Casos e Acasos
15 Casos e Acasos - Capítulo 15
Notas iniciais
Pela manhã Emma acordou com uma leve dor de cabeça que só piorou quando o despertador começou a berrar. Ela não estava bêbada, nem sem consciência, mas por ser fraca com a bebida, e exagerar logo no vinho, que é uma das bebidas com o teor alcoólico mais alto, Emma sentia essa enjoada dor. Ela levantou, tomou seu banho, se vestiu e desceu para tomar um bom café preto, já que era seu remédio naquela hora. Assim que entrou na cozinha encontrou seu pai encerrando uma ligação e pela cara a conversa com quem quer que fosse não foi nada agradável.
– Bom dia. – Alexandre tentou disfarçar a fisionomia e cumprimentou a filha.
– O que aconteceu? – Emma foi logo perguntando.
– Nada, por que?
– Pai, eu te conheço.
– Ok, mas antes me fale de como foi com a Regina.
Ao ouvir o nome ‘’Regina’’, a cabeça de Emma pareceu dar um estalo. A loira deixou a xícara cair e antes de bater no chão, bateu no pé dela fazendo um corte superficial, mas sendo suficiente para sair bastante sangue.
Alexandre ao ver a cena foi de encontro a Emma, mas a própria parecia não sentir dor alguma. Apenas ficou com os olhos vidrados para o nada, fazendo seu pai se preocupar mais ainda.
– EMMA! — E depois de um grito, a loira despertou do transe. – Filha, o que aconteceu? Olha seu pé.
– Regina. Ai meu Deus, ela não vai querer olhar pra minha cara. O que foi que eu fiz.
Realmente parecia que Emma não sentia dor alguma, porque começou a andar de um lado para o outro com as mãos na cabeça. Quem testemunhasse aquela cena pensaria que Emma havia assassinado alguém, porque realmente ela estava fora de controle.
– Emma, se acalma. Vamos ao hospital primeiro e depois você me conta o que aconteceu.
– Que hospital? Pra que?
– Querida, olha pra baixo.
E feito isso ela finalmente se deu conta do corte no pé e uma dor aguda a atingiu. Alexandre foi carregando a filha pra fora de casa até pegarem um taxi. O caminho todo foi de gemidos de dor da parte de Emma.
Assim que chegaram, um enfermeiro veio com uma cadeira de rodas pedindo para que Alexandre fosse até a recepção fazer a ficha de Emma, mas ele se recusava, pois queria acompanhar a filha. Gustavo que estava por aquela área se aproximou deles.
– Hey, pode deixar comigo. – Gustavo falou com o enfermeiro e o próprio assentiu com a cabeça.
Ele foi empurrando a cadeira de rodas e falando com Alexandre.
– Eu sou o pai dela.
– É um prazer. Eu sou Gustavo, o médico que acompanhou Emma durante a internação. O que aconteceu? – Gustavo tomou um susto quando ouviu daquele homem que era o pai de Emma, mas não contestou e nem comentou, apenas se manteve firme a sua ética.
– Ela deixou a xícara cair e pegou em cima do pé dela. Só que saiu muito sangue. É grave? – Era evidente o nervosismo de Alexandre.
Eles entraram na enfermaria e Gustavo pediu para que ele mesmo ficasse encarregado de cuidar da loira.
– Não precisa se preocupar. Nessa região do pé é normal qualquer corte, mesmo sendo superficial, sair uma grande quantidade de sangue. Três pontos no máximo.
Emma continuava reclamando e o médico lhe deu um medicamento para amenizar a dor.
Depois de algum tempo, Emma estava recostada na cama contando o que tinha acontecido para o Gustavo.
– Foi apenas isso. Eu deixei a xícara cair.
– Emma, eu preciso saber se você teve alguma tontura ou sentiu algo além, porque pode ser algo relacionado ao seu acidente. – Gustavo reafirmou.
– Eu te garanto que não teve nada haver com isso.
– Se bem que você deixou a xícara cair quando eu mencionei o nome da Regina. – Alexandre falou, mas quando notou o olhar fuzilante de Emma pra cima dele, se arrependeu na hora.
– Ah, então está explicado. – Gustavo falou de forma divertida.
– Não entendi e vou procurar nem entender o que você quis dizer com isso. Eu já posso ir pra casa? Ainda tenho que ir à faculdade. – Emma falou super mal-humorada.
– Pode sim. Aliás, quando estiver melhor eu gostaria de conversar com você.
– Eu juro que dessa vez eu não fiz nada e se eu fiz e não me lembro, por favor me perdoa. Eu realmente não tive a intenção de ofender ninguém. – Emma estava com uma expressão de assustada e falou tudo de uma vez só.
Gustavo caiu na gargalhada. Eles já haviam passado da fase médico e paciente, e por isso já tinham certa liberdade um com o outro.
– Você não fez nada. É algo muito legal e sei que você vai adorar, mas isso é conversa para outro dia. Agora a senhorita vai pra casa e fique longe de confusão. Nossos encontros são só com você vindo machucada.
Os três sorriram e Emma e o pai saíram de lá.
– Tem como você me contar o que aconteceu? – Já dentro do taxi, Alexandre perguntou.
– Nada demais. Eu só bebi um pouco além da conta e fiz uma grande besteira.
– Do tipo?
– Do tipo grande, pai.
– Emma, desembucha.
– Eu beijei a Regina. Bom, não foi um beijo. Foi um beijinho. Um selinho. – Emma estava mais vermelha que um tomate e Alexandre começou a rir da filha.
– Um beijinho? – Ele falava e ria mais ainda.
– Viu, por isso eu não te conto as coisas. Você fica rindo de mim. – Emma virou para a janela e algumas lágrimas desceram, o que não passou despercebido por Alexandre, que parou de rir na hora.
– Querida, vem cá. Me desculpa. – Ele a puxou para um abraço e Emma colocou o rosto na curva do pescoço do pai. – Eu sei que ela é importante pra você.
– E se ela nunca mais quiser olhar pra mim? – Alexandre sorriu de lado. Emma havia crescido só por fora, porque por dentro continuava aquela menininha loira e insegura.
– Eu te garanto que ela não ficou chateada com você.
– Como pode ter certeza?
– Eu apenas sei. Agora nós vamos logo à faculdade acertar tudo e depois vamos pra casa fazer uma sessão de filmes de terror. Que tal relembrar os velhos tempos?
Emma apenas fez que sim com a cabeça e o apertou mais forte. Alguns minutos depois ela levantou o rosto e perguntou:
– Com quem o senhor estava falando no telefone mais cedo?
– Depois falamos sobre isso.
Os dois ficaram abraçados até chegar à faculdade. Lá a loira teve que conversar com todos os professores e explicar toda a situação do acidente. Ela finalmente apresentou Zelena ao pai e entraram numa conversa animada. Depois de ficar acertado que Emma não precisaria repetir o período já que tinha excelentes notas, ela apenas teria o trabalho de pegar toda a matéria até o dia da prova. Claro que isso já havia sido conversado com Ruby e Zelena também se mostrou disponível para o que ela precisasse.
Regina havia passado a manhã toda esperando alguma notícia de Emma, mas desistiu. É claro que ela não esperava que a loira fosse correndo para os braços dela e elas seriam felizes para sempre. Muito pelo contrário. Apesar de Regina ter a consciência do que sentia pela loira, a noite passada foi como um divisor de águas para Regina. Emma tinha apenas 18 anos. Estava começando a vida agora. Regina já tinha uma vida feita. Uma carreira. Um filho. Como tinha sequer cogitado a possibilidade de levar esse sentimento adiante?
Regina estava na sala dos professores e nem havia se dado conta da hora. Só foi se lembrar de que tinha que dar aula, quando o coordenador veio à procura dela. A morena catou suas coisas rapidamente e foi andando em direção à sala. Regina sentiu o estômago revirar quando viu Emma, Alexandre e Zelena conversando mais adiante. Ela levantou a cabeça, respirou fundo e foi para sua sala, consequentemente teria que passar pelos três.
Quando Emma a viu, o coração quase pulou para fora. Ela tentou desviar o olhar de Regina, mas não conseguiu.
– Alexandre. Zelena. Emma. – A morena apenas os cumprimentou rapidamente e seguiu seu caminho e no fim do corredor, olhou pra trás rapidamente. Emma se sentiu despedaçada e olhou para seu pai. Ele sabia que iria desmoronar e então decidiu leva-la pra casa naquele instante. Zelena ficou sem entender nada e Alexandre disse que depois Emma entraria em contato.
O caminho pra casa foi silencioso. Nem Emma, nem Alexandre falaram absolutamente nada. Emma entrou em casa e foi direto para o quarto. O pai sabia que ela queria espaço, portanto espaço ela teria.
O aniversário de Regina era dalí a 3 dias e por mais magoada que Emma estivesse, ela seguiria com o plano da festa. Assim que entrou no quarto, Emma deixou as lágrimas caírem, mas foi em direção ao seu notebook e começou a ver o passo a passo do planejamento da festa. Como o local já havia sido acertado com o amigo faltava confirmar a decoração e o Buffet. Ela esperou ficar mais calma para terminar de acertar esses detalhes. Depois ligou para Cora e perguntou se estava tudo no esquema. Claro que a senhora notou a voz de Emma meio embargada, mas Emma disse que era apenas cansaço. A distração para levar Regina para o salão seria por conta de Emma, mas ela preferiu ligar para Zelena e pedir para que a ruiva ficasse com essa função. Zelena estranhou e isso a deixou mais desconfiada do que estaria acontecendo, mas apenas concordou.
Regina obviamente não estava melhor. Manteve o profissionalismo enquanto dava sua aula, mas seu pensamento era todo em como Emma a olhava. Quando Regina se virou, viu toda a mágoa no olhar da loira e isso quebrou Regina, mas ela estava disposta a esquecer de todo e qualquer sentimento que sentia por Emma.
Depois de encerrar sua aula, Regina foi para sala dos professores pegar suas coisas e lá encontrou Zelena também de saída.
– Regina, posso falar com você um estante? – A ruiva perguntou.
– Claro. Ta de carro?
– Não. Hoje eu vim de taxi.
– Então vamos que te dou uma carona.
Enquanto andavam pelo estacionamento Zelena estava inquieta. Não sabia como perguntar o que queria a Regina. Na verdade não sabia nem o que perguntar. Regina pareceu notar o quão apreensiva Zelena estava.
– Pode perguntar, Ze.
– O que? – A ruiva se assustou.
– Pode perguntar o que você quer.
– Então tá. O que foi aquilo mais cedo?
As duas entraram no carro e Regina deu partida.
– Seja mais específica.
– Ah Regina, aquilo lá quando eu, Emma e o pai dela estávamos conversando. Você passou e tratou-a como uma estranha.
– Zelena, é muito complicado.
– Pois me explique.
– Não sei por onde começar.
– Que tal do começo?- Regina permaneceu calada. – Que tal a gente tomar alguma coisa? Henry está em casa?
– Não. Ainda está com o pai.
– Ok. Vamos parar lá em casa mesmo.
Regina concordou com a cabeça e o restante do trajeto foi num silêncio confortável. Assim que chegaram à casa de Zelena, a ruiva preparou um drink e então começaram a conversar.
– Regina, mas que você estava apaixonada era bem óbvio, né?
– Mas agora isso não importa. Eu não irei levar isso adiante. Nem sei como pensei nisso.
– Regina, pensa bem. Não negue essa chance a você mesma.
– Zelena, como eu posso tentar ser feliz e esquecer o resto do mundo? Eu tenho um filho. Eu não posso simplesmente colocar alguém na vida do Henry sabendo que ele enfrentará as consequências das minhas atitudes. Emma tem 18 anos, eu tenho 30. E quando ela quiser sair com os amigos? Ir pra balada? Eu já passei dessa fase. Por mais que eu goste dela, eu não vou me arriscar por algo que sei que não tem futuro. Não posso, não quero.
Regina estava de pé e falava descontroladamente. Zelena sabia que ela precisava falar, então não opinou, concordou ou discordou. Apenas ouviu.
– Tem certeza de que essa é sua última palavra?
– Não, Ze. Não tenho, mas eu sei que não serei forte o suficiente para enfrentar tudo que virá pela frente.
Zelena a olhou, a olhou e nada falou então se levantou e ofereceu mais um drink pra Regina
– Tome. Você está precisando.
Regina só tomou um gole, pois iria dirigir de volta pra casa. Ela e Zelena esqueceram esse assunto por um momento e começaram a conversar sobre como estava o relacionamento de Zelena e Gustavo. A ruiva havia dito que era tudo muito recente e que não tinham nada muito concreto ainda, mas estavam num caminho certo.
Quando Regina já se sentia mais leve, ela voltou pra casa e tomou um calmante para ver se conseguia pegar no sono.
No início da noite Emma desceu as escadas e encontrou o pai vendo TV. Ela se sentou ao lado dele.
– Me fala sobre hoje mais cedo. O telefonema. – Emma pediu.
Alexandre sabia que a loira queria esquecer o assunto, então fez o que a filha pediu.
– Lembra-se daquele jantar?
– Sim.
– Então. Foi com uma mulher que conheci enquanto eu frequentava as reuniões dos AA. ( Alcoólicos Anônimos. ) – Ela ia toda semana acompanhar o irmão e uma vez, na hora do intervalo, nós começamos a conversar. Formamos uma amizade e por impulso eu a convidei para sair. Ela aceitou e nós fomos jantar.
– Tá e cadê o problema?
– Emma, ela quer um relacionamento. Alguém que se dê por inteiro. Formar uma família. Eu ainda estou quebrado. Eu não superei a morte da sua mãe e ela merece alguém que se entregue completamente.
– Pai, quando a mamãe morreu ela levou um pedaço de mim, sabe? Foi como se tivessem arrancado metade do meu coração e eu pensei que jamais voltaria a sorrir, mas então eu percebi que aquela metade levada não voltaria nunca mais. Caberia a mim me reconstruir e eu consegui isso graças às pessoas que me cercaram. Meus amigos. A Regina, mas principalmente porque eu queria voltar a viver, sabe? Às vezes a gente acha que consegue tudo sozinho. Que por sofrermos em silêncio, todas as nossas batalhas tem de ser lutadas sozinhas, mas não é assim. O senhor não precisa afasta-la para tentar voltar à vida. Apenas seja claro e se ela realmente estiver interessada, ela vai te ajudar a superar tudo o que te impede de ser inteiro na relação.
– Sabia que meu orgulho por você cresce cada vez mais? – Alexandre perguntou. Ele realmente ficou emocionado com as palavras da filha.
Ambos se abraçaram e Emma começou a ver o programa que passava na TV com o pai. Depois de um tempo, Alexandre teve que perguntar.
– Filha, eu posso te fazer uma pergunta?
– Claro. – Emma se levantou para olha-lo.
– É sobre a festa da Regina. Você pretende seguir com o plano?
– Com certeza. Já está tudo no esquema e o senhor trate de arrumar sua fantasia.
– Querida, você não precisa dar uma de forte comigo. Eu sei que você está magoada.
– Estou, mas vai passar. A festa é daqui a três dias e eu prefiro me concentrar só nisso.
– Então eu vou te ajudar, ok?
– Com certeza!
Na manhã seguinte mesmo com o pé enfaixado Emma foi trabalhar e depois foi para a faculdade. Sua rotina se estabelecia aos poucos. Cora já estava na casa de Regina, mas Emma só falava com ela e Henry pelo telefone. Henry era o que mais insistia para que a loira fosse lá, mas Emma sempre inventava uma desculpa. Nos dias dois dias que se sucederam era a mesma coisa. Regina evitando Emma e a loira dando o espaço que Regina precisasse. Emma havia decidido que conversaria com ela. Não deixaria Regina cortar relações com ela assim, como se nada tivesse acontecido. Passando alguns dias, a loira tentaria falar com ela.
Finalmente havia chegado o dia da festa. Emma não havia dormido, pois por mais que os detalhes a serem acertados a deixassem exausta, só a hipótese de encontrar com Regina já mexia com os nervos da loira.
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