Cartas
7 VII: Monstro da oração
Notas iniciais
CARTAS
Escrita por Coffee
Capítulo VII: Monstro da oração
05 de julho de 2003
Sasuke,
Está tudo bem por aqui. Quer dizer, quase tudo bem. Acredita que Kakashi-sensei partiu em uma missão com Gai-sensei (ou em uma aventura, como o último gosta de dizer) e voltou com uma perna quebrada? Não faço ideia de como isso aconteceu, e ambos se recusam a dizer. Kakashi-sensei pode ser tão teimoso quanto você e Naruto quando quer, e quase deixou as enfermeiras loucas no pouco tempo em que passou internado. Recusava os remédios, falava mal da comida e tivemos que sedá-lo para que pudéssemos engessar a perna quebrada. Agora ele está bem, já voltou para o seu apartamento, e eu passo lá sempre que posso para ver como ele está.
Naruto também saiu em uma missão há mais de um mês, e não tenho muitas notícias dele, mas imagino que esteja bem. Ino também está em missão, então só me resta trabalhar e verificar se Kakashi-sensei não está morrendo intoxicado com aquilo que ele chama de comida. Mas me conte um pouco sobre você, como está? O que tem feito? Sinto muito a sua falta. Com carinho,
Sakura.
Sasuke volta algum tempo depois para o quarto, quando vê Tsunade passando por um corredor há alguns metros de onde ele está, e percebe que ela já tinha acabado de conversar com a pupila.
Sakura está sonolenta, provavelmente dopada de medicação. Ela dá um sorriso fraco, assim que o vê passando pela porta, e observa seus passos até que ele se senta na poltrona.
Ele tem vontade ir até ela, de tocá-la.
A sensação dos lábios dela sob os seus ainda formiga na sua pele, e ele sente que precisa tocá-la.
Como uma prova de que tudo aquilo é real.
Que ela realmente está ali.
Que aquilo realmente está acontecendo.
Mas ele não sabe o que fazer, como, nem se deve dizer alguma coisa, e durante os poucos minutos que ele passa perdido em dúvidas ela cai no sono.
Seu rosto descansa sereno, como se nada pudesse a incomodar, como se a vida fosse simples, como se toda aquela situação não passasse de um sonho ruim. E ele permanece ali, parado feito uma estátua, sentado na poltrona e vigiando seu sono tranquilo.
Quando Ino chega, pronta para passar a noite, ele a despensa.
— Vou ficar hoje.
A loira olha para ele em dúvida, como se cogitasse se era ou não uma boa ideia deixá-lo ali, velando o sono de Sakura.
Por fim, ela acena positivamente com a cabeça, anda até a Haruno, que continua dormindo serena e lhe dá um beijo na testa. Por fim, se vira para ele, e diz antes de sair:
— Cuide bem dela, Uchiha.
Ino nunca o chamara pelo sobrenome, era sempre Sasuke—kun. O uso do seu sobrenome nesse momento soa como uma ameaça. Ele faz um movimento em concordância com cabeça, e desvia o olhar do dela, vendo-a sair pela porta.
Com a minha vida.
Foi o que ele não disse.
✉
Naruto está perdido em meio à papelada do seu escritório.
Apesar de já estar acostumado com o seu posto, acostumado com as pilhas de papéis constantes para ler, analisar e assinar, sua vida ultimamente anda uma bagunça, e o estado da sua sala somente reflete o seu interior como um espelho.
Não era fácil. Não era fácil assistir a sua melhor amiga piorar dia após dia, e ele não ser capaz de fazer nada, mesmo com todo o seu poder como ninja, mesmo com toda a sua lábia como líder... Estava de mãos atadas. Vendo-a partir aos poucos, e não fazendo a mínima ideia de como lidaria com isso.
Para piorar havia outra coisa que o preocupava.
Sasuke.
Já não sabia se tinha sido uma boa ideia tê-lo trazido até ali. Não sabia se tinha sido uma boa ideia mandar aquelas cartas. Tinha o visto naquela manhã, e no dia anterior, andando por Konoha feito um zumbi.
Uma casca carregando um corpo com uma alma destruída dentro.
Quando mandara a carta tinha esperança de que Sakura milagrosamente melhorasse somente em vê-lo, como acontecia naqueles filmes de romance que Hinata tanto gostava. Sabia que era uma ilusão, mas esperava que ao menos Sakura sentisse uma gota de felicidade quando se aproximava do fim.
Mas agora, agora achava que não tinha sido uma boa escolha.
Talvez sua escolha acabasse causando mais dor do que felicidade, tanto nela quanto no amigo.
Naruto coça a cabeça e olha no relógio. São vinte horas e dezessete minutos. Ele deve ir para casa, Hinata provavelmente está o esperando para jantar, embora nenhum dos dois tenha muita fome ultimamente.
Levanta-se e anda até a porta desvencilhando-se de todas as pilhas de papéis.
Apaga a luz, desce a escadas. Em modo automático, como tem feito tudo desde que descobrira da doença — e da gravidade — da amiga.
Hinata e Sakura são amigas, mas não é como a relação da médica e dele. A amizade deles é algo transcendental. Após passado as birras de infância, os amores platônicos, e as rixas infantis eles foram capazes de construir uma amizade, uma irmandade, verdadeira e profunda. Estavam sempre lá para reerguer um ao outro, para curar as feridas (físicas ou não) um do outro, e para se darem forças para seguir em frente.
Ele não consegue imaginar como as coisas vão ficar se Sakura partir.
Não sabe a quem vai recorrer quando tiver doente, quando se machucar, não sabe onde vai levar Hinata quando eles finalmente tiverem o filho que tanto sonham, e não sabe para onde vai correr quando o fardo de viver ficar pesado demais e ele precisar ser consolado.
Provavelmente Hinata vai acumular mais funções do que já acumula.
Andando pelas ruas de Konoha ele nota cabelos loiros e longos sentados em um balcão do Ichiraku. Caminha até lá, saindo um pouco do modo automático.
Está preocupado.
— Ino?
Ele chama em dúvida. E ela se vira imediatamente.
— Ah Naruto, é você.
Ela faz um sinal para que ele se sentasse em um banco, mas seu coração está tão acelerado no peito que o som retumba nos seus ouvidos.
— O que aconteceu? Você não deveria estar com Sakura?
Ino sempre dorme com Sakura, e ele sabe que as vinte horas ela pontualmente está lá.
Ele também nota o copo de saquê em frente a Yamanaka.
— Está bebendo... Ino o qu—
— Ela está bem.
Ino o corta e ele suspira em alívio. Só então aceita o banco que ela oferecera segundos atrás e se senta respirando fundo.
— Ela está bem — A loira repete, ao entender o que ele havia pensado — Eu fui dormir com ela, mas Sasuke estava lá, e pediu para ficar. Bom, não foi exatamente um pedido.
— Sasuke?
Ele pergunta em dúvida. Sasuke odeia hospitais tanto quanto ele, ele sabe. Já passaram tempo demais quando gennins presos dentro daquelas paredes brancas.
— Sim. Sasuke. Você está bem Naruto?
Uma garçonete vem perguntar o que ele deseja, e sem forças para falar ele apenas a dispensa com um aceno negativo de cabeça e um “obrigado” sem foco.
Passa algum tempo em silêncio, com Ino o olhando em dúvida.
— Naruto?
Ela chama de novo, só então ele balança a cabeça e volta para si.
— Sim, estou bem. Só fiquei surpreso.
— Ele passa quase o dia inteiro lá, sabe...
Acena positivamente. Tsunade já havia o informado disso.
— Não sei se foi uma boa ideia tê-lo chamado aqui.
— Sakura está feliz que ele esteja aqui.
— Sim, eu sei, mas..., mas e se... E se o pior acontecer? Como ele vai ficar? Sasuke já perdeu os pais, já perdeu o irmão, já perdeu toda família...
— Sasuke é forte.
— Você não entende — ele balança a cabeça em sinal de negação — Não entende como ele sente as coisas, não entende a relação dos dois.
— Tem razão, eu não entendo. Mas eu sinto.
Olha para ela em dúvida.
— Não consigo explicar.
É tudo que a loira lhe oferece, antes de virar-se novamente para o balcão do bar e dar mais um gole em seu saquê.
— Estou indo, Hinata já deve estar preocupada.
A loira acena positivamente, e quando ele está prestes a sair, após se levantar, ela o chama novamente.
— Naruto?
— Sim?
— Alguns exames ficaram prontos hoje.
Ela não precisa dizer mais nada, basta olhar para o seu rosto para saber que os resultados não são bons. Ele acena positivamente, e está pronto para ir, quando Ino acrescenta:
— Tente não se martirizar tanto, você fez o certo. Sakura merece a oportunidade de poder vê-lo novamente, e Sasuke não se perdoaria se algo acontecesse com ela e ele não pudesse se despedir.
— Obrigado, Ino.
É tudo que ele consegue dizer, antes de voltar para as ruas pouco iluminadas rumo a sua casa.
Enquanto anda ele se lembra do dia em que Sasuke chegara, do primeiro dia em que Sakura o vira novamente.
Ele chegou no hospital no começo da noite, Sasuke já tinha ido dormir no apartamento da amiga, e ele passou somente para ver como ela estava antes de ir para casa.
Sakura estava chorando.
Estava chorando muito.
E ele sabia, mesmo antes de perguntar, que era por causa dele. Por causa de Sasuke.
Porque ele voltara.
Parecia um momento tão íntimo que por mais que Naruto quisesse entrar para consolar a amiga, os seus pés não obedeciam ao comando da sua mente. Ele permanecia parado no lugar, vendo a amiga se debulhar em lágrimas.
Eram sete e meia, e provavelmente Ino chegaria em breve, e talvez ela pudesse consolar a amiga melhor do que ele. Mas Sakura, mesmo em meio as lágrimas e soluços, nota a fresta da porta aberta por ele, e chama:
— Quem está aí?
A voz está chorosa e quebrantada. Finalmente os seus pés o obedecem e ele abre mais a porta, entrando no quarto.
— Sou eu, Sakura.
O choro aumenta, e as máquinas ligadas a médica fazem barulhos estranhos.
Ele anda até ela, sentando-se na beira da cama, e toma a amiga nos braços. Ela treme, e os soluços são tão profundos que partem o seu coração.
— Ele veio — ela fala, antes que ele possa pensar no que falar — Ele veio.
Ambos sabem exatamente a quem ela se refere.
— Sim, Sakura, ele veio.
A amiga o abraça com toda a força que tem, nesse momento, não é muita.
— Obrigada. Obrigada Naruto. Sei que ele veio por algo que você fez... E mesmo que eu pudesse ser contra... Eu estou tão feliz de tê-lo visto. Obrigada.
Ele queria ser capaz de fazer muito mais. Mas não diz nada. Apenas a abraça, passando a mão em suas costas, e tentando acalmá-la ao menos um pouquinho.
Qualquer coisa Sakura, faria qualquer coisa para te ver feliz.
Ele pensa, mas não diz.
Naruto sai dos pensamentos e volta para a realidade. Está em frente a sua casa, parado feito uma árvore. Ele ouve Hinata descer as escadas, provavelmente sentira o seu chakra se aproximar.
A morena abre a porta com os olhos arregalados, preocupados, do mesmo modo como ele olhara para Ino minutos atrás.
— Está tudo bem.
Ele diz, antes que ela possa pensar o pior.
— Eu só estava... Perdido em pensamentos.
Hinata acena positivamente, e passa pelo batente da porta, aproximando-se dele. Sem perguntar mais nada, ela o abraça, trazendo o conforto que ele nem sabia que precisava.
— Estou com medo, Hina.
— Eu sei, querido. Eu sei.
✉
Carta não enviada
30 de janeiro de 2005
Sasuke,
Ultimamente tenho pensado muito sobre a vida. Sobre qual o significado de tudo isso. Essa semana perdi três pacientes. Um senhor, de oitenta e quatro anos, uma adulta de cinquenta e dois e uma criança de sete. A casa deles desabou, embora ainda não saibamos o porquê. Alguns ninjas ouviram a explosão, conseguiram recolhê-los dos escombros e os trouxeram até o hospital. Já chegaram em estado muito grave.
O senhor já estava em parada cardíaca, e por mais que tentássemos reanimá-lo, não tivemos sucesso. A mulher era a única ainda consciente, e a única coisa que ela dizia era “salvem o meu filho, salvem o meu filho!”, um de seus braços foi decepado, mas ela nem ao menos parecia sentir a dor e a perda de sangue, só gritava pelo filho. Estancamos o sangramento com dificuldade, Shizune me ajudou, e achamos que ela poderia se recuperar, quando de repente também entrou em parada cardíaca. Mais uma vez, não conseguimos reanimá-la. E por fim, veio o garotinho. Cabelos ruivos, pequeno e magro, já chegou desacordado, e ao examinar notamos que havia hemorragia interna. Ele não aguentou nem ao menos chegar ao centro cirúrgico. Morreu da mesma forma que a mãe e o avô. Parada cardiorrespiratória.
Vim para casa arrasada. Sasuke eu tentei, tentei com todas as minhas forças salvá-los, mas não funcionou. Algo tão inanimado quanto pedras, paredes e entulho os mataram. E eu, embora tenha lido todos os livros da biblioteca de Konoha, embora tenha treinado e aprendido muito, não fui capaz de reverter a situação.
Sasuke, me diga, qual o sentido de estarmos vivos? Somos tão frágeis... Somos ridiculamente frágeis. Há tantas coisas que podem acontecer conosco durante um dia... Tantos perigos, tantos obstáculos, tantos acidentes, tantas doenças...
Às vezes acho que estamos aqui somente para morrer de um jeito ridiculamente idiota. Como por uma parede, uma pedra, uma doença infernal.
A verdade, Sasuke, é que estou com medo de [resto ilegível]
[marcas de lágrimas]
Sasuke acorda assustado sem saber exatamente onde está.
Demora alguns segundos para seus olhos acostumarem-se com a escuridão e ele entender que está no hospital. No quarto de Sakura.
As máquinas estão apitando audivelmente. Ele levanta-se de supetão, apressando os passos até a cama, olhando para a máquina, sem saber ao certo o que aqueles barulhos, cores e números significam.
Seu coração bate desesperado no peito, e ele observa Sakura.
Está desacordada, com os olhos fechados, a cama está ensopada de suor, e ele se amaldiçoa mentalmente por ter cochilado e não ter reparado naquilo.
Abrem a porta antes mesmo que ele pudesse correr para chamar alguém.
Tsunade entra ainda colocando o jaleco. Os cabelos loiros estão desarrumados, mas ela está bem acordada, e Sasuke pensa que aquela mulher parece nunca dormir.
A loira toma controle da situação, dizendo para as enfermeiras o que devem fazer. A voz sai firme, direta, enquanto ela analisa o monitor, que continua apitando feito louco.
— O que está acontecendo?
Ele pergunta, desesperado.
Tsunade nem ninguém se digna a respondê-lo, e ele dá alguns passos para trás, para que uma enfermeira possa injetar alguma coisa na veia de Sakura.
— O que está acontecendo?
Ele pergunta de novo, os olhos voando de Sakura para o monitor, e do monitor para Tsunade, trabalhando frenética sobre o corpo da mais nova.
— Sakura!
Ele chama, como se ela pudesse acordar somente porque ele estava desesperado.
— Uchiha, espere lá fora.
É tudo que a loira o diz.
Não. Não. Não.
Como ele poderia? Como poderia esperar lá fora? Sem saber como tudo aquilo iria acabar.
— O que está acontecendo?
Ele pergunta uma terceira vez. Tsunade o ignora, e volta a gritar ordens para os demais integrantes da equipe, e outra enfermeira chega correndo com um carrinho cheio de medicamentos, agulhas e acessórios que ele não faz a mínima ideia do que significam.
— Vai entrar em parada. Precisamos ir para o centro cirúrgico imediatamente. Kyo, traga uma maca.
É tudo que ele consegue distinguir. Não é um acalento para o seu coração, pelo contrário. Sasuke pensa que vai vomitar.
— Sakura!
Sua voz sai rouca, como se estivesse sem forças. E mais uma vez: nada.
Sakura não acorda.
Já vira muitas coisas na vida. Mas aquela, é provavelmente, a mais difícil delas. Ver Sakura inconsciente, em uma cama de hospital, com várias pessoas em volta dela, e ele ali, parado, sem poder fazer nada para ajudá-la.
Shizune aparece de repente, com uma maca nos braços, como se adivinhasse o que Tsunade tinha pedido a enfermeira que nem chegara a deixar o quarto.
— Vamos passá-la para maca.
Ele aproxima-se da cama, com a intenção de ajudar, e Tsunade o rechaça.
— Uchiha, espere lá fora.
Ela pede de novo. E tudo o que ele faz é perguntar:
— O que está acontecendo?
Ele pergunta. De novo. De novo. De novo. Ele sente-se um garotinho assustado e fragilizado, chegando em casa após um dia de escola e encontrando somente cadáveres.
As enfermeiras e Shizune acabam de passar Sakura para a maca. Elas começam a encaminhá-la para o centro cirúrgico, e mais uma vez ele faz menção em acompanhá-los. Ele é parado por uma Tsunade vermelha, usando chakra nas mãos para mantê-lo no lugar.
— Uchiha, isso é sério. Preciso cuidar de Sakura, e não tenho tempo para ficar te dando explicações. Por favor, espere na recepção. Volto para dar notícias assim que puder.
— Mas—
— Uchiha, por favor.
É tudo que ela diz antes de se virar e sair correndo atrás da maca. Ele dá alguns passos incertos até a porta, e vê Sakura sobre a maca. Frágil, desacordada, doente.
Ele não sabe o que fazer. Deseja que Naruto, ou até mesmo Ino estivessem ali. Eles provavelmente saberiam o que fazer. Mas eles não estão. E ele segura o ímpeto de sair correndo atrás da maca.
Sabe que Tsunade tem razão. Ela precisa estar inteira naquele processo, precisa poder trabalhar focada, sem ter que se preocupar com ele causando problemas no seu hospital. E não há nada que ele possa fazer para ajudar.
Ele volta para o quarto. Observando a cama vazia, os lençóis bagunçados.
Seu coração bate descontrolado, a bile sobe pela sua garganta e ele corre até o banheiro, vomitando o pouco que comera no jantar.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Não podia.
Na segunda vez que vomita, há apenas um líquido transparente como água. Ele lava a boca na pequena pia do banheiro do hospital, e se olha no espelho. Está deplorável.
Cabelos bagunçados, olheiras, o medo estampado no seu rosto feito uma segunda pele.
Sai do banheiro e anda em círculos pelo quarto. Tsunade mandara que ele esperasse na recepção, mas ele não consegue sair dali. Quer acreditar que ainda está sentado na poltrona dormindo, e que daqui a pouco vai acordar. Sakura vai estar bem, acordada, e eles vão conversar sobre assuntos banais até a madrugada.
Mas isso não acontece.
O quarto, agora que Sakura se foi, está silencioso.
As máquinas não mais apitam e a ausência de som é como um soco no estômago.
Por favor, por favor, por favor.
Ele pede, sem saber exatamente para quem. A angústia está entalada em sua garganta, feito um gato engasgado com uma bola de pelo. Ele não sabe se deve ir até a recepção e pedir para que avisem Naruto, ou se ele mesmo deve procurar a loiro.
Há Ino e Kakashi também, devia avisá-los?
Ele não sabe. A dúvida e o medo estão corroendo o seu interior, e ele não consegue pensar racionalmente.
E então, ele toma uma decisão. De fazer uma coisa que nunca fizera em toda a sua vida.
É a sua última esperança.
Sua última tentativa frustrada de fazer alguma coisa, no seu leque limitado de opções, para ajudá-la.
Sasuke ajoelha-se no centro do quarto escuro, as pernas tremendo.
Ele não sabe como fazer. Não sabe como rezar.
O que deveria falar para um deus que ele nem tem certeza da existência? Com quem não tem nenhuma intimidade?
A última vez que se pôs de joelhos foi quando seus pais ainda eram vivos. Numa noite tempestuosa, que ele acordou a mãe porque estava com medo dos trovões, e ela foi para o seu quarto com ele. Seguindo os conselhos dela, eles se ajoelharam juntos, deram as mãos, e rezaram baixinho para que deus o protegesse, para que abrandasse aquele medo dentro dele.
Naquela noite, ele apenas reproduziu os passos de sua mãe. Mas agora ela não estava mais ali, e ele não tinha a mínima ideia de como começar.
Deveria iniciar pedindo desculpas? Desculpas pelos seus erros, pela sua vida torta, pelas milhares de vidas que ele já prejudicará na sua jornada?
Ele não sabe se os seus pecados têm perdão. Esse deus provavelmente é incapaz de ter misericórdia da sua alma. Ele não merece.
Não merece o perdão, não merece o contato, não merece que deus ouça suas palavras.
Ainda assim, ele coloca os joelhos no chão.
E reza.
Por ela.
Mesmo sem ter a mínima ideia do que está fazendo.
Mas, se existe realmente um deus, sabia que ele o ouviria. Não por ele. Mas por ela.
Sakura merece um deus que olhe por ela. Sakura é digna de compaixão. Ela dedicara toda a sua vida a ajudar pessoas, a ter empatia por elas, de um modo que ele sabia que nunca seria capaz. Sakura merece que deus a ajude.
E como ela está incapacitada de pedir aquilo naquele momento, ele o faz por ela.
Por favor.
Ele pede.
A salve. A salve. A salve.
Por favor.
A cure.
Ele se desfaz. Ele expõe todos os seus medos, todas a suas inseguranças, todas as suas incertezas para aquele deus que ele nem ao menos sabe se o ouve.
Mas ele tenta mesmo assim. Porque não o resta mais nada. Porque aquela é sua última esperança.
Por favor.
Me dê uma segunda chance.
Sim, a segunda chance, caso Sakura se recuperasse era para ele. Para ser melhor, para fazer tudo diferente, para tentar recuperar o tempo perdido.
Guie as mãos de Tsunade e sua mente.
Por favor.
Por favor.
Por favor.
Eu não vou aguentar. Eu não vou aguentar perdê-la. E eu sei que mereço ser punido, mas ela não.
Ela não.
Ela não.
Por favor.
A cure. A cure. A cure.
Quando Sasuke se levanta, após terminar sua oração amadora, sem saber ao certo se passaram minutos ou horas, há lágrimas escorrendo pelo seu rosto.
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