Castell

7 Dan III - Lazuli


Uma chama azulada se acendeu logo abaixo do teto, próxima à parede oposta à porta que dava entrada ao recinto. Em outros dias já havia sido usado como quarto, mas agora era pouco mais que um depósito. Objetos transbordavam sobre os balcões, a cama e a estante. Quem abrisse o armário saberia que lá também haviam objetos aos montes e, não fosse isso o bastante, várias caixas estavam espalhadas pelo chão.

A pequena nuvem de poeira que se ergueu logo após uma pessoa entrar era a prova derradeira de que ninguém vinha lá há um tempo considerável. Ela começou a remexer a bagunça, ignorando aquilo que mais chamava atenção: o enorme quadro pintado a óleo equilibrado sobre um balcão na parede mais próxima da fonte de iluminação. Representava um homem velho, com seus cabelos grisalhos infalivelmente penteados para trás, uma expressão de severidade com leves traços de cansaço e vestido com um elegante paletó azul marinho adornado por um lenço branco logo abaixo do pescoço. Na parte inferior da moldura estava escrita uma única palavra: Manfred.

O nobre da pintura passava a impressão de manter seu olhar impiedoso cravado em qualquer um que estivesse no antigo quarto, e neste caso em particular no jovem que agora limpava a sujeira de uma espada embainhada. Quem visse aquele retrato poderia, por um momento, desconfiar que era dotado de vida. E, caso chegasse a esta conclusão, então estaria coberto de razão.

—Vejo que você não mudou em nada. Pensei que a essa altura já teria aprendido sua lição.

A voz firme e gélida não veio do indivíduo que vasculhava as velharias, mas ele sabia que se dirigia a ele. Suspirou enquanto endireitava o corpo e então se virou para encarar o ríspido idoso, respondendo em tom de desafio.

—E o que você sabe? Não passa de um quadro esquecido num quarto cheio de objetos antigos.

— Eu sei muitas coisas. Por exemplo, que este é o mesmo quarto que a filha das estrelas usou quando viveu nestes domínios, não é? Também sei que você foi deixado para trás enquanto o castelo desmoronava ao seu redor e a única coisa que foi capaz de fazer foi lamentar seu destino. Tinha alguma esperança de que houvesse finalmente acordado para a realidade quando reconstruiu, mas o que vejo diante de mim ainda é o mesmo tolo que nega a verdadeira natureza de seu sangue.

—Sinto muito decepcioná-lo, mas enxergo a realidade de uma forma completamente diferente. O que tenho aqui, neste castelo reerguido, compensa tudo que já tive de deixar para trás.

—Está falando de seus amigos? – Manfred gargalhou, um riso diabólico e aterrador. – Você é mesmo um imbecil. Essas companhias pelas quais você tem tanta afeição serão sua ruína e quando se der conta disso já será tarde demais, tudo estará desabando ao seu redor novamente.

—Mesmo que esse seja o caso, eu só preciso erguê-lo novamente. Posso fazer isso quantas vezes for necessário.

Nisto ele desviou de algumas das caixas abarrotadas, até alcançar uma pequena esfera de vidro dentro da qual luzes nebulosas se retorciam lentamente, tal qual uma galáxia em constante mutação. Depois de analisar o objeto por um instante, fez o caminho de volta, carregando-o consigo, dizendo uma última frase antes de sair.

—Eu não sou igual a você, pai. Não tenho medo de enfrentar a maldição da nossa família.

—Não importa o quanto você tente escondê-las, as trevas da sua alma sempre virão à tona, garoto!

Mesmo com a porta fechada atrás de si, o jovem foi capaz de ouvir aquelas palavras agourentas.

No espaço oculto o jogo continuava, as fichas divididas em quantidades praticamente equivalentes entre ambos os lados, embora a pilha do prisioneiro fosse ligeiramente mais robusta. Este fato, obviamente, em nada intimidava Mizu, que não havia perdido o sorriso de provocação.

—Vamos lá, Rec, não vai me dizer que resolveu se acovardar justo agora que está na vantagem?

—Hah, você é péssimo nisso sabia? Essa atuação de terceira categoria não me assusta nem um pouco. Você está blefando que eu sei!

—Então você vai cobrir minha aposta?

—Mas é claro! – Nisto, o encapuzado empurrou algumas de suas fichas para o centro da mesa, juntamente com as outras que faziam parte da aposta da rodada. – Agora mostre a sua mão tosca!

—Essa não, você enxergou através do meu ardil... – Lamentou-se o irmão do lorde, colocando suas cartas viradas para cima na mesa. Mas a expressão de derrota foi fugaz e deu lugar a uma de desdém. – Isso quer dizer, se você tiver algo melhor que uma full house.

—Desgraçado! – Rec rugiu, atirando as suas cartas na superfície de madeira sem sutileza alguma. Elas se espalharam, girando no ar, e uma delas terminou virada para baixo. Ao notar que quatro eram do naipe de paus, Mizu estendeu a mão para verificar a última.

—Ora, não me diga que você tinha... – Suas suspeitas se confirmaram ao virar o ás de paus. – Um Straight! E você tem coragem de dizer que eu é que estava blefando?

—Nada disso, seu pivete mimado, eu estou apenas tornando a partida mais interessante. Seria muito triste para a sua reputação se eu acabasse com tudo num instante, não concorda?

Antes que que a troca de lisonjas pudesse continuar, ambos viraram o rosto para a mesma direção. O som de algo sendo rasgado com violência, terrivelmente incômodo, lhes deu uma boa noção do que estava prestes a acontecer no breve instante que precedeu o surgimento de uma fissura que se expandia rapidamente.

—Alguém está vindo. – Ponderou Mizu.

—Mas quem poderia...? – Indagou seu adversário, ao que uma figura atravessou a passagem criada através do espaço e ambos os jogadores exclamaram ao mesmo tempo.

—Dan!

—Eu mesmo! Espero que não tenham pensado por um momento sequer que conseguiriam se esconder de mim, seus encrenqueiros! Agora é bom começarem a explicar o que diabos pensam que estão fazendo!

—Credo, Dan. Falando assim até parece a minha mãe quando flagrava eu e meu irmão aprontando alguma coisa. Claro que a culpa era sempre minha, mas ele acabava de castigo junto de qualquer jeito. – Disse o homem de vestes azuladas, rindo.

—Eu agradeço muito se não me comparar com a sua mãe de novo, Mizu. Pode pular essa parte e ir logo para aquela em que vocês me dizem o que está acontecendo aqui? – A pergunta foi desnecessário, no fim das contas bastou um breve olhar para a mesa e ele mesmo já era capaz de tirar conclusões acertadas. – Por que diabos vocês estão jogando pôquer?

—Não olhe para mim, foi ideia dele. – Acusou Rec, torcendo para a discussão tomasse rumos mais intensos.

—É uma longa história e eu não estou com a menor vontade de interromper o jogo para explicar. Então vê se faz o favor de voltar para o castelo e vai varrer o salão principal ou qualquer outra coisa que a Er tenha mandado, que você não tem nada que se meter num jogo das trevas.

—Jogo das trevas? Que história é essa?

—Eu apenas tornei a nossa disputa um pouquinho mais interessante. Aquele entre nós dois que for derrotado vai retornar preso dentro da cela. O vencedor fica livre. – Rec deleitou-se em dar a explicação.

—É mesmo? – O rapaz de terno tomou ares pensativos enquanto que os outros dois decidiram ignorá-lo e retomar a disputa. Mas antes que o irmão do lorde terminasse de embaralhar as cartas, o mordomo se pronunciou novamente.

—Esperem um pouco, eu também quero participar!

—É sério isso? – Perguntou Mizu, genuinamente surpreso.

—Não vai dizer que está com medo?

—Medo? Eu achei que você não sabia nem jogar paciência.

O mordomo chefe se aproximou da mesa e quando já estava a menos de dois metros, uma cadeira se materializou num instante.

—Não dá para perder a oportunidade única de ver vocês dois presos juntos na mesma cela. Eu vou participar desse jogo quer vocês queiram, quer não.

—Por mim tudo bem. Só não vá reclamar quando acabar trancado junto com o Mizu. – Rec sorriu.

—Hah! Eu vou rir tanto quando acabar com vocês. – Afirmou o jovem vestindo azul.

Imediatamente após Dan tomar seu assento, fichas começaram a surgir aos poucos diante dele. Quando elas alcançaram uma contagem igual à que Rec e Mizu tinham quando iniciaram a disputa, a batalha finalmente recomeçou.

—É hora do duelo!

No canto oeste do pátio do castelo de mármore se erguia uma imensa torre alva. Em vários pontos de sua extensão circular estátuas angelicais a enfeitavam, apoiadas sobre muretas. A cerca de cinquenta metros do chão, ao lado de uma destas estátuas, uma pequena fumaça azulada se expandiu até tomar uma forma relativamente humanóide, embora não fosse mais que uma aura. Na fachada abaixo, Kamo e a pessoa que lhe fazia companhia ignoravam a nova presença.

A menina continuava a observar o mar de nuvens que se expandia abaixo do parapeito, divagando em seus pensamentos. O local se tornara impecavelmente silencioso com a pausa na conversa, mas isto em nada aliviava o conflito que se desenrolava em sua mente.

—“Sem dúvida este é o lugar onde eu quero estar, o meu cantinho feliz. Mas por que sinto como se estivesse cometendo um erro? É como se meu coração estivesse tentando me dizer que isso seria fácil demais.”

—Acho que é a primeira vez que a vejo com essa cara.

Desta vez ela olhou para a esquerda e lá estava a figura azulada. Mesmo que o indivíduo estivesse com aquela forma fantasmagórica, a voz e a presença eram familiares. A jovem sabia muito bem de quem se tratava.

—Que exagero vir até aqui só por isso. Não precisava se incomodar.

—Verdade, eu sei que você é bem capaz de se virar sozinha. Mas acredito que seja de bom tom lhe dizer que se é a sua vontade voltar para cá, usarei todos os recursos disponíveis para abrir uma passagem, já que seu corpo permanece no mundo humano.

—Obrigada, mas sinceramente, estou com a impressão de que não é a hora certa. Eu ainda tenho objetivos para cumprir, e não me parece correto conseguir o que quero sem me esforçar para isso.

—As vitórias só tem sentido quando são conquistadas, não é? Bem, se é assim então peço sua licença, pois tenho que auxiliar nossos outros amigos.

—Antes de ir, pode me ajudar a voltar?

—Não é necessário, você consegue fazer isso sozinha.

A aura azulada se dissipou. A indecisão de Kamo também havia desaparecido por completo, deixando em seu lugar apenas a certeza de que não existiam atalhos. Mas antes de partir, havia uma última coisa que devia ser feita, e para isso ela voltou a fitar o anjo que continuava ao seu lado direito.

—Por favor me desculpe, mas eu preciso ficar ainda mais tempo no mundo humano. Minha missão lá não terminou e eu não gostaria de viver sabendo que dei as costas para os desafios que deveria ter enfrentado.

—Tudo bem. Só de poder conversar com você eu já fiquei contente e estou orgulhoso do tanto que você tem se esforçado.

Um sorriso enorme e caloroso irradiou o rosto da jovem.

—Eu prometo que não vou demorar, espere só mais um pouquinho.

Sem um instante sequer de hesitação, ela saltou sobre a grade e pulou, mergulhando em direção às nuvens até atravessá-las.

Completamente arrasado pela cena diante de seus olhos, Sayd esqueceu de tudo o mais. Seu mundo parecia ter congelado naquele momento aterrador e seu corpo ajoelhado não movia um músculo sequer. Nem sequer percebeu quando uma segunda presença se manifestou num dos cantos, perto de uma mesa apodrecida. Era o mesmo fantasma azulado.

—Até quando pretende ficar aí?

Ainda catatônico, o guerreiro balbuciou algo que era meio para si e meio para o desconhecido.

—Foi culpa minha...

A aura azulada se aproximou, deslocando-se sem causar qualquer ruído, e parou ao lado do comandante.

—De que adianta se arrepender das escolhas que fez a essa altura? Você pode se lamentar o quanto quiser, mas isso não vai mudar o passado.

—E o que você quer que eu faça? – A voz do rapaz vibrou com raiva. Antes de responder, a presença balançou o que Sayd entendia ser o braço direito e, como resultado, os corpos sumiram, junto com o sangue e o odor. Restou apenas uma casa velha e abandonada.

—O que mais poderia fazer senão seguir em frente?

O guerreiro parecia finalmente ter acordado de seu transe e levantou, mas agora já não entendia mais nada. De tão confuso que se encontrava, sua cabeça chegava a doer.

—Que diabos aconteceu? Afinal de contas, meus pais morreram ou não?

—Eu não sei. Quando sua alma foi transportada para cá, seu coração mostrou o temor que espreita nas profundezas da sua consciência.

Finalmente palavras que faziam sentido. Ele tinha que concordar, quando mais pensava a respeito, mas tinha certeza de que seu maior medo era que algo terrível houvesse acometido sua família em sua ausência.

—Quanto mais tempo passa, a impressão de que nunca os verei só piora...

—É possível que não os encontre, mas mesmo que seja esse o caso, você não está sozinho, não é verdade?

—Verdade. – Disse o homem após uma breve pausa. – Mas não pretendo desistir de encontrar minha família.

—Não vejo problema nisso, contanto que não se prenda ao passado a ponto de não conseguir mais avançar.

Sayd colocou a mão sobre a própria cabeça num gesto instintivo enquanto ordenava seus pensamentos. Sentia-se um tanto envergonhado por sua reação agravada diante da perspectiva da morte de seus pais e também por se dar conta de que estivera mentindo para si mesmo há um algo tempo.

—Eu quis me convencer de que estava tentando encontrá-los, mas acho que no fundo tinha medo de descobrir o que aconteceu com eles depois que se mudaram.

—E o que vai fazer agora?

—Eu tenho que terminar uma missão importante, e depois que ela estiver cumprida eu pretendo descobrir a verdade. E se eles realmente estiverem mortos, farei a única coisa que me resta.

—Que seria?

—O que mais poderia ser? Seguir em frente, é claro.

—Hmpf, touché. Muito bem, vou lhe ajudar a voltar agora.

—Obrigado. Mas quem é você?

—Ninguém em especial.

Sayd não teve a chance de questionar a resposta, pois imediatamente se viu envolvido por um turbilhão mágico.

Zen caiu de lado no chão e, com a violência do impacto, rolou duas vezes antes de parar. Ergueu apenas o rosto, sujo do lado direito, assim como suas vestes. Mantinha apenas o olhos esquerdo aberto, limitando-se a observar Nez com um misto de raiva e medo, ao passo que sua personalidade maligna se divertia muito com a situação.

—Olhe só para você. Não tem sequer força de vontade para se defender. Se é para ficar apanhando desse jeito, melhor deixar que eu retome o controle de uma vez.

Devagar, o errante se colocou em pé, mas sem tirar os olhos do sorriso maquiavélico de seu outro eu. Mesmo que desprezasse seus métodos escusos, o garoto sabia que não era capaz de competir em termos de atitude. Nez era capaz de realizar coisas que ele próprio não teria coragem.

—Eu sei o que é o melhor para nós dois. No fundo você entende isso, não é?

Talvez fosse realmente melhor assim. Seu lado maligno sempre foi a personalidade mais forte, era apenas natural que estivesse no controle. A realidade era cruel demais para que Zen pudesse encará-la sozinho.

—Não aceite que ninguém diga o que é o melhor para você.

Espantado, o jovem virou para trás tão rápido quanto seu corpo permitiu ao ouvir aquela voz desconhecida. A presença de aura azulada agora viera a seu encontro e falava com um tom ao mesmo tempo sereno e severo.

—Ninguém o conhece melhor do que você mesmo, nem mesmo uma outra personalidade que exista em sua alma. Somente você tem a capacidade de decidir o que realmente deseja alcançar.

—Quem é você? – Nez praticamente destilava desprezo pela língua.

—Ninguém em especial. Apenas alguém que imaginou que Zen precisaria de uma pequena ajuda.

—Mesmo que você diga isso, eu não sou capaz de derrotar Nez. No fim das contas sempre vai ser do jeito dele... – Lamentou-se o errante.

—Sozinho talvez você não tenha chance mesmo, mas não é esse o caso, estou certo? Os amigos que você fez podem lhe ajudar. – Sentindo a incredulidade do rapaz, o ser azulado concluiu que seria mais fácil dar um exemplo prático. – Vamos lá, eu vou te mostrar uma força capaz de superar até seu lado maligno.

A névoa azulada se dividiu numa dezena de feixes que começaram a rodopiar ao redor de Zen. Tal como o estranho havia dito, ele sentia algo de diferente. Sentia-se poderoso, corajoso. De fato, sentia que desta vez não precisaria de Nez para enfrentar as dificuldades que surgissem.

Na dimensão paralela, o jogo prosseguia e se tornava cada vez mais acirrado. Os três participantes no fundo admitiam que todos lá eram oponentes perigosos. Quem baixasse a guarda primeiro provavelmente não seria capaz de se recuperar, mas a despeito deste risco, eles sentiam-se cada vez mais compelidos a fazer apostas maiores.

—Tenho que agradecer você, Mizu. Não é sempre que surge a oportunidade de encarar um desafio divertido como esse. – Disse Rec.

—Então é bom aproveitar o tempo que resta, porque eu logo vou te colocar de novo na prisão. – Afirmou Dan.

—Não se preocupe, Rec, eu virei jogar com vocês mais vezes quando estiver entediado. Além disso, você poderá descontar sua raiva no Dan, já que vai perder mesmo. – Garantiu Mizu.

O que estes dois últimos desconheciam, porém, era que o verdadeiro jogo das trevas estava apenas começando.