Cartas para um beija-flor
20 Carta 20 – Oceano
9 de novembro de 2018
Querido beija-flor,
Hoje faz uma semana que terminamos. Parece que foi dois anos atrás. Não sei pra você, mas esse curto espaço de tempo passou se arrastando diante de mim. As coisas que me faziam sorrir já não são mais tão engraçadas quanto antes. O mundo perdeu parcialmente o seu brilho. Os cachorrinhos da rua abanam o rabo para mim e isso não me empolga, as rosas se desabrocham no quintal da minha mãe e eu não vejo mais tanta beleza nelas. É um pouco deprimente, mas tenho consciência de que isso é temporário, faz parte do meu processo de aceitação. Daqui a alguns meses, tudo vai se reestabelecer. Provavelmente vou voltar ao normal, não vou mais chorar por qualquer cena romântica de filme, nem vou fazer os ouvidos dos meus amigos de penico. É clichê dizer, mas eu vou seguir em frente.
Não sei como você está agora, não sei se conseguiu chorar ou não, não sei se já se recompôs. Mas espero que esteja melhor do que da última vez que conversamos. Lembro que você disse que tentou sair com o seu amigo para se distrair, mas acabou falando de mim todo o maldito tempo. Fiquei preocupada. Eu sempre vi em você um quadro de depressão, por mais que você negasse. Na semana anterior ao nosso término, você andava com conversas como: "Queria dormir pra sempre". Estava com medo de a nossa ruptura te deixar ainda mais deprimido. Peço que não se entristeça. Uma das últimas coisas que eu te disse foi para não perder a esperança. Você prometeu que não perderia. Espero que ao menos essa promessa você possa cumprir. Pense que a vida de nenhum de nós dois acaba aqui. Você é muito mais do que o nosso término, assim como eu também sou.
Talvez você também esteja se questionando se eu estou bem, se as coisas já se organizaram melhor na minha mente depois dessa semana. Bom, é certo que ainda está tudo uma bagunça aqui, mas aos poucos tudo há de se ajeitar, creio eu. No início, o quarto da minha alma parecia um furacão – e eu estava no olho dele. Mas agora ele é apenas um redemoinho incômodo que tira as minhas coisas do lugar e me obriga a sair da zona de conforto. Não há muito que eu possa fazer quanto a isso. Tenho mais é que me mexer e me ocupar até que o redemoinho vá embora e me deixe em paz. Vai levar um tempo, mas em breve meu quarto estará limpinho e organizado outra vez, ou pelo menos apresentável.
De qualquer forma, os caminhos que levam ao meu coração ficarão interditados por um tempo. Gosto de curtir a terra firme antes de zarpar para novas ilhas. Sou aquele náufrago que beija o chão quando retorna ao lugar onde nasceu. Voltar sem aviso prévio de uma viagem tão boa é sempre um banho de água fria, mas sou grata por estar em casa de novo.
Um dia eu estive mergulhada dos pés à cabeça em seu oceano, explorando a misteriosa fauna de suas águas abissais. Entretanto, minha reserva de oxigênio se esgotou. Eu nadei corrente acima e encontrei a superfície. Suas ondas dançantes me deixaram tão impressionada quanto desgastada. Engoli muita água e por pouco não me afoguei. Felizmente consegui retornar ao meu barquinho, prometendo ser mais cautelosa da próxima vez. Aventuras são boas, mas ninguém aguenta uma bateria de paixões. No momento, pretendo firmar minha âncora num lugar seguro, até que um bom motivo me leve a zarpar novamente.
Apesar dos percalços, apreciei o fugaz cruzeiro que fiz pelos seus cristalinos mares. Parafraseando Guimarães Rosa: "Todo abismo é navegável a barquinhos de papel".
Com amor,
Da sua eterna flor.
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