Cartas

9 IX: Monstro da distância


Notas iniciais
Sem palavras para agradecer o carinho de vocês, obrigada! Mais uma votação no insta @historiasdacoffee e a escolhida - novamente - por vocês para atualização foi Cartas. Boa leitura!

CARTAS

Escrita por Coffee

Capítulo IX: Monstro da distância

21 de novembro de 2004

Sasuke,

Consegui uma promoção no hospital. Bom, não é bem uma promoção. Tsunade na verdade quer se livrar um pouco do serviço, e eu o aceitei de bom grado. Além de atender agora também comando a área cirúrgica, e estou muito feliz com essa nova função. Devido a alguns problemas recentes não tenho conseguido participar de longas cirurgias, mas poder ao menos estar envolvida nelas de alguma forma me faz bem.

O Natal está se aproximando e Naruto está cada vez mais próximo de realizar seu sonho de ser Hokage. Kakashi deixou que ele escolhesse algo para fazer nesse fim de ano, para ir se acostumando ao comando, e Naruto escolheu decorar toda a vila com bonecos de neve falsos e pinheiros iguais aos de Yukigakure. Kakashi está furioso, mas as crianças gostaram de destruir tanto isopor. Gostaria que você estivesse aqui.

Por favor, tome cuidado, e se puder, mande notícias. Com saudades,

Sakura.

Sasuke senta-se no sofá creme ainda inquieto. Mesmo que tenha ouvido Tsunade — a médica mais ovacionada do mundo shinobi — a apenas alguns minutos atrás, dizer que Sakura estava bem, ele não consegue acalmar o seu interior.

A impossibilidade de vê-la, de enxergar com seus próprios olhos qual o estado dela estava o destruindo. E, secretamente, ele pensa como conseguira passar tantos anos longe.

Na verdade, ele sabe como. Sempre tivera em mente que, quando atingisse poder, quando realizasse sua vingança, voltaria, depois colocou em mente que, quando acabasse de se redimir pelos seus pecados, voltaria, sempre com essa ideia de que os seus amigos, e principalmente, Sakura estaria sempre ali, o esperando.

Receber a notícia de que Sakura estava doente acabou com essa sua certeza, pois o fez perceber quanto tempo tinha perdido, quanto tempo tinha desperdiçado, tempo que agora ela não podia mais repor.

Além disso, também sempre tivera medo de voltar. Medo de lidar com os seus sentimentos, com as suas fraquezas, com as suas inseguranças. O seu relacionamento com Kakashi e Naruto seriam mais fáceis para que ele lidasse, ele sabia. Kakashi já tinha errado muito em sua trajetória, e, de certo modo, entendia o que ele passara. E Naruto, como um irmão de alma, estaria sempre disposto a perdoá-lo e a recomeçar.

Mas o seu relacionamento com Sakura era algo totalmente diferente. Embora talvez ela pudesse não se lembrar, sua primeira lembrança dela não era da academia ninja, mas sim de quando eram ainda menores e ele a viu acompanhada dos pais, enquanto ela tomava um sorvete maior do que ela mesma. Ele estava no parque, brincando com Itachi enquanto sua mãe ia em uma consulta médica, e ele riu quando a viu derrubar as bolas de sorvete e ficar somente com a casquinha na mão.

Itachi olhou para ele sem entender o motivo da sua risada — ele não era uma criança muito dada a isso —, mas ele não explicou ao irmão, porque, por algum motivo, queria guardar aquela lembrança e aquele momento só para si.

Depois da tragédia que se abateu sobre a sua família, aquela risada, aquele sentimento bom foi ficando cada vez mais distante. Embora ele não gostasse que outros se aproximassem, e — secretamente — gostasse da atenção que Sakura reservava para si, ele não pensava nisso de uma forma romântica. E isso mudou somente quando ela o encontrou na entrada da vila e mostrou a ele que estava disposta a largar tudo, para seguir com ele.

Alguém ainda se importava.

Foi o que ele percebeu naquele momento, sem família, sem amigos, depois de ter feito tantas besteiras e pronto para fazer outras, alguém ainda gostava dele, se importava.

E mesmo assim, ele a recusou, pois não podia permitir que ela perdesse sua juventude, sua inocência por causa dele. Mas, de um modo ou de outro, foi exatamente o que aconteceu. Tanto com ela, quanto com Naruto.

Após seus momentos de loucura, em sua recuperação, acreditava que tinha todo o tempo do mundo para desfazer seus erros, para pedir perdão, para recomeçar. Mas, a doença de Sakura viera para mostrar a ele que a vida era um suspiro, e que nunca devemos deixar as coisas para depois.

E agora, lá estava ele. Cheio de dúvidas, de incertezas, de medos. Principalmente medo, medo de perder Sakura sem poder ter pedido um perdão apropriado, sem ter contado sobre o sorvete e sobre como a lembrança dela o acalmou em tantos momentos durante sua jornada. Pois mesmo distante, Sakura ainda estava com ele de alguma forma, através de sua gentileza, do seu cuidado, da sua força e do seu amor.

Sasuke ainda achava incrível o modo como algumas pessoas eram capazes de ajudar as outras sem esperar nada em troca. E Sakura era uma dessas pessoas, que, com suas lembranças, e posteriormente com as suas cartas, o salvaram de ainda mais sofrimento e dor, e agora, o mesmo acontecera com Hinata, que mesmo sem ter nenhuma amizade ou intimidade com ele, o ofereceu palavras e um símbolo de conforto, mostrando que pessoas ainda se importavam.

E era por isso que Sasuke permaneceria ali, em Konoha, mesmo com todo o medo de que, em algum momento, a notícia que mais temia o alcançasse. Porque ele quer mostrar a Sakura que ele se importa.

Respira fundo, saindo dos próprios pensamentos e olha ao seu redor.

O pequeno apartamento apinhado de livros, de plantas e de cartas. Ele levanta-se, vai até a escrivaninha, ainda há muitas cartas não enviadas sem abrir, e ele não sabe se consegue ler mais alguma. Já está doloroso o suficiente.

Ele vai até a parede da entrada, e apaga a luz, as sombras tomam conta do pequeno cômodo, e ele vai até o sofá, deitando-se para tentar dormir ao menos por alguns minutos.

Seus olhos pesam, seu corpo está exausto, mas sua mente é um turbilhão.

Um turbilhão de dor.

Um turbilhão de dúvidas.

Um turbilhão de arrependimentos.

Um turbilhão de medo.

Carta não enviada

18 de janeiro de 2006

Sasuke, o coração é um traidor. É engraçado que alguém como eu diga isso, com a doença que me acomete. Essa frase pode ter tantos sentidos..., mas digo que o meu coração é um traidor porque está doente. Muito doente. Ele não é mais capaz de manter o meu corpo. Por causa dele, não posso mais lutar, não posso mais curar, não posso mais fazer as coisas mais simples do meu dia a dia. Mas além de tudo, o meu coração também é um traidor porque mesmo morrendo aos poucos ele continua chamando por você.

Sakura.

Ino olha para amiga.

As máquinas estão apontando que ela está acordando, mas demora alguns minutos para que ela se mexa antes mesmo de abrir os olhos.

Sakura está tão magra que lhe lembra uma criança na cama de hospital. Pequena, frágil. Tão diferente da mulher que quebra rochas e ossos com o seu poder, que Ino pensa se aquilo um dia realmente aconteceu.

Finalmente os olhos verdes encaram o teto. Parecem sonolentos e assustados, e eles giram na órbita percebendo a mudança de ambiente.

Só então Sakura a percebe ao seu lado e vira a cabeça para encará-la.

— Pensei que a boneca fosse dormir o resto do dia.

Ino brinca, tentando inutilmente aliviar a tensão. Sakura dá um sorriso fraco e volta os olhos ao redor, percebendo que está em outro quarto, na UTI, agora.

Ela abre a boca para falar duas vezes, mas nada sai. Ino prontamente pega uma seringa no carrinho ao lado, enche de água e leva até a amiga.

Devagar ela umedece a boca da amiga com a água da seringa, e Sakura até engole algumas gotas de olhos fechados, só então ela diz com a voz quebrantada.

— Isso... é... ridículo.

Ino quer dizer que não, que ela faria muito mais — se pudesse — para ajudá-la, mas Ino sabe que se começar a dizer algo assim vai chorar, e tenta novamente aliviar o clima.

— Por isso é bom que você levante logo essa bunda dessa cama e volte para o trabalho. Não aguento mais o mau-humor de Tsunade.

Sakura dá um sorriso fraco, pelo seu esforço.

— Onde... Ela...?

— Tsunade? Está descansando um pouco. Ao contrário do que parece ela é realmente um ser humano e precisa dormir de vez em quando, embora ela ainda não saiba disso.

Sakura dá mais um sorriso fraco, e se remexe.

— Quer trocar de posição?

Um aceno negativo com a cabeça, e ela tenta se acomodar sozinha, mas uma careta de dor toma conta do seu rosto.

— O que...?

A voz está tão fraca quanto ela, mas Ino entende.

— O seu coração — Ela aponta para o peito da amiga — Tsunade teve que fazer uma cirurgia às pressas, mas deu tudo certo. Trocamos uma das valvas.

— Que... ótimo... Um pedaço... de porco no meu coração. *

— Acho que agora quem tem que te chamar de porca sou eu.

Mais um sorriso, e as mãos vão até o meu do peito, onde o curativo pós-cirúrgico está.

— Está com dor?

— Não... muito. Acho que apenas o normal... de ter o peito aberto de novo.

Ino acena positivamente, movendo-se até a prancheta ao lado da cama.

— Seu próximo analgésico será em uma hora. Aguenta até lá?

Sakura anui.

Ino sabe que deve sair, que deve ir visitar outros pacientes, mas não consegue. Enquanto Sakura desvia o olhar, observando o quarto ao seu redor, embora já o conhecesse há anos, quando era a médica a internar os pacientes ali, Ino a observa discretamente.

Magra. Pequena. Frágil. Branca feito papel.

— Há quanto... tempo?

— A cirurgia foi há oito horas. Agora é quase meio-dia.

Sakura acena e desvia o olhar, e só então Ino percebe por que Sakura observa tanto o quarto. Está tentando disfarçar as lágrimas acumuladas nos olhos.

Respira fundo, aproximando-se mais da cama e se sentando na beiradinha, torcendo para que uma enfermeira não entre naquele momento e lhe dê uma bronca. Então, pega a mão da amiga, a que está sem o oxímetro, e obriga Sakura a olhá-la.

— Ei. Está tudo bem. A cirurgia ocorreu dentro do esperado. Você aguentou muito bem a anestesia, e Tsunade interveio antes de uma parada.

A Haruno acena, e no movimento uma gota desce dos olhos verdes, percorrendo a bochecha até cair pela mandíbula.

— Estou tão... cansada.

Ino pensa em fazer uma piada, em dizer algo para aliviar o clima, mas não consegue. Seu próprio coração pesa, e ela fica alguns minutos sem dizer nada porque não sabe conduzir aquela conversa.

— Eu sei.

É tudo que consegue pateticamente dizer. Outra lágrima corre pelo rosto da amiga, e ela aperta suavemente a mão da outra como forma de apoio.

— Estou tão... cansada. Às vezes apenas... desejo que isso acabe logo.

Dessa vez, uma lágrima escorre pelo seu rosto, e quando abre a boca para falar ela sente seu gosto salgado.

— Não diga isso. Sei que está cansada, mas Tsunade acredita que possamos conseguir um transplante em breve, você precisa ser forte.

— Estou cansada de ser... forte. Ou de fingir... que sou.

Ino acena negativamente, levando as mãos até o rosto da amiga e limpando as lágrimas.

— Você é muito forte Sakura. Mais do que imagina.

— Mas e se... eu não... conseguir? E se tudo isso... foi em vão? Todo o meu esforço, todo... o seu esforço, todo o... esforço de Tsunade?

Como médica, Ino sabe que não pode dar certeza a amiga de que tudo vai ficar bem. Por mais que seja assim que ela gosta de pensar Sakura tem noção da gravidade da sua doença, e seguindo a ética Ino não pode prometê-la nada, por mais difícil que seja.

— Sakura, ter mais tempo ao seu lado nunca será em vão.

Não importa quanto tempo seja.

É o que não diz.

Sakura limpa as próprias lágrimas com a mão livre no exato momento em que Tsunade entra no quarto.

— Já acordada?

Tsunade diz como forma de cumprimento.

— Obrigada..., Tsunade-sama... Obrigada também..., Ino.

A loira mais velha faz um movimento com a mão como se descartasse os agradecimentos, e se vira para Ino.

— Como ela está?

Ino lembra-se dos seus tempos de interna, e passa a situação para Tsunade.

— Tudo dentro do esperado. Sinais vitais estão estáveis, a saturação caiu um pouco no primeiro terço da madrugada, mas depois regularizou.

— Para quanto?

— Noventa e dois. Aumentei um pouco o oxigênio e ela subiu novamente.

Tsunade observa a máquina monitorando a pupila, e depois anda até a cama.

— Como se sente?

— Estou... Bem... Um pouco de... dificuldade para... falar, e... um pouco de... dor no peito.

— Vamos fazer alguns exames daqui a pouco e se der tudo certo vou liberar uma dieta leve para você. Vou pedir para que troquem o curativo também.

Sakura acena e fecha os olhos, como se tudo aquilo estivesse a cansado.

— É bom se recuperar logo. O seu companheiro está me deixando louca.

A Haruno abre os olhos em dúvida.

— Companheiro?

— O Uchiha.

Uma das sobrancelhas rosas se eleva ainda sem entender.

— Está lá fora desde as seis da manhã latindo com todo mundo por notícias suas.

— Apenas diga a ele... que estou... bem.

— Já tentamos essa, mas não colou. Esse moleque nunca dorme?

— Parece alguém que eu conheço...

Ino murmura e Tsunade a fuzila com os olhos.

— Já tentei mandá-lo embora, mas ele continua em pé na recepção, feito um segurança, assustando todo mundo com a cara emburrada e aquela horrenda barba por fazer.

Sakura julga Tsunade com o olhar, e vira-se para ela.

— Ino... por... favor?

Ino entende que a amiga quer que ela fale com Sasuke.

— Eu falo com ele.

Ela concorda, e Tsunade suspira alto.

— Por favor, faça com que ele vá embora e tome um banho.

— Vou tentar.

— Ino? — Sakura a chama quando ela está prestes a sair.

— Diga a... ele que eu estou... bem. Que ele não... precisa ficar... aqui.

Acena concordando, mesmo sabendo que aquela será uma tarefa difícil, e se aproxima da amiga, dando-lhe um beijo na testa, sob o olhar reprovador de Tsunade e sai do quarto.

Lá fora ela retira pijama cirúrgico que usara, a máscara e a luva e troca por suas roupas usuais e um jaleco.

Anda até a recepção a passos lentos, ensaiando o que dizer, mas quando chega no corredor e o vê, do outro lado da recepção, agora sentado, com as mãos nos fios negros, Ino perde toda a sua dicção.

Ela volta devagar, anda até a praça de alimentação, e pede por dois cafés, um, sem açúcar, porque ela imagina que é assim que ele goste, e só então segue os mesmos passos de antes e volta para recepção.

Sasuke não ergue a cabeça quando ela se aproxima nem faz nenhum movimento.

Ela senta-se na cadeira ao seu lado, e toca o seu braço, estendendo o copo de café.

A surpreendendo ele pega instantaneamente a bebida, dá um gole e se encosta na cadeira. Tsunade tem razão, ele está deplorável, embora Ino jamais fosse capaz de classificar tamanha beleza como horrenda.

Há círculos roxos embaixo dos olhos negros, que parecem pequenos demais como se lutassem para continuar abertos. A barba é uma sombra irregular no rosto claro e ele veste as mesmas roupas do dia anterior.

— Não conseguiu dormir?

Pergunta.

— Como ela está?

Ele a devolve.

Ino suspira, e toma dois goles do próprio café.

— Ela está bem, Sasuke. Já acordou, está consciente e lúcida. Os sinais vitais estão bons, na madrugada a saturação caiu um pouco, mas logo consegui reverter, e tudo está dentro do esperado. Não está com febre, mas está com um pouco de dor no peito, o que também é normal dentro da proporção da cirurgia.

— Posso vê-la?

Acena negativamente antes de dizer.

— Não, eu sinto muito. Ela está na UTI e visitas não são permitidas. Ela está com a imunidade baixa e se recuperando de uma cirurgia séria, não podemos correr riscos de ela pegar alguma doença oportunista.

Ele acaba de tomar o café em um único gole e fica encarando o fundo do copo como se houvesse algo para se ver ali.

— Tsunade está com ela, vai fazer alguns exames agora, e se estiver tudo bem vai liberar uma dieta leve.

— Ela consegue ler?

A pergunta a pega desprevenida.

— Como?

— Ela consegue ler?

— Eu... Eu acho que sim. Ela está um pouco cansada, mas está consciente.

Sasuke acena positivamente e levanta-se andando até o balcão sem dizer mais nada.

Ino observa ele pedir alguma coisa para a recepcionista, que o olha como se estivesse prestes a fugir dos olhos negros, e com as mãos tremendo o entrega um papel e uma caneta.

Ele anda até o canto do balcão, desviando do olhar assustado da mulher, e começa a escrever.

Em dúvida a Yamanaka não sabe se deve esperar, se deve ir até ele, ou se deve voltar para o seu trabalho. Sasuke é uma incógnita e ela não tem a paciência de Sakura.

Quando ela se levanta, ajeitando o próprio jaleco, mais de dez minutos depois, ele volta a passos largos.

— Pode entregar para ela?

É um pedido, e o coração de Ino amolece. Sasuke é mais acostumada a dar ordens.

— Com uma condição.

Uma das sobrancelhas negras se franze.

— Que você vá para casa novamente, que tome um banho, coma uma refeição decente e descanse um pouco.

— Eu não—

— A própria Sakura pediu para dizer que você não precisa ficar aqui. A parte da tarde provavelmente será todas de exames e só teremos notícias novas no começo da noite. Qualquer mudança, eu juro que peço para avisá-lo.

Ele suspira fundo, colocando uma das mãos no bolso, e a contragosto anui.

— Ótimo.

Ela pega o papel das mãos dele, é uma folha de um bloco da recepção dobrada ao meio, a coloca no bolso, e toma seu caminho para voltar ao trabalho.

Ao olhar para trás, ela vê Sasuke caminhando até a saída e a funcionária da recepção suspirando em alívio.

Sakura está cansada. Exausta.

Não somente da tarde de exames, das dores no corpo, mas também de toda a situação.

Quando ela finalmente volta para o quarto, e as enfermeiras a colocam gentilmente na cama novamente, ela suspira alto.

— Tsunade liberou água, por enquanto, mais tarde traremos uma sopa.

Ela aceita a água com avidez, tomando o meio copo que a enfermeira a oferece.

— Obrigada.

Agradece, recostando-se na cama, a sutura no peito reclamando pelo esforço.

— Voltaremos logo, querida, se precisar de alguma coisa nos chame.

Ela agradece novamente, vendo as duas deixarem o quarto. Seu corpo reclama, as dores voltam com a diminuição do efeito dos analgésicos, e ela não sabe o que fazer.

Sabe, que por mais que Tsunade tenha tentado, a cirurgia apenas retardou o inevitável.

Ela sente.

Seus órgãos estão em sofrimento, e é questão de tempo até que comecem a parar. As dores ficam mais intensas a cada dia, e parecem não terem melhorado com a cirurgia, embora ainda seja recente demais para ter certeza.

Deus. Deus. Deus.

Não sabe o que fazer. Falar para Tsunade ou Ino sobre as suas dores e o seu cansaço apenas as deixariam mais preocupadas, e o pior, sem terem nada que pudessem fazer. A única opção é aumentar ainda mais a dose de medicamentos, o que a deixaria dopada.

E isso ela também não quer.

Respira fundo, ouvindo a porta se abrir. É Ino.

— Como se sente?

— Tudo bem.

— Você é muito mentirosa.

Elas trocam sorrisos tristes, e Ino remexe no bolso do jaleco.

— Naruto e Kakashi já vieram perguntar por você, e tenho uma coisa que provavelmente vai te animar.

Sakura quase diz a ela que acha muito difícil que algo a anime. Tudo que ela quer é dormir e esquecer um pouco de onde está e da doença que a aflige.

Ino retira um papel dobrado do bolso do jaleco, e ergue na altura do rosto.

— Confesso que fiquei muito tentada a ler, mas resisti.

— O que é isso?

— Parece que suas cartas finalmente foram respondidas.

Remexe-se na cama, entendendo.

Sasuke.

Ino não sabe das outras duas cartas que ele deixara para ela dias atrás, e ela lembra-se que elas provavelmente ainda estão na gaveta do criado mudo do quarto anterior.

— Quer que eu leia para você?

— Não!

A Yamanaka ri, e aproxima-se da cama, entregando o papel fino nas suas mãos.

— Uma pena, gostaria muito de saber o que está escrito.

Sakura não responde, observando o papel em suas mãos, sem coragem de desdobrá-lo.

— Certo. Vou visitar outros pacientes, mais tarde passo para ver como está. Leia com calma, espero que não seja nada picante.

— Ino!

A loira ri, e vai embora, deixando-a com um beijo no ar.

Ela espera alguns minutos até o ritmo do seu coração se normalizar, respira profundamente, e com as mãos tremendo, com o dedo do oxímetro e os fios do soro atrapalhando um pouco e desdobra a carta.

04 de março de 2007

Sakura,

Você me assustou ontem. Acho que esse é o momento de ser transparente com você como você foi comigo sua vida inteira. Poucas vezes na vida senti tanto medo quanto ao vê-la sendo levada pelas enfermeiras e por Tsunade. Agora, todos dizem que você está bem, mas não sei mais no que acreditar, não sem vê-la, não sem verificar com os meus próprios olhos. Contudo, saber por terceiros é tudo o que tenho agora.

Sakura, os meus pecados me perseguem como monstros. Os meus arrependimentos me perseguem como monstros, como fizeram a minha vida inteira. Não importa o quanto eu viaje, o quanto eu faça para redimir meus erros, parece nunca ser o suficiente. Sou constantemente atormentado pelos meus fantasmas, e o único acalento que tive todos esses anos é a lembrança de uma criança de cabelos róseos derrubando um sorvete no chão. É a lembrança de uma garota que cortou os próprios cabelos para defender seus amigos. É a lembrança de uma garota disposta a largar tudo para seguir em uma viagem sem volta comigo. É a lembrança de cartas que chegavam todos os meses e que me impediam de enlouquecer novamente.

Sakura, peço desculpas. Desculpas por todos os erros que cometi, por toda a dor que te causei, por toda a angústia, por toda a aflição. Acredite, não foi intencional. Foram apenas monstros do medo, da insegurança e da dor que continuam a me atormentar.

Sakura, você é a mulher mais forte que conheço. Não me refiro a sua força física, mas sim a sua resiliência. Você passou por coisas tão ou mais difíceis do que eu e Naruto, e nunca perdeu sua gentileza, sua bondade e sua vontade ajudar os outros. Sakura, embora eu nunca tenha dito, saiba que eu a admiro, admiro a pessoa que se tornou, a ninja, a médica. Admiro a sua luta, a sua persistência e sua força de vontade. E saiba que sinto muito por não ter dito antes.

Sakura, sei que está cansada. Mas ainda assim sou eu egoísta e peço que continue lutando, que continue sendo forte.

Sakura, não posso perdê-la.

Sasuke.

Sakura tem lágrimas nos olhos quando toca a campainha ao lado da cama chamando a enfermeira.

— Querida? Está sentindo alguma coisa?

A enfermeira já está na meia idade e tem olhos doces e um sorriso gentil.

— Será que a senhora pode escrever uma carta para mim?

A senhora a olha em dúvida como se cogitasse o grau da sua lucidez.

— É rápido, prometo. E muito importante.

Um suspiro, um sorriso e acenar positivo.

— O que você não consegue com esses seus olhos verdes, menina? Vou pegar um papel e uma caneta.

Ela não tem tempo de agradecer antes da senhora dar as costas. Tudo o que ela faz é apertar a carta recém lida no peito costurado e tentar controlar as lágrimas.

Notas finais
* Refere-se a valva utilizada para a troca ter sido a de porco.