Castell

6 Dan II - Encruzilhada


Ligada ao salão principal e ao quartel militar por duas portas localizadas no lado oeste, a capela do castelo era um local tão gelado quanto as masmorras. Nas paredes era possível ver com clareza os locais em que cada um dos blocos utilizado na construção encostavam um no outro e, na parte superior, cinco enormes lustres de cobre pendiam do teto, todos com oito velas ao redor. Os objetos eram encantados por magia e, desta forma, por mais tempo que se passasse a cera jamais derretia e as chamas tímidas continuavam a brilhar.

O sul e leste eram decorados com vitrais que retratavam figuras angelicais. Havia outros enfeites na parte norte da capela, sobre um altar elevado um metro acima do restante da sala. Uma mesa comprida com um pano vermelho estava abarrotada com mais velas mágicas e, atrás dela, o símbolo sagrado da religião kamozista ocupava quase metade da parede.

Enfileirados em doze linhas espalhavam-se bancos resistentes de madeira, separados ao meio uns dos outros, formando um corredor de dois metros de largura. Além de tudo isto, era possível ver também um tapete logo diante da mesa colocada sobre o altar. Após tomar nota destes detalhes, Dan caminhou da entrada ligada ao salão principal até o púlpito, subindo pela pequena escada lateral de apenas quatro degraus.

Normalmente a capela permanecia vazia. Não havia sacerdote no castelo e, portanto, não se realizavam reuniões lá. Os moradores adeptos à religião visitavam o templo apenas ocasionalmente, para realizar rápidas preces. Tomando isto em consideração, Dan estava curioso para saber o que aquele tapete preto e branco, enfeitado com retângulos concêntricos de bordas vermelhas estava fazendo em cima do altar. Um tapete que ele conhecia muito bem.

—E eu imaginando onde você tinha se enfiado. Admito que não achei que o encontraria justo aqui, Luke.

—Qual o problema, Dan? Estou apenas exercitando um pouco meu lado religioso.

—Mesmo? Então talvez você saiba por que um dos serviçais veio me procurar desesperado dizendo que tinha sido atacado por um monstro aqui.

—Bem, eu acabei de chegar, sabe...

—Ele também disse que o monstro o atacou por baixo. – Dizia o mordomo chefe em tom calmo, mas que subitamente se tornou debochado. – E eu sei muito bem que foi você, pare de fingir que é inocente.

—Como pode me acusar assim? Você sequer tem provas contra mim!

—Como se eu precisasse! Acha que não reconheço o significado do kanji no seu centro? Não é muito religioso da parte de um tapete vir à igreja com “perverso” escrito na cara, concorda?

—Eu não tenho cara.

—É uma figura de linguagem! – Dan estava começando a ficar um tanto impaciente. – Agora vai arrumar algo a fazer que não atrapalhe minhas tarefas.

—Meh, eu não estaria atrapalhando se a Er tivesse me deixado acompanhar o Sayd na última missão. Sério, eu duvido que ele vá conseguir voltar com a Matadora de Fuinhas sem minha ajuda.

—Tudo bem, eu falo com ela depois, e você sabe que eu tenho meu jeito de conseguir as coisas. Em troca eu quero que você me ajude a localizar o Mizu.

—Mizu, é? – Se o tapete tivesse um rosto, agora ele certamente teria nele um sorriso zombeteiro. – Está planejando alguma coisa?

—Talvez. Eu conto se você encontrá-lo.

—Vai ser moleza!

O tapete se ergueu do chão e então deslizou estendido pelos ares, em alta velocidade, abrindo a porta que levava ao quartel e sumindo através dela. Satisfeito, Dan recordou mentalmente o próximo item de sua lista. Ainda tinha que verificar a estufa, checar o salão dos troféus e a sala de arte e também garantir que estivesse tudo em ordem na torre de vigia.

A torre de vigia era um dos edifícios mais ao sul do castelo, ligado ao quartel militar e ao salão principal do lado oposto ao da capela. Ela alcançava uma altura superior a todas as outras estruturas, à exceção da torre do relógio, vinte metros acima do teto do salão. No topo existia um grande telescópio.

Diferente da torre do relógio, as escadas lá eram circulares e, depois de passar pelo posto das sentinelas, Dan alcançou uma grande sala redonda onde a única e fraca iluminação vinha da parede e do teto. Eles simulavam o espaço sideral e representavam um mapa estelar de completude admirável. Cada constelação tinha suas estrelas interligadas e a legenda logo abaixo.

Antes que o mordomo chefe pudesse continuar seu caminho, uma nova figura adentrou no recinto, vinda do lado oposto. Não era possível discernir suas feições com clareza, mas Dan já o conhecia muito bem. Embora fosse um adolescente entre dezesseis e dezessete anos, tratava-se de um astrônomo brilhante e reservado. Sua própria aparência o tornava diferente do comum, com cabelos completamente brancos e olhos heterocromáticos, um rosa e o outro amarelo. Costumava vestir um casaco preto por cima de sua camisa amarela e calças escuras, completando a indumentária com botas marrons e um brinco discreto na orelha direita.

—Vejo que você finalmente terminou seu projeto, Nie. Admito que ficou bem impressionante. – Mencionou Dan, referindo-se à sala das constelações, mas apesar do elogio, o astrônomo não sorriu. Com efeito, sequer demonstrou qualquer tipo de expressão amistosa.

—Provavelmente ainda tem espaço para aperfeiçoamento, mas agradeço a gentileza. – O jovem respondeu, seco como um deserto. – Agora gostaria que você não me atrapalhasse, estou bastante ocupado.

O mordomo não deu muita atenção à falta de sociabilidade de Nie, já estava acostumado, na verdade. Sabia muito bem que ele não gostava que ninguém viesse visitá-lo, tanto que era o único, com exceção de Kamo e Er, evidentemente, que possuía um quarto fora da ala dos empregados.

No fundo, Dan nunca entendeu muito bem o motivo que levou o astrônomo a se mudar para o castelo. O próprio telescópio não existia na época e foi apenas como consequência da vinda de Nie que sua construção foi ordenada, acompanhada de perto pelo cientista. A única explicação a que podia chegar era que seu “colega” havia feito algum acordo com o dragão. Mas que tipo de acordo ele nem sequer conseguia imaginar.

—Eu sei que você não gosta de visitas, mas faz um tempo que eu não vinha aqui e imagino que saiba bem que é minha responsabilidade manter as coisas em ordem.

—Bem, não posso reclamar. Se quer verificar o telescópio fique à vontade, mas insisto que seja rápido. Eu estou no meio de uma pesquisa muito importante.

—Não se preocupe com isso, Nie, sei que você cuida daquilo como se fosse seu próprio filho. E como parece que o Mizu não veio aqui também, acho que agora vou ter que começar a procurar na ala dos convidados.

—Deixe eu lhe dizer uma coisa antes que você vá, Dan. – O tom do astrônomo tornou-se subitamente grave. – Você sabe que eu tenho bastante afinidade com jogos, certo?

—É, eu ouvi comentários de que você também é muito bom com cartas e jogos de tabuleiro. Mas o que isso tem a ver?

—Eu posso sentir que alguém começou uma disputa nas masmorras, embora seja uma sensação fraca, como se viesse de um lugar que não o nosso mundo. E não é qualquer disputa, estão realizando um jogo das trevas.

—Como você sabe disso? – Um pensamento cruzou a mente do mordomo, deixando-o estático. – Espere um pouco, você disse masmorras?!

—Sim, imaginei que seria melhor avisá-lo.

—Maldição, se isso for o que eu estou pensando! Tenho que ir para lá imediatamente!

Num ritmo frenético, Dan disparou de volta para a passagem que conduzia à parte inferior da torre, correndo o mais rápido que podia em direção às celas, esperando que seus temores não se confirmassem.

—“Isso tem jeito de ser mais uma das encrencas do Mizu. E se ele colocou o Rec na história, só Kamo sabe como isso pode terminar!”

Com o término bem sucedido de sua missão, Sayd e Kamo seguiam pela estrada que atravessava uma pradaria, acompanhados da presença de Zen. Haviam almoçado há pouco tempo e viajavam conversando animadamente, o comandante e a diplomata contando ao novo amigo a respeito das maravilhas do castelo e de seus integrantes amistosos. Ou nem sempre.

—Você vai notar que há muita gente orgulhosa por lá, mas isso é porque o lorde gosta de manter pessoas talentosas por perto. – Explicava Sayd. – Mesmo assim pode ter certeza de que no fundo eles têm um bom coração.

—Esperem, o que é aquilo?

Flutuando do solo, como era seu costume, Kamo foi a primeira a reparar que mais adiante, numa encruzilhada que dividia os caminhos em direção aos domínios do dragão e o Ducado de Nadeko, um homem com a cabeça e o corpo cobertos por uma capa cinzenta de viagem estava sentado.

—Deve ser só um mendigo. – Ponderou Zen.

—Mas pode ser também um bandido. Claro que, mesmo se for, eu acabo com a raça dele em um instante.

—Não seja assim tão violento, Sayd. Eu vou falar com ele, talvez possamos ajudá-lo.

Depois da reprimenda, a menina de branco deslizou com graça e leveza até ficar diante do homem misterioso, ao que seus aliados correram para alcançá-la. De perto, Kamo pode reparar que o indivíduo tinha uma longa barba escura e o restante de suas vestes era simples, como as de um camponês, e que ele vestia luvas, calçados e um cinto de couro.

—Está tudo bem com você? – Perguntou a garota e, antes de responder, o homem se levantou desajeitadamente.

—Aí estão vocês, eu estava esperando. Sayd, Kamo e Zen, certo?

—Como você sabe nossos nomes? – Perguntou o comandante, desconfiado.

—Bem, o fato é que eu... como vou explicar isso para vocês? Bem, deixa a conversa para depois, é melhor eu fazer o que preciso logo de uma vez.

O desconhecido ergueu o rosto e de seus olhos surgiu uma radiância cegante. Logo os outros três se viram completamente engolidos pela luz e, aos poucos, a realidade foi se refazendo ao seu redor.

Kamo não estava mais flutuando no ar. Seus pés tocavam o chão de cristal da imensa varanda de um castelo cujas paredes e pilastras eram do mais puro mármore. Suas mãos seguravam grades de prata, erguidas no limiar da cidade flutuante, e além delas existia apenas um imenso mar de nuvens tingidas de rubro num pôr do sol de beleza incomparável.

Era um lugar familiar, mas que ela não via há anos. O sentimento de nostalgia a envolveu de tal forma que somente ao ouvir uma voz familiar ela se deu conta de que alguém também estava apoiado sobre a grade, bem ao seu lado.

—Você vai partir de novo?

Não era capaz de ver ao certo as feições, pois a pessoa, assim como todo o resto do ambiente, era percebida de forma turva pelos olhos da menina. A despeito disso, sabia muito bem de que se tratava. A própria voz bastava para reconhecer aquele alguém.

—Eu... – Ela não encontrou palavras para prosseguir.

—Sei que você tem coisas importantes a cumprir, mas essa distância toda é dolorosa.

—Como foi que eu cheguei aqui?

—Não sei, mas a impressão que tenho é que você está, mas ao mesmo tempo não está. Como se fosse apenas a sua alma.

—Acho que é porque este é o lugar onde eu realmente desejo estar. Talvez... – A jovem olhou para baixo, mas não conseguia ver nada além do véu de nuvens. – Talvez não seja mesmo necessário que eu retorne.

Zen abriu os olhos e se viu diante da figura desfocada de um edifício de três andares abandonado e arruinado. Boa parte da estrutura havia desabado e era possível ver em vários lugares os restos calcinados da madeira consumida num antigo incêndio. Ao redor proliferavam casas pequenas e simples, num bairro de periferia de uma certa cidade.

—Esse é... o orfanato onde eu cresci?

—Traz lembranças, não é?

O rapaz se virou de imediato e reparou que, a poucos metros de distância, estava ninguém menos que sua personalidade maligna, Nez. Este exibia um enorme sorriso diabólico enquanto mantinha os braços cruzados.

—Eu prometi que nunca mais voltaria aqui. Não depois do que você fez...

—Do que eu fiz? Você não tem o menor direito de me julgar! Afinal de contas, nós somos a mesma pessoa. Dois lados da mesma moeda. Eu sou as trevas da sua alma.

Zen apertou os punhos.

—Vai se ferrar, você sempre estraga tudo.

—Que mentira. Você sabe muito bem que tudo o que eu faço é, no fundo, aquilo que você realmente gostaria de fazer!

Embora não pudesse enxergar a construção com clareza, Sayd lembrava daquela estrebaria. Por anos a fio a primeira coisa que fazia de manhã, após tomar o café, era ordenhar as duas vacas da sua família. Logo mais acima, no topo do morro, ele reconheceu a figura de sua antiga casa. Ao invés de lhe trazer nostalgia, aquela cena o fazia sentir um aperto gelado no coração.

—Está igual a como vi da última vez... vazia...

O comandante subiu devagar até alcançar a porta da residência e a abriu. Imediatamente um odor metálico invadiu suas narinas e a cena, embora completamente borrada, o fez sentir ânsia de vômito. No chão estavam dois corpos encharcados de sangue.

—Mãe...? Pai...?!

Uma sensação de pânico se apoderou dele enquanto se aproximava, ajoelhando-se diante das figuras que tinha certeza serem seus pais. Não fazia sentido. Quando saiu de casa para se juntar a um exército tinha apenas alcançado a maioridade e, dois anos depois, ao retornar e não encontrar mais ninguém, soube pelos vizinhos que eles haviam se mudado.

Aqui só poderia ser algum tipo de pesadelo, era o que ele tentava se convencer, mas de alguma forma, parecia real demais. Quando tocou o corpo gelado de sua mãe, a angústia o engoliu de vez. Se apenas tivesse estado lá, se não tivesse perseguido um sonho tolo de criança de ser um guerreiro. Era tudo culpa sua.

Dan empalideceu tanto que poderia ser confundido com um cadáver quando se deu conta de que a cela em que Rec estava encontrava-se vazia. Temia que fosse tarde demais, mas lembrou que as grades e paredes eram protegidas pela magia rúnica do dragão, algo que nem o próprio Mizu seria capaz de desfazer.

As palavras de Nie retornaram à sua mente. Certamente o astrônomo dissera que sentia como se a disputa estivesse sendo travada num lugar diferente, mas ainda assim as masmorras causaram uma impressão forte o bastante para que ele as mencionasse. Só havia uma única explicação plausível: Rec estava envolvido numa batalha com alguém num espaço diferente, mas, de alguma forma, conectado ao castelo.

O mordomo chefe se concentrou, tentando perceber os resquícios de poder mágico no ambiente. Não demorou para notar os traços do poder de Mizu, que ainda pairavam no ar. Aquilo era o suficiente, bastava segui-los para encontrar as dobras no espaço-tempo que conduziriam ao seu objetivo. Manifestando seus próprios poderes, Dan envolveu seu corpo numa espiral de chamas. Ela se dissipou rapidamente, sem deixar nada em seu lugar.