permitia compreender a realidade era o mesmo poder que o mantinha “vivo”, uma força vinda do âmago de sua alma que lhe permitia captar tudo ao redor: formas, vibrações de ar, luminosidade e até mesmo a presença de outros seres.—Quem está aí? Ele parou de se deslocar e permaneceu apenas flutuando, tentando discernir quem poderia ser. Era uma presença fraca, imperceptível para a maioria das pessoas, mas não para o tapete. Contudo, também se tratava de alguém adepto em manter o controle, pois por mais que tivesse certeza de não estar sozinho, simplesmente não conseguia descobrir onde estava o visitante. Sim, visitante, pois de uma coisa não tinha dúvidas: se a presença que sentia fosse de alguém do castelo, certamente reconheceria.—Espero que saiba que o lorde não vai ficar nada contente quando souber que alguém invadiu seus domínios sem ser convidado. Aliás, é bem provável que ele já saiba, então por que não se apresenta para que possamos resolver isso de forma amigável?—Pode ficar tranquilo. – Soou a voz do estranho. – Isso vai ser resolvido de forma amigável, sim. Talvez envolva um pouco de disputa, mas o fato é que no fim das contas vamos todos ficar de bem uns com os outros.—Espero um pouco... eu conheço você! – Era, de fato, alguém familiar para Luke, mas que ele não encontrava há bastante tempo. – Mas o que você veio fazer aqui?—Eu recebi uma missão e estou aqui para cumpri-la. É uma pena ter que fazer isso com você, meu amigo, mas sabe como é. Às vezes nós precisamos fazer sacrifícios. Num instante o tapete foi atingido por um golpe certeiro. Foi um erro ter baixado a guarda e, como resultado, Luke flutuou lentamente até alcançar o chão, inconsciente. Então o misterioso visitante recolheu o tapete do chão, enrolando-o, e o amarrou nas costas.—Bem, agora o desafio está lançado. Espero que o lorde envie alguém forte para resgatar você, Luke, senão ficarei bastante decepcionado. A partida de pôquer não poderia estar mais inflamada e Rec não imaginava que ela teria durado tanto depois de se tornar um jogo das trevas. Via-se obrigado a admitir que a tenacidade de Mizu e Dan superava em muito suas expectativas e que, no fim das contas, eles eram realmente adversários dignos. Mesmo assim, já não havia mais como postergar o resultado. No ponto em que os três haviam chegado, suas cartas já estavam completamente afinadas com seus espíritos. Seria impossível conseguir mãos melhores e todos estavam confiantes de que a vitória já lhes pertencia. Sim, estava na hora de colocar um ponto final, e assim concordaram em apostar todas as fichas Mizu foi o primeiro a revelar sua mão, colocando na mesa um jogo que incluía o rei, a rainha, o valete, o dez e o nove, todos do naipe de copas.—Straight Flush, cavalheiros. Mas a certeza de vitória do irmão do lorde se nublou quando Rec soltou mais uma de suas gargalhadas tenebrosas e, muito devagar, mostrou carta por carta que tinha em sua mão até chegar no ás de ouro.—Ah, vocês cometeram um erro terrível ao me desafiar para um jogo. Vou sambar nas suas caras com meu Royal Straight Flush!—Eu não acredito! – Protestou Dan, abismado.—Como assim? Você só pode ter trapaceado! – Mizu também se via incrédulo diante do fato de que seu adversário conseguira a única mão que superaria a sua.—Nada de birra, eu venci porque sou o mais habilidoso. É como dizem por aí, o coração das cartas está do meu lado.—Mas e quem foi que disse que você ganhou? A voz do mordomo chefe tomou um tom de desafio. O prisioneiro não sabia se deveria rir ou levá-lo a sério.—O que você quer dizer com isso, Dan? Por fim, o terceiro jogador também revelou sua mão. Era nada menos do que um Royal Straight Flush do naipe de espadas. Rec ficou estarrecido diante dessa visão, simplesmente não podia crer que alguém tinha sido capaz de se equiparar a ele em seu próprio jogo das trevas.—Nas regras oficias de pôquer não há diferenciação de naipe. – Murmurou o homem abalado.—Isso quer dizer que empatamos? Estrondos retumbantes como os de trovões ecoavam de forma cada vez mais constante na dimensão paralela e as trevas começavam a invadir a mesa, ameaçando engolir a todos.—Não. Não pode haver um empate no jogo das trevas e não temos mais tempo. Há energia demais acumulada, vamos todos ser devorados pela escuridão...—Espere, então basta decidirmos o vencedor aqui e agora, não é?—Mas como faremos isso?!—Tirem logo no par ou ímpar, caramba! Eu é que não quero ficar preso para sempre nessa porcaria de dimensão! – Interveio Mizu, encerrando o dilema.
—Ok, então vamos lá. Ímpar! – Escolheu Dan.—Tá, que seja! Par! O prisioneiro jogou quatro e o mordomo chefe um.—Sim! Eu venci! – Completamente envolvido em júbilo, Dan chegou a saltar. Então tudo desapareceu nas trevas. Quando recobraram a visão, todos os três estavam de volta às masmorras. Mizu e Rec juntos dentro da prisão rúnica e Dan sozinho do lado de fora. Por mais que relutassem em aceitar a derrota, os dois encrenqueiros teriam que esperar para dar o troco em outra oportunidade.—Isso é tudo culpa sua, Mizu! Juro que nunca vou mais jogo pôquer da minha vida!—Nada de brigas, vocês dois. – Disse o mordomo, debochado. – É melhor se darem bem, já que serão companheiros de cela por um bom tempo!—Ah, eu não contaria com isso. – Apesar de irritado após perder a partida, o irmão do lorde ainda tinha seu tradicional sorriso zombeteiro. Dan observou primeiro com curiosidade e depois com estarrecimento enquanto o jovem de vestes azuladas caminhava em direção às grades, transformando-se em água por um breve momento a fim de atravessá-las pelas brechas.—Espere um pouco, como você consegue fazer isso?! Essa cela rúnica foi criada através da magia do próprio lorde, ninguém deveria ser capaz de sair! – O rapaz de termo questionou, incrédulo.—E você acha que meu irmão seria burro a ponto de criar uma prisão que pudesse detê-lo? Como eu tenho o mesmo sangue que ele, obviamente significa que a cela também não funciona comigo!—Mas... mas eu pensei que finalmente... – Dan se encontrava perplexo demais para absorver a realidade naquele momento.—Você tentou, Dan, você tentou. Melhor sorte da próxima vez. Enquanto Mizu dava tapinhas nas costas do vencedor, uma nova pessoa invadiu, afobada, o último nível da prisão. Era ninguém menos que Er e, pela cara, ela não parecia nada contente.—Então vocês dois estão aí! Que diabos estavam aprontando? Eu consegui sentir as distorções mágicas lá do meu quarto! – Ao se aproximar dos dois, a garota se deu conta de que havia alguém dentro da cela rúnica e imediatamente reconheceu o prisioneiro. – Espere um pouco, por que o Rec está lá dentro?—Quer dizer que nem a Er sabia que você prendeu o Rec? Você passou por cima da autoridade de todos os seus superiores e ainda assim tem coragem de me chamar de encrenqueiro, Dan? – O irmão do lorde não sentiu um pingo de remorso por entregar o culpado.—Eu... eu... – O mordomo chefe simplesmente não fazia ideia de como se justificar.—Parece que dessa vez você passou dos limites, Dan. – Rec abriu um sorriso ao dizer isso. Basta dizer que a punição de Er foi severa naquela noite.
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