Cartas
8 VIII: Monstro da espera
Notas iniciais
CARTAS
Escrita por Coffee
Capítulo VIII: Monstro da espera
18 de abril de 2004
Sasuke,
Sinto muito a sua falta. A espera por notícias suas, mesmo que contadas por terceiros que ocasionalmente o veem por aí, deixa meu coração angustiado. Então, se estiver em algum lugar em que conseguir me escrever alguma coisa — qualquer coisa — por favor, me responda. Não ter notícias suas é ter um peito inquieto 24 horas por dia. E, embora eu tente me manter positiva, e pensar que está tudo bem, uma parte da minha mente sempre pensa nas mil e uma coisas que podem acontecer com você durante sua jornada. Doença, lutas, roubos, desastres naturais... Sim, eu sei que exagero um pouco na minha preocupação, mas... Sempre temos terrível tendência a nos preocupar exageradamente com aqueles que amamos. Espero uma resposta sua, mesmo que seja somente para me confortar dizendo que está tudo bem. Com muitas saudades e preocupação,
Sakura.
Kakashi entra no hospital com os pés doendo, cansados da caminhada, pois já não tem a mesma disposição e energia de antes. Estava em uma missão, e embora seja um ex-Hokage e não precise mais se desgastar com esse tipo de coisa, sair em missões o conforta, porque a ideia de ficar trancado no seu pequeno apartamento sozinho com os seus antigos fantasmas dia e noite ainda o assusta.
Ele acena para a recepcionista que assinaria o livro na saída, e toma o conhecido caminho até o quarto da ex-aluna. Já era tarde, passava das onze da noite, mas ele queria ao menos olhá-la por alguns segundos, mesmo a distância e se certificar que ela ainda estava ali.
Abre a porta do quarto escuro com calma, tentando não fazer barulho para não acordar Ino e Sakura, mas a primeira coisa que nota, antes mesmo de ver, é o silêncio.
As máquinas não estão apitando como sempre.
Ele acaba de abrir a porta com o coração saindo pela boca.
Não.
Não.
Não.
O quarto está escuro. Ele olha primeiro para a poltrona, e Ino não está ali. E então, tomando coragem, ele olha para cama, e Sakura também não está.
Em seu lugar, há uma sombra muito maior do que a dela, sentada na cama. Com o rápido ajuste de seus olhos ele percebe quem é.
Sasuke.
Está sentado sobre a cama de Sakura, no escuro, as mãos no rosto em silêncio.
Não. Não. Não. Não.
Será que...?
Seu estômago — antes reclamando de fome — revira, e ele pensa que poderia vomitar, se tivesse alguma coisa na víscera.
— Sasuke.
Ele chama o ex-aluno, entrando no quarto, e conferindo o banheiro.
Sakura também não está lá — para o seu desespero.
— Sasuke.
Chama uma segunda vez, quando o mais novo não faz nenhum movimento em reconhecimento de que ele está lá, nem que ouviu seu chamado.
Mais uma vez, nada.
— Sasuke.
Tenta uma terceira vez, aproximando-se da cama.
Céus, isso não pode estar acontecendo.
Ele se senta na cama ao lado no aluno. Os dois ficam mais alguns minutos em silêncio, antes dele tentar uma quarta vez.
— Sasuke, o que aconteceu?
Agora o aluno finalmente reconhece sua presença, tira as mãos no rosto, e vira-se para ele. Está deplorável. A barba por fazer, os cabelos negros mais bagunçados que o normal, e os olhos vermelhos.
Sasuke esteve chorando, ele percebe, embora agora o rosto do Uchiha esteja seco.
— Ela...?
— Não!
É a primeira fala dele, e então Kakashi suspira aliviado.
— E o que aconteceu?
— Eu não sei... Ela parecia bem, estava com um pouco de dor mais... E então eu cochilei, e quando acordei as máquinas estavam apitando, e então Tsunade a levou e—
A voz rouca morreu, e ele não fez nenhuma menção de continuar sua fala.
Kakashi acena positivamente. Estavam todos cientes que Sakura pudesse piorar — ainda mais — de repente. Talvez apenas o moreno, que chegara por último, não soubesse dessa realidade.
— Eu cochilei — Sasuke finalmente volta a falar alguns minutos depois — talvez, se eu não tivesse cochilado, poderia ter notado a sua piora, e chamado Tsunade antes e...
O Hatake pensa que nunca vira Sasuke tão desesperado. Tão incerto. Falando frases entrecortadas e com tão pouco sentido. Na verdade, Kakashi nunca vira o pupilo tão frágil.
— Não fique pensando besteiras, Sasuke. Tsunade já tinha nos avisado que o quadro de Sakura estava instável, e que ela poderia piorar a qualquer momento.
O mais novo não diz nada sobre a sua afirmação. Apenas permanece sentado ao seu lado, com os ombros caídos, a mandíbula trincada e descrença no olhar.
Embora não fosse muito ligado a afetos, se fosse Naruto, talvez Kakashi pudesse consolá-lo com um abraço, mas não Sasuke. E o mais velho não faz a mínima ideia do que fazer, ou dizer para melhorar o estado do mais novo.
— Naruto já sabe?
O mais novo dá os ombros.
— Você avisou? Ou pediu que avisassem?
Uma negativa com a cabeça.
— Certo. Eu vou até a recepção pedir para que avisem ele e Ino. Eles gostariam de estar aqui.
Levanta-se da cama, a dor nas pernas e nos pés já esquecida, e anda até a porta. Antes de sair, porém, olha para o aluno novamente.
Ele não pode sair e deixá-lo ali, daquele jeito. Só Deus sabe o que se passa na cabeça do mais novo, e quantos fantasmas estão o atormentando naquele momento.
— Sasuke, vem, vamos para recepção. Você não tem autorização para ficar aqui, de qualquer modo. Vamos, Tsunade dará notícias para nós lá.
O Uchiha não se move, nem faz nenhum sinal de que o ouvira.
Só minutos depois, quando ele está pronto para repetir, Sasuke desce da cama e o acompanha feito um zumbi, como se estivesse sendo movido por uma vontade superior à sua própria.
Ao sair, ele observa o ex-aluno olhar para trás, para cama em que Sakura estivera deitada no início da noite, como se tivesse uma última esperança de vê-la ali, o que não acontece. Então, Sasuke pega a maçaneta da porta, fechando o cômodo escuro com um baque surdo.
Ele anda na frente, mas dá apenas alguns passos, antes de seu nome ser chamado.
— Kakashi.
A voz de Sasuke é fraca, como se estivesse envergonhado de chamá-lo.
Vira-se, encarando o ex-aluno. Somente os dois, no longo corredor de luzes fluorescentes.
— Sim?
Pergunta, quando o outro não diz mais nada.
Ainda demora alguns segundos antes de Sasuke finalmente exteriorizar aquilo que está sentindo.
— Estou com medo.
Sasuke o surpreende, por ter despido seu interior desse modo para ele, justo ele, tão fechado e silencioso.
Imediatamente, Kakashi entende.
De certo modo, eles eram iguais.
Relapsos, silenciosos, e, acima de tudo, pecadores.
Ambos tinham fantasmas os atormentando, e ambos tinham uma grande dificuldade de exprimir aquilo que sentiam.
Como exemplo, Kakashi tem a própria aluna, sendo operada naquele momento. Ele nunca conseguira dizer o quanto ela havia amolecido seu coração com a sua doçura, sua gentileza e a sua garra. Nunca havia dito a ela o orgulho que sentia, pela ninja, pela médica e principalmente pela mulher que se tornara. Ele nunca havia falado para ela que a amava, assim como amava Naruto e Sasuke como filhos que ele nunca tivera.
Ele dá alguns passos, aproximando-se de Sasuke como se estivesse se aproximando de um animal selvagem, mas o Uchiha parece tão perdido que não faz nada para afastá-lo.
E então, Kakashi o abraça com um único braço, mesmo que nunca tenha feito com nenhum dos seus alunos.
Mas lá estão eles, em meio a incerteza, espera e medo. Muito medo.
— Eu também. Eu também, Sasuke.
É tudo que ele consegue dizer. O pupilo não devolve o seu abraço, mas também não recusa, e eles ficam silenciosamente, consolando um ao outro, por alguns segundos.
✉
Naruto está em meio à uma guerra.
Pain machucou Hinata.
Muito.
A Hyuuga sangra tanto que Naruto tem dúvidas se ela ainda está viva. Seu coração está acelerado, e ele tenta se aproximar dela, para ajudá-la, mas está paralisado por um jutsu.
Hinata! Hinata! Hinata!
Ele grita, tentando dar forças para que ela se levante, para que ela reaja, mas ela não se move. Pain então aproxima-se dela, com uma estaca na mão, e ele olha para os lados — sua cabeça é a única parte do corpo capaz de se mover, em busca de qualquer um, qualquer um que pudesse ajudá-los, mas não há ninguém.
Não há ninguém, e Hinata está morrendo, e ele não consegue se mover para socorrê-la.
Se ao menos Sakura estivesse ali, se ela pudesse curar Hinata, então não importaria o que acontecesse com ele, desde que a Hyuuga ficasse bem.
Hinata!
Ele chama uma outra vez.
— Naruto-kun?
— Naruto-kun?
Finalmente ela o responde, e alguém chacoalha seu braço direito.
— Naruto-kun!
Naruto acorda ofegante. Ele senta-se rapidamente, o suor pingando no canto da testa, e ele olha para os lados tentando identificar onde está.
A primeira coisa que vê são os conhecidos lençóis azuis — sempre com cheiro de amaciante — e a parede cinza, a sua frente, com um quadro do dia do seu casamento.
Ele nota que suas mãos estão tremendo, e então olha para o lado, para a voz que ainda o chama.
Hinata está lá, inteira. Não há nenhum sangue, nenhum ferimento, nada. Apenas o olhar perolado preocupado.
— Foi só um pesadelo, querido.
Ela tenta o confortar, com um sorriso singelo e a voz mansa.
— Acabou, querido.
Ela ajoelha-se na cama e os braços finos circulam seu tronco, deixando que ele descanse a cabeça na curva do seu pescoço. A Hyuuga passa a mão nas suas costas três vezes seguidas, acalmando-o, e só então ele nota que ela está vestindo o robe de seda, e não a usual camisola que usa para dormir.
— Onde você estava?
Ele nota que não há nenhum copo de água no criado mudo.
— Fui atender a porta. Você estava tão submerso em seu sonho que nem ouviu baterem.
Rapidamente, ele se desvencilha do abraço, encarando os olhos claros da esposa.
— Quem era? O que aconteceu?
Imediatamente cabelos róseos passam pela sua mente, e Hinata apenas confirma seus temores.
— Era um funcionário do hospital, querido. Sakura-chan piorou, ele não deu detalhes, apenas disse que Tsunade está com ela no centro cirúrgico e que dará notícias assim que possível.
Ele levanta-se imediatamente, andando até a cômoda onde ficam suas roupas, tentando achar algo para vestir.
Hinata não diz nada, enquanto ele pula para entrar em uma calça, e depois vai até o banheiro lavar o rosto coberto de suor do pesadelo já esquecido. A morena segue os seus passos, também trocando de roupa, e lavando o rosto e em poucos minutos eles estão prontos para seguir ao hospital.
Eles descem as escadas rapidamente, e ao sair suas mãos tremem tanto que ele precisa de cinco tentativas para colocar a chave na porta. Hinata, então, tira as chaves de sua mão, e fecha a casa.
Quando ele está pronto para começar a correr até o hospital, Hinata o chama, e segura seus ombros, fazendo com que ele se vire para ela.
— Querido, o funcionário do hospital falou que Kakashi-san e Sasuke-san já estão no hospital, e ele iria notificar Ino-chan também. Como você me contou que era Sasuke-san que iria passar a noite com ela, imagino que ele deve ter presenciado a sua piora, e deve estar muito fragilizado, então você precisa ser forte, querido, para ajudar o seu amigo nesse momento.
Ele acena positivamente, agradecendo a esposa pelo conselho, e tenta acalmar um pouquinho o próprio coração.
Após respirar fundo, ele pega a mão da Hyuuga, e eles partem para o hospital.
✉
Ino aproveita sua noite de folga para encontrar Sai, após sair do Ichiraku.
Eles tinham iniciado um relacionamento há alguns meses atrás, mas agora, após o aumento dos seus plantões e suas noites passadas com a amiga, eles quase não se veem.
Para falar a verdade, Ino não tem nem ao menos vontade de namorar, de estar com alguém. Ela anda melancólica demais para compartilhar seus sentimentos e seu corpo.
Ainda assim, Sai a recebe em seu pequeno apartamento no centro de Konoha, com cheiro de tinta à óleo e as unhas sujas de azul. Ele dá a ela um sorriso verdadeiro, e palavras de conforto. Eles não se beijam, nem fazem sexo, apenas se deitam na cama dele — ela não quer ficar sozinha no seu apartamento — e ele abraça sua cintura, permitindo que ela tenha um sono tranquilo, sem pesadelos.
Mas não dura muito.
Logo seu sono é interrompido por batidas insistentes na porta, e é Sai quem levanta-se primeiro para atendê-la. Quando volta, alguns segundos depois, tem o olhar pesaroso.
— Sakura piorou. Está em cirurgia.
Ela levanta-se tão rapidamente que uma tontura a invade. Tão logo se recupera, ela tira a camiseta de Sai que vestira para dormir, e coloca as roupas com que chegara. Embora ela não peça, o pintor também troca de roupas, e a acompanha silencioso até o hospital.
Ao chegar lá, ela encontra uma pequena roda na recepção. Kakashi, Naruto, Hinata e Sasuke, todos em silêncio, olhando para o chão.
Naruto e Hinata estão de mãos dadas sentados em duas das poltronas azuis, a morena de olhos fechados, como se rezasse, com uma das mãos nos bolsos da calça. Kakashi está agachado no chão, embora tenha uma infinidade de cadeiras ao seu redor, e Sasuke permanece de pé com o olhar distante, e parece nem notar sua chegada.
— Alguma notícia?
Ela pede, como forma de cumprimento. Sai diz um baixo “boa noite” e se senta duas poltronas depois das que o casal Uzumaki está sentado.
— Nenhuma, Ino-chan.
É Hinata quem a responde, depois de abrir os olhos.
— Chegamos agora pouco também, sabemos apenas que o quadro teve uma piora, e estamos aguardando notícias.
Acena positivamente.
— Vou tentar entrar no centro cirúrgico, se souber de alguma coisa, mando avisá-los.
Sem esperar resposta, Ino segue pelos conhecidos corredores do hospital, até a ala de salas cirúrgicas. Uma das enfermeiras diz que a cirurgia ainda está em andamento, e ela pede que a mulher pergunte a Tsunade se ela pode auxiliar.
Enquanto aguarda, Ino troca as suas roupas pelo pijama cirúrgico, prende seus cabelos, e escova suas mãos, já na esperança de que a Senju autorize sua entrada.
— Tsunade-sama disse que a senhorita pode entrar.
Ela agradece, e a mesma enfermeira ajuda que ela se paramente. Seu coração bate em expectativa, e ela entra no centro cirúrgico tão logo acaba de se trocar.
Há Tsunade, duas enfermeiras, um anestesista e uma auxiliar.
Eles abrem espaço para que Ino passe, e se coloque na frente de onde a Senju está.
Ino tenta não olhar para o rosto da amiga, tenta a tratar como se fosse um paciente qualquer, para não entrar em pânico. Não é fácil.
O peito está aberto.
— Está aguentando bem a anestesia. Os sinais vitais estão razoáveis, e conseguimos retardar a parada, estou usando minha última cartada, é uma cirurgia de troca de valva, consegui importar essa do País da Luz.
Acenou positivamente, inteirando-se do que acontecera até então.
— Preciso de um campo maior do lado direito.
A loira pede, para ninguém em específico, e ela toma a tarefa para si, respirando fundo, e não permitindo que suas mãos tremam, Ino mantem-se firme em ajudar Tsunade na cirurgia.
Sua amiga precisa dela. E ela não vai falhar.
Durante a cirurgia, os sinais vitais caem um pouco, e eles correm contra o tempo para estabilizar tudo novamente, com o anestesista gritando números. Quando as coisas se normalizam um pouco, Tsunade pergunta:
— Como estão as coisas lá fora?
— Naruto e Hinata foram chamados, estão na recepção junto com Kakashi, Sai e Sasuke. Estão todos desesperados por notícias.
Os olhos da Senju pesam.
— Precisam fechar logo, a anestesia está acabando, e não posso dar mais.
— Ino, segure aqui para mim.
Elas mudam de assunto, voltando para a realidade do centro cirúrgico.
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Sasuke olha para o relógio.
São três e cinquenta e sete da manhã. Ele encosta-se na parede, apoiando a cabeça, e respira fundo.
Naruto já tentara quatro diálogos com ele, mas sem o estímulo por sua parte ele desistira, e senta-se ao lado da esposa.
Kakashi é o primeiro a se levantar. Seguindo o olhar do mais velho, ele rapidamente desencosta-se da parede.
Tsunade está vindo.
Ainda usa roupas hospitalares e tem o olhar cansado.
Seu coração acelera, Naruto, Hinata e Sai também se levantam.
— E então?
É o Hokage quem pergunta. Naruto parece esgotado, com olheiras roxas ao redor dos olhos, como se não tivesse dormido bem o pouco que a noite permitira.
— Ela está estável, dentro dos parâmetros esperados.
Um peso parece sair dos ombros de todos os presentes, e respirações fundas são ouvidas.
— O caso ainda é grave. Usei a última cartada que tinha, esperava que talvez ela fosse aguentar mais, sem a operação, mas nem tudo acontece como gostaríamos. Mas ela aguentou bem a cirurgia com algumas intercorrências que foram controladas.
— Já podemos vê-la?
A Senju acena negativamente para Naruto antes de pôr em palavras.
— Como eu disse, o caso ainda é grave. Ela vai ficar em observação na UTI por alguns dias, até termos certeza que a operação foi bem e que o organismo está se recuperando. Foi uma cirurgia muito grande e muito invasiva para um paciente no estado dela, e o corpo precisa de tempo para se recuperar.
— Mas e a doença? Foi revertida?
Outro aceno negativo.
— Não, apenas... Prolongamos um pouco mais. Tenho esperanças de que com isso ela consiga esperar até um transplante, mas não posso afirmar, é tudo muito instável. Vou agora para minha sala, preencher uma papelada e pedir prioridade no seu caso para um transplante de coração.
Quando ninguém fala nada, a loira continua:
— Por favor, vão para suas casas, ficar aqui não irá adiantar de nada. Vão para suas casas, tentem dormir nas poucas horas que restam da noite. Amanhã de manhã Sakura vai fazer mais alguns exames, e assim que eu tiver notícias, aviso vocês.
Naruto e Hinata acenam, trocando meia dúzia de palavras com Tsunade, antes de andarem até a saída.
— Sai, Ino está suturando Sakura para mim, pediu para dizer que não vai voltar para casa essa noite.
O pintor acena, e segue o casal Uzumaki, até restarem Kakashi e Sasuke. A loira oferece um sorriso triste aos dois.
— Ela vai ficar sedada por algumas horas. Qualquer coisa, eu mando avisá-los.
Ela diz e se despede, e logo eles estão saindo do hospital também.
Sasuke não quer sair. Sasuke não quer abandoná-la.
Não de novo.
Mas não há nada que ele possa fazer, e ele não pode vê-la, e está tão cansado que resolve seguir o conselho da médica e se deitar um pouco.
Kakashi e Sai seguem pelo mesmo caminho, os deixando com um “boa noite”, embora já seja quase de madrugada.
Sasuke anda sem se despedir de Naruto e Hinata, porque não sabe o que falar. Sabe que Naruto está sofrendo tanto quanto ele, mas... Ele nunca fora bom com os próprios sentimentos, muito menos com os dos outros.
Quando já está afastado da entrada reluzente do hospital, chamam seu nome.
— Sasuke-san!
Ele para e olha para trás com uma sobrancelha negra arqueada.
Hinata caminha rapidamente até ele, enquanto Naruto continua parado nas escadarias do hospital, com pesar nos olhos azuis.
Ele não faz ideia do que Hinata pode querer com ele. Nunca tiveram nenhuma intimidade, e a única coisa que ele sabe sobre ela é o seu nome e que ela é mais gentil do que Naruto merece.
— Sasuke-san! — Ela diz quando se aproxima dele, sua voz é suave feito uma canção — Sei que está sofrendo, e apenas queria dizer que estamos aqui, Naruto e eu. Se precisar de alguma coisa, por favor, nos fale. Naruto disse que você tem ficado no apartamento da Sakura-chan, e se estiver doloroso demais ficar lá, ou se você apenas quiser um pouco de companhia, embora eu saiba que você provavelmente não quer, saiba que as portas da nossa casa estarão sempre abertas para você.
Sasuke pensa que assim como Naruto ele não merece tanta gentileza.
A atitude da Uzumaki o surpreende, e a única coisa que ele consegue fazer é anuir com a cabeça. Quando está prestes a se virar novamente, ela dá mais um passo e se aproxima um pouco mais.
As mãos tão suaves quanto a sua voz, pegam seu pulso, e ele está tão confuso que permite que ela vire sua mão sobre a dela. Com a outra mão, ela coloca alguma coisa sobre a sua palma e a solta.
Ele permanece com a mão na mesma posição em que ela a colocara, virada com a palma para cima, na altura do peito e quando a mão dela sai de cima da sua, ele nota o pequeno objeto na sua palma.
É um pequeno terço. Uma pulseira, na verdade, ele nota o fecho. Prata, com pequenas pérolas e uma cruz na ponta.
— Foi minha avó quem me deu, quando eu era pequena. Conforme cresci, foi ficando apertado demais para o meu braço, então comecei a guardá-la no bolsa da calça. Ela esteve comigo em muitos momentos, no exame chunnin, na invasão de Konoha, na guerra e no dia do meu casamento com Naruto. Sempre que as coisas ficavam difíceis demais, sempre que eu me sentia desesperada ou com medo, eu colocava a mão no bolso, e fazia uma prece, enquanto tocava suas contas. Quero que fique com ele.
Ele balança a cabeça negativamente, e dá um passo em sua direção, oferecendo a peça para que ela pegue de volta.
Hinata aproxima-se e fecha sua mão em torno do terço.
— Ele me ajudou a passar por muito momentos difíceis, e espero que agora possa te ajudar também. Fique com ele, por favor.
Quando ele não faz nenhum movimento — está paralisado pela surpresa — ela lhe dá um sorriso e começa a se afastar.
— Hinata.
Ele chama. O nome sai estranho nos seus lábios, e ele pensa que é porque nunca o pronunciou.
A morena se vira.
— Obrigado.
Mais um sorriso, e ela se afasta. Naruto acena para ele, quando a esposa chega até ele, e juntos eles vão para casa.
Sasuke segura a pequena joia nas mãos, observando o quanto as pérolas já estão opacas, e então, seguindo o conselho de Hinata, a coloca no bolso. Enquanto anda rumo ao apartamento de Sakura, Sasuke gira as pequenas contas pelos dedos, dentro do bolso da calça negra que usa, e faz uma oração silenciosa.
Carta não enviada
15 de setembro de 2005
Sasuke,
Vou te contar uma coisa horrível. Às vezes, eu me revolto com Deus. Às vezes eu não entendo as suas escolhas, não entendo o seu modo de fazer as coisas acontecerem. Provavelmente essa minha revolta é apenas um dos muito estágios do luto, pela minha doença. É algo intrínseco nos meus momentos tristes e de piora. Mas, semana passada acharam uma pequena bebê abandonada na floresta. Ninjas voltavam de uma missão quando escutaram o choro, e ao investigaram viram aquele pequeno ser, tão frágil, tão pequeno, no chão da floresta, ali para que qualquer animal a atacasse. Trouxeram-na para o hospital. Calculamos ter dois dias de vida e passara a noite inteira na floresta. No sereno, no frio, exposta a tantos perigos, sem comer, sem nenhum cuidado, e ainda sim, ali estava ela. Forte. Aquela pequena vida sobrevivera, e aceitou o leite com avidez quando oferecemos uma mamadeira. E, se essa não é uma prova de que Deus olha por nós — embora constantemente duvidemos — não sei o que mais possa ser.
Sakura.
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