Cartas
11 XI: Monstro da esperança
Notas iniciais
CARTAS
Escrita por Coffee
Capítulo XI: Monstro da esperança
27 de dezembro de 2004
Sasuke,
O Natal esse ano foi uma loucura. Decidimos fazer um amigo secreto, e Sai deu um presente indelicado, Naruto esqueceu com quem saiu e Kakashi-sensei deu um Icha Icha para Hinata. Enfim, Sai apanhou, Naruto correu e Hinata desmaiou. Como se não bastasse, Ino esqueceu o peru no forno por tempo demais, Temari encheu o arroz de passas e Naruto e Kiba saíram no soco por causa da velha piada do pavê. Mesmo sabendo que você ficaria possesso com tanto barulho e confusão, eu gostaria que você estivesse aqui conosco. Sinto sua falta.
Desejo um feliz Ano-Novo para você e as melhores coisas do mundo, sempre.
Um grande abraço,
Sakura.
Tsunade não se lembra das suas mãos tremerem tanto nem quando estava no início da profissão. Shizune e Ino a observam, somente os olhos visíveis com a máscara e a touca cobrindo os rostos. Nenhuma delas fala nada. Não falam que ela parece uma interna fazendo um procedimento invasivo pela primeira vez.
O médico que viera diretamente de Iwagakure para auxiliá-la também não diz nada, quando ela, seguindo os conselhos dele, acaba de cortar a última parte que ainda prendia o coração — agora antigo — da aluna no seu próprio peito.
É uma sensação indescritível ter o coração de Sakura nas mãos. Tão pequeno, tão doente, tão cansado.
Está hipertrofiado, fibrótico.
Mesmo sabendo que não deveria, ela olha para o rosto da aluna, como se quisesse verificar que, mesmo sem o coração, ela ainda está ali com eles. Parte sua, sabe que sim, a máquina de circulação extracorpórea faz isso por eles, mas a outra parte quer confirmar para que o seu próprio coração se acalme um pouquinho.
Com cuidado, ela coloca o coração da aluna na cuba rim que Ino estende para ela, e observa o olhar da Yamanaka vacilar e as mãos tremerem assim como as dela.
O coração do doador já está preparado, o outro médico o preparou com cuidado e atenção, e o coloca nas suas mãos para que seja suturado no peito da aluna.
Suas mãos tremem. Uma gota de suor desce pela sua testa, enquanto ela ajeita o novo órgão, vez ou outra olhando para a máquina que analisa os sinais vitais.
— Está tudo bem.
Ino diz, para ninguém em particular, mas ela sabe que é para acalmá-la.
Na verdade, para acalmar todos eles.
— Vai ligar esses dois vasos primeiro.
O médico auxilia, lhe entregando fio e agulha.
Ela acena, pegando os instrumentos das mãos dele, e mais uma gota de suor desce pela sua testa quando ela dá o primeiro ponto.
✉
Sasuke está sentado em uma das cadeiras da recepção, ao lado de Naruto e Kakashi.
Incrivelmente os três estão em silêncio, até mesmo o Uzumaki.
A tensão paira sobre eles, como uma tempestade pronta para cair.
Ele já andou pela recepção, já sentou e já ficou encostado na parede. Mas não importa em qual posição fique, nada acalma seu coração que bate feito um louco.
Naruto tem as mãos nos cabelos, a capa de Hokage está encostada na cadeira ao lado, e de hora em hora ele rói as unhas. Sua esposa saíra em busca de algo para beberem, um café, provavelmente, e ele a vê voltar com uma bandeja com quatro copos nas mãos.
Mesmo sem vontade, ele pega o copo que ela o oferece, porque ela é gentil demais para que ele tenha coragem de recusar.
Naruto bebe tudo em um gole só, Kakashi fica com o copo nas mãos olhando para frente e ele beberica o café quente, na inútil tentativa de distrair sua mente.
— Há quanto tempo estamos aqui?
A voz de Naruto está chorosa e ansiosa, e é a esposa quem o responde.
— Quatro horas, querido. Passei na recepção, eles ainda não têm notícias, mas falaram que alguém virá falar conosco tão logo a cirurgia acabe.
O loiro se levanta para jogar o copo plástico no lixo, e Sasuke instintivamente leva a mão ao bolso, tocando as contas do terço que a Hyuuga lhe dera.
Naquele momento, ele pensa que não há nada mais angustiante na vida do que estar em um hospital, esperando notícias de alguém querido. As possibilidades que passam na mente são todas trágicas, e por mais que ele tente pensar em algo positivo, não consegue.
Seu coração está descontrolado, e ele acha que se não receber notícias logo, é o seu coração que não vai aguentar.
Sasuke jamais se imaginou em uma situação dessa, não depois da perca dos seus pais, onde ele jurou não criar mais laços com ninguém, justamente para não se envolver e não sofrer a agonia, a dor da perda.
Sem perda, Sasuke.
Sakura ainda está viva.
Ela tem que estar.
Kakashi levanta-se rapidamente, e ele olha para frente, saindo dos seus próprios pensamentos para ver o que fizera o antigo professor fazer um movimento tão brusco.
Ino caminha em direção a eles. Veste um jaleco branco, e todos eles se levantam junto com o mais velho em expectativa. A expressão de Ino não diz absolutamente nada, e Sasuke sente sua garganta arranhar enquanto ela dá os últimos passos até eles.
— A cirurgia acabou — ela diz, tão logo chega — Ocorreu tudo dentro do esperado. Shizune está acabando de suturar e limpar, e logo ela vai ser encaminhada para UTI.
— Como ela está?
Sasuke pensa que é a primeira vez que ele ouve a voz de Kakashi tão quebrantada.
— Bem, dentro do possível. Os sinais vitais estão bons, e já entramos com toda a medicação necessária. Agora temos que esperar para ver como o sistema imune dela vai reagir com o transplante, como o corpo vai se adaptar, e tudo isso. Mas toda equipe está bem positiva.
Ele nota que quem está falando não é a Ino amiga de Sakura, mas sim a Ino médica, profissional.
— Quando a gente vai poder ver ela?
Naruto pergunta, enquanto rói o que quer que tenha restado das suas unhas.
— Infelizmente, vai demorar um pouco, provavelmente só a noite e pela janela da UTI, ela precisa ficar em monitoramento constante, e se tudo se encaminhar bem, em mais ou menos uma semana ela vai para o quarto.
— Algum risco imediato?
Sasuke ainda está mudo, ouvindo a conversa que se passa diante de si, mas sem ser capaz de perguntar nada. Seu cérebro tenta dizer para o seu coração que as coisas estão bem, dentro do possível, que ele pode finalmente parar de bater feito um louco, mas um órgão não obedece ao outro.
Ela está bem.
Ela está bem.
Ela está bem.
Ele tenta inutilmente colocar na sua cabeça, no seu corpo todo, mas ele sente que precisa vê-la para se acalmar. Mas sabe que isso não será possível por enquanto, e isso angustia-o ainda mais.
— Não, ela continua sedada e vai ficar assim por um tempo, enquanto avaliamos. O melhor que vocês têm a fazer é irem para suas casas e tentarem descansar um pouco, qualquer alteração no quadro dela, eu mando avisá-los, Shizune e eu vamos nos revezar nos cuidados, e se tudo der certo, vocês poderão visitá-la na UTI à noite.
Naruto dá um abraço em Ino, agradecendo por tudo, e depois coloca sua capa na esposa para que ela não saia no sereno da madrugada, antes de se despedir dele e de Kakashi. Depois, é o mais velho que agradece a Ino — somente com palavras — e pergunta se ele quer companhia, para não ficar sozinho.
— Não precisa.
O Hatake tenta discutir, mas desiste segundos depois, percebendo que ele realmente não quer companhia, e os deixa com um aceno de cabeça e as mãos nos bolsos.
Ino se despede com um maneio de cabeça e se vira para deixar a sala da recepção, mas antes que ela possa se afastar, ele a chama.
— Ino.
Ela se vira, instantaneamente e espera com uma sobrancelha arqueada.
— Eu preciso vê-la.
— Sasuke... Eu sinto muito, mas realmente não tem como, ela deve estar sendo transferida para UTI agora e—
— Por favor.
Ele não se lembra da última vez que pediu algo para alguém, mas está tão desesperado que sente que seria capaz de implorar.
— Sasuke, eu sei que estão todos preocupados, mas—
Ela mesma para de falar, olhando nos seus olhos e dá um suspiro fundo.
— Se Tsunade souber, ela me mata.
Ele não diz nada, apenas espera com expectativa.
A loira passa as mãos nos cabelos, alguns fios saem do rabo-de-cavalo feito às pressas e ela respira fundo novamente, olha para ele e depois em direção a recepção. A recepcionista está cochilando na cadeira, devido à falta de movimento na instituição naquele horário, e, finalmente, Ino concorda.
— Certo, somente uma olhadinha. Suprima seu chakra e me acompanhe. E se eu for despedida, você vai ter que pagar minhas contas o resto da vida. E fique sabendo que eu gasto muito com sapatos.
Seguindo as instruções, ele oculta seu chakra e a segue feito um foragido, não fazendo um barulho sequer. Eles seguem os corredores conhecidos do hospital, até uma ala que ele nunca teve acesso.
Ela para, abre um armário, tirando uma máscara branca e esticando para ele.
— Coloque isso. E isso.
Ela estende um avental branco para ele, que rapidamente o coloca por cima da roupa.
A loira faz o mesmo.
— Sem toques, sem se aproximar muito, ok? Vai vê-la a distância e se ela já tiver na UTI, vai olhá-la pela janela.
Ele acena positivamente e eles voltam a andar.
Seu peito está apertado.
O coração acelerado.
Medo, expectativa, preocupação.
Todos os sentimentos se mesclam dentro de si, enquanto ele tenta se preparar mentalmente para qualquer imagem que vá encontrar.
É inútil.
À cerca de cinco metros, uma porta é aberta. Uma enfermeira puxa uma maca e o seu peito fica espremido ao notar cabelos róseos saindo de dentro de uma touca.
Sakura.
Nenhum preparo mental seria suficiente para ensiná-lo a lidar com aquilo.
É realmente ela, tem os olhos fechados e a maca acaba de sair de dentro de uma sala, sendo puxada pela enfermeira e por Shizune, ele reconhece segundos depois.
— Gaia, Shizune-sama, esperem um pouco, por favor.
A morena finalmente os olha e ergue as duas sobrancelhas em confusão ao notá-lo atrás da Yamanaka.
— Ino, perdeu o juízo? Tsunade vai matá-la se...
— Apenas uma olhadinha, Shizune-sama, por favor.
É a loira quem implora por ele.
A outra suspira e acena positivamente, e Ino faz sinal para que eles se aproximem um pouco mais. A maca está parada no meio do corredor e eles se aproximam até uns dois metros de distância.
Ninguém diz nada e ele a observa mais de perto. Olhos fechados, com cateter de oxigênio no nariz, fios de monitoramento no peito e de medicamentos nos braços. Com os olhos fechados, ela parece tranquila, como se não tivesse acabado de passar por uma cirurgia extremamente invasiva. Ele não consegue sentir seu chakra e imagina que Tsunade tenha feito algo, mas não consegue imaginar o porquê ou como.
Instintivamente ele dá mais um passo, em direção a ela e Ino o segura pelo braço.
Ele precisa tocá-la. Precisa ter certeza de que é real, precisa sentir a respiração dela, sentir o batimento do seu coração, embora as máquinas apitem mostrando que está tudo bem.
Sakura...
— Precisamos voltar, Sasuke, antes que mais alguém nos veja aqui.
A voz de Ino é mansa e até mesmo concedente, e ela dá um passo para trás, ainda tocando o seu braço como forma de puxá-lo em direção de onde vieram.
Ele respira fundo, sem tirar seus olhos de Sakura, tentando frear o impulso de ir até ela. Sasuke sabe, não por ego, mas por realidade, que caso decida se aproximar, ninguém ali é capaz de impedi-lo, mas ele não pode, e por isso, com o seu caráter — ainda em reformulação — servindo como âncora, ele acena para a loira, e, antes de se virar, dá um último olhar para Shizune e para a mulher que a acompanha, acenando positivamente com a cabeça.
É um agradecimento silencioso, mas a médica parece entender, quando devolve um sorriso gentil para ele e faz sinal para que a outra mulher volte a puxar a maca.
Elas se afastam pelo corredor, e ele ainda observa Sakura desaparecer sob seus olhos. Sem dizer nada, ele vira-se e segue Ino pelo caminho aonde vieram, eles param no armário e jogam o avental e a máscara em um lixo ao lado e depois ela o acompanha até a recepção.
— Melhor?
Ela pergunta, mas ele não sabe o que responder. Achava que a ver talvez acalmasse seu peito, e de certa forma, é o que acontece, mas aquela preocupação parece não o abandonar nunca.
— Sasuke — A loira chama e ele ergue os olhos para ela, é, provavelmente, uma das primeiras vezes que ele realmente a olha — Sei que é difícil vê-la nesse estado, ainda mais Sakura, que sempre é tão forte, mas acredite, ela está mais do que nunca mostrando a sua força, mostrando o quanto é resistente, e acredite, todos aqui estamos dando o nosso melhor para que ela fique bem.
Ele maneia com a cabeça, em concordância.
— Tenho que voltar lá para dentro. Mas mando alguém avisá-lo quando as visitas estiverem liberadas.
— Ino — ele chama, novamente, antes que ela se vá — obrigado.
A loira sorri para ele, e acena antes de dar as costas e sumir pelos corredores.
Ele respira fundo e obriga seus pés a o levarem de volta para o apartamento dela.
✉
07 de setembro de 2004
Sasuke,
Esses dias me peguei pensando que um hospital, é, provavelmente, um dos lugares mais tristes que existem. Mas, também, um dos que mais possibilita a evolução do ser-humano. Há anos que trabalho em um, e nunca me acostumo com a dor que vejo em uma sala de espera, com a expectativa, a esperança. Nunca me acostumo com os gritos que familiares e amigos soltam ao perder entes queridos, nunca me acostumo com a felicidade estampada nos rostos dos pais ao verem o filho pela primeira vez, nunca me acostumo com a forma como alguns parecem perder ou achar sua fé aqui dentro. Não importa quantos templos, quantas igrejas existam, é aqui que as pessoas parecem brigar ou fazer as pazes com deus, é aqui que elas se revoltam, ou que aprendem a rezar.
É dentro dessas paredes brancas e em meio a esse cheiro estéril, que as pessoas percebem o real valor da vida e a importância de certos entes nas suas vidas. Aqui há dor, luta, revolta, reconciliação, descobertas, rezas, ódio, medo, amor. São todas as emoções humanas juntas, misturas, intensas e cruas. E mesmo que seja impossível não sofrer, não comemorar, não rezar junto com eles, eu não gostaria de trabalhar em nenhum outro lugar, porque sinto que aqui aprendo mais a cada dia, não sobre doenças ou tratamentos, mas sim sobre como ser humano, como ter compaixão, empatia, respeito, e, acima de tudo, como aproveitar cada momento como se fosse o último.
Enfim, espero não ter te entediado com as minhas divagações, espero que você esteja bem, com muitas saudades,
Sakura.
Tsunade sai da sala de cirurgia exausta, não fisicamente, ainda seria capaz de dar uma boa surra em alguém que merecesse, mas sim, psicologicamente. Mesmo sabendo que como médica responsável deveria ir até aos que esperam lá fora para dar notícias, ela terceiriza essa missão para Ino, pede para que Shizune acabe de suturar e limpar Sakura, e se despede rapidamente do médico que a auxiliara com muitos agradecimentos, antes de andar a passos torpes até sua sala.
Quando chega, ela abre a porta, a fecha atrás de si e não consegue nem ao menos caminhar até sua mesa. Apenas se encosta na porta e deixa seus joelhos se dobrarem, escorregando até o chão, e, com as mãos no rosto, finalmente deixa tudo que está dentro de si sair.
Ela chora, chora como não faz há anos. Ela liberta todo aquele medo, aquelas incertezas de dentro de si, até que seus ombros tremam e seus olhos fiquem vermelhos. Ela não sabe ao certo quanto tempo passa, mas ela continua ali, encolhida e sozinha, com as mãos e a camiseta molhada, deixando as lágrimas lavarem todo aquele sentimento incômodo.
Sakura.
Tsunade pensa na aluna, pensa no coração que esteve nas suas mãos horas atrás. Pensa naquela menina magricela e esperançosa que entrou no seu escritório anos atrás. Pensa na mulher forte e determinada que ela se transformou. Na médica excepcional. Na amiga fiel.
Minha menina.
Ela sabe, mesmo que nunca seja capaz de admitir publicamente, que gosta da pupila como a uma filha, e que poucas vezes na vida ela sentiu tanto medo quanto ao ver a outra naquela situação. Ela não aguentaria outra perda, não depois de Nawaki, Dan, Jiraya e todos os outros.
E então, arrastando-se até o sofá no canto direito da sua sala, Tsunade deita-se, agradece a qualquer força superior que possa existir, chora e dorme.
Quando acorda, confusa, demora alguns minutos para que ela se localize no tempo e no espaço. Ela olha para o relógio da sua sala, passa das oito da noite, dormira praticamente um dia inteiro.
Depois de se arrumar no banheiro acoplado a sua sala, ela volta para a UTI, conversa rapidamente com Shizune e Ino, verifica Sakura, e vê que várias pessoas a olham pela janelinha. Naruto, Hinata, Kakashi e o Uchiha. Todos eles têm olhos penosos por poder ver a amiga somente a distância, mas ao mesmo tempo, sentem-se esperançosos para que ela melhore.
— Como ela está?
É Kakashi quem pergunta, quando ela os encontra do lado de fora.
— Está estável. Li os prontuários que Ino e Shizune deixaram durante o dia, os sinais vitais estão bons, conseguimos retirar a ventilação mecânica ainda no centro cirúrgico e o corpo parece estar correspondendo bem.
— E quando ela vai acordar?
— Por enquanto, ela vai passar mais essa noite sedada, preferimos assim para evitar um pouco da dor e desconforto do pós-operatório. Mas se as coisas continuarem dentro dos parâmetros esperados, estamos confiantes de começar a tirar os sedativos amanhã na parte da tarde.
— Ela vai ficar bem, não vai?
Os olhos de Naruto brilham do mesmo modo que faziam quando ele era uma criança.
— Ainda é muito cedo para saber, precisamos ver como o organismo dela vai reagir ao transplante e a nova situação. Mas estamos confiantes e fazendo o possível para que tudo dê certo.
Eles acenam positivamente, e ela observa o Uchiha, mais atrás, ainda olhando fixo para a Haruno pelo vidro.
— Agora, vão para suas casas, o horário de visitas já acabou faz tempo.
— Meia hora é muito pouco, Tsunade-oba-chan.
— São as regras do hospital, Naruto. Ino e Shizune foram para suas casas descansarem, e eu vou ficar responsável por Sakura essa noite, qualquer mudança eu mando avisá-los. Mas é esperado que tudo continue do mesmo modo. Amanhã podem vê-la novamente.
Como planejado, eles começam a retirar os sedativos de Sakura no dia seguinte, na parte da tarde, mas a médica não acorda naquele dia, e nem na metade do outro. Somente no início da noite do terceiro dia Ino a comunica que ela acordou.
Está constantemente sonolenta e quase não fala, grogue pelos medicamentos que ainda usa e pelo esforço que o corpo faz para reagir a tudo que acontecera recentemente. As visitas para ela são constantes, tanto dos amigos, quanto de alunos e até mesmo pacientes que ficam sabendo que ela está ali. A janelinha parece constantemente cheia de pessoas, e, uma, em específico, parece estar ali a todo momento que Tsunade entra no quarto.
Sasuke.
Está sempre com olheiras roxas e as mãos nos bolsos, olhando fixamente para Sakura com uma expressão que Tsunade não é capaz de decifrar.
Medo? Preocupação? Esperança?
Ela não tem certeza. É justamente sobre ele que uma das enfermeiras vem falar no outro dia, quando bate na sua sala.
— Tsunade-sama, já acabou o horário de visitas, mas Uchiha Sasuke não sai da frente daquela janela, já pedi para ele se retirar, mas ele finge que não me escuta.
Ela suspira alto, com as mãos nos cabelos, e por fim, volta-se para a enfermeira.
— Deixe-o Myka, desde que ele não atrapalhe o funcionamento do hospital, deixe que ele fique.
Tsunade sabe que já abriu exceções demais, até mesmo fingiu que não soube da conceção que Ino dera a ele para que visitasse Sakura assim que ela saíra do centro cirúrgico há quase quatro dias.
Como se algo acontecesse no seu hospital sem que ela soubesse.
— Bom, ele não atrapalha, não diretamente... Quer dizer, metade da equipe tem medo dele, e a outra metade está completamente apaixonada por aquele rosto, então...
Não é o adequado. Tsunade deveria ir até lá e colocá-lo porta afora, mas ela sabe o quão difícil é ter alguém querido doente e não poder ver, não poder tocar. Para ela é fácil, porque é médica e pode ver a aluna quando bem entender, mas o Uchiha e os demais amigos ficam na aflição por notícias.
— Apenas... Não o deixe ficar até depois das vinte e uma.
A outra acena positivamente e volta para os seus afazeres.
No outro dia, Tsunade encontra todos para conversarem. Estão todos a esperando em frente ao vidro e olhando Sakura.
— É normal? Ela nunca parece estar acordada.
Naruto tem as mãos no vidro e os olhos azuis preocupados.
— Sim, ela acorda, mas volta a dormir logo, está tomando muitos remédios fortes, e o corpo ainda está se acostumando. Com o tempo isso vai melhorar.
— Alguma previsão de alta?
— Se tudo der certo, em mais três ou quatro dias ela vai ter alta. Só preciso organizar tudo certinho antes, ela vai precisar de alguém para auxiliá-la em casa, com os remédios, com os cuidados, alguém que verifique sinais vitais... Enfim, vou conversar com algumas cuidadoras.
— Eu posso ajudá-la no banho e em alguns momentos, mas não vou poder ficar vinte e quatro horas por causa do meu trabalho aqui.
Ino se oferece, e Tsunade concorda com um aceno.
— Precisa ser um enfermeiro ou médico?
Ela olha para o Uchiha com o cenho franzido. É, provavelmente, a primeira vez naqueles últimos dias que ele diz alguma coisa.
— Não, não necessariamente.
— Então eu fico.
Naruto vira o pescoço tão rapidamente que Tsunade pensa que ele vai quebrar. Ino se engasga com a própria saliva, Kakashi faz algum gesto por debaixo da máscara, e ela sente muito por não ter uma também para disfarçar a sua expressão.
— Como?
Ela demora algum tempo para perguntar, para que sua voz não saia gaguejada. Tinha ouvido direito? E olha que ela nem tinha bebido saquê ainda...
— Eu fico no apartamento com ela.
Naruto solta uma risada alta e Hinata o cutuca com o braço esquerdo.
— Acho que eu estou em algum genjutsu.
— Querido!
A Hyuuga ralha com ele e solta um pedido de desculpas para os presentes.
— Uchiha, cuidar de alguém não é fácil, nem bonito. Sakura vai precisar de ajuda para tomar os medicamentos no horário, vai precisar de ajuda para se locomover, para se alimentar, vai precisar de ajuda com os curativos e com todo tipo de coisa. É cansativo e estressante.
O olhar dele não vacila.
— Eu cuido dela.
Ele desvia os olhos para janela novamente.
— Tem certeza?
— Sim.
Ele confirma, sem tirar os olhos de Sakura nem por um segundo.
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