Cartas para Derek
10 Ao se abrir uma porta, eu saio do armário para você
Notas iniciais
14 de agosto de 2011
Derek
Heey!
Eu vi que tu achou que eu e a Lydia fomos juntos como um casal — e eu confesso que ri um monte ao pensar naquilo. Sério, nós não somos um casal, nunca fomos, nunca vamos ser. Eu não queria dizer isso pra você, não que eu tenha vergonha ou coisa parecida, mas geralmente eu não saio por aí falando para as pessoas sobre as minhas escolhas sexuais e tal.
Eu sou gay.
E eu espero que, eu falando isso, você não pare de me mandar cartas. Por que isso seria bastante boboca e preconceituoso. E eu achei que você não seria um desses. Quer dizer, eu acho que não, pelo menos. Tipo, eu acho que você não precisa achar qualquer coisa ou não achar qualquer coisa sobre mim, mas sim me respeitar. Eu tenho um bom orgulho de ser o que eu sou.
E eu sou o tal do “amigo gay” da Lydia. A gente só foi junto, tipo um casal, porque nossos pais não nos deixariam ir sozinhos. Mas nós não somos um casal. Nem de longe — mesmo que nós tenhamos tentado alguns beijos uma vez, que terminou comigo quase tendo um troço. Não que eu ache errado beijar garotas — pois não é. Eu tenho certeza que você deve ter beijado muitas garotas.
Assumindo que existam muitas delas que tenham alguma fantasia com soldados.
O que é totalmente normal — eu também tenho fantasias. E deve ter um montão delas que sonham em ficar o soldado valente e toda aquela coisa. Eu, talvez, tenha ou não essa fantasia.
Mas vamos pular esse papo sobre as minha fantasias?
Eu queria falar sobre a viagem.
Foi ótima. Eu me diverti bastante — mesmo que tenha segurado vela por várias vezes. Mas eu e a Lydia resolvemos sair juntos por Jenner pra ignorar Allison e Scott se agarrando várias e várias e várias vezes. E quando eu digo várias, eu quero dizer: manhã cedo, meia manhã, beijo pré-almoço, beijo pós-almoço (assumindo que eles não ficaram se agarrando durante), agarração da tarde, agarração pós tarde, e depois o pré noite. E aí tinha a parte da noite que era variada.
Mas nós conseguimos fugir deles.
E numa dessas fugidas — ou fugas? Não sei — nós achamos a sua casa.
Ou pelo menos eu acho que sim. Ela tinha uma plaquinha com o sobrenome de vocês, era uma das casas mais sozinhas na Shoreline Highway, azul com uma porta vermelho escuro, pequeno jardinzinho na frente, cerquinha separando o pátio da rua, os fundos dando direto no Russian River.
Uma casa muito bonitinha. Eu acho que vocês devem ter passado bons dias por lá. Eu, quando vi a casa, imaginei minha família lá. Sério. Eu imaginei nós tendo um dia naquele pequeno recanto, juntos mais uma vez.
Eu senti uma saudade da minha mãe quando tive aquela imagens se pintando na minha cabeça.
E, de novo, nossas cartas viram emocionais. Ou melhor, as minhas cartas.
Eu acho que eu deveria tentar ser mais engraçado, afinal eu disse que ia te fazer rir, mas às vezes eu falho.Vou tentar mais na próxima vez.
E como eu joguei aquela pequena bomba antes — não que gostar de garotos seja uma bomba e tal, mas… — eu espero que nós possamos continuar conversando. Pelo menos até eu terminar o ano.
Até mais e bom trabalho!
Do seu companheiro de cartas — que espera continuar sendo um companheiro de cartas por pelo menos mais cinco meses,
Stiles
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Derek terminara de ler a carta e um pequeno sorriso pintava nos seu lábios. Ele sorria para Stiles, aquele garoto que, mesmo não querendo, o fazia rir. Mesmo quando ele se abria, tão inesperadamente, jogando seus sentimentos mais íntimos pra fora — ou melhor, pra dentro do papel — ele era incrível.
Cada palavra tinha sua personalidade própria, cada frase se encadeando para formar o fluxo da voz dele — que Derek não conhecia, mas vivia imaginando. Ele nem sabia como era o garoto, como era a cara dele e como ele se vestia, não sabia se ele falava a verdade sobre todas as coisas que apareciam nas cartas ou se ela era um completo maluco.
Ele simplesmente não sabia nada sobre ele — pelo menos não mais do que o pouco que as cartas proviam.
Nada disso o impedia de gostar dele.
E como Derek gostava.
Foi inesperado, diferente de tudo que ele havia vivido antes, mas doce e reconfortante. Era bom pra ele de uma forma que ele nunca havia imaginado que seria. E ele queria aquilo pra ele, queria aqueles pensamentos, aquelas ideias, aquelas palavras vibrando na mente dele, nos ouvidos dele, na boca dele. Ele queria tudo aquilo.
E ele queria aquilo só pra ele. Ele não queria dividir com ninguém.
E ele não conseguia imaginar o porquê. Ou ele conseguia?
Stiles era gay. Mas Derek não era.
Ou era?
O que Derek era? O que aqueles sentimentos dentro dele eram? Aquela necessidade de ouvir a voz de Stiles, de ter aqueles momentos e emoções ao seu alcance todos os dias, aquelas palavras felizes ou tristes rolando dos lábios de Stiles para os dele, as histórias do passado e os planos do futuro, o que era tudo isso?
Derek não sabia.
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20 de agosto de 2011
Stiles
Desculpe ter assumido qualquer coisa sobre você, mas não pude evitar.
Não se preocupe com nada, pois eu acho que todos nós temos o direito de gostar de quem gostamos, independente de eles serem iguais ou diferentes de nós. Ou mais iguais ou mais diferentes de nós, porque no fim das contas, todos queremos ser felizes.
E merecemos isso.
Por essa razão eu jamais condenaria nada sobre as suas escolhas. Todos nós temos nossas próprias vidas para se importar, e se eu fosse te ignorar, e ignorar tudo que nós construímos até agora, eu seria uma pessoa muito estúpida. Então, não se preocupe, você gostar de garotos ou não, não exerceu qualquer diferença no modo com que eu vejo você.
Eu fico feliz que tu tenha se divertido em Jenner. E gostei de saber que tu conseguiu ver a minha casa de veraneio antiga. Ou melhor, a casa de veraneio que nós não usamos mais. Enfim, eu espero que você tenha gostado do passeio.
E sobre as emoções? Pois bem, eu nunca disse que você tinha a obrigação de me animar sempre, e essas cartas são uma estrada de mão dupla — ambos temos o direito de conversar sobre o que queremos. Não se acanhe em falar sobre sentimentos.
Mas eu confesso que não sei se sou de muita ajuda para qualquer problema, afinal, só porque eu sou mais velho, não significa que eu tenha todas as respostas.
De qualquer jeito, obrigada por escrever. Eu gosto disso.
E até a próxima carta.
Derek
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