Cartas para um beija-flor
14 Carta 14 – Batom
6 de novembro de 2018
Querido beija-flor,
Estou acabada e destruída. Não consigo lidar com essa perda. Hoje furei a minha rotina de exercícios. Não consigo nem olhar para a minha bicicleta ergométrica. Caminhar pela universidade? Nem pensar. O que eu fiz foi me acabar na comilança. Como sou estúpida. Meu cérebro por acaso acha que posso compensar a sua ausência com pilhas de doces e salgados? Não importa quantos hambúrgueres, pirulitos, salgadinhos, docinhos, chupe-chupes e chocolates eu bote pra dentro: você não vai voltar. A única coisa que eu vou ganhar com a minha impetuosidade será um número a mais na balança.
No entanto, a lógica não funciona com um coração partido. Comi. Comi demais. Comi tudo o que vi pela frente. Comi tanto que as pessoas chegaram a me olhar com nojo. Comi tanto que eu mesma cheguei a olhar com nojo para a comida. A verdade é que eu nem estava com tanta fome assim. Eu só queria uma distração para fugir de você. Confesso que mastigar porcarias me acalma por alguns instantes. O problema é a culpa que vem depois que o lanche acaba. Isso só me faz ter que comer mais e mais pra entorpecer a culpa. E lá vou eu, nesse ciclo vicioso. Quanto mais comida, melhor. Quanto mais distante de você, melhor.
Nesse momento, a vontade de me autodestruir é imensa. A ficha está caindo e eu não estou conseguindo lidar. Quero comer até passar mal, quero comer até ter uma vertigem e vomitar na frente de todos, quem sabe até desmaiar. Não me interessa o que pensam. Se alguém me disser pra eu sair dessa vida, se me disser que comer demais faz mal, eu direi que não tem problema, pois a minha vida, por si só, já me faz mal. Destruir meu próprio ser é como tentar chutar o cachorro morto, não faz diferença nenhuma. A grosso modo, pior que tá não fica.
Às vezes sinto que a existência é um castigo.
Hoje olhei para o meu cabelo. Ele é liso, pretinho e longo. Você me disse uma vez que amava cabelos longos, logo eu o deixei crescer enquanto namorávamos. Agora que acabou, tenho vontade de pegar uma tesoura e cortá-lo bem curtinho, na altura da orelha, só para contrariar a sua preferência, só para não fazer mais o seu tipo. Tenho vontade de jogar fora todas as minhas peças de roupa vermelhas, tenho vontade de calejar as minhas mãos só porque você dizia que elas eram bonitas. Tenho vontade de usar o meu batom azul dia e noite, só porque você dizia que não gostava dele.
Tenho... tenho... tenho...
Não, não... Não posso. Eu não posso perder a sanidade. Fiz besteira hoje, mas não vou fazer de novo. Preciso cuidar de mim. Não é justo maltratar meu corpo só porque meu relacionamento acabou. Se for pra fazer isso, que mensagem estou mandando ao mundo? Que eu me alimento bem, faço exercícios, tomo banho, me penteio, me arrumo e me visto pra outra pessoa? Que faço isso pra um namorado e não pra mim mesma? Isso não me parece muito inteligente. Preciso me desvincular dessa ideia. Não é porque o beija-flor foi embora que meu jardim precisa morrer. Ainda há borboletas, abelhas e outros pássaros por perto. E eu não quero que eles vão embora. Sendo assim, deixar minhas flores morrerem é como me deixar morrer. E eu não vou fazer isso. Nem por você, nem por homem nenhum.
Mas numa coisa eu estou certa: tenho mais é que usar o meu batom azul noite e dia mesmo! Você que é besta por não enxergar quão bonita eu fico quando ele enfeita os meus lábios!
Com amor,
Da sua eterna flor.
♡
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