Cartas para Derek
21 Eu não criei perdedores, Derek
Notas iniciais
Excertos de um diário...
29 de Maio de 2012
Kosovo, aqui estou de volta.
O lugar parece exatamente o mesmo, desde os dia em que eu saí daqui.
Os conflitos com os locais já estão mais controlados, nós temos tido menos baixas nas tropas e menos feridos — parece que o povo finalmente começou a entender que, mesmo que a mentalidade dos que pagam nossos salários não seja a mais convicta quanto à sobrevivência desse país, nós, soldados, damos a nossa vida pelo bem deles.
Camp Bondsteel continua como sempre, cheio de homens indo para lá e pra cá, cheio de carros entrando e saindo. Movimento que eu senti falta durante minha estadia na França. Não que eu não tivesse gostado de visitar Paris — que eu acabei por aprender a gostar ao ouvir as palavras de Erica, mas eu senti falta daqui.
Aqui é meu lugar.
Eu implorei para o meu sargento e todos os outros comandantes que vieram pedir de mim em Paris, para que eu tivesse a chance de voltar para o trabalho, voltar a minha base, meu uniforme, meus colegas e minha missão — e só voltar para casa na data em que ela estava marcada para terminar.
Eu sei que eu não vou poder mais ir para o campo — pelo menos não para defender ninguém — não sei se algum dia vou voltar a segurar uma arma ou se vou conseguir correr, mas eu jurei que nessa minha última missão eu daria tudo de mim, daria meu sangue e suor e aguentaria até o fim, até eu sentir que eu venci ela, sentir que eu não parei pelo meio do caminho.
Eu não vou deixar nada para trás, não fui criado para fazer isso, não fui ensinado para fazer assim. Eu cresci aprendendo que nós podemos cair, podemos nos machucar, mas a única coisa que pode nos parar somos nós mesmos.
E eu não vou parar.
Nunca.
Derek
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30 de Maio de 2012
Hoje eles fizeram uma festa para minha chegada aqui. Cervejas e comida para todos.
Eu fico alegre que tantos deles sentiram a minha falta — não que eu necessariamente precise que as pessoas sintam a minha falta — mas foi bom, pra variar, sentir que as pessoas gostam de mim, sentir que eu tenho um lugar especial na vida delas, assim como todos esses homens, esses soldados, tem na minha vida.
Às vezes eu sinto que eu sou um tanto frustrante para se conviver — principalmente porque eu sou bastante depreciativo quando à mim mesmo, uma coisa que Laura fala sempre — mas não é só porque eu sofri um acidente e fiquei num hospital por um bom tempo que algum evento catártico iria acontecer e me mudar.
Não que, de alguma forma, esse evento não tenha acontecido.
Mas eu acho que foi ainda antes do acidente.
E esse evento se chama…
Se chama…
Eu não consigo dizer. Ou melhor, não consigo escrever. Eu não consigo. Eu sinto falta dele, eu sinto falta de conversar com ele, de ouvir sobre a vida dele e saber quem ele é, o que pensa de mim.
O que pensa de nós.
Eu nem conheço ele, não sei como ele é, mas a ideia dele, a imagem criada pela minha cabeça pra suprir a falta de uma coisa real, a ilusão dele, é uma coisa que não sai de mim, que é parte do meu dia, que sempre tá na minha mente.
E eu não sei como é possível eu continuar pensando nele, continuar imaginando isso, colocando meus pensamentos e ideias em torno dele como se ele estivesse esperando por mim, de braços abertos, sorriso no rosto e dizendo que me ama.
Dizendo que me…
Eu, simplesmente, nem sei de onde vem tudo isso. Há um bom tempo eu não me sentia tão fora da minha própria cabeça e quanto mais eu tento voltar, quanto mais eu tento entender o que se passa comigo, menos eu consigo.
E ele é quase como uma parte de mim. Uma parte que eu não sabia que tinha e só descobri que fazia falta quando eu o perdi.
Eu só não sei como eu perdi uma coisa que nunca foi minha.
Eu só queria a minha vida normal de volta, as coisas que eu fazia, minha rotina, meus próprios desafios diários. Eu não quero mais sentir essa falta de uma coisa que eu nunca tive, esse buraco dentro de mim que nunca se completa, que sempre me estranha, faz tudo ficar mais difícil.
Eu só queria que o tempo voltasse.
Mas eu queria ter a imagem dele dentro de mim.
E eu continuo querendo.
Derek
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31 de maio de 2012
Sinto falta de Laura.
Ela sempre estaria aqui, me enchendo o saco, mas me obrigando a seguir a vida, me fazendo olhar pra frente e ver que a vida continua, que nada está acabado, ainda.
Mas eu simplesmente não consigo juntar as forças pra isso.
Pelo menos não ainda.
Eu tentei convencer ela de que eu estou bem, pelo telefone, mas eu não sei se ela acreditou em mim.
Ela disse que eu precisava arranjar um amigo pra conversar.
Eu só não tive coragem de dizer pra ela que eu tinha um e eu perdi.
Eu não tive nem coragem de dizer pra ela que eu quase tive a chance de ter alguma coisa mais importante com alguém, depois de tanto tempo de uma vida sem tanta importância.
Mas eu não consegui.
Derek
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1 de junho de 2012
Hoje eu comecei no trabalho que eu vou fazer pelos próximos meses.
Um escritório.
Depois de todo o treinamento que eu tive, depois de tudo que eu tive que aprender, de tantas coisas que eu me arrisquei, agora, eu vou ficar sentado em um dos escritórios.
Não que eu não goste de fazer isso — mas eu realmente não gosto tanto quanto ser um soldado. Mesmo assim, eu tenho que agradecer a todos que me ajudaram a vir pra cá, me deram um chance de continuar.
Laura veio me ver algumas vezes durante todo o período da recuperação, e ela me disse que ela já estava orgulhosa de mim, e que meus pais sempre teriam orgulho de quem eu era, e ela disse que não haveria problema algum em eu voltar pra casa antes. Mas eu não consegui.
Eu juro que pensei nisso, eu queria ficar com ela, fazer companhia e ajudar a minha irmã, mas, dentro do meu coração, eu sempre tive as últimas palavras que meu pai me disse, as palavras que eu sempre segui na minha vida, e aquelas que sempre me machucam toda vez que eu penso nelas.
Nunca desista no meio do caminho. Todos perdemos batalhas, todos nos ferimos, mas nunca seremos perdedores enquanto não desistirmos.
E eu não criei perdedores, Derek.
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