Cartas para um beija-flor
23 Carta 23 – Racional
11 novembro de 2018
Querido beija-flor,
Se você me mandasse uma mensagem agora pedindo para reatar, eu não aceitaria. Sei que alguns duvidam da minha afirmação, inclusive a minha mãe. É justo duvidar, posto que pouco tempo atrás tivemos uma ruptura e voltamos no dia seguinte. Todavia, a situação não é mais tão simples quanto antes. Não terminamos por causa de uma briga boba. Terminamos porque entendemos que o nosso relacionamento não tinha futuro.
Minha mãe acha um pouco estranho eu não ter raiva de você. Ela diz que isso é sinal de que um dia nós vamos acabar voltando. Não acredito nisso. Eu não preciso estar com ódio no coração para não querer mais. É apenas a decisão mais sensata a se tomar quando as coisas não vão bem. Nosso sonho de ficar junto só ficava cada vez mais distante, assemelhando-se à linha do horizonte. Não importava quão rápido corrêssemos, nós jamais alcançaríamos aquela linha. Sei bem que desistir de um sonho é sempre algo doloroso, mas em certas circunstâncias é o mais maduro a se fazer. Ambas as partes saem machucadas, mas hão de compreender que não houve culpados, apenas um acordo mútuo entre dois adultos.
Às vezes penso: terminar foi uma decisão tão racional que fico surpresa comigo mesma! Logo eu, que sou sempre levada pelas águas turbulentas da emoção, nunca me imaginei um dia concordando com uma coisa dessas! Acho até que mereço uma salva de palmas por ter criado bom senso. Afinal, eu sempre fui aquela pessoa que implorava por amor em qualquer situação, pois mais desagradável que fosse. Agora estou mais madura e entendo que só amor não é o suficiente. Existem outras variáveis envolvidas. É claro que amor é uma variável indispensável, mas segurança, estabilidade e planos concretos para o futuro também são. Querendo ou não, não é lá muito sensato apostar todas as suas fichas num jogo furado. Você sabe que vai perder. E usar os mesmos métodos esperando resultados diferentes não é lá muito inteligente.
Para exemplificar como eu já fui estúpida na adolescência, vou falar de um antigo amor meu. Certa vez eu gostei de um rapaz que era muito abusivo comigo. Ele sempre me escrevia textos muito românticos e dizia que me amava, depois sumia sem dar explicações, criava mentiras escabrosas, fazia parecer que a culpa de todas as nossas brigas era minha e ainda lascava na minha cara que não tínhamos compromisso. Eu, trouxa de carteirinha, acreditava que podia mudá-lo. Ledo engano. Ele era um dado marcado, não havia probabilidade de tirar dele o resultado que eu queria. Fugi do cassino em prantos, minh'alma vazia, emocionalmente falida.
Felizmente o meu beija-flor raramente me tratou dessa forma. Você só foi desagradável comigo algumas vezes, mas eu já fui desagradável com você também. O que importa é que sempre tentamos resolver todas as nossas desavenças com muito diálogo. Você nunca perdeu a paciência comigo a ponto de dizer coisas agressivas ou humilhantes, mesmo quando eu me inflamava durante as brigas. Pelo contrário, você me fazia refletir junto com você, a fim de tirarmos uma conclusão produtiva dos nossos desentendimentos.
Lembro-me do que você me disse na nossa última conversa: "Nunca deixe ninguém te tratar abaixo do que eu sempre te tratei". Foi também o seu último conselho. Pretendo me lembrar dele.
Com amor,
Da sua eterna flor.
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