10 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Essa noite tive outro pesadelo. Sonhei que minha família, você e eu viajaríamos para a praia numa excursão. Até aí, tudo perfeito. Infelizmente eu cantei vitória cedo demais. Quando entrei no ônibus da excursão, reservei um lugar para que você se sentasse ao meu lado. Porém, você tinha sumido do mapa. Estava quase na hora do ônibus partir e nada. Eu te mandei uma mensagem perguntando onde raios estava. Imaginei que diria que já estava a caminho, mas você simplesmente me respondeu friamente que não ia mais, que tinha outras coisas para fazer. Fiquei decepcionada. Pelo menos podia ter tido a decência de avisar antes, né?

O ônibus partiu sem você e eu me encolhi de tristeza ao ver o assento vago ao meu lado. Apoiei minha cabeça num ombro invisível, fingindo que era você. Eu sempre gosto de sentar na janela para observar a paisagem, ouvir uma música psicodélica enquanto conto as vaquinhas no pasto e coisa e tal. Mas no momento eu só queria fechar a cortina e não ver nada além do branco do meu vazio. Eu só queria jogar meus fones de ouvido fora, porque o único som que eu queria ouvir era o das minhas lágrimas caindo. A viagem havia perdido totalmente o sentido sem você.

Quando minha família e eu chegamos, fomos correndo direto para a praia, como bons mineiros deslumbrados que somos, haha. É certo que temos algumas das cachoeiras mais bonitas do Brasil, mas o mar é o mar, né? Desde que eu era criança, nutro um fascínio imenso pelo mar. Eu acreditava que se eu ficasse tempo suficiente dentro dele, viraria uma sereia. Por isso, nadava como uma louca em meio às ondas e me recusava a voltar pra areia. Houve até uma vez em que eu quase morri porque fui levada por uma forte correnteza e, por mais que eu soubesse nadar muito bem, não estava conseguindo sair do lugar. Felizmente um rapaz viu e me puxou pelo braço. Eu me lembro das feições dele até hoje por causa disso. Ele salvou a minha vida. Infelizmente eu estava tão apavorada que mal consegui balbuciar um "obrigada".

Hoje em dia é óbvio que eu não acredito que vou virar sereia se ficar muito tempo no mar. Mas que eu ainda fico no mar até meus dedos ficarem enrugados, ah, eu fico! Sou uma brincalhona, uma criança grande por natureza. Gosto daquele mar agitado que não me dá descanso. Quanto mais ondas, melhor! Você, pelo contrário, sempre me falava que não era lá muito fã de mar. Não sabia nadar e também tinha um pouco de medo das ondas, preferia ficar só no rasinho. Você também me dizia que tinha um baita medão irracional de baleias orca. Eu morria de rir disso. Você nasceu no estado do Rio de Janeiro e não gosta de mar? Que espécie de carioca você é?

Estereótipos à parte, no sonho eu estava até curtindo a praia, mas ainda olhando para trás, perguntando-me se você daria as caras em algum momento. Quem sabe você fosse aparecer de repente para me fazer uma surpresa. Quem sabe ainda tivéssemos tempo para apreciar lado a lado o pôr-do-sol, como manda o clichê. Ilusão minha. Procurei em todos os rostos da praia e nem sinal de você, nem um fio de cabelo sequer. Comprei um picolé e olhei para meus pais, triste da vida. O mar não me parecia mais tão convidativo quanto antes.

Quando acordei, liguei os pontos e cheguei a uma conclusão: esse sonho é uma metáfora para o que estamos vivendo agora. Eu te esperei, mas você desistiu. Tive esperanças de você voltar, mas você não voltou. Agora eu terei que seguir viagem... sozinha.

Quando você estiver no rasinho do mar, arrisque-se a ir um pouco mais para o fundo. É lá que os meus sentimentos residem. Eles se agitam e se enfurecem por você. Permita-me, uma última vez, derra(mar)-me toda em você.

Com amor,

Da sua eterna flor.

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