Cartas para um beija-flor

28 Carta 28 – Borderline


Notas iniciais
Já estamos na reta final ə.ə

15 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Quando eu era mais jovem, acreditava que tomar uma decisão racional estava fora do meu alcance. Minha mente era escrava das minhas emoções; domá-las não era uma opção. Cheguei a cogitar a possibilidade de estar desenvolvendo Transtorno de Personalidade Borderline. A desordem é caracterizada principalmente por instabilidade nos relacionamentos, emoções à flor da pele, sensação de vazio constante e medo desesperado do abandono. Há quem diga que Anakin Skywalker tinha esse transtorno. Mas será que eu também estou desse lado da força? Antes de revelar se tenho ou não Borderline, preciso contar uma parte essencial da minha história. Ela define fielmente quem eu sou hoje.

~*~

No ensino fundamental, apesar de ser uma das melhores alunas da sala, a diretora vivia me chamando na sala dela para "conversar". Ela insinuava que eu era "muito discrepante dos padrões da instituição". Em outras palavras, eu era esquisita. Enquanto as meninas eram vaidosas, eu não queria nem lavar o cabelo. Enquanto as meninas perdiam o BV, eu jogava online. Diziam que eu parecia um menino. Mas tudo bem. Eu nunca quis parecer uma menina de qualquer forma. Pra começar, se eu pudesse, nem me pareceria com um ser humano. Eu preferia me parecer com uma águia ou uma coruja, sei lá. Enquanto as meninas queriam ser lindas e magras para impressionar os meninos, eu só queria ter asas fortes como as de uma ave de rapina. Não ter asas é algo que me chateia até hoje. Se eu pudesse mudar qualquer coisa no meu corpo, eu faria crescer asas em mim.

Devaneios de sonhadora à parte, eu ainda era a "esquisita" da sala, aquela doidinha que ninguém queria por perto. As meninas que eu pensava serem minhas amigas começaram a fazer chacota de mim. Os meninos também. Todos me abandonaram e eu fiquei sozinha. Minha angústia cresceu e eu desenvolvi um quadro de depressão. Eu até criei um amigo imaginário na época, mesmo já tendo 14 anos na cara. Fiz isso para anestesiar a dor. Seu nome era Bob. Eu escrevia cartas para ele no meu diário, já que ninguém da vida real queria falar comigo. Diziam que eu era louca por falar com alguém que não existia, mas eu não me importava. Para mim, o Bob era mais real que todos os colegas de plástico à minha volta.

O que ninguém sabe até hoje é que eu cheguei a escrever uma carta de suicídio para o Bob.

Felizmente eu nunca tive coragem de tentar me matar. Mas eu ainda tenho a carta de suicídio escondida em minha gaveta até hoje. Mantenho-a aqui comigo para que eu nunca me esqueça do momento mais vulnerável da minha vida. Para que eu me dê conta de que eu não sou inabalável, ninguém é, e tudo bem não ser. Para que eu nunca despreze a existência de alguém como um dia desprezaram a minha, para que eu mantenha a minha humildade e entenda que, não importa quão longe eu chegue, eu não sei de tudo. Eu ainda tenho muito a aprender com as pessoas, das mais humildes às mais abastadas, das mais estudadas às analfabetas, das mais parecidas comigo às mais diferentes. Isso porque muitas vezes quem me estende a mão nas horas difíceis pode ser quem eu menos espero. Essa frase já ficou clichê, mas não custa repetir: "Ninguém solta a mão de ninguém".

A depressão me ensinou a nunca desprezar o sofrimento dos outros. Nunca. Por mais que pareça bobagem aos meus olhos, para a pessoa pode ser como atravessar o inferno.

~*~

Devido ao abandono que sofri dos meus colegas, acabei me tornando uma pessoa emocionalmente dependente. Eu me apegava a qualquer amigo que conseguia, carregava água na peneira por ele, depois ficava sofrendo quando esse amigo começava a se afastar de mim sem qualquer motivo aparente. Cada abandono me fazia sentir uma raiva imensa da humanidade, a ponto de eu passar a odiar da noite para o dia alguém que antes eu amava. Minha filosofia de extremos me atormentava tanto que eu acreditava ser Borderline. A minha psiquiatra não descartava a possibilidade, mas dizia que também podia ser só um período turbulento da adolescência, e que eu era jovem demais para fechar um diagnóstico de Borderline.

Prossegui com a terapia. Ao longo dos anos, fui tentando pôr a cabeça no lugar. Quando fiz dezoito anos, a psiquiatra chegou à conclusão de que eu realmente não era Borderline. Aos poucos ela foi diminuindo os remédios que eu tomava até eu não precisar de mais nada. Fiquei muito feliz quando recebi alta. Foi o melhor dia da minha vida! Você certamente se lembra disso, beija-flor. Nós namorávamos na época. Eu te dei a notícia, e você ficou muito feliz por mim. Tinha que ficar mesmo. Você me ajudou muito nesse processo. Nunca me esquecerei das longas horas que passou me escutando. Você é uma preciosidade!

~*~

Agora que terminamos, percebo que realmente não sou Borderline. Um Borderline jamais seria capaz de terminar de uma forma tão pacífica e sem mágoa como eu fiz. Fiquei tão feliz por mim mesma! Eu finalmente consegui domar as minhas emoções. Elas não são mais minhas donas, eu que sou a dona delas. Sou mais racional do que nunca. Estou particularmente orgulhosa de mim mesma nesse quesito. A partir de agora, quero sentir cada vez menos raiva das pessoas que um dia me decepcionaram. Em vez de culpá-las por terem me deixado, buscarei antes entender as suas razões para tal. Em vez de guardar rancor, buscarei aprender com a experiência. Acredito que esse seja o real sentido de crescer e amadurecer. É a linha imaginária que separa aquela adolescente angustiada de uma adulta bem resolvida.

Agradeço pelo rico aprendizado que me proporcionou, beija-flor. Você me ensinou o verdadeiro conceito de empatia.

Com amor,

Da sua eterna flor.

♡