Cartas

10 X: Monstro do medo


Notas iniciais
E volta o cão arrependido com o sorriso mais sem graça do mundo, HAHHAHA, desculpem a demora! Prometo que vou responder os comentário logo! Obrigada por estarem comigo. Boa leitura!

CARTAS

Escrita por Coffee

Capítulo X: Monstro do medo

Carta não enviada.

19 de abril de 2005

Sasuke,

Parece que ultimamente a única coisa que tenho feito é ter medo. Após a morte dos meus pais fiquei paranoica, achando que todos que me cercam vão morrer a qualquer momento, que a vida deles vai escorrer pelos meus dedos da mesma forma que aconteceu com os meus pais. Além disso, tenho medo pela minha própria vida. Há tanto que eu gostaria de ver, tanto que eu gostaria de experimentar, tantos lugares para conhecer e... Tudo isso parece uma realidade muito distante agora. Me sinto a cada dia mais cansada. A cada dia lutar para permanecer em pé está mais custoso. Por isso, o medo me persegue dia e noite. Não sei o que devo esperar do amanhã, e nem ao menos das próximas horas. Tento não pensar muito nisso para não enlouquecer, para que minha ansiedade não me consuma, mas é difícil. O medo é um monstro. E tenho mais medo desse monstro do que de qualquer um que já tive quando criança. Assustada,

Sakura.

Tsumi teve que atender outro paciente antes de se voltar ao pedido de Sakura. Enquanto anda a passos lentos e cansados até o quarto da médica, ela balança a cabeça e sorri pensando como os jovens ainda são capazes de a surpreender.

Internada. Com uma doença grave no coração. Na UTI.

E a Haruno a pede para escrever uma carta.

Antes de abrir a porta, entretanto, ela ouve o apito das máquinas.

Não. Não. Não.

— Querida?

Ela abre a porta rapidamente, a dor nas pernas esquecida quando ela corre até o lado do leito.

Sakura está convulsionando. Seu corpo se debate e ela ergue rapidamente as grades da cama para evitar que ela caia.

— Ajuda!

Ela grita, olhando a máquina de segundo em segundo. A saturação cai expressivamente, e os sinais vitais oscilam.

Mais duas enfermeiras chegam no quarto, uma segura a cabeça de Sakura, que ainda se debate.

— Tsunade-sama está em uma cirurgia. Chamei Shizune-san, ela está a caminho.

A médica chega ao quarto alguns segundos depois. No mesmo momento que os movimentos incontroláveis de Sakura vão parando aos poucos.

— Aumente o suporte de oxigênio, vamos ter que entubá-la.

Rapidamente Tsumi sai do quarto para buscar o material necessário, e a última coisa que vê é uma carta esquecida pisada no chão.

29 de junho de 2003

Sasuke,

Esses dias, enquanto ia trabalhar vi crianças brincando na rua. Era uma brincadeira inocente e alegre, e eles riam tanto que isso tocou o meu coração. Lembrei, instantaneamente da nossa própria infância. Nós não tivemos a sorte dessas crianças, de poder brincar livremente, sem preocupações, sem maldade, sem as responsabilidades da vida ninja se abatendo sobre nós. Sobre Naruto, você e eu. Ainda assim, me lembro daquela época com muito carinho. Das nossas missões perseguindo animais, das nossas brigas com Naruto, e de quando fazíamos algo razoavelmente bem-feito e Kakashi pagava uma refeição para nós no Ichiraku. Acho que, de certa forma, fomos felizes da nossa maneira. Mesmo cada um com o seu próprio problema o atormentando, nos poucos momentos que tínhamos juntos, e trabalhávamos como equipe (ou o mais perto disso que conseguíamos), antes de toda vingança, morte e luta nos alcançar, nós fomos apenas três crianças descobrindo a vida e o mundo juntos. Sou muito grata por ter podido viver isso com você e Naruto ao meu lado. Enfim, essa é só uma divagação. Espero que você esteja bem, se possível, mande notícias.

Haruno Sakura.

Mesmo a contragosto, Sasuke segue o pedido de Ino e após entregar a carta nas mãos da loira — que ele esperava que não lesse — volta para o apartamento de Sakura. Antes de ir para o banheiro tomar banho, ele rega as inúmeras plantas do local e abre a janela, colocando a flor do deserto no sol como Sakura o pedira dias atrás.

As plantas não estão no seu melhor estado, e ele coloca várias delas próximas a janela na esperança de que o sol as faça melhorar. Depois ele pega uma muda de roupas limpas de cima do braço do sofá e anda até o pequeno banheiro.

A água do chuveiro bate em suas costas feito uma torrente, e ele fecha os olhos tentando pensar em qualquer outra coisa que não seja a situação de Sakura, mas é inútil. Ele termina o banho rapidamente, rapa a barba e escova os dentes.

Depois, ele vai até a cozinha, onde uma refeição quente que comprou no caminho até ali o espera. O cheiro se espalha pela pequena cozinha quando ele a abre, e parece apetitoso, mas ele senta-se na cadeira e come sem vontade. Não consegue terminar tudo, e coloca o resto na geladeira para caso sinta fome mais tarde, embora saiba que isso não irá acontecer.

Não sente fome desde que chegara a Konoha e confirmara com os seus próprios olhos o que estava acontecendo com Sakura.

Céus, como poderia ele pensar em comida em uma situação como aquela?

A angústia aperta a sua garganta, e ele constantemente sente-se como um gato sufocado com a sua própria bola de pelos.

Levanta-se e lava o prato e o talher que utilizou, deixando ambos sobre a pia, e pensa — novamente — que ele precisa procurar um lugar para ficar, porque não é certo que ele fique ali, no apartamento dela.

A ideia de ficar angustia-o.

E a ideia de sair o dá náuseas.

Inferno.

Ele anda pelo apartamento a passos lentos e incertos, como uma criança descobrindo o mundo pela primeira vez. Seus olhos pesam, mas ele se recusa a dormir o máximo que consegue. Por fim, desiste.

Vai até a janela, fechando a fina cortina, tentando deixar a sala um pouco mais escura, e anda até o sofá. Deita-se com um braço atrás da cabeça, os pés despontando pelo sofá pequeno, e olha para o teto.

Não sabe quanto tempo demora até se render ao sono.

Acorda assustado, sem saber onde está.

Batem na porta.

Demora pelo menos dois segundos para que ele se localize e ande até a porta aos tropeços, como se estivesse bêbado.

Seu coração bate acelerado, e na sua mente só há uma palavra: Sakura.

Ele abre a porta em um rompante, porque se pensar muito sabe que perderá a coragem.

Olhos azuis o encaram do outro lado.

Imediatamente ele se arrepende da refeição que forçou boca abaixo.

— Ela piorou.

Naruto diz, sem o cumprimentar.

O mundo gira. E ele sente que pode vomitar ali mesmo, aos pés do Nanadaime.

Não. Não. Não.

Tsunade disse que ela estava bem. Ino disse que ela estava bem.

O loiro empurra-o levemente para o lado, e entra no pequeno apartamento, andando até o sofá onde ele cochilava segundos atrás.

Olha para a janela, tentando decifrar que horas são, mas com as cortinas fechadas, e aquela notícia recente revirando a sua mente ele não consegue identificar quanto tempo se passou desde que deitara.

Ele quer perguntar o que aconteceu, mas a questão fica presa na sua garganta como tantas outras naquelas últimas semanas.

— Inferno.

Naruto diz, ao invés de dar alguma explicação. Ele continua na beira da porta, com a mesma aberta, sem saber se deve sair e ir ao hospital, ou tentar arrancar alguma notícia do loiro.

— Inferno. Inferno. Inferno.

Desvia o olhar para o ex-companheiro de time, e então, percebe.

Naruto está chorando.

Diferente dos outros homens, ele não tenta esconder com as mãos, nem desvia o rosto. Ele encosta-se no sofá, como se não aguentasse o peso da própria coluna, e deixa as lágrimas escorrerem pelas bochechas marcadas.

Céus. Ele precisava vomitar.

E é exatamente isso que acontece.

Rapidamente ele encosta a porta, e corre para o banheiro antes que emporcalhe o tapete felpudo de Sakura.

No vaso, ele despeja a comida que comera recentemente, a bile e o gosto amargo dominando sua boca.

Ele permanece minutos, horas, dias — não sabe dizer — ajoelhado sobre o vaso, e depois encosta-se na parede de piso frio. Sua testa está suada e seu coração bate feito um louco.

— Sasuke?

Naruto chama, do outro lado da porta.

— Tudo bem.

Ele responde, de olhos fechados, deixando o frio dos azulejos clarearem sua mente. Algum tempo depois ele levanta-se anda até a pia, escova os dentes, na tentativa inútil de tirar aquele amargor da sua boca, e abre a porta do banheiro.

O Hokage está sentado no sofá, na mesma posição de antes. O seu rosto já está seco, e ele anda até lá, sentando-se na outra ponta do sofá.

Eles ficam em silêncio por um tempo.

— Eu sinto muito — Ele imediatamente olha para o loiro, cogitando o porquê do outro estar pedindo desculpas — Eu... Eu não deveria ter mandado aquelas cartas.

Ele quer dizer ao outro que deveria sim, que ele precisava saber, mas nada sai da sua boca, não antes que o loiro volte a falar.

— Eu... Eu falei para Kakashi que eu queria que você viesse porque achava que ela fosse gostar da sua presença, porque eu achava que você merecia saber, mas... O que eu não admiti para ele, e nem para mim mesmo, é que eu queria que você soubesse por que eu não queria passar por isso sozinho. Porque eu estava com medo. Porque eu achava que se você estivesse aqui algum milagre aconteceria e ela se curaria...

Não consegue responder nada antes do loiro continuar.

— Mas eu não deveria. Eu fui egoísta ao te arrastar para isso. Você já passou por coisas demais e... A verdade é que... — As bochechas riscadas adquirem um tom de vermelho — A verdade é que eu não achei que você fosse se importar tanto.

Ele não encara aquilo como uma ofensa.

Com o seu histórico é normal que o loiro pensasse aquilo. Ele próprio não imaginava que se importava tanto até ser arrastado para aquela situação.

O loiro coloca as mãos na cabeça, bagunçando os cabelos.

— Céus... Eu não sei mais o que fazer. Eu sou a porra do Hokage e não há nada que eu possa fazer para ajudar a minha melhor amiga!

A voz dele está tão alta que Sasuke imagina que os vizinhos dos andares de baixo e de cima tenham ouvido.

Sasuke não sabe o que falar. Seu coração ainda está acelerado, e tudo o que ele quer fazer é levantar-se e ir até o hospital. Naruto parece ler seus pensamentos.

— Não adianta ir ao hospital agora. Ela está sedada. Teve uma convulsão, ou algo do tipo, tiveram que entubá-la.

O Uchiha não entende nada de procedimentos hospitalares, nem de medicina, mas aquelas palavras não parecem nada boas e reviram — mais uma vez — o seu estômago, agora vazio.

— Talvez... Talvez você devesse voltar para sua viagem.

Ele olha para o outro incrédulo. Que tipo de visão o loiro tinha dele? É claro que seu histórico não era muito bom, mas... Abandoná-la? De novo? Em uma situação como aquela?

O loiro olha para ele com um sorriso sem graça.

— Eu só... Eu só não quero que você passe por isso de novo.

Com isso, Sasuke sabe que ele se refere a perdas.

— Eu não vou embora.

É tudo que diz.

Naruto assente, sem discussões.

Eles passam alguns minutos em silêncio, até que o loiro se levanta e vai até a conhecida escrivaninha apinhada de cartas.

— Você leu?

Dessa vez, não há como mentir, não com Naruto ali. A escrivaninha está revirada e algumas cartas estão abertas.

— Algumas.

O Uzumaki assente e estende a mão como se fosse pegar uma das cartas, mas por fim, desiste. Ele entende, era pessoal demais.

— Como são?

Ele demora algum tempo para escolher a palavra.

— Dolorosas.

O loiro não diz nada por algum tempo.

— Por que nunca respondeu?

O outro finalmente pergunta, ainda andando pela pequena sala do apartamento.

Ele sabe e não sabe a resposta para aquela pergunta.

O silêncio toma conta do pequeno cômodo. Naruto continua andando inquieto, enquanto observa a prateleira lotada de livros e as flores que lutam para permanecer vivas sem a dona por perto.

— Medo.

Ele finalmente responde, embora pareça tarde demais.

Naruto assente.

Era a verdade, por mais que o custasse admitir.

Medo.

O sentimento mais paralisante que alguém pode ter.

O sentimento que o petrifica, o paralisa, o faz deixar de viver.

Medo.

Em suas mais diferentes formas, dos seus mais diferentes jeitos.

Sasuke sempre viveu com medo.

Talvez por isso fosse tão difícil para ele se envolver, amar.

Porque, ao contrário do que muitos pensam, o contrário do amor não é o ódio, mas sim, o medo. Afinal, o ódio também gera movimento, assim como o amor, mas o medo... O medo é paralisante.

No começo, Sasuke pensou que, quanto realizasse a sua vingança, ele estaria livre para continuar a sua vida, para experimentar coisas novas, para seguir em frente.

Mas, depois que a conseguiu — da pior maneira possível — tudo o que sentiu foi vazio.

A verdade, era que ele viveu uma vida inteira achando que seria livre, e até mesmo feliz, quando atingisse determinado objetivo, e esqueceu todo o caminho que o levaria até lá, principalmente depois de deixar as três pessoas que ainda afloravam algo de bom nele, Naruto, Kakashi e ela.

Por isso, depois de conseguir sua vingança, Sasuke pensava que algo se acalmaria dentro do seu coração, mas isso não aconteceu.

O menininho que chega da escola e encontra a sua família morta ainda estava lá.

Os pesadelos em que ele acordava suado e desesperado, ainda estavam lá.

O medo ainda estava lá.

E, principalmente, a culpa ainda estava lá.

Sasuke se sentia culpado de seguir em frente. É como se, de alguma forma, estivesse desrespeitando seus pais, sua família e até mesmo seu irmão mortos. Como ele podia buscar coisas novas, como podia ser feliz, se toda a sua família tinha sido assassinada?

Eles não ficariam revoltados com ele? Não achariam que ele não se importava?

O medo o consumia.

E por isso, ele se fechava em um casulo, alheio de tudo o que acontecia ao seu redor. Alheio dos sentimentos, da vida, das pessoas.

Como se, aquela punição que ele afligia a si mesmo fosse, de alguma forma, fazer com que o sacrifício de toda a sua família valesse a pena.

Mas, tudo o que ele atraia para si era mais medo, mais ódio, mais tristeza, mais culpa.

E, logo quando ele estava se afundando — novamente — nesses sentimentos, a primeira carta chegou. Tão doce, tão delicada, tão atenciosa.

Ela se importava.

Ler aquelas cartas o tirava — aos poucos — do seu mundinho de dor e desespero. O mostrava que havia coisas boas por aí e que ele precisava abrir os olhos para ver.

Mas... Ainda assim, o medo estava lá.

O atormentando.

Como poderia ele responder algo tão imaculado como aquilo? Dar a ela esperanças que ele não sabia se seria capaz de cumprir? Era certo? Era certo ele brincar com os sentimentos dela?

Mas, ao pensar assim, ele já estava fazendo isso, de certa forma.

Não era como enxergava no passado, mas é como enxerga agora.

Céus...

Como ele poderia retribuir aquilo? Aquele amor tão intenso, tão puro, tão verdadeiro? O que sua família acharia daquilo tudo? Acharia que ele não se importava mais? Acharia que ele apagara da sua mente tudo o que acontecera?

Ele tinha medo.

De retribuir.

De demonstrar o que sentia.

E, principalmente, de seguir em frente.

Para ele, seguir em frente, era como se estivesse traindo sua família e tudo o que acontecera. Era como se, se vivesse uma vida de penitências, ele estivesse honrando a sua família morta.

Afinal, ele merecia ser feliz?

— Está tudo bem?

Naruto o tira de seus pensamentos, puxando-o para o presente novamente.

Acena positivamente.

— Cara... Eu... Eu não aguento te ver assim. Eu não deveria ter mandado aquela carta. Foi um erro.

— Deveria sim.

Foi tudo que consegue responder.

— Você não merece passar por nada parecido novamente.

— Eu não vou abandoná-la.

Não de novo.

O Uzumaki não responde, apenas o olha, com uma expressão que ele não sabe identificar o que significa.

— Eu vou ao hospital.

Ele diz para o loiro, em um tom que não aceita recusas. E ele não o faz, apenas maneia com a cabeça e o segue.

Carta não enviada

[Não datada]

Sasuke,

A esperança é uma traidora.

[Não finalizada]

Ao chegarem no hospital eles andam até a recepção. É Naruto quem fala, sendo bem atendido pela secretária, que aponta para a sala de Tsunade.

Eles andam a passos pesados.

Seu coração bate acelerado e seu estômago revira. Ele quer e não quer notícias dela.

Basta uma batida na porta para que eles sejam convidados para entrar.

— Como ela está?

Naruto pergunta, após cumprimentar a loira.

Tsunade tem o olhar pesado.

— Bem, dentro do possível. Teve uma expressiva queda na saturação, tivemos que sedá-la e entubá-la. Agora, está tudo controlado. Já liguei para a central de transplantes e expliquei a situação, ela subiu na lista, e, se aparecer alguém compatível, eles entrarão em contato.

— Podemos vê-la?

— Não podem entrar na UTI, mas podem vê-la pela janela, é o máximo que consigo fazer.

Ela os olha com tristeza.

— Está ótimo, obrigada.

Naruto se vira para sair, e ele o segue, ansioso para vê-la mesmo que de longe.

— Uchiha?

Tsunade o chama, e ele olha para trás, assim como Naruto.

— Pode ficar mais um pouco?

Ele ergue a sobrancelha negra em dúvida, mas acena positivamente, e Naruto dá os ombros, passando pela porta e os deixando a sós.

Eles ficam alguns minutos em silêncio, ambos sem jeito, e ele muda o peso de uma perna para a outra, tentando controlar a ansiedade de sair por aquela porta e ir vê-la.

A loira levanta e abre uma gaveta.

De lá, ela tira três papéis que ele conhece muito bem, um deles está sujo e pisoteado, e estende para ele.

— Encontraram isso enquanto limpavam os quartos. Talvez queira ficar com elas.

Ele sabe que ela leu. Provavelmente não por curiosidade, mas apenas para saber do que se tratava. Incrivelmente, ele não se sente envergonhado, como achava que se sentiria, ele apenas estende a mão e recolhe os papéis das mãos dela.

Não sabe se deve agradecer ou apenas sair de lá.

Opta pela segunda.

Abre a porta, guardando os papéis no bolso da calça, da melhor forma que consegue sem amassá-los ainda mais e quando está prestes a sair, seu nome é chamado mais uma vez.

— Uchiha.

Olha para trás.

A loira o olha, abre a boca duas vezes, mas a fecha novamente, e, por fim, apenas diz:

— Deixa pra lá, pode ir.

Ele acena, e fecha a porta, encontrando Naruto do outro lado, que o espera com ansiedade nos olhos azuis.

Seguem pelos corredores, seguindo as placas até acharem a UTI. Há enfermeiras entrando e saindo pela porta, e eles viram o corredor vendo a pequenas janelas dispostas em fileira. Não precisam procurar pela dela.

Kakashi está parado, com os braços cruzados olhando pelo pequeno vidro a não mais que cinco metros deles.

Andam apressados até lá, e o mais velho dá um maneio com a cabeça e um passo para o lado para que ambos possam vê-la.

Ao contrário do que pensara, vê-la só despedaça ainda mais o seu coração. Imóvel, pálida, com um tubo saindo pela boca e vários fios espalhados pelo corpo.

O hospital roda, e ele dá alguns passos para trás, até encostar a parede de trás do corredor. O ar parece insuficiente, e ele sente que pode começar a hiperventilar a qualquer momento.

Não. Não. Não. Não. Não.

Kakashi, ou Naruto — ele não sabe dizer — chamam o seu nome, mas ele levanta uma mão, como se os afastasse e fecha os olhos, sentindo o frio da parece nas suas costas.

Ele fica daquele jeito por algum tempo, não sabe exatamente quanto, antes de voltar a abrir os olhos.

Naruto e Kakashi o olham em dúvida, como se cogitassem se deveriam ou não chamar um médico. Sem dizer nada ele dá passos para frente, e volta novamente a olhá-la.

Tão distante da imagem da mulher que quebra rochas, da mulher que cura.

E tudo o que ele deseja é acordar. Acordar daquele pesadelo.

Ele coloca a mão no bolso, não no que estão as cartas, mas no outro, e toca o pequeno terço que a esposa de Naruto o deu.

Em silêncio, mais uma vez, ele faz uma oração.

Os dias passam arrastados. Ele dorme mal, come pouco e passa a maior parte do dia em pé em frente a uma janela de UTI.

Fica lá a maior parte do tempo, até que Tsunade ou Ino apareçam e o mandem embora.

Embora vê-la daquela forma não seja uma situação fácil, ainda é melhor do que dar as costas. É como se, a cada vez que fosse embora, fosse uma forma de despedida não verbalizada.

As médicas dizem que ela está estável, mas ele sabe o quanto esses quadros podem mudar em questão de segundos, e, ele sente que se estiver ali olhando, nada de ruim vá acontecer.

Depois de um dia passado em pé, ele segue pelas ruas de Konoha, já escuras, após Ino suplicar para que ele vá embora.

Ele olha Sakura mais uma vez, toca o terço sempre em seu bolso, e segue para as portas do hospital.

Quando chega no pequeno apartamento, não demora nem cinco minutos para que batam na porta. Ele a abre, já pensando o pior, como sempre, mas Kakashi tem um olhar calmo, e levanta uma sacola nas mãos.

Comida.

Mesmo a contragosto, com o mais velho sentado na pequena mesa do apartamento de Sakura, ele come junto com o outro, em silêncio.

Depois, ambos seguem para a sala, e permanecem sentados, cada um em uma ponta do sofá.

Apesar do silêncio, a presença do outro o conforta. Como somente a presença de um pai seria capaz.

Algum tempo depois, batem na porta.

O seu coração dispara, o estômago revira, e ele se arrepende de ter comido.

Ele permanece paralisado, sem coragem de abrir a porta.

Não. Não. Não. Não. Não.

Naruto passaria o dia no escritório, ele mesmo tinha o dito, e não havia mais ninguém que pudesse vir ali.

Ele sabe que só pode ser uma notícia ruim.

O Hatake olha para ele, como se perguntasse se ele não iria até a porta, mas desiste e vai ele mesmo.

De costas, ele vira a cabeça devagar, suspirando fundo e preparando-se para a notícia.

Quando olha, diferente do que pensara, é realmente Naruto.

Está suado, ofegante, e os cabelos loiros estão bagunçados pelo vento.

Ele levanta-se, o coração prestes a estourar a caixa torácica, e ele e Kakashi aguardam o comunicado.

E ele não acredita quando as palavras finalmente saem pela boca do loiro.

— Conseguiram um transplante.

Carta não enviada.

02 de março de 2004

Sasuke,

Eu fiz tantos planos. Planos que eu nem sei se vou ser capaz — ou ter a oportunidade — de realizar. Eu queria aprender mais, eu queria me especializar, eu queria construir uma nova ala no hospital, eu queria construir uma família, eu queria viajar. Eu queria ver você. Principalmente, eu queria ver você, Sasuke, nem que fosse uma última vez.

Eu queria sentir o seu toque.

Eu queria que você soubesse — e aceitasse — o quanto eu te amo.

E, acima de tudo, eu queria ser amada. Eu queria ser retribuída. Eu queria sentir que alguém se importa. Eu queria ser importante para alguém. Alguém não, para você.

Sasuke, mesmo sabendo que é pedir demais, eu queria que você me amasse.

Mesmo com todos os meus defeitos, as minhas cicatrizes, e a minha doença.

Eu queria que você me amasse.

[não finalizada]

Notas finais
Espero que tenham gostado, grande beijo!