Fortaleza, 22 de novembro de 2022

B,

Quando que pula pra parte em que você volta? Ou a parte que para de ser estranho você ficar aí e eu sem você aqui?

Não tô tentando incomodar. Nada a ver. Mas... é um saco sem você, sabe? É um saco sem você me perguntar porque metade do cereal foi embora sendo que você comeu sem perceber, sabe? É um saco não ter que te assistir. Era o meu melhor programa. Como você era... minucioso, sabe? Como você fazia cada movimento devagar. Calculado. Parece que sabia e ao mesmo tempo não sabia o que tava fazendo. É uma... meticulosidade exploratória que me fascinava.

É um saco ficar sem como você começava e parava com a mesma intensidade tudo, menos eu. Você era um botão de restart ambulante. Sempre tava pronto pra outra. Sempre tava pronto pra fazer coisas que nunca fez. Destemido. Eu te achava maluco, sabe?

É estranho não ter sua companhia. Eu me acostumei a como você me ensinou a como coisas pequenas faziam a diferença. Eu me acostumei a como você olhava pras pequenas coisas que eu fazia. Você sempre tinha o presente certo, porque você sabia. No meio dos seus cadernos, das suas notas, das coisas que você precisa desesperadamente lembrar como se tudo fosse um respiro a mais que você fosse dar, você sempre abria um espaço. Você sempre tava não nas sombras, mas numa penumbra convidativa entre a luz e a sombra. Vendo, observando, aprendendo, as vezes anotando na cara dura.

Me acostumei a ser como você. É isso que amar faz com a gente? Faz a gente aprender o melhor e suportar o pior? Porque foi você que me disse isso numa de nossas brigas. E isso nunca mais saiu da minha cabeça porque eu não precisava que você dissesse isso. Você só disse uma vez, quando eu duvidei. Quando foi a minha certeza que fez falta. Você foi o único que viveu a música e o versículo a ferro e fogo.

Eu me acostumei em como tudo era intensamente meticuloso. Como pequenos grandes gestos faziam tudo. Era um jantar na hora certa. Era um silencio na hora certa. Era um barulho na hora certa. Aliás, que barulho. Quantos cd’s você tinha. Quantos barulhos diferentes pra cada segundo que a coisa precisava de um sentimento ou de outro. Como você vai do Johnny Cash ao Simple Plan ao Iron Maiden a Adriana Calcanhoto. Como tudo isso parece fácil pra você.

Eu sinto falta disso. Me acostumei a como tudo isso era fácil pra você. Não consigo achar isso em outras pessoas, sabe? Eu me acostumei a como você fazia parecer fácil. E eu aprendi com você a fazer parecer fácil.

Porque amar é assim. Ou devia ser assim: Fácil. Descomplicado. Como cada ida ao Benfica. Você sabia qual era a vibe e eu aprendi a saber a sua. Eu aprendi a diferenciar os seus silêncios. Em cada momento. Em cada sentimento escondido. Em cada elemento que você teimava em não se abrir, mas quando eu te deixava em xeque, você colocava pra fora no meu ombro e tudo ficava bem depois, não magicamente – porque nunca foi magico. Mas tudo ficava bem. E era isso que importava quando você tava perto.

Tudo ficava bem. Não era isso que você me dizia? Nera? Então por que nada tá bem? O que eu te fiz pra nada estar bem?

Você só saiu pra comprar esfihas. Ou qualquer besteira que o valha e que talvez fosse fazer a nossa noite menos normal.

E de repente, nenhuma noite mais é normal. Você não voltou. E até agora, eu tô sentado no chão do centro me perguntando por que só... não me avisar, sabe? Por que não dizer pra mim que era o último momento que eu ia ver teu sorriso tímido?

O que você sabia que eu não sei mais? O que você tinha que eu não tenho mais acesso?

Mais do que qualquer coisa, você tem esse péssimo hábito de deixar lições. Você me ensinou tanta coisa sem ter essa pretensão. É porque estar com você era um aprendizado. Não era um conto de fadas. Não precisava ser. Era real. Palpável. Pegava no ar até nos momentos de tensão em que você tirava a máscara do tímido e me mostrava quem era de verdade. Nos tórridos, nas calmas, nas tempestades, tudo era você.

E agora, sem mais nem menos, nada é você. Você é só memória. E é isso. Sua história não segue. A nossa segue sem você. A minha segue sem você. E é isso que mais me dói.

Eu perdi alguma coisa? Eu sabia de alguma coisa que você não me falou? Onde tava o fim? Por que ninguém me avisa? Por que parece que eu tinha que prever que alguma coisa ia acontecer?

Por que agora o centro parece tão vazio, segunda-feira à tarde? Por que tudo parece tão sem sentido? Por que eu tô tendo que escrever essa carta sendo que era só você voltar e tava tudo certo? Tava tudo de boa. Eu podia continuar. Você podia continuar...

Por que essa ausência de resposta? Tava tudo bem. Não tava tudo bem? Não era só você... voltar?

Como você faz pra sumir tão tranquilamente, deixar todo mundo sem resposta e é isso? Acabou. Não tem.

São dúvidas que eu vou levar comigo. Enquanto esperava que você me dissesse que isso era pra sempre.

E pelo jeito, o que caracteriza a nossa relação a partir de agora é esperar. Esperar por uma explicação que não vai vir.

Eu não consigo aplicar suas lições. Sabe por quê? Porque as lições sobre como amar simples é bom estão atreladas a alguém que não foi embora de maneira simples e nem explicou o porquê de ir embora. Eu não te odeio. Mas... precisava me jogar nesse precipício?


Precisava ter sido tão bom pra mim?


B.



Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.