Cartas para um beija-flor

15 Carta 15 – Overdose


7 de novembro de 2018

Querido beija-flor,

Ufa, carta 15! Nem eu mesma imaginava que poderia haver tantas coisas para dizer sobre você. Mas vamos lá: o tema do dia é a canção "A Thing About You" do Roxette. Descobri essa música por acaso. Minha mãe coleciona CDs. Ela deve ter uns trezentos CDs! Um dia ela estava na banca de revistas comigo e viu que lá tinha também uma banquinha de CDs velhos, daqueles que ninguém nunca vai comprar, pois CD virou coisa do passado faz tempo. Ela se encantou por um CD do Roxette e decidiu levá-lo. Uau, foi a melhor coisa que ela fez! Todas as faixas são boas! O CD é excelente, tanto que me dá até vontade de roubá-lo pra mim!

Aliás, pense o que quiser, mas eu amo CDs. Eu sou da geração Spotify, mas odeio o Spotify. Nada como o cheiro de encarte novo! CD é vida!

A primeira faixa do CD do Roxette é "A Thing About You". Quando ela tocou, senti amor à primeira ouvida. É uma música singela e ao mesmo tempo inquietante. Não consigo explicar. É preciso ouvi-la para compreendê-la. Infelizmente, quando eu te mostrei essa música, você nem deu muita bola. Sempre fiquei chateada com isso. Você nunca sente as mesmas coisas que eu sinto quando escuta as músicas que eu escuto. Você nunca diz que elas são lindas e tocantes, não raro até diz que são ruins. Você só gosta de músicas paradonas e sem sal. Por mais que eu me esforce, nunca vou entender por que você gosta tanto da Tina Dico. As músicas dela parecem todas iguais.

"A Thing About You" é sobre um relacionamento que acabou. Mesmo assim, o casal ainda sente. Tanto o homem quanto a mulher têm uma coisa um sobre o outro. Eles não conseguem esquecer o que viveram. As cores da TV se foram e o mundo deles tem sido pintado com cores tristes. O teclado choroso embala os apelos tristes. Ambos querem voltar, querem pegar o telefone e discar o número um do outro. Mas por que isso não acontece?

Afinal de contas, o que nos roubou um do outro?

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A próxima faixa da nossa trajetória é "Quem de nós dois". Ah, como eu amo Ana Carolina! Pra mim, ela é a melhor cantora brasileira viva, não tem outra. Minha mãe também tem um CD dela, um CD que eu escuto no carro desde criança. Sempre gostei das músicas dela. Quando criança, "Garganta" e "Ela é bamba" eram as minhas preferidas, já que também eram as mais agitadas. Mas agora que estou mais velha, tenho nutrido um amor tardio pelas faixas mais românticas e tristes. "Quem de nós dois" é uma delas. Ana Carolina canta: "No vão das coisas que a gente disse, não cabe mais sermos somente amigos". Isso é sobre nós, não tem como não ser.

Eu sei tocar essa música no violão. Bom, sei em termos. Eu perco o tempo da música, saio do ritmo e canto fora do tom, mas dá pro gasto. Você sabe que nunca fui boa nisso. O lance é tirar os acordes, não importa como. Só sei que quando eu toco "Quem de nós dois", tudo o que eu sinto é um aperto no coração. É exatamente o que eu penso, sem tirar nem pôr. Pra mim, o verso mais forte é esse: "E quando finjo que esqueço, eu não esqueci nada". É isso mesmo. Eu posso tentar fingir pra você que estou bem, que podemos ser amigos. "Mas você conhece o meu sorriso, lê o meu olhar". É tudo mentira e você sabe disso.

"Não quero reviver nenhum passado, nem revirar um sentimento revirado". Mas parece que o mundo me puxa em sua direção. Eu me deparo com as lembranças e elas me escravizam, inevitavelmente me levam até você. Estou à beira de um colapso. Eu não bebo, ainda bem. Porque se eu bebesse, já teria te mandado um milhão de mensagens. Sóbria eu já tenho essa vontade, imagina se eu gostasse de álcool.

Você é a minha droga favorita. Se fosse para morrer de overdose, que fosse para morrer de tanto usar e abusar de você.

Com amor,

Da sua eterna flor.

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