Cartas de mim...
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Fortaleza, 28 de outubro
X,
Eu não te vejo mais rindo com as coisas. Nem das coisas. Eu te vejo rindo de você se autoflagelando com elas. É impressionante como você não ri de verdade. Você zomba daquilo que mais me importa, você mesmo.
E não vou fingir que meço palavras: É muito duro assistir você se autoflagelando sem perceber. Você faz o que faz, come o que come, fala o que fala e não percebe que você se autoflagela. E não faz barulho sobre isso. Eu demorei muito tempo pra perceber que você é um coitado porque você, pelo menos nas entrelinhas, não se faz de coitado. Só se comporta como um e aceita as consequências de se importar como um.
Sim, você já deve ter percebido que eu fui embora. Fui hoje de manhã, pra ser mais preciso. E eu sei que quando você está racional, você não vai me culpar. Nos dias em que você estiver emocional, nem assim você vai me culpar. Você vai se culpar. De novo: São os mesmos comportamentos. As mesmas ideias. Os mesmos toques de autodestruição. O jeito que você come. O jeito que você veste. O jeito que você odeia perfume. O jeito que você faz muito pouco pra se apresentar. Você sempre parece fazer o mínimo porque é capaz, mas se pune por fazer o mínimo ao mesmo tempo. Qualquer processo pra você tem um erro. Qualquer escolha, boa ou ruim, tem arrependimento. Você é sempre o mesmo enquanto se apaga.
É quase um grande paradoxo, na verdade. Você consegue ser autêntico, na mesma medida em que se apaga. E eu não consigo te olhar assim. Ninguém consegue te olhar assim. As pessoas se vão porque elas não aguentam ver você repetindo os mesmos erros sem saber. Ver você comer me assusta. Não porque você seja transtornado. Você não parece doente. Só parece autoconsciente demais que o que tá fazendo não vai ter um final feliz.
Você parece dormente. E eu não consigo suportar te ver assim. Ninguém conseguiu. É por isso que você está sozinho. E o que mais me machuca é ver você de boa com isso. Você reclama por um momento porque parece que descobriu que não tem sangue de barata, só pra depois, no dia seguinte, você voltar a ser o que é. É muito desgastante conviver com essa contradição assassina em que você tá.
Não dá pra levar. Ninguém quis levar. Quando você se perguntou, no que hoje eu não faço ideia se é lucidez mesmo ou se é só o seu emocional enfim botando algo pra fora, porque das pessoas te deixarem, eu não quis dizer porque tive medo de que isso te machucasse. Só que eu olho pra você e vejo que tudo te machuca na mesma medida que você não reage de acordo. Você aceita sentir dor. É muito pesado estar na frente de alguém que aceita sentir dor desse jeito. Isso não é saudável. É obvio que isso não é saudável.
Só que por não ser saudável, você parece não se importar. Enquanto olha pro que é saudável e foge como se isso fosse te machucar. Você tá além da síndrome do porco espinho. E é isso que me afugenta, me assusta e ao mesmo tempo me intriga. Como uma personalidade consegue ficar tão de boa com a dor e ao mesmo tempo demonstrar sentir dor? Que porra é essa? É conforto? É masoquismo? Você não é mais capaz de ver coisas que te fazem bem nem se elas se apresentassem exatamente como o que parece gostar.
Você está tão preso em “não tem lição” que parece que esquece que a parte do “absorver o que é possível pra não enlouquecer” depende de você. Eu sei que você parece ok com isso, mas ninguém tá vendo da mesma forma. Por isso que as pessoas se vão. Porque percebem que não suportam o mesmo tipo de dor que você quer suportar. E elas não estão erradas.
E você sabe que eu não estou errado por te abandonar.
Eu sei que você não vai fazer nada. E não é porque você pensa em finais. Mas é porque a autodestruição te é tão confortável que você se autoflagelar te regenera. E isso é um tipo de vida que enlouquece qualquer um que fique do seu lado.
Espero que você possa voltar a ser o que era. Que possa rir de novo. E rir dos poderosos e não dos mais fracos como você faz com você mesmo. Espero que um dia quem esteve ao seu lado volte a ser o que era, ou volte a ser o que você espera.
Eu vou dizer o que eu sempre disse pra você: Tá tudo bem. A gente só quer que você encontre paz. E encontrando paz, encontre um caminho mais saudável pra você mesmo. Um que torne suportável que as pessoas estejam ao seu lado porque você torna suportável estar perto de você mesmo.
Que você possa dividir a carga e parar de se causar dor. Parar de procurar dor. Ninguém procura a dor. Ela só acha a gente. E tá tudo bem porque faz parte da vida. O que você faz, não faz parte da vida. E não esperem que as pessoas fiquem pra ver você se autoflagelar enquanto caminha normalmente fingindo que está tudo bem porque não está e você sabe disso.
Espero que você pare de sofrer. E quando você conseguir parar de sofrer, me procure. Vou estar aqui te esperando pra te inteirar dos assuntos que você gosta de ouvir e eu também.
Vai ficar tudo bem. Seu único inimigo é você mesmo.
Com carinho,
Z.
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