Cartas de Saudade para a Guerra
2 Carta II - Abril de 1940
Notas iniciais
Querido Claire,
Como você está? Você leu a carta que lhe mandei mês passado? Está se alimentando?
Tudo anda muito pacato por aqui. Passo quase todas as minhas tardes na casa de minha mãe junto com a Kath, que por acaso seu marido fora convocado recentemente e já está de partida. Não sei ao certo se ele estará indo para o mesmo local que você está, mas caso encontre Pitter por essas bandas não esqueça de cumprimenta-lo. Ele é muito tímido e inseguro.
Nas últimas semanas ando meio enferma, vomitando logo após as refeições e sentindo fortes dores na barriga. O ar contribui de alguma maneira, não está mais tão limpo e as máscaras de gás já se tornaram acessório obrigatório por aqui. Infelizmente estamos sem médicos devido a guerra, mas recebi uma notícia de alguns vizinhos que em breve um doutor chegará a cidade. Mamãe está tomando conta de mim. Lembra quando ficou muito doente, mas não queria ficar de cama? Ficava dizendo que não era nada comparado a tudo que os soldados viviam nas trincheiras durante a grande guerra, e eu concordava, mesmo sentindo pena de você por estar naquela situação. Em breve estarei melhor, então quando ler essa carta não precisa se preocupar.
Semana passada ganhamos um rádio novo, o qual ligamos todas as manhãs para ouvirmos o noticiário e logo em seguida o Jazz. Suzan, filha de Kath, adora as músicas, então ficamos com o rádio ligado quase o dia inteiro. Acredito que tenha herdado tal gosto de seu pai que de vez em quando aparece na casa de mamãe durante as tardes para buscar Kath e sua filha, porém sempre fica mais um pouco para dançar. Mando para você uma foto que tirei da Kath e do Pitter com sua filha aqui na casa da mãe.

A música anda sendo nossa única alegria, e a sua? Todos estão sentindo sua falta aqui. Seu sorriso alegra a todos, meu querido Claire. Queria apenas poder estar ao seu lado, mesmo no meio da batalha. Já irá se completar longos dois meses desde nossa despedida, e até então você não retornou minha carta; deveria estar preocupada?
Semana que vem é aniversário de meu avô. Eu sei o quanto você gosta dele e de suas histórias de guerra, então achei que escrever isso seria algo bom, porém estou preocupado com o vovô, pois anda muito cabisbaixo desde o falecimento da vó. Estamos tentando tomar conta dele e deixa-lo sozinho o menor tempo possível; as vezes ele entra nas nossas brincadeiras, mas na maioria das vezes fica deitado, dormindo ou então aparando sua barba grisalha no espelho do banheiro. A mãe fica feliz quando o vê saindo e interagindo com as visitas, tanto que parece que nunca o viu fazendo isso antes.
Ainda estarei aqui todas as tardes, brincando com Suzan, sentada na calçada observando o céu nublado, passeando na praça da igreja, aproveitando os festivais. Não faço ideia de como esteja por aí, mas espero que esteja tudo bem. Retorne minha carta assim que possível, e por favor, dedique um pedaço a meu avô; ele se sentirá muito feliz.
De sua eterna amada,
Ella Borkman
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