Cartas para Derek
23 Arriscar, não arriscar
Notas iniciais
Excertos de um passado…
O telefone tocava. Derek se esticou na cama para alcançá-lo. Essa era a hora que Laura ligava para ele, quando ele não conseguia um tempo, ou vontade, para uma chamada com vídeo.
“Derek?” A voz dela, delicada, soou pelo telefone.
“Oi, Laura.”
“Oi, mano, tudo bem?”
“Sim. E você?”
“Levando, levando. Como que vai o trabalho por aí?”
“Do mesmo jeito de sempre.” Derek coçou a cabeça enquanto bocejava. “E você, como vai por aí?”
“Bom, ontem eu consegui andar por quase 15 minutos pela rua, com Isaac. Nós andamos pela Lombard Street, de manhã. Foi…” A voz dela era calma, receosa. “Foi… diferente.”
“Que bom, Laura, que bom. Eu fico feliz que tu tenha começado a sair de casa.” Derek suspirou. Ele ficava feliz pela irmã, depois de tanto tempo se recuperando de todos os problemas que ela tinha passado. E ele se sentia um pouco pior, por não estar junto com ela, mas Laura fez questão que ele seguisse com a vida dele.
“É… é complicado, sabe, mas eu tô indo aos poucos.” Ela disse.
“Bom, você tem que se acostumar em ir pra fora do apartamento, pois quando eu voltar pra São Francisco eu vou querer ir caminhar com você ao entardecer. E nós vamos começar a sair juntos.” Ele sorriu.
“Hum.” A voz dela não estava muito animada com o prospecto, mas Derek continuaria tentando.
“Laura, você sabe que esses passos nós teremos que fazer. Tem todas essas barreiras aí que nós temos que cruzar, algum dia. Se não agora, no futuro. Mas quando eu chegar aí, o que ainda vai demorar, eu vou poder te ajudar.”
“Tudo bem, Derek, eu sei.”
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O vídeo mostrava Laura sentada no sofá, sorrindo. Derek não via Laura sorrindo há muito tempo, e ele ficava feliz ao ver que ela, depois de todos esses anos, conseguia parecer feliz.
“Oi, Laura.” Ele disse acenando timidamente para ela.
“Feliz Aniversário, Derek!! E Feliz Natal!” Ela disse enquanto segurava um pequeno embrulho em uma mão e uma meia vermelha em outra. Derek sorriu.
“Obrigado, Laura. Obrigado, mesmo. E Feliz Natal pra você também!”
“Então, como é se sentir com 23 aninhos? Alguma ruga nova?” Laura perguntou, num humor muito melhor do que Derek estava acostumado a ver. Derek sabia que Laura sempre gostou do Natal, ainda mais por que era aniversário dele também, e ela sempre gostou de aniversários.
“Não sei, acabei de completar 23, Laura. Mas provavelmente se eu sorrir demais eu vou começar a criar rugas no rosto.”
Laura sorriu. Derek sorriu de volta. Danem-se as rugas.
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O enfermeiro de Laura, Isaac, disse que ela estava bem, mas não queria ligar pra ele. Ela era assim às vezes. Derek entendia.
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“Derek você precisa encontrar alguém!” Ela disse, mãos ao alto e parecendo aborrecida. Mas só parecia mesmo — a cara até convencia, mas a voz baixinha não combinava com o humor. Derek não conseguia se acostumar com a voz de Laura daquele jeito.
Bom, pelo menos ele ainda não tinha se acostumado.
Mas a voz era um preço baixo a pagar por tudo que aconteceu.
“Você tem que encontrar alguém, Laura.” Derek fez uma careta enquanto falava. Ela suspirou.
“Você sabe, e eu já disse isso umas mil vezes, que eu vou viver solteira pra sempre. Eu te falei como um não me interesso “naquilo” e é difícil encontrar pessoas que queiram um relacionamento com alguém que não… você sabe.” Laura se fechou um pouco ao falar. Derek sabia que Laura sempre mostrou essa tendência à assexualidade — mesmo que ela sempre tenha gostado de interferir na vida pessoal dele, a vida dela era outra coisa.
“Eu sei, eu sei. Mas nada te impede de tentar alguma coisa. Amizade, pelo menos.”
“Eu…” Ela suspirou. “Eu estou indo com calma. Outro dia eu conversei com Mary, a vizinha da frente. Nós tivemos aí uns minutos de papo e depois eu andei pela rua. Foi uma nova experiência pra mim. Mas ainda é difícil…” Ela fechou os olhos. “Eu tenho Isaac, mas ele já é quase família.”
“Eu sei, Laura.” Ele falou e esperou ela olhar para ele através da tela do computador. “Eu estou feliz que tu tenha aceitado Isaac, e falado com Mary. E eu estou sempre do teu lado, então, não se preocupe demais.”
“Eu sei, Derek.” Ela falou e abriu um pequeno sorriso. “Mas você não respondeu a minha pergunta.”
Ele grunhiu, incomodado pela pergunta, mas sorriu, do mesmo jeito.
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Laura ficou três semanas sem ligar pra ele. Ele não pressionou. Ela precisava do tempo dela, e sempre havia Isaac pra cuidar de Laura.
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“E aí, já conheceu o amor da tua vida, no último dia dos namorados?” Laura sabia das escapadas dele para a Itália durante o dia de São Valentim, e ela sabia a natureza delas. Derek rolou os olhos.
“Se você considerar o dia que nós passamos como uma vida, talvez.” Ela riu com a resposta dele.
“Você tá ficando bastante grandinho pra só escapar com umas mulheres aí durante um dia do ano.”
“Eu ia falar a mesma coisa pra você, Laura.” Ela fez uma careta.
“Mas sério, Derek, não tem nada? Nem uma amiga nova? Alguma coisa mais séria? Talvez um amigo?”
“Não, Laura. Nem amiga e nem amigo. E como…” Ele ia perguntar como ela descobriu que ele era… Daquele jeito, mas ela acabou respondendo antes de ele tentar falar.
“Nem me vem com essa história, Derek. Eu sei que você gosta de meninos também desde o dia em que eu te vi no desfile militar com seus colegas e depois que nós nos reunimos com as famílias, você ficava olhando para aquele teu amigo, negão, altão? Como era o nome dele?” Laura falava consigo mesma. Derek rolou os olhos, de novo.
“Boyd.”
“Esse mesmo. Lindo homem, mas ele nem olhava pra você.”
“Ele não gosta de homens.”
“Pobre Derek. E depois dele, mais nada? Tá cheio de homens por aí, suados e musculosos…”
“Eu não misturo prazer com trabalho…”
“Mas eu tenho certeza que muitos deles adorariam fazer isso aí. Ainda mais contigo, eu sei que tu é meu irmão, mas bem construído você é também.”
Derek sacudiu a cabeça e sorriu.
Ele adorava esses dias bem humorados de Laura.
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Mais quatro semanas sem se comunicar com ela, mas Isaac sempre avisava Derek sobre o estado dela.
Às vezes ele sentia ciúmes de Isaac, o garoto era mais próximo de Laura do que ele.
Bom, ele passava mais tempo com ela do que Derek…
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“E esse sorriso no teu rosto?” Ela perguntou. Derek tentou controlar os lábios dele, mas eles escapavam e se armavam em um sorriso de novo.
“Nada, nada.”
“Derek, não minta pra mim, tem alguma coisa ali.” Ela perguntou de novo.
“Não tem nada. Laura, eu não estou mentindo.”
Mas ele estava.
Pela primeira vez, em muito tempo, ele estava.
Ele só não queria contar pra ela sobre Stiles.
Ainda.
Ele não queria criar mais uma esperança pra ela só pra depois essa esperança ser massacrada, outra vez. E ela se preocupava tanto com Derek, que ele não queria que ela se preocupasse ainda mais.
Depois que os pais deles morreram, ela assumiu Derek praticamente como um filho. E ela quase criou ele. Eles enfrentaram maus bocados e muitas dificuldades para seguir em frente.
E eles tentaram.
Nessa mesma época, porém, numa noite em que andava sozinha pela rua, Laura foi assaltada e abusada. ela foi atendida por médicos e psicólogos e se recuperou do susto. Aparentemente. Ela tentou esconder de Derek todas as coisas que ela sentia, mas ele percebeu que ela estava doente. Ainda.
Ela piorava aos poucos. Um pouco cada dia. O olhar mais escuro, a boca mais fechada, o rosto mais inexpressivo.
Derek decidiu agir. E ele agiu. Mas quase foi tarde demais.
Ele conseguiu tirar a corda do pescoço dela antes que ela terminasse o serviço. Ele conseguiu salvar ela. Ele conseguiu fazer ela viver — tudo isso quando ele ainda tinha dezessete anos, logo antes de ele tentar o exército, o sonho dele.
A voz ficou como uma cicatriz profunda e para sempre. Mas foi a única que ficou.
Ela ganhou um enfermeiro, para acompanhar ela sempre.Mas ela, em meio à tudo aqui, obrigou Derek a virar um soldado, mesmo assim. Ela queria. Disse que eles iriam usar o dinheiro da herança para curar ela e ele iria seguir o sonho dele, um pedido estrito dela.
Um pedido que ela fez á ele com os olhos cheios d’água.
E ele aceitou.
Assim eles seguiram a vida. Cada um de um lado do mundo. Ela com muitos médicos, psicólogos e tratamentos. Ele lutando, atirando e salvando vidas.
Eles eram a família mais desconjuntada e diferente do mundo, mas era o jeito que eles acharam para seguir a vida.
Derek demorou para deixar de se culpar, mas ele aprendeu a viver com os desejos e escolhar dela, e Laura voltou, aos poucos, do lugar fundo onde estava.
Mas ela demorou para voltar e sofreu no caminho. Por isso Derek não estava disposto a apostar em alguma coisa nova que poderia machucar ela, o que era uma coisa que ele jamais aceitaria.
Ele não achava, de verdade, que Stiles fosse machucar ela. Se ele encontrou um jeito para entrar na vida de Derek, ele poderia fazer qualquer outra pessoa gostar dele.
Afinal de tudo, ele era Stiles.
Mas Derek não iria arriscar a felicidade dela, mesmo que ele tivesse que arriscar a dele...
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