Cartas para Derek
24 Quase-amigos
Notas iniciais
“Eu…” As palavras de Laura foram um balde de água fria em Stiles. Laura não fazia ideia de quem ele era. Derek não havia sequer falado sobre o nome dele, ou que eles eram possíveis amigos.
Quase-amigos.
Ele também não iria culpar Derek por não ter contado nada a ela, pois no final, a escolha era dele, mas isso não impedia ele de se sentir machucado. De se sentir menos importante.
“Stiles, certo?” Laura perguntou, do outro lado da linha. Stiles voltou seu pensamento para a voz falando com ele.
“Sim?”
“Eu não sei se eu devo falar com você. Eu não sei nem se você não está mentindo…” Antes mesmo de ela continuar, ele interrompeu.
“Não, eu não estou mentindo.”
“Okay.” Ela respirou fundo. “Eu acho que…” Ela suspirou. “Eu acho que eu posso tentar falar com você.” Ela falou calmamente.
“Sério?” Stiles perguntou, afobado e excitado.
“Eu acho que sim.” Ela falou, incerta, mas confirmou.
“Eu juro que eu não sou um serial killer ou um ladrão ou coisa parecida, mesmo que se eu fosse um, provavelmente iria mentir sobre meu histórico, mas eu juro que não quero fazer nada de mal com você e só quero conversar e só quero saber de Derek, e eu acho que… eu vou parar de falar.” Stiles mordeu o lábio, tentando controlar a insaciável vontade de deixar as palavras rolarem da boca dele.
Do outro lado da linha, ele conseguiu ouvir uma risada, baixinha, só o ar exalado em forma de um gargalhada silenciosa, mas estava lá.
“Stiles?” Ela perguntou.
“Sim, Laura? Me desculpa eu ter falado demais antes, eu só não consigo me controlar quando eu estou nervoso, aí a minha língua solta…”
“Stiles?” Ela interrompeu ele, de novo.
“Sim.” Ele respondeu e mordeu o lábio para se controlar.
“Se você me esperar um pouco, eu vou descer aí falar com você.”
“Sim, sim, eu espero.”
“15 minutos.” Ela disse
–-------------------------------------------------------------------------------
Laura desligou o interfone e se encostou à parede, esperando a onda de ansiedade e medo que iria atacar ela. Ela ficou contando os batimentos do coração e o ouvindo o ar entrar e sair do nariz dela. Ela fechou os olhos.
Há tempos ela não decidia fazer uma coisa no impulso, alguma coisa rápida, sem pensar, sem entender a própria vontade, só pelo momentum da ação, só pelo prazer de se libertar.
Se libertar.
Ela não sabia mais o que era aquilo.
Um minuto.
As mãos não tremiam, as pernas estavam firmes. O coração não corria adoidado e nenhuma parte dela sentia a vontade de correr e fugir. Ela não sentia a necessidade de se esconder, e mesmo que a escolha de sair de casa não a excitasse tanto assim, a ideia não a amedrontava.
O que era quase a mesma coisa.
Dois minutos.
O ar continuava a sair calmamente do pulmão dela e o coração ainda não havia parado. Nada de ruim tinha acontecido ainda, mas Laura continuava esperando e esperando pelo momento em que tudo iria piorar.
Mas o momento não veio.
Três minutos.
Quando ela abriu os olhos e viu que o mundo continuava no mesmo lugar, que não havia nada para se preocupar, um sorriso, tímido, apareceu nos lábios dela.
Ela iria fazer isso.
Ela iria sair, iria conversar com um estranho. Ela iria se libertar de si mesma.
–-------------------------------------------------------------------------------------------------
Stiles contava dezessete minutos no seu telefone, mas ele não iria tocar o interfone de novo, mesmo que ele estivesse morrendo para fazer isso desde o minuto dois. Ele respirou fundo, e olhou para a rua, mais uma vez.
Ele conseguia ver os carros passando, as pessoas andando, os sons da cidade invadindo os ouvidos dele e, ao longe, o azul do mar completando a paisagem.
Ele ouviu um barulho atrás dele. A porta do prédio se abriu.
Uma mulher não muito alta, morena, apareceu na porta, vestindo um vestido florido, até os joelhos, e uma jaqueta jeans por cima. Botas nos pés.
Stiles olhou para ela e ela olhava para ele.
“Stiles?” Ela perguntou.
“Laura.” Ela sorriu, timidamente e ele sorriu de volta. “Eu não sei exatamente como a gente se cumprimenta aqui, mas eu acho que um aperto de mão pode ser interessante?” Ele perguntou para si mesmo ao estender a mão. Ela pegou, apertou calmamente.
“Muito prazer.” Ela disse, voz um pouco cortada.
“O prazer é todo meu. É… é legal conhecer você finalmente.” Stiles disse.
“Finalmente?” Ela perguntou.
“Bom, como Derek não lhe disse nada sobre o projeto que nós fizermos juntos, você nunca ficou sabendo que eu e ele conversávamos, mas ele me falou sobre você. Você é importante pra ele.” Stiles disse, olhando para ela.
Laura ficou com as bochechas levemente ruborizadas, mas o sorriso ainda brincava nos lábios dela.
“É?” Ela pergutou.
“Sim, ele falou bastante de você.”
“Ele… Ele é importante pra mim também.” Stiles sorriu ao ouvir ela falando. Ele sabia que Laura tinha passado por uns maus bocados no passado, mas Derek nunca falou exatamente, por isso era tão complicado saber a coisa exata para fazer naquele momento.
“Então, hum…” Stiles limpou a garganta. “Eu queria saber como que o Derek tá? Eu falei com ele faz tempo e…” Stiles parou de falar e olhou para ela.
“Ele está bem. Ele sofreu bastante com o ataque que e…”
“Ataque?” Stiles perguntou, assustado.
“Hum, eles não te contaram?”
“Não…” A voz de Stiles ficou pequena.
“Uma granada caseira explodiu perto dele, e eu acho que ela era misturada com outras coisas, pois ele foi lançado longe. Ele se machucou bastante. Ficou meses num hospital em Paris, mas agora ele voltou ao Kosovo.” Na hora que ela falou, Laura já mordeu o lábio, indecisa sobre o quanto ela poderia falar.
“Eu… eu não sabia de nada. Eles só me falaram que ele não poderia mais continuar conversando comigo. E…” Stiles suspirou.
“Ele está bem agora. Não pode mais lutar no campo, mas os capitães deram uma ajuda pra ele continuar lá até o fim da missão dele, fazendo alguns trabalhos de escritório.”
“Mas e por que ele não veio pra cá?” Stiles perguntou.
“Ele não queria.” Laura falou, pensativa. Stiles olhou para ela procurando mais respostas. Ela suspirou. “Ele sempre quis finalizar essa missão pois ele disse que seria a última. E depois que nossos pais morreram ele sempre ficou com essas palavras do nosso pai na cabeça dele de que ele não poderia desistir de nada. Eu não vou fazer ele voltar pra cá contra a vontade dele.”
“Uhum.” Stiles assentiu com a cabeça. “Faz sentido.”
Eles ficaram um tempo em silêncio. Os olhares se cruzavam, mas nenhum sabia o que falar.
Laura decidiu quebrar o momento.
“E por que você está aqui?”
“Eu… bem.” Ele pigarreou e, logo, suspirou. “Eu, hum, eu e Derek ficamos meio amigos nesse tempo que nós nos comunicamos e tudo mais, e quando ele parou com as cartas eu fiquei preocupado e queria saber como ele tava. Sabe, meio amigos e tudo mais, a gente se preocupa com os outros, e eu só queria saber como ele estava, tipo, descargo de consciência, mas eu já não conseguia mais contato com ele, e isso foi há mais de seis meses atrás e eu demorei um tempo pra achar um jeito de falar com ele, mas como, no fim, eu não consegui me comunicar com ele, eu pedi pro meu pai, que é Xerife, pra ele falar com algumas pessoas importantes pra eu conseguir o seu endereço, que é a única família que Derek tem, pra mim conseguir falar contigo e saber como que ele estava. Tipo, só pra saber se ele tava bem, como quase-amigos fazem com quase-amigos. Não que nós não sejamos amigos ou sejamos melhores amigos ou tudo mais, eu só…” Stiles parou quando Laura levantou a mão à frente dele.
“Quase-amigos, e você fez tudo isso pra saber sobre meu irmão?” Ela perguntou, humor tingindo a voz.
“Hum, sim?” Stiles disse, franzindo a testa. Laura sorriu.
“Então, vamos, nós também, virar quase amigos, daí eu posso te contar tudo sobre Derek,pode ser?” Ela perguntou para Stiles, voz debatendo entre animação e timidez.
Stiles sorriu.
“Eu sempre gosto de uns novos quase-amigos.”
Fale com o autor