Cartas de Saudade para a Guerra
1 Carta I - Março de 1940
Notas iniciais
Querido Claire,

Já faz semanas que não lhe vejo. Meu peito arde de saudades de ti, ainda mais quando lembro de nossos últimos momentos juntos. Você sorria ao entrar no trem, e eu fiquei parada observando sua partida. Não demorou tanto para que chegasse a seu assento e retornasse a olhar para mim através do vidro fumê, nossos olhares se cruzaram pela última vez, nos beijamos intensamente enquanto os outros parabenizavam-nos; então o trem iniciara seu percurso, indo levando-te para o desconhecido, pois afinal não tinha ideia do quanto que a situação pioraria.
Não durmo mais de três horas por noite, pois sua presença é fato em meus sonhos. Madrugo lembrando de nossas histórias, observando o lado da cama que está vazio. Como aceitar que estou sozinha? Como posso pensar que há chances de nunca mais ver-lhe entrando pela porta da frente? Pergunto a Deus todas as noites o motivo pelo qual nos colocamos a servir uma nova guerra. O quão humano podemos ser? Talvez nem um pouco comparado a tudo que já aconteceu.
Minha vó sempre me contava sua história, que todos os dias sentava em sua cadeira de balanço na varanda de sua casa. As flores e o céu distraiam-na da dor que dominava teu coração, de esperar dia após dia a chegada de meu avô cujo tua filha mal completara um ano. Temo que eu acabe como ela, e sei que estou chegando a tal ponto. Observar as flores e o céu não me faz bem, pois não são coloridos e radiantes como eram antes; já são cinzas e tristes, lembrando-me de ti e me pondo a imaginar o que estaria fazendo agora. Talvez esteja festejando com outros soldados, bebendo bebidas baratas. Será que está com saudades de mim? Será que consegue dormir sem antes acariciar minha pequena foto que você leva contigo?
Cada vez que lembro de seus cabelos negros e de sua pele clara eu sinto que me apaixono novamente, como se nós ainda não nos conhecêssemos e eu te noto, dançando Hooked On Swing com seus amigos em um baile, como ocorreu em nosso primeiro encontro. Keth havia me convidado para me adentrar a sua roda de companheiras e eu aceitei, então aconteceu nossa primeira dança e nossa primeira conversa sobre sua paixão obsessiva pela história. Vulgo garoto que sonhava ser professor de História fora convocado para a guerra. Espero ansiosamente que retorne para que possa me contar tua própria história, sem furos.
De sua amada,
Ella Borkman
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