Casos e Acasos
28 Casos e Acasos - Capítulo 28
Notas iniciais
A semana havia passado rápido e já constava dia 23 de dezembro nos calendários. Emma tentou fazer daquela semana a mais normal possível, mas na teoria as coisas eram muito mais fáceis. A loira tentava ocupar sua mente com tudo, mas estava cada vez mais difícil, já que as férias na faculdade já haviam chegado e a dispensa no trabalho também já havia sido solicitada. Estar sozinha com Regina estava cada vez mais difícil, já que Henry ficaria um bom tempo com ela e Cora também passaria um tempo lá, então às oportunidades que surgiam eram raras.
Ruby ficava a maior parte do tempo com a avó, Killian com a nova namorada, que no início parecia legal, mas que agora era mais grudenta que cauda no dente. Neal com visita em casa. É, parecia que só Emma estava atoa.
Ficar deitada em sua cama com seu pijama de sapinhos numa manhã de terça feira ensolarada no Rio de Janeiro estava fazendo Emma pirar. Resolveu se levantar, mas apenas para pegar algo para comer. Emma + tédio = Comida.
Desceu as escadas se arrastando, passou pela sala e seu pai estava assistindo Discovery Channel. Um programa sobre pesca.
– Pai, qual é a graça de assistir um bando de caras pescando? – A loira perguntou.
– Qual é a graça de assistir séries fantasiosas? – Ele rebateu.
– Ok, agora o senhor pegou pesado.
Ela levantou rindo e foi até a cozinha. Abriu a geladeira e deu de cara com sua barra de chocolate branco. Um sorriso de orelha a orelha apareceu e a Emma não pensou duas vezes a não ser pegar e voltar pra sala.
– Nem pense em comer isso a essa hora. – Alexandre a repreendeu.
– O que? Por que? A pai, eu já sou bem grandinha.
– Só no tamanho, porque depois quando você passar mal, o papai aqui é quem vai te levar para o hospital. Chocolate só depois do almoço. – O pai de Emma falava sério sobre ela passar mal, mas a vontade de rir da cara de indignada da Emma estava impagável.
– Caraca, o senhor está pior que a Regina. Pelo amor de Deus. – Emma levantou do sofá bufando e batendo pé.
Alexandre não aguentou e riu baixinho.
– Venha aqui birrenta. – Ele a chamou.
– Hum. – Emma se sentou ainda com um bico do tamanho de um trem no rosto.
– Vamos fazer alguma coisa?
– Que coisa?
– Ah não sei, a criatividade fica com você. A parte de realizar é comigo.
– Deixa eu ver. – Ela já sorria. – Tem muito tempo que não como churrasco. Que tal?
– Churrasco. Ta aí. Então vamos fazer churrasco.
– Aeeeeeee... Agora eu vi vantagem. Vou me arrumar pra ir ao mercado.
– Antes de ir, eu preciso fazer uma coisa. – Alexandre ainda estava sentado e Emma de pé.
– O que?
– Senta. Você saiu batendo pé e sabe o que acontece quando faz esse tipo de coisa, não é?
Emma franziu as sobrancelhas e quando viu o sorriso no rosto do pai saiu correndo.
– Cosquinha não, pai.
– Cosquinha sim, Emma.
Pareciam duas crianças dentro de casa. Assim que Alexandre alcançou a filha, encheu ela de cosquinha como nos velhos tempos. Sabia que Emma estava sofrendo com aquela data e como pai, ele deveria tentar amenizar o sofrimento da filha, então estava a todo custo tentando distrai-la.
Depois da sessão de cosquinhas, Emma foi se arrumar e Alexandre limpar a churrasqueira. Mais ou menos 40 minutos depois, Emma avisava que já estava indo ao mercado.
– Pai, eu vou passar na Regina e pedir pro Henry ir comigo, ok?
– Tá. Vê se não deixa ninguém te enganar com a carne não, hein. Da última vez parecia que estávamos comendo pedra.
– A culpa não é minha se o açougueiro não me deu a carne certa.
– Aham.. Vai lá logo menina.
Emma saiu rindo de lá e foi em direção a casa da Regina. No caminho ela viu uns meninos jogando bola na rua e como a loira era conhecida por jogar melhor que os meninos grandes, foi chamada pelas crianças para jogar uma partida.
– Ok, mas só uma partida.
Os meninos ficaram felizes pela loira ter aceitado e depois de alguns minutos, ela se despediu e foi mesmo pra casa da namorada.
5 minutos depois ela já estava de frente a casa da morena. Cora é quem veio atender a porta
.
– Senhorita Swan, está sumida. – A mulher disse abrindo espaço para a loira entrar.
– Que nada, Cora. Impressão sua. Regina ta aí?
– Está lá em cima com o Henry. Éér, Emma, antes de subir eu gostaria de te perguntar coisa. Você não tem deixado de vir aqui por minha causa não, né?
– Claro que não, Cora. É que eu tenho medo de dar muita bandeira perto do Henry. Só isso.
– Bom, se é assim, então tudo bem. Vai lá que eu vou dar um jeito no almoço aqui.
– Não, não faz almoço não. Eu e meu pai vamos almoçar fora e eu vim chamar vocês.
– Almoçar fora? Aonde?
– No quintal. – Emma não aguentou e desabou a rir, mas ver que Cora não havia achado graça na sua piada, parou de rir e foi em direção ao quarto de Henry. Enquanto isso Cora começava a rir na cozinha.
– Ô de casa. – A loira falou ao chegar à porta e ver que os dois estavam vendo televisão.
Mãe e filho olharam pra ela abriram um lindo sorriso.
– Emmaaa, quanto tempo. – Henry foi em direção a ela e a abraçou.
– Eai garoto. Quanto tempo. — Emma o abraçou de volta.
– Você que não vem mais aqui jogar comigo.
– Então precisamos resolver esse problema, mas não agora. Eu vim perguntar sua mãe se ela deixa você ir ali ao mercado comigo.
Ambos olharam pra ela e fingiu pensar.
– Você não me da nem bom dia e já vem pedir, Swan? — Regina falou.
Emma ficou sem jeito. Merda. Regina tinha que provocar.
– Bom dia, Mills. Como tem passado?
– Ah, você sabe, tranquila.
As duas se provocavam com o olhar e se Henry não tivesse interrompido, as duas estariam se agarrando agora.
– Posso ir com a Emma, mãe?
– É né. Eu vou ficar aqui sozinha vendo televisão.
– Ah mãe, então vem com a gente.
– Não. To com preguiça. Podem ir, mas cuida do meu filho, Emma.
– Mãe, eu que tenho que cuidar dela.
Ambas riram.
– Enquanto Henry se troca, eu queria dar uma palavra com você, Emma. Podemos ir até meu quarto?
POV EMMA
Regina perguntou e me olhou de uma forma tão sínica, que por um milésimo de segundo eu achei que ela realmente queria falar comigo, mas eu conhecia aquele olhar e ele dizia que Regina queria tudo, menos trocar uma palavra comigo. Saliva? Talvez. Acabei rindo com meu pensamento. Okay, eu tenho que parar de falar comigo mesma.
– Claro, Mills, vamos lá. — Quem olha de fora pode pensar que eu e Regina nos tratamos formalmente, mas está longe disso acontecer. O Mills a deixava mais... Sexy. — Henry, quando acabar de se trocar me espera lá em baixo. Eu não demoro.
Henry fez que sim com a cabeça. Ele é uma criança tão doce e tão madura. Às vezes tenho medo da reação dele quando souber de mim e da Regina. Será que ele vai surtar?
Bom, não quero pensar nisso agora. Quando dei por mim já estava no quarto da Regina. Ai meu Deus, como eu senti falta dela.
Regina trancou a porta e quando olhou pra mim, me deu aquele meio sorriso. Ah, realmente eu senti saudade. Fui até ela e ela veio até mim. Me surpreendendo, ela me abraçou.
– Eu senti sua falta. — Na hora que Regina disse isso, eu a abracei mais forte.
– Eu também senti sua falta.
Ficamos um tempinho assim e quando nos separamos daquele abraço, ela me beijou. Com calma, mas que depois foi ganhando vida.
Regina era uma loucura. Uma doce loucura. Uma maravilhosa loucura. Ficamos nos beijando por um tempo, até que ela me perguntou.
– Vai fazer o que no mercado?
– Meu pai vai fazer um churrasco. Aliás, eu também vir convidar vocês para almoçar lá em casa. Já até avisei Cora para não se preocupar com o almoço. – Falei e Regina riu da minha cara. Oh namorada debochada essa que eu fui arrumar.
– Então você e minha mãe já estão íntimas?
– Não. Longe disso. Às vezes acho que ela não vai muito com a minha cara.
– Para com isso. Vai lá que daqui a pouco Henry vai está aqui te chamando.
– Ta bem. Lá vou eu, largada, sozinha e carente. – Fui indo até a porta devagar e Regina riu da minha cara. Confesso que o drama faz parte do meu charme, mas adoro ver Regina sorrir. Seja lá de mim ou pra mim. Enquanto ela estiver sorrindo, eu também estarei.
Ela me puxou de volta pra ela e me beijou novamente. Dessa vez foi diferente. Ela levou a mão direita até meu cabelo e a mão esquerda para minha cintura, me puxando mais pra ela. Aquela língua procurando pela minha. Nossa, realmente aquela mulher era uma loucura.
Nós descemos juntas e Henry estava conversando com Cora.
– Emma, seu pai precisa de alguma ajuda lá? – Cora me perguntou.
– Olha, na hora que eu saí de casa ele estava começando a limpar a churrasqueira. Não sei do que ele ta precisando agora.
– Então nós vamos pra lá. Você e Henry vão direto pra sua casa, ok? — Regina me olhou e perguntou. Não consegui evitar o sorriso ao olhar pra ela. Apenas assenti.
Eu e Henry saímos de lá e fomos para o mercado. Eu rezava para o açougueiro me dar à carne certa, porque se não todo mundo ia comer carne dura. Acabei que quase implorei pra ele me da uma carne de primeira e falei que uma vez haviam me enganado. O homem riu. Com certeza riu da minha cara. Enquanto esperava acabei ligando para Ruby, Killian e Neal. Os três disseram que iam pra minha casa daqui a pouco. Liguei pra Zelena e ela disse que não poderia ir porque ia conhecer a família do Gustavo. Nossa, finalmente. Eu realmente torcia por eles. Mary era outra que parecia uma adolescente apaixonada. Hoje por exemplo ela estava a caminho do sítio que a família dela tinha em Minas. E claro que David iria junto. Olha, as coisas estão realmente sérias. Fiquei esperando mais um pouco até que o homem me deu a carne. Até foi sarcástico, falando que aquela carne era a certa. Ok, acho que ele foi simpático. Acho! Dei a mão a Henry e fomos em direção ao caixa. Claro que o garoto quis uns chocolates e quem era eu para não levar uns pra mim também.
Quando já estávamos no caixa, Henry me chamou e me fez olhar para o caixa à frente. Havia duas mulheres de mãos dadas. Elas conversavam animadamente e por um impulso de uma delas, um selinho acabou rolando.
– Emma, você não acha estranho duas mulheres juntas? – Henry me perguntou. Merda. Meu pensamento foi direto para mim e Regina. O que eu falaria agora?
– Ah Henry, eu não acho estranho. Você acha? – Putz, Regina ia me matar se soubesse que eu estava perguntando isso para Henry.
– Não sei. É, eu não sei. Mas eu acharia estranho se fosse minha mãe namorando uma mulher.
Puta que pariu, acho que eu caguei nas calças quando ouvi Henry falando isso.
– Vem, vamos embora. – Não quis me prolongar no assunto ou teria que voltar para o mercado e comprar uma fralda.
O caminho inteiro de volta o garoto veio falando e eu respondia, mas minha mente havia ficado naquilo que aconteceu no mercado. Merda. Merda. Merda.
Depois de uns 20 minutos nós chegamos e todo mundo já estava lá. Killian e Neal ajudavam meu pai na churrasqueira, enquanto Regina, Cora, Ruby e Catherine conversavam.
Catherine. Sorri assim que eu a vi. Ela gostava mesmo do meu pai e eu gostava disso.
– Trouxe a carne certa, Emma? – Meu pai perguntou. É claro que ele não deixaria de me zoar na frente de todo mundo.
– O senhor da muita sorte de ser meu pai e eu não poder responder de forma malcriada, mas como meus pais me deram educação, eu apenas responderei: Sim, papai, eu trouxe a carne correta.
– Ela insistiu para o moço dar a carne certa pra ela. – Não é que o Henry havia contado do meu apelo? É, eu fui zoada por isso.
– Nem vou dar confiança pra vocês.
Eles riram. Ok, eu também ri. Era legal ver todo mundo junto.
Me sentei e entrei na conversa. Elas falavam sobre a onda de violência que estava por aí. Regina sempre tinha argumentos para tudo.
– O que me choca é como nós nos tornamos vilões por sofrer um assalto, por exemplo. Se você foi assaltado as 22:00hs da noite, foi porque estava com o celular na mão. Ah, claro que você foi assaltado. Estava com o celular na mão há essa hora, ou quando uma mulher é estuprada. Ah, é claro que ela foi estuprada, estava andando com um short curto pela rua. As pessoas não percebem que nós somos donos de nossas vidas. Uma mulher pode andar nua na rua que homem nenhum tem direito de encostar nela. Alguém pode sim andar com o celular na mão a hora que quiser. Nada justifica um assalto ou a violência. Nós passamos de vítimas, para as pessoas que provocaram tal acontecimento. É realmente triste ver o rumo que essa sociedade está tomando.
É, ela realmente tinha argumento pra tudo. Eu estava ao lado de Regina e em meio à conversa, ela deixou a mão cair sobre a minha perna. Eu me assustei, é claro. Todo mundo ali sabia da nossa relação, mas Henry não, então tirei a mão dela de lá e continue fingindo que prestava atenção na conversa. Eu sei que ela me olhou, mas não falou nada. Depois, ela se se encostou à cadeira e entrelaçou o braço no meu. A olhos alheios parecíamos duas amigas, mas eu continuava com medo, então fingi me espreguiçar e soltei o braço dela do meu. Eu sabia que ela estava começando a ficar irritada então decidi levantar e ir conversar com meu pai.
Estava meu pai, Killian e Neal. Henry havia se juntado a mãe. Acabei contando a eles o que havia acontecido no mercado e meu pai me disse para não me preocupar. Neal acabou me zoando falando que meu enteado não me aprovaria. É claro que eu não estava no clima para brincadeiras, então ele parou de brincar. Eu amava os homens da minha vida e aqueles três com certeza estava entre eles. Sempre com vários conselhos. Depois Ruby se juntou a gente e Regina ficou conversando com Catherine enquanto Cora servia o Henry.
As duas pareciam bem entretidas no assunto e ver que Catherine olhava pra mim toda hora me fez ter certeza que o assunto era eu.
Resolvi ignorar e me sentei sozinha. Fiquei olhando pra eles e quando Henry foi perguntando a Cora que dia era aquele, foi que me dei conta de que já era dia 23. Eu normalmente ficaria animada, mas ainda é muito difícil pra mim me animar para qualquer coisa sabendo que minha mãe não está mais aqui. Decidi levantar e fui até meu quarto. Assim que cheguei avistei o porta retrato que ficava ao lado da minha cama. Eu e minha mãe abraçadas.
Peguei o porta retrato e sentei na cama.
– Que saudades, mãe.
Fiquei um tempinho lá e logo depois Regina apareceu. Ela sentou ao meu lado e não falou nada. Eu ri. Como será que minha mãe reagiria com meu namoro com a Regina? Primeiro ela ia arregalar os olhos. Com certeza. Eu acabei gargalhando e Regina me olhou curiosa.
– Eu amo você. – Falei pra ela assim que minha gargalhada cessou. É, eu tenho problema em controlar o riso.
– Se me ama por que está me evitando? – Nossa, nem pra ela falar que me amava também.
– Eu não estou te evitando.
– Tem certeza? – Ela cruzou os braços. Merda.
Levantei e coloquei o porta retrato onde ele estava.
– Eu só tenho medo do Henry nos ver. Juntas.
– Mas uma hora ele vai saber. – Senti meu estomago doer. Cara, o garoto ia surtar.
– Uma hora, mas acho que ainda essa hora não chegou.
– Concordo, mas não precisa ficar me evitando.
Nós ficamos um tempinho lá até Ruby vir nos chamar.
Aos poucos a galera foi indo embora. A avó de Ruby havia ligado, a namoradinha do Killian também e Neal acompanhou eles. Cora disse que ia embora e ia levar Henry junto. Meu pai falou que ia levar Catherine em casa. Opa, eu ia ficar sozinha com a Regina? Um fio de esperança brotou em mim, mas esse fio arrebentou quando Henry chamou Regina para ir junto. Ela me olhou como se estivesse se desculpando e após um abraço cheio de significados, eles também foram embora.
Subi, tomei meu banho, coloquei meu pijama e deitei. Às vezes eu me sentia tão egoísta. Sim, porque havia dias que eu estava completamente bem e outros dias completamente ferrada emocionalmente, mas como alguém como eu, alguém que tem uma família, pessoas que me amam ao meu lado, tem o direito de reclamar de alguma coisa? Eu me pego pensando em como os problemas dos outros são piores que os meus. Alguém que está em cima da cama de hospital, por exemplo. Alguém que tem uma doença terminal ou alguém que não tem onde dormir, onde morar e o que comer. Eles sim têm o direito de ficar triste, mas eu também me pego pensando que só nós sabemos das nossas dores, sabe? Sós nós sabemos das nossas lutas e batalhas diárias. Só nós sabemos como é difícil ser a gente. Complicado, não? Ainda era início da noite e eu não sentia sono, mas resolvi permanecer na cama. O dia foi bem agradável. Meu pai tem feito de tudo pra me agradar e me elogiou falando que eu havia comprado à carne certa. Nós brincamos, nos divertimos, mas acabou que agora a minha noite vai se encerrar do mesmo jeito que meu dia começou. Deitada, sem sono, de pijamas e... sozinha!
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