Casos e Acasos
3 Casos e Acasos - Capítulo 3
Notas iniciais
– Henry, essa é a Emma. — Regina chamou o filho e o apresentou a Emma.
– Oi Emma. — Henry estendeu a mão.
– Olá Henry. — Emma aceitou o cumprimento e apertou a mão do garoto.
– Henry, Emma vai ao cinema com a gente, tudo bem? — Regina perguntou.
– Com uma condição. — O menino sorriu fazendo Emma e Regina franzir a sobrancelha.
– Que condição?
– Que Emma vote para nós vermos filme de terror, porque quando só vai eu e minha mãe, sempre da empate, então Emma vai desempatar.
Emma abriu mais os olhos.
– Henry, depois você fica tendo pesadelos. Nada de filme de terror. — Regina falou.
– Ah mamãe, por favor. Eu nunca tenho pesadelos.
A verdade é que Regina que tinha medo de filmes de terror. Desde pequeno Henry sempre gostou de filmes do gênero, o que era estranho vindo de uma criança.
– Vamos indo, lá nós decidimos.
Os três entraram no carro e foram conversando até lá. Emma e Henry se deram muito bem e foram o caminho todo falando sobre os jogos do novo video-game de Henry.
Já na hora de comprar os ingressos, Regina e Henry falavam sobre ir ou não ver o tal filme de terror.
"Tal mãe, tal filho." Pensou Emma.
– Emma, estamos falando com você. — Regina a chamou.
– Oi. Fala.
– Você decide Emma. Terror ou romance. — Henry falou para a loira. — Emma, esse filme é muito bom. Vai, escolhe o terror.
– Emma, não se esqueça de que eu converso muito com sua coordenadora. — Regina falou sorrindo de forma enigmática fazendo a loira arregalar os olhos.
– Ah mãe, isso não vale.
Os dois voltaram a discutir até que Emma os interrompeu.
– Tive uma ideia. Vamos assistir comédia.
– Comédia? — Regina e Henry perguntaram juntos.
– Sim, comédia. Tá passando "A família do Bagulho" e estou doida pra ver.
– Mas e a classificação? Henry pode assistir?
– Mãe. — O menino falou em tom de reprovação.
– Nada que uma conversa não resolva. Vamos lá.
Enquanto Regina comprava os ingressos, Emma e Henry foram comprar as pipocas. Lógico que voltaram com chocolates, refrigerantes e mais chocolates.
Regina que já estava sentada, só aguardou por eles. Assim que chegaram, a morena logo viu a quantidade de coisas que eles compraram.
– Assaltaram a loja?
– Mãe, cinema sem chocolate não rola.
– Concordo com Henry, Regina.
– Não sei porque eu ainda estou surpresa. Emma e Henry juntos só poderia dar nisso. — Pensou Regina.
Emma sentou na ponta, Henry ao lado de Emma e Regina ao lado de Henry.
Os três não conseguiam parar de gargalhar. Realmente o filme era muito engraçado.
Na saída, Henry insistiu pelo sorvete e só assim conseguiram ir embora.
– Bom, chegamos. — Regina estacionou o carro de frente a casa de Emma.
– Muito obrigada, Regina. De verdade.
– Não tem nada que agradecer Emma. Afinal, amigos são pra isso, não é mesmo?
Emma sorriu.
– Sim. Bom, diz pro Henry que mandei um beijo.
No caminho pra casa, o garoto acabou por pegar no sono.
– Pode deixar. Se cuide e qualquer coisa, sabe onde me encontrar.
Regina falou e Emma sorriu mais ainda, saindo do carro da morena.
Ambas foram para suas casas.
Assim que Emma chegou, não avistou o pai em lugar nenhum. Procurara em todos os lugares, mas nenhum sinal dele.
– Deve estar caído por algum lugar. Pensou Emma.
Foi para seu quarto e assim que entrou, avistou um bilhete em cima de sua cama.
" Eu sei que nesse momento de nossas vidas, eu é quem deveria estar te apoiando, te ajudando, aconselhando e respeitando, mas está tudo ao contrário. Não vou te pedir pra entender o meu lado, porque nem eu entendo direito. Depois da morte de sua mãe e sua irmã, minha vida deu um giro tão grande, que eu fiquei desnorteado e sem saber pra onde ir. Quando resolvi seguir um caminho, optei pelo errado, te fazendo sofrer mais do que você está sofrendo. Quando você era pequenina, sua mãe e eu estávamos conversando e ela falou que você seria o orgulho de nossas vidas e é isso que você é. Nosso orgulho. Sua mãe não está mais aqui para te abraçar nos momentos difíceis e prometer que ficaria tudo bem e essa agora era minha função, mas eu sou fraco. Fraco demais pra perceber que independente das barreiras que a vida nos faz passar, ela nos ensina que a vida continua. A minha parou e por isso eu estou aqui te escrevendo. Eu não sou forte o suficiente para te dizer isso olhando nos seus olhos, então estou aqui, por meio dessa carta, fazendo o que eu deveria ter feito a muito tempo. Seguir com a vida. Eu estou indo procurar ajuda para esse meu problema e não pense que te abandonei. Muito pelo contrário. Estou indo, para voltar mais forte e mais digno de ser seu pai. Me perdoa por tudo que te fiz passar.
Eu amo você mais do que tudo nessa vida.
Beijos, papai."
Quando Emma terminou de ler, seus olhos eram apenas lágrimas. Não conseguia raciocinar. Sentiu um aperto gigantesco no peito. Ali deitou e ali ficou até pegar no sono.
Um mês se passou e a amizade de Emma e Regina só se fortalecia. As duas se viam com mais frequência e tudo estava se encaminhando bem. Emma não teve notícias do seu pai e não sabia se isso era um bom ou mal sinal, mas algo lhe dizia que tudo estava voltando aos eixos. Regina ainda não sabia de praticamente nada sobre a vida da loira, mas deu tempo ao tempo e quando Emma se sentisse confortável, ela iria se abrir.
– Zelena, você quer nos matar, não quer? – Um aluno perguntou.
Era dia de aula prática para os alunos de Ed. Física e Zelena passou várias atividades físicas para os alunos fazerem. Todos já estavam reclamando porque não aguentavam mais mexer um músculo.
– Ah, qual é, vamos lá. Só mais 10 minutos e deixo vocês descansarem.
– Até chegar esses 10 minutos, eu já estarei descansando, só que eternamente. – Emma falou e a turma toda caiu na gargalhada. Nem Zelena se aguentou e riu também.
– Mais 5 minutos e vocês podem parar.
Enquanto todos estavam focados em seus exercícios e Zelena fazendo suas anotações, Regina e Mary se aproximaram dela.
– Ze, podemos dar uma palavrinha com você? – Mary perguntou.
– Regina, Mary, socorro, ela vai me matar. – Emma fez uma cara de sofrida e falou se referindo a Zelena.
Ambas riram. – Ze, põe mais 30 minutos para Emma. – Regina falou e Emma só reforçou a careta que estava antes.
– Assim que eu gosto. – Zelena falou e bateu na mão de Regina. – Pode parar galera. Não esqueçam os alongamentos.
Nesse momento todo mundo caiu no chão.
– Ai Mary, só você me ama. – Emma falou se aproximando delas.
– Ah, isso não é verdade. – Regina comentou.
– Então me da um abraço. – Emma foi em direção a Regina de braços abertos.
– Nem pense nisso. Pode para aí mesmo. Você está toda suada.
Emma deu meia volta e foi abraçar Zelena.
– Faça isso e você ficará nessa quadra até amanha de manhã.
Emma mais uma vez deu a volta e foi em direção a Mary.
– Emma, eu gosto muito de você, mas pode ficar quietinha aí.
– Vocês acabaram de me provar que não me amam. Estou magoada com vocês. Tchau. – Emma falou, empinou o nariz e saiu andando dali, deixando as três mulheres rindo dela.
As três ficaram mais algum tempo ali conversando.
Enquanto Emma ainda estava no vestiário se arrumando, seu celular toca.
– Cadê você? – Emma pergunta para Ruby, que estava na outra linha.
– Minha Vó passou mal hoje cedo e fiquei aqui com ela. Só agora ela dormiu, daí resolvi te ligar.
– Sério? Mas ela já está bem?
– Está sim. Foi uma queda de pressão. Avisa a Zelena, por favor, e anota tudo que for importante.
– Pode deixar, mas você não perdeu nada, muito pelo contrário. Zelena quase nos matou de tanto exercício físico.
– Ah Emma, você é muito mole.
– Aham, ta bom. Enfim, recebeu a mensagem dos meninos? Parece que ficarão mais um mês por lá, né?
As duas ficaram conversando por mais um tempo e depois encerraram a ligação. Emma saiu do vestiário já de banho tomado. Os cabelos estavam soltos e molhados, a regata branca expondo seus braços e um short de malhar que ia até as coxas. Quando saiu, viu que as três ainda estavam conversando. Todos os alunos já tinham ido embora, então juntou suas coisas e foi andando em direção à saída, mas fingiu que não estava nem vendo as três.
Regina não conseguia tirar os olhos do corpo de Emma. ‘’Regina, o que você está pensando? Foco. ‘’ A morena se repreendeu mentalmente.
– Olha só quem está limpinha. Agora vem cá me abraçar. – Falou Mary.
– Ah meu Deus, ela está chateada. – Zelena brincou.
Emma andava devagar em direção a saída e continua fingindo que não está escutando, mas a vontade de rir estava quase estragando a brincadeira.
– Emma Swan, se você não vier aqui agora, eu irei tirar dois pontos na sua média.
Quando Zelena terminou de falar, Emma voltou correndo em direção as três e todas começaram a rir.
Elas ficaram ali por mais um tempo.
– Emma, como vai seu pai? – Na hora que Mary perguntou, a postura da loira endureceu e isso não passou despercebido pelas outras mulheres.
– Acho que bem. Bom, eu tenho que ir. Até mais.
Emma saiu de lá às pressas deixando as três mulheres tentando entender o que acabou de acontecer.
– O que foi isso? – Regina perguntou
– Pelo visto você não sabe, né? – Foi a vez de Zelena perguntar
– Quando Emma estiver pronta, ela conta a você. Agora vamos lá resolver esses projetos com o Gold.
A loira saiu da faculdade e foi direto pra casa. Não sabia o que sentira com a pergunta de Mary, mas ficou desconfortável. Nem ela sabia como estava seu pai e isso começou a preocupa-la. Após o banho, Emma decidiu ir dar uma volta.
Depois de falar com Gold, Regina foi pra casa ainda pensando sobre o acontecido de antes. Primeiro a reação de Emma quando Regina citou os pais dela, agora essa reação com a pergunta de Mary. O que será que aconteceu? Todas essas coisas passavam pela cabeça de Regina.
Assim que pisou em casa, Regina chamou pelo filho, mas logo depois se lembrou de que o pai havia ido pegar o menino na escola e passaria a noite com ele.
Regina e Daniel foram casados por 8 anos. Logo assim que descobriram sobre a gravidez de Regina, resolveram oficializar as coisas, mas o casamento entrou na rotina. Foi se desgastando e quando Daniel traiu Regina, o casamento foi por água a baixo. Entraram num acordo sobre o divórcio e fizeram tudo da melhor forma possível para eles e principalmente por Henry. Não restou mágoa, desavenças ou clima ruim. Muito pelo contrário. Os dois se davam muito bem. Aliás, se davam melhor como amigos, do que como marido e mulher. Hoje Daniel já estava em outro relacionamento, o único problema era Henry aceitar a mulher. O garoto dizia que ela era uma bruxa e que não sabia o que o pai via nessa mulher. E assim seguia a vida deles, meio torta, mas aos poucos se encaixando.
Regina tomou um banho, preparou um sanduíche e como ainda era cedo, decidiu por dar um volta e aproveitar o clima gostoso que a cidade oferecia a noite, já que na maioria das vezes era aquele calorão.
A morena foi andando meio sem saber pra onde ir, mas quando se deu conta estava na beira da praia. Parou um momento e ficou olhando aquela imensidão azul. As ondas iam e vinham, se chocando na areia fazendo o barulho que Regina tanto gostava de ouvir. Retomou sua caminhada e poucos minutos depois, viu uma loira sentada num banco, no calçadão, observando a ida e vinda das ondas. Primeiro achou que era Emma, mas imaginou estar vendo coisas, porém conforme foi se aproximando, teve certeza de que era Emma.
– Ei. – Regina a chamou e sentou ao lado dela.
– Oi. – Emma apenas virou o rosto para dar um sorriso e logo voltou à atenção para o mar.
– O que está fazendo aqui a essa hora?
– Precisava de um pouco de ar. De silêncio. Por os pensamentos no lugar.
Regina apenas assentiu e entendeu o recado e ambas ficam ali, em silêncio observando o mar. Não era um silêncio desconfortável, pelo contrário, um silêncio confortante.
Depois de algum tempo Emma resolveu falar. Sabia que Regina estava curiosa pra saber algumas coisas a respeito de sua vida, mas ela deu tempo ao tempo, uma coisa que Emma agradeceu mentalmente.
– Minha mãe. Faleceu. Há uns meses atrás.
Emma permanecia com o olhar fixo no mar.
– Sinto muito. – Foi o que Regina conseguiu falar.
Emma ficou em silêncio por mais algum tempo e depois voltar a falar.
– Ela estava grávida, mas na hora do parto houve diversas complicações e ela e minha irmã morreram.
Regina permanecia em silêncio. Sabia que não estava sendo fácil pra Emma se abrir daquela forma, então estava respeitando o espaço da loira.
– O nome dela era Ana. – Emma deu um sorriso triste. – Nós erámos felizes. Quando ela descobriu que estava grávida, era só sorrisos. Meu pai era o estilo pai babão, então ficava brincando com a barriga da minha mãe. Dizia para minha irmã que eu e ele íamos leva-la no Maracanã pra ver o jogo do Flamengo. Nos finais de semana, costumávamos forrar várias cobertas na sala e fazer uma sessão de cinema. Quando meu pai via que eu estava concentrada no filme, ele ia lá e tacava o travesseiro em mim, e encerrávamos a noite com a famosa ‘’Guerrinha de travesseiro dos Swan’’.
Uma lágrima escorreu pelos olhos de Emma, que continuava com os olhos fixos nas ondas.
– No dia que a bolsa da minha mãe estourou, nós estávamos conversando na sala. Meu pai ficou tão desesperado, que colocou minha mãe no carro e saiu em direção ao hospital e me esqueceu em casa. Eu literalmente tive que correr para o hospital. – Emma soltou um sorriso ao se lembrar da cena.
Regina tinha algumas lágrimas formadas e também riu da cena descrita por Emma.
– Ela ficou na sala de cirurgia por muito tempo, até que quando meu pai resolveu se levantar e ir pedir alguma informação, o médico veio em nossa direção e disse o que tinha acontecido. Enquanto meu pai caiu na cadeira, eu saí correndo de lá. Eu não acreditava que a mulher que me amou, me cuidou, me incentivou e apoiou todos esses anos não voltaria pra casa naquela noite... e mais em noite nenhuma.
Emma parou de falar, porque sua voz embargou totalmente por causa das lágrimas. Ela sentiu a mão de Regina sobre a sua, em forma de incentivo, já que a mão de Emma apertava o banco com força, como se tentasse transferir toda sua dor pra ele.
– Minha mãe sempre dizia que se alguma coisa acontecesse com ela, meu pai não seria forte o suficiente para encarar a realidade, então ele precisaria de mim. Quando eu voltei pra sala de espera, meu pai não estava mais lá. O médico me contou tudo que havia acontecido e já que meu pai havia saído de lá, eu teria que assinar alguns papéis. Quando eu voltei pra casa, meu pai estava jogado no chão, abraçado com uma garrafa de Whisky. Eu não sabia o que fazer, então liguei pra ambulância e viram buscar ele. Logo depois que saiu do hospital, ele não trocou uma palavra comigo, nem sobre o que aconteceu, então tive que organizar o enterro dela.
Emma parou de falar, secou as lágrimas do rosto e voltou a falar.
– Os dias foram passando e meu pai chegar bêbado em casa virou rotina. As vezes ele nem voltava e eu entendi que essa era a forma dele lidar com tudo. Tinha vezes que ligavam lá pra casa e pediam para eu ir buscar ele no bar. Meu pai precisou de mim e eu não consegui ajuda-lo.
Nesse momento Regina interveio.
– Emma, a culpa não é sua.
Ela pegou o rosto da loira e virou pra si. Emma estava com os olhos vermelhos e inchados por conta do choro.
– Vem cá. – Regina a puxou para um abraço. — Menina, você não teve nem tempo de sofrer pela perda da sua mãe. O que está acontecendo com seu pai não tem haver com você e sim com ele tentar encarar a verdade, mas de maneira errada.
Regina falava tudo isso de forma baixa, enquanto só sentia as lágrimas de Emma em seu ombro.
– Chora Emma, chora. Você precisa sentir.
As duas ficaram assim por algum tempo, até que Emma levantou o rosto.
– E seu pai agora? Onde está? – Regina perguntou.
– Ele deixou isso aqui, no dia em que fomos ao cinema.
Emma mostrou a carta que seu pai deixou pra ela.
Regina a encarou, limpou as lágrimas que ainda caiam no rosto de Emma e se levantou.
– Vem. – Estendeu a mão pra Emma.
– Pra onde?
– Confia em mim.
Emma deu a mão a Regina e ambas se encaminharam em direção ao mar que tanto olhavam.
– Regina, ta falando sério? – Emma a encarou incrédula.
– Nós vamos entrar no mar e vamos deixar toda a angústia, sofrimento e dor ser arrastada pelas ondas.
– As coisas não são bem assim.
– Não são, mas às vezes precisamos de um pouco de fantasia para aprender a lidar com a realidade. Então, topa?
As duas já estavam a alguns metros da água. Emma ponderou mais algum tempo e depois se rendeu.
Regina estendeu a mão pra ela, que aceitou de bom grado e assim elas entraram na água. Ambas com a vontade e a necessidade de mudança.
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