Duas semanas atrás

Eu estava com raiva. Teria que me casar com uma humana. Ela seria o pagamento de tal dívida que um “amigo” de meu pai fez e não pode pagar. O cara deve e quem se ferra sou eu.

Meu pai me presenteou com um castelo para eu morar com minha esposa. Eu desgostei e desgostei muito dessa ideia. Para que eu iria casar-me com uma mortal? Para eu mesmo mata-la?

Chegou o tal dia do casamento, e finalmente conheci essa garota. Ruiva dos olhos verdes. Bonita. Eu podia sentir o cheiro dela daqui. O cheiro de seu sangue e o cheiro do seu medo. – Ela é um ratinho. – Pensei comigo mesmo. Decidi que o apelido era perfeito e apropriado para ela, que por sinal se chamava Amelie.

Ela estava apavorada e eu pude sentir o nojo e o pavor quando eu a toquei e beijei. Seria difícil lidar com isto, afinal o que ela tem é o principal e único alimento que está situado em meu cardápio. Sangue. E o seu sangue é cheiroso.

Descobri que a ratinha tinha um lado arisco. Quando eu ameacei tocá-la e consumar o casamento ela pirou e isso tornou as coisas mais interessantes.

Minha vida era um saco, um tédio, achei algo que possa me distrair e divertir. Talvez.

Amelie P.O.V’s

O dia se findava e eu estava assustada. Ele queria tirar minha virgindade! A força, quem sabe.

Ele não me passava confiança e parecia odiar o fato de estar casado comigo, e eu concordo com isso, pois eu também odeio, e muito.

Estava perto das sete e vesti-me normal: Calça e blusa. Não queria e nem quero agradá-lo.

Desci para o jantar, que por sinal estava um cheiro delicioso.

Assim que cheguei à sala de jantar me deparei com os seus olhos verdes (sim eram verdes) me encarando com certo divertimento.

— Boa noite. – Falei sem vontade.

— Boa noite, ratinha. Preparada para a nossa grande noite?

— Daryl, — era a primeira vez que eu o chamava pelo nome. – não força a barra, tá legal! Você e eu casamos forçados e eu sei que sou um pagamento, mas vamos fazer disso aqui o menos odiável possível. Podemos ser amigos!

Ele sorri gostoso como se estivesse ouvindo uma coisa absurda.

— Você é engraçada, ratinha. Eu e você, amigos? Olha só minha cara de tédio para essa ideia ridícula sua. – Ele fez cara de nojo. – Relaxa garota, eu só estava brincando. – ele se levantou bruscamente da mesa. – Não a nada em você que realmente me dê vontade de fazer isto!

Eu estava perplexa com o que ele havia falado.

O segui com passos pesados.

— Escuta aqui senhor gostosão quem não quer nada em você sou eu! Você é abominável, arrogante, ignorante, asqueroso e frio! Principalmente frio!

Ele se vira com aquele sorriso de diversão.

— Ah é? Esse abominável, arrogante, ignorante, asqueroso e frio aqui, pode fazer você se arrepender profundamente dessas palavras, ratinha!

Lancei um olhar de “duvido” para ele e o mesmo lançou um olhar de “desafie-me”.

Ele foi caminhando em passos lentos em minha direção como se estivesse caçando uma presa.

Prensou-me contra uma pilastra.

— Ratinha, ratinha... – Ele sussurrava em meu ouvido. – O que eu faço com você? – Olhou em meus olhos e logo olhou para minha boca com malícia, muita malícia.

Aquilo me ascendeu e eu tive que suprimir o meu desejo de agarrá-lo.

— Afaste-se. – Falei como um sussurro.

— Você é somente um boneco maleável em minhas mãos. – Sua distância era perigosa. – E também muito medrosa como uma ratinha! – Seus lábios raspavam nos meus enquanto ele falava. Eu podia sentir a maciez de sua boca. Mas era frio, como um morto.

Eu queria desesperadamente sentir seus lábios nos meus e suas mãos em meu corpo.

Minha respiração estava pesada e ele sorria perante o feito.

— Você é tão fácil de agradar, não passa de qualquer uma que eu conheço por ai... Não me provoque novamente, ou eu machucarei você, e perder meu precioso tempo com algo insignificante é o que eu menos quero agora.

Ele saiu andando e se trancou em seu escritório.

Eu não tinha a mínima ideia do que acabara de acontecer. Meu coração saltava feito louco e minha imaginação ia longe.

Por mais que eu o achasse frio igual à morte e por mais que eu conseguisse apontar vários defeitos nele, eu desejei em meu íntimo que ele me tocasse e quem sabe até me fizesse sua.

Desorientada, fui andando até à mesa. Agora eu encarava o nada, pois minha cabeça tentava raciocinar o que tinha acontecido ali.

Sem muita vontade, comi um pouco para não desfazer do que as cozinheiras tinham feito para o jantar. Se fosse em outra ocasião eu realmente acharia aquilo divino.

Lentamente, subi as escadas, sempre me escorando no corrimão com medo de minhas pernas fraquejarem.

Entrei no quarto e troquei de roupa. Sentei-me na cama e fiquei esperando ele, mas sem sucesso. Horas e horas tinham passado e nada dele vir dormir. Até que o sono me venceu e lentamente meu corpo foi cedendo ao colchão macio.

XXX

O dia clareava e eu já estava acordada. Os lençóis do lado esquerdo de minha cama estavam intactos. Ele havia passado a noite em seu escritório, ou fora, talvez.

Um nó se formava em minha garganta: Não era assim que eu imaginava minha primeira noite de casada. Não era assim que eu imaginava a minha vida.

Doía ter sido usada como barganha e estar aqui nesse castelo decrépito com um homem carrancudo e me sentindo um nada.

Sem muita cerimônia, desci da maneira que estava: Shorts, blusa folgada e minhas pantufas de Pikachu.

Sim eu amo Pikachu.

Chego à cozinha e logo as empregadas se entreolham.

— Bom dia! – tentei soar o mais normal e alegre possível.

Elas somente curvaram a cabeça e foram tratar de suas coisas.

Sentei-me na cabeceira da grande mesa da sala de jantar e o café estava posto ali. O sentimento de solidão e abandono era evidente nesse castelo e agora eles já estavam fazendo efeito em mim: Abandonada e mal-amada.

Sem muito ânimo, tomei meu café da manhã lentamente sempre olhando para a porta do escritório com uma ponta de esperança de que Daryl viria tomar café comigo.

Suspiro alto e com o barulho do meu suspiro ouço risinhos. Fecho os olhos para concentrar-me em minha audição e o que ouço faz-me estremecer: Risinhos de mulher?

Rapidamente abro os olhos e começo a vasculhar os cômodos que meus olhos alcançam.

Ouço vozes e passos.

— Então Victória, acho que poderemos repetir nossa noite novamente, não acha?

Os passos param e eu congelo. Tento olhar para trás, mas, meu pescoço não me obedece, até que o mortal silencio é quebrado.

— Quem é essa, Daryl?

Finalmente consigo olhar para eles. Ambos exalavam uma noite intensa de sexo e o jeito que seus trajes e cabelos estavam só confirmava mais ainda.

— Ela é alguém insignificante que não vale a pena conhecer.

Levantei-me hostil, e encarei a mulher de cabelos negros.

Daryl me olha com desaprovação, como se falasse pelos olhos que não era para eu fazer aquilo.

— Eu sou Amelie Ulric, esposa do Daryl. – Tento olhar com desdém para ela. – E você?

Ela sorri gostoso, como se alguém lhe contasse absurdos.

— Você tá brincando, não é garota? Só existe uma mulher na vida do D – sim, ela o chama de “D” – e sou eu. Victoria Matiniz.

Mostro a grossa aliança em meu dedo e aponto para o dedo dele.

— Somos casados.

— E você é uma corna. – Ela afirma. – D, o que isso significa? Você não pode ser casado com essa idiota!

Ele dá um longo suspiro, como se quisesse juntar paciência.

— Victória, depois conversamos, por favor, vá para casa.

Ela faz um olhar emburrado e sai marchando para a porta.

O olho com dor e ele me devolve o olhar com desprezo.

— Você é idiota, não é garota?

— Não. – É tudo que eu consigo dizer.

Ele me analisa de cima abaixo.

— Sério que com essa roupinha ridícula você afirma ser minha esposa? – Ele dá uma gargalhada sinistra e eu me encolho.

— O que você fazia com aquela mulher?

— Deixa eu estabelecer uma coisa aqui, ratinho. Você é minha esposa no papel, somente isso e ela é minha mulher. M.U.L.H.E.R! – Ele sibila. – É com ela que passo minhas noites e é assim que irá continuar sendo.

— Mas você agora é casado, não pode fazer isso comigo!

Ele se aproxima e agarra meus punhos violentamente.

— Não interfira na minha vida, ou você irá pagar caro, muito caro. Eu não tenho nenhum interesse em um bichinho como você. Vamos fazer da nossa convivência pacífica: Eu finjo que não te conheço, e você faz o mesmo, capiche?

Ele dá as costas antes que eu possa responder e vai embora.

E eu fico desolada, arrasada, acabada e traída.