Cartas para Derek
12 Sangue de soldado
Notas iniciais
18 de setembro de 2011
Derek
Kosovo? Uau. Eu não esperava por essa. Sério, realmente não esperava. Se bem que eu não sabia realmente o que esperar, né? Tipo, eu não sabia exatamente o que esperar, pois eu não fazia a mínima ideia de onde os Estados Unidos tem tropas — mentira.
Bom, eu pesquisei todos os lugares que eles têm tropas — e não só os lugares que a Wikipedia aponta, porque Wiki é pra amadores. Então eu sabia todos os lugares que você poderia estar — mas eu confesso que imaginei que talvez houvesse algum outro lugar escondido pra onde eles poderiam ter te mandado, afinal, a gente nunca sabe né?
Mas chega das minhas dúvidas. Ou melhor, chega das dúvidas sobre as dúvidas, porque eu tô maluco pra te perguntar mais sobre o Kosovo. Posso pedir? Bom eu vou pedir na mesma, então se tu quiser responder, responda, se não quiser, não responda. Bom, basicamente, faça o que quiser.
Tu fala alguma outra língua? Tipo, albanês ou coisa parecida? Vocês precisam saber falar outras línguas pra ir em missões do outro lado do mundo? Como que vocês chegam para conversar com o povo de lá? Eles aceitam os soldados? Não tem protestos ou qualquer coisa assim?
É estranho ficar longe de tudo em um lugar onde ninguém fala a mesma língua que a gente, onde a cultura é assim diferente. Pelo menos eu acredito que seja — não é que eu tenha saído daqui alguma vez para sentir essa diferença, mas eu lembro das histórias que a minha avó contava.
Eles se mudaram da Polônia por volta da segunda guerra. Bom, se mudaram não, eles fugiram de lá em 1942. Eles estavam em um gueto em Cracóvia.
Bom, posso contar essa história toda? Agora que eu comecei eu vou contar.
Meus bisavós se casaram na Polônia em 1938, e logo depois eles tiveram filhos. Quando criança, a minha avó foi praticamente mantida como uma refugiada pelos meus bisavós no gueto de Cracóvia, no bairro de Podgórze — que é um dos nomes que eu sempre lembro de escrever pois ela me ensinou a escrever em polonês.
Durante os primeiros anos do gueto eles moraram por lá, mas em 1942, quando eles começaram a transportar as pessoas para os campos de concentração, meus bisavós fugiram. Eles pegaram um transporte de lá até perto da fonteira, em Zakopane. De lá, eles caminharam por toda a Eslováquia, o que eram uns 125 km. Chegando na Hungria, eles conseguiram se encontrar com soldados americanos.
Um deles virou amigo da minha avó, naquela época com 3 anos apenas. Eu nem sei como, mas eles arrumaram um jeito de fugirem para os Estados Unidos, e fugiram. Eles foram os primeiros Stilinski na América.
Mas e aí a pergunta fica, se a minha avó era a Stilinski, como eu tenho esse sobrenome? Bom, eu tenho esse sobrenome porque um soldado esperou por quinze anos para casar com a menina que ele conheceu na Hungria quando ela era uma criança. Ele amava tanto ela, que quando eles casaram, ele adotou o sobrenome dela, pois ele sempre disse que ele viu aquela família sofrendo tanto, que ele se sentia abençoado por ter aquele sobrenome.
Muitas pessoas não gostaram daquela ação — afinal, um homem tomando o sobrenome de uma mulher? Inimaginável. Mas eles se casaram, tiveram o meu pai, e agora eu carrego essa herança. Minha avó costumava contar essa história muitas e muitas vezes.
E eu sempre ouvia.
É por isso que eu tenho tanto respeito por soldados.
E essa carta era pra ser sobre minha perguntas, mas acabou virando a história da minha família. Eu espero que tenha sido interessante o bastante.
Bom trabalho.
Do seu companheiro de cartas, que tem soldados no seu sangue,
Stiles
P.S.: que você fique sabendo que essa história é bastante importante pra mim, pois a minha avó sempre disse que para casar com alguém eu tinha que contar essa história pra minha amada — amado no meu caso — pra que eles soubessem de onde nós viemos.
Claro que, no nosso caso, não tem essa coisa de amados.
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“...minha avó sempre disse que para casar com alguém eu tinha que contar essa história pra minha amada — amado no meu caso…”
Quando Derek terminou de ler aquelas linhas, seu coração pulsava agitadamente dentro do peito. Stiles confidenciou a ele uma história do seu passado, uma história que ele nem imaginava a importância, especialmente considerando o tratamento que a avó dele dava para a história.
“...meu amado…”
Aquelas palavras nem eram as originais que estavam escritas na carta, mas os cérebro dele providenciou elas assim que Derek pensou na frase. E ele se sentia estranho em saber que ele queria que aquelas palavras fossem de verdade.
E, ele estava aterrorizado. Ele estava gostando de alguém. Ele estava gostando do Stiles.
E ele nem sabia que ele conseguiria gostar de outro homem. Ele só gostava.
E no momento em que ele pensou nas palavras, nada de ruim aconteceu — o mundo não terminou, ninguém veio à busca dele, nenhum desastre se abateu sobre Derek. E ele não sabia lidar com isso.
No momento em que ele fosse admitir que gostava de alguém, ele esperava que houvesse um sinal dos céus para impedir aquilo, para dizer que aquilo era errado.
Mas nada aconteceu.
Ele gostava de Stiles.
E só de pensar que ele iria contar aquela história para o amado dele, algum dia, Derek sentiu um aperto no coração.
“Claro que, no nosso caso, não tem essa coisa de amados.”
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24 de setembro de 2011
Stiles
Vamos ver as perguntas que eu posso responder?
Eu não falo albanês, mas eu entendo um pouco de sérvio — não que tenha sido de máxima ajuda, pois eu estou na parte do Kosovo que fala albanês. Porém eu tenho aprendido algumas frases.
Nós não somos obrigados a aprender outras línguas, mas iria ajudar se nós fôssemos.
Nós temos outros soldados que falam albanês e sérvio, e alguns outros dialetos, e eles acabam ajudando a gente por aqui.
O povo, no começo, não gostava muito da atenção das tropas — alguns ainda não gostam. Mas com o tempo nós conseguimos nos mostrar pra todos e eles aceitaram que nós estamos aqui para ajudar eles — mesmo que muitas vezes as forças políticas por trás de nós não pensem assim.
E sim, é difícil estar assim longe de casa. Mas eu tenho essas cartas, agora. Elas são uma boa lembrança de lá.
Muito bonita a história que você me contou, sobre sua família. Eu me sinto importante em saber dela — pois é uma história muito importante pra você.
E você tem razão em se sentir orgulhoso de ter sangue de soldado — nós tentamos ao máximo fazer o melhor para todos, e de saber que algum de nós teve a honra de manter uma família viva em meio à guerra e respeitar uma menina enquanto ela crescesse para depois se tornar o homem da vida dela, me faz sentir orgulho de ser quem sou.
Uma pena eu não ser o escolhido para ganhar essa história como herança.
Até a próxima carta.
Derek
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