Cartas para um beija-flor
21 Carta 21 – Questionamentos
9 de novembro de 2018
Querido beija-flor,
Quando ainda estávamos juntos, um lindo rapaz loiro da faculdade elogiou o Death Note que eu fiz à mão. Eu sorri para ele e me perguntei se aquilo era errado. Falar sobre Death Note com outro alguém me parecia tão surreal. O anime costumava ser uma parte do nosso universo particular, como se ninguém mais tivesse o direito de gostar. Não achava certo mostrar para outro cara o caderno que eu tinha feito, posto que você foi o primeiro a vê-lo. Eu sei, isso é tão sem nexo, mas parecia coerente na minha cabeça virada.
Por não poder vir aqui me ver, você temia que eu acabasse gostando de outro cara antes. Eu sempre descartei essa hipótese. Gostar de duas pessoas ao mesmo tempo drenaria completamente as minhas forças. Quando amo, amo com tanta intensidade que simplesmente não cabe outra pessoa. E se por ventura brotar um terceiro indivíduo do chão, como no caso do menino do Death Note, a culpa bate tanto que nem dou muita conversa pra ele. Eu detesto qualquer forma de traição, tanto que a minha consciência às vezes considera como traição até o que não é. Tomo essa precaução porque uma quebra grave de confiança é algo que não entra na minha cabeça. Se for para ter casos extraconjugais, não é mais fácil ficar solteiro?
Minha mãe às vezes brincava, dizia que eu podia paquerar à vontade, que namoro virtual não era pra ser levado a sério. Ela também dizia que você provavelmente ficava com outras garotas enquanto estava comigo, que homem não tinha essa de ser fiel a um relacionamento a distância. Eu abominava aquela forma de pensar. Você e eu firmamos um compromisso, verbalizamos isso. Meu dever era cumprir, e o seu também. Acredito que ambos tenhamos cumprido. E mesmo que você tivesse me traído, eu jamais devolveria na mesma moeda, apenas terminaria com você.
Agora que tudo acabou, estou me perguntando: existe traição pós-término? Digo isso porque ainda me sinto culpada quando dou confiança para rapazes bonitos. Hoje mesmo eu estava na padaria com a minha famílias e o caixa que nos atendeu era um rapazinho jovem. Eu olhei brevemente para o rosto delicado dele. Depois que fomos embora, minha mãe me disse: "Já tá fazendo a fila andar, hein?". Incrivelmente eu me senti um lixo só de ouvir aquilo. Fiquei me perguntando qual era o meu problema. De fato não é nenhum crime terminar um namoro, olhar para o lado e descobrir que outras pessoas interessantes existem. Então por que eu odeio tanto essa ideia?
Acho que isso acontece porque o término é recente. O compromisso acabou, mas ainda há resquícios dele em mim. A porta está aberta, mas quem disse que eu quero sair? Não gosto de fugir da realidade. Prefiro lidar com a dor da perda a ganhar um novo amor que só a curará por um vago espaço de instante. Eu acabaria magoando outras pessoas que nada têm a ver com o que houve entre nós. Eu poria nelas expectativas que não lhes caberiam, seria injusta com elas. E convenhamos, não precisamos de mais corações partidos nessa história.
Hoje é sexta-feira, eu poderia frequentar festas e te esquecer enquanto beijo outros. Contudo, a quem eu quero enganar? Há três objeções óbvias a essa sugestão: (1) eu odeio festas; (2) eu odeio beijar sem compromisso; e (3) odeio tentar curar um amor com outro. Sim, eu sou careta, sou a minha própria senhorinha de oitenta anos. Respeito e entendo quem se deita a cada semana com uma pessoa diferente, só acho que isso não é pra mim. Do jeito que eu sou trouxa, acabaria me apaixonando por alguém que nem se lembraria do meu nome no dia seguinte.
De qualquer forma, baladas nunca tiveram a mínima graça pra mim. Eu não bebo, não gosto das músicas que tocam, tenho poucos amigos e não sei ficar sem me apegar. Isso sem falar que quase sempre não tem lugar pra sentar, nem comida de verdade pra comer. Parece-me um desperdício de tempo e de maquiagem ir a qualquer festa que não seja aniversário de criança. Chame-me de antissocial, mas prefiro ficar em casa maratonando Death Note pela quinquagésima vez. Eu já sei todas as falas de cor, mas pelo menos sei que não vou me decepcionar.
Às vezes me pergunto: será que o motivo que me faz odiar baladas é o mesmo que me faz odiar a ideia de futuramente me arriscar no amor uma vez mais? Será que me acostumei à minha tediosa rotina e agora simplesmente não me apetece mudá-la? Espero que não. Não é do meu feitio fechar a minha mente, tampouco meu coração.
Com amor,
Da sua eterna flor.
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