Notas iniciais
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“Sim.” A voz do outro lado da linha falou e Stiles precisou apurar com calma o que aquela voz dizia. Ele estava nervoso, não conseguia se concentrar direito e o som era quase inaudível.

Ele respirou fundo.

“Eu sou Stiles. Eu…” Ele não sabia exatamente como continuar, então mordeu o lábio, pensando em como explicar o motivo de ele ter saído de Beacon Hills, conseguido o endereço de alguém que não queria ser encontrado, dirigir até São Francisco, conversar com esse alguém explicando o motivo de ele ter, em primeiro lugar, tido a ideia de ir até lá e tentar convencer a pessoa antes de ela chamar a polícia..

“Me desculpe, mas eu não sei se eu posso atender você…” Laura começou a falar. Stiles não conseguia perceber o que a voz dela expressava, mas ele percebia que ela tremulava indecisa.

“Não, não, eu só tô aqui porque eu sou amigo do Derek. Bom, na verdade, eu não sou amigo, mas eu meio que sou também. Eu não sei se eu posso ou não dizer que eu sou amigo dele. Enfim, eu só vim até aqui pois eu queria achar um jeito de conversar com ele outra vez. Pois eu era companheiro de cartas dele — eu enviava uma carta daqui e ele me enviava outra de volta. Nós nos conhecemos através de um projeto de cartas que o governo implantou e nós conversamos até novembro do ano passado e depois ele sofreu algum tipo de acidente que o impediu de continuar. E eu…”

Eu sinto falta dele?

Eu queria saber se ele ainda está vivo?

Queria que ele viesse me ver, me beijasse e dissesse que esperou por mim esse tempo todo?

Stiles respirou fundo, outra vez.

“E eu queria saber se existe uma forma de você me dizer como ele está, de você pelo menos conversar comigo um pouco, não precisa nem ser muito, eu apenas… Eu apenas queria saber como ele está…” A voz de Stiles falhou ao final, e ele precisou apertar os olhos e morder o lábio para não deixar as emoções escaparem dele na forma de lágrimas.

O silêncio do outro lado da linha era enervante. E desesperador. Parecia que segundos corriam como horas e o tempo quase parava enquanto Stiles ouvia a moça respirar, lentamente.

“Como você disse que se chama?” A voz tenra dela perguntou.

“Stiles.” Ele falou exalando ar e logo voltando a inalar e segurar ele nos pulmões. Os tremores percorriam o corpo dele.

“Derek nunca falou de você.”

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Derek nunca falou de você.

Ele nunca…

Nunca…

Nunca.

Nunca falou de mim.

Existem momentos na vida em que a gente não sabe se continua, se para e volta pra trás, se segue em frente, se desiste. A gente não sabe se joga tudo pro alto e grita a quem aparecer na frente, se a gente se arrepende de tudo que fez e simplesmente para de fazer.

Para de escolher, para de viver.

Eu diria que existe uma linha tênue entre escolher e viver — muitas vezes, um nada tem que ver com o outro, mas na maior parte do tempo, deixar de escolher transforma a sua vida em um torpor absoluto, em inércia. Deixar de escolher o deixa sem nada para fazer, sem nada a esperar.

Sem nada para ou por que viver.

Por isso que eu escolhi esse caminho, pois eu queria continuar vivendo, queria continuar aproveitando as minhas chances, continuar fazendo o que eu poderia fazer para conseguir o que mais quero.

E conseguir essa coisa pra mim.

Ou melhor, essa pessoa.

É óbvio que, no momento em que eu escolhi largar tudo e correr atrás dele, eu fiz uma escolha radical, eu não me deixei inerte, entorpecido, estagnado. Eu não me deixei ficar num lugar onde eu não queria sair nem ficar, num lugar onde não me importava mais nada.

Eu fiz a escolha de viver. Eu fiz a escolha de escolher antes de eu não ser escolhido.

O que eu fiz foi grande. Mas às vezes nem toda a grandeza que nós temos, que nós aplicamos, é grande o bastante para superar tudo. Muitas vezes nossa grandeza bate de frente com uma parede enorme — ou simplesmente com uma linha de interfone que não nos pode dar todas as respostas.

Ou nenhuma.

Existem vários tipo de linhas, que podem nos ligar ou nos afastar, nos levar a um novo lugar ou ficar em frente a nós e nos impedir de prosseguir. Existem linhas que nos alimentam, que nos dão forças e linhas que nos secam, que matam a gente pouco a pouco.

Mas se existe um tipo de linha que é mais letal e, ao mesmo tempo, mais perfeita do que as tênues, eu ainda não conheço.

Essas linhas são a distância mais próximo dos nossos desejos e o obstáculo mais difícil. São as formas de nós abraçarmos o mundo ou nos isolarmos dele. São as linhas que não podem te proteger contra alguma coisa, mas também não podem te impedir de chegar nela. São linhas de liberdade e perigo.

Liberdade para tentar, para dar mais um passo, para se jogar na vida, se dar a chance de amar e escolher alguém para si. Liberdade de chegar à algum lugar.

Perigo de não conseguir, de cair ao dar o primeiro passo, de tropeçar no meio do caminho, de se machucar e perder as pessoas que nós escolhemos para nós. Perigo de nunca chegar aonde queremos.

Eu dancei em volta dessa linha tênue quando me arrisquei indo até Laura.

Eu reuni as forças, dei minha cara à bater e fui em frente.

Eu cheguei até meu destino, cheguei muito mais longe do que eu imaginava que chegaria, fui aonde nem eu mesmo poderia acreditar.

Eu apostei que essa linha tênue estaria me separando da resposta.

Mas no fim, essa linha tênue estava só me separando do problema. Estava me separando de uma nova série de escolhas e um novo desafio.

Mas eu decidi que, se eu fosse chegar até a borda dessa linha, eu não iria parar.

Mesmo que eu estivesse lá sozinho, eu não iria desistir.

Meu pai não me criou até agora para desistir do que eu quero e de quem eu sou.

E se ele me ajudou até aqui, ele acredita em mim.

E eu acredito também.