Cartas

1 I: Monstro do desamor


Notas iniciais
Sim, tenho histórias para acabar, sim, estou postando outra. Paciência. *As cartas não seguem ordem cronológica.

CARTAS

Escrita por Coffee

Capítulo I: Monstro do desamor

07 de abril de 2003

Sasuke,

Ainda estamos tentando nos acostumar com sua partida. É tudo muito recente, e ainda não conseguimos acreditar que você realmente se afastou de nós em busca de redenção. Ainda sim, entendemos. Esperamos que você fique bem. Eu espero que você fique bem. Também espero poder te ver em breve, embora Kakashi-sensei tenha dito que você pretende demorar um pouco. Por favor, mande notícias.

Haruno Sakura.

A carta era sucinta. Isso era algo surpreendente vindo de Sakura. Já era maio e demorou quase um mês para que a ave enviada por ela o achasse. Leu a carta duas vezes. A ave já havia partido de volta sem nenhuma resposta com ela.

Não era maldade. Ele apenas não sabia o que escrever.

Fazia três meses desde que partira. Tinha dito a todos eles que não queria contato, que precisava desse tempo sozinho, mas Sakura insistiu em mandar sua carta. Sabia que aquele era o modo dela de averiguar se ele estava bem, se estava vivo. Então pensou que a ave voltar sem a carta era o suficiente.

Ela entenderia.

Ela sempre o entendia.

24 de novembro de 2005

Sasuke,

Estávamos em missão no País da Neve, sei que era você, sei que foi você que nos ajudou naquele momento. Eu te vi e quis ir até você, mas Kakashi-sensei achou melhor não, disse que quando você estiver pronto, entrará em contato com nós. De todo modo, eu agradeço por salvar Tenten. Ela também agradece. Sinto sua falta, assim como Naruto e Kakashi. Esperamos que você esteja bem e retorne em breve.

Haruno Sakura.

Mais uma carta sem resposta. Assim como todas as outras que ela mandava regularmente todos os meses durante os dois anos que ele já passara longe.

As cartas eram um alívio para o seu coração. Saber que todos eles estavam bem. E ele sabia que devia isso a ela, um acalento para o coração dela, mas não conseguia. Várias folhas haviam sido riscadas na tentativa de escrever algo decente. Nada saia. No fim, a folha terminava amassada e jogada em um canto qualquer de uma hospedaria que ele ficava.

Sinto muito Sakura.

Não estou pronto.

04 de fevereiro de 2006

Sasuke,

É praticamente impossível não sentir sua falta. Mesmo que seja do seu silêncio ou do seu revirar de olhos para com Naruto. Ele agora anda sempre ocupado, é o Hokage, afinal. Quase não nos vemos, e isso me quebra tanto quanto não ver você. Mas, deixando minhas picuinhas de lado, me conte: como você está? Onde está? Tem feito ou visto algo interessante? Por favor, me responda, preciso ao menos saber se você está bem.

Haruno Sakura.

Kakashi observa a antiga aluna. Está mortiferamente pálida. O som das máquinas é apenas o que o dá conforto, pois elas mostram constantemente que Sakura ainda está viva.

Esse ainda o dá um nó na garganta.

Faz muito tempo que ele não a vê. Que não fala com ela. Isso o incomoda. Porque ele se lembra das diversas vezes que ela lembrou-o de que precisavam sair juntos, para beber ou comer alguma coisa com Naruto como faziam antigamente.

Primeiramente ele nunca teve a oportunidade de aceitar por ser Hokage. E posteriormente por ser conselheiro de um. Se eles tivessem saído (ele, ela e Naruto), se ele e o aluno tivessem dado mais atenção para ela, poderiam ter previsto aquilo? Talvez evitado?

Ele não sabia.

Observa-a novamente. Os cabelos longos estão espalhados pelo travesseiro, mas eles estão secos e de um rosa pálido como sua pele.

Tudo que o resta fazer é rezar para que Sasuke tenha um pouco de consciência (algo que ele não teve durante toda a sua vida) e que chegue a tempo.

Tempo de vê-la viva.

Faz pelo menos oito ou nove meses que uma carta não chega.

Isso o traz dúvida e estranhamento. Estaria ela com raiva? Talvez nervosa por ele não ter respondido? Não sabe dizer. Quando vê uma ave de correio cortando o céu em sua direção ele sabe que não, ela provavelmente esteve muito ocupada com alguma missão ou até mesmo com o hospital para não escrever.

Ela nunca havia deixado de escrever em um único fim de ano.

Sempre enviada cartas de natal e ano novo, esse é o primeiro ano que ele não recebe uma.

Ao pegar a ave e tirar a carta ele percebe que (ao contrário do que imaginou) a carta não é dela. Pois Sakura sempre as manda em papel branco e devidamente enroladas e seguradas por uma fita lilás.

Essa carta é aparentemente de um bloco de notas amarelo, talvez até mesmo desgastado pelo tempo. Ela está dobrada ao meio e não há nenhuma fita a prendendo.

20 de janeiro de 2007

Sasuke,

Precisamos que retorne imediatamente para Konoha. Não é um teste nem uma bobagem de Naruto. É urgente e só posso dizer pessoalmente.

Hatake Kakashi.

Sua testa se enruga instintivamente. Ele não se lembra de nada que possa o fazer voltar. Os boatos que tem ouvido de Konoha são todos positivos, não há ameaças de guerras nem de ataques (coisas com as quais Kakashi pudesse precisar de sua ajuda).

Seja o que for sua peregrinação está chegando ao fim, seu ex-sensei será capaz de esperar mais dois ou três meses.

Ao menos é o que ele pensa.

Algum tempo depois, ele é atacado por outra carta. Dessa vez é de Naruto, mal dobrada, com uma letra garranchada e borrada.

14 de fevereiro de 2007

Teme,

Onde você está? Você precisa voltar para a vila agora mesmo. É muito importante.

Uzumaki Naruto.

Mais uma vez ele se põe a pensar no motivo. Especula alguns forasteiros por notícias de Konoha, mas novamente, tudo está bem, eles o dizem. Olha para o horizonte, ele poderia voltar daqui um mês, já se sentia melhor consigo mesmo e com sua vida. Estava quase pronto.

Mas ainda precisa de um tempo sozinho para pensar. Pensar em como irá encarar os habitantes da vila, seus antigos amigos e principalmente ela, que parecia ter desistido de suas cartas e dele.

Isso o deixava angustiado, porque sabia que a culpa era sua. Talvez se tivesse respondido ao menos uma carta ou outra, não teria deixado-a tão furiosa.

Uma semana depois outra ave intercepta seu caminho e ele revira os olhos pela impaciência de Naruto. Estaria de volta em um mês, ele não era capaz de esperar? Sabia que o loiro provavelmente havia se metido em alguma enrascada ridícula e precisava da sua ajuda para escapar.

Pegou a carta, abrindo-a sem conter o revirar de olhos.

22 de fevereiro de 2007

Não queríamos te contar por carta. Mas você não nos responde, nem volta, nem dá qualquer sinal que se importa. Mesmo assim, acredito no seu bom senso e acredito que (mesmo não demonstrando) você se importa conosco.

Sakura está doente. Muito doente. Sei que se não for mais claro, nem assim você voltará.

Sakura está morrendo. Caso se importe de alguma forma, e queira, ao menos se despedir ou dar um beijo em reconforto, venha logo. Não sabemos mais quanto tempo ela irá aguentar.

Hatake Kakashi.

Seu coração sofre um solavanco e depois parece parar.

O topor o atinge como um soco. Não há nenhum som ao seu redor, nenhum vento, nada. Há apenas ele e uma carta estúpida em suas mãos.

Aquilo era uma brincadeira? Uma piada?

Sua mente é um turbilhão de pensamentos e ao mesmo tempo é silêncio.

A ave pia na árvore ao seu lado, esperando alguma resposta, mas o som parece estar há quilômetros de distância.

Uma frase da carta se repete em sua mente.

Sem parar.

Sakura está morrendo.

Sakura está morrendo.

Sakura está morrendo.

Ele quer vomitar, quer rasgar aquela carta, quer implorar para que aquilo seja mentira.

Não pode ser. Sakura é jovem, saudável, é uma ninja médica.

A melhor do mundo shinobi.

Sakura não fica doente. Nunca.

Ele se lembra dos seus tempos de gennin como um mantra. Nem mesmo quando Kakashi passou gripe para Naruto e para ele, Sakura não ficou doente.

Ela cuidou deles.

Talvez uma luta?

Não...

Ela era uma ninja excepcional.

Ninguém poderia ter a machucado mortalmente.

Ela tem o selo.

Ele cura tudo, não cura?

Rele a carta.

Seus olhos param sobre as palavras:

Sakura está morrendo.

Não é possível, ele quer gritar, e ao mesmo tempo enforcar Kakashi pelo seu exagero.

Não é possível.

Não Sakura.

Não a sua Sakura.

A constatação o atinge como outro soco.

Ela era uma pessoa muito importante para si, sempre soube disso.

Mas esse desespero que o abatia agora tornava tudo ainda mais claro, mais estampado.

Não, não, não.

Ele iria para lá, iria ver que tudo não se passava de um engano.

Uma brincadeira muito de mau gosto do Uzumaki e do Hatake.

Sakura estaria o esperando, com um sorriso gentil e meia dúzia de palavras reconfortantes. Como sempre estivera. A vida toda.

Ele não acredita em Kakashi, mas ainda sim não consegue ignorar.

Uma pequena dúvida martela em sua cabeça.

Ele quer ignorar.

Mas o que ele faz é invocar seu falcão e subir em suas costas.

Uma enfermeira está na recepção, ela usa uma roupa verde e tem um sorriso gentil nos lábios. Sorriso esse que se desfaz assim que ela o vê entrando pelas portas do hospital.

Sabe que não é uma figura apresentável.

Seus cabelos estão um pouco cumpridos demais, veste uma capa preta que se destoa totalmente no ambiente claro do hospital, e está há dois dias sem tomar banho. Ainda sim ele não se importa, tudo que ele quer é descobrir que aquilo não passa de um engano.

— O-O-Olá...

A enfermeira gagueja.

— Naruto ou Kakashi estão aqui? Haruno Sakura?

— Trez-trezentos-e-um.

É uma brincadeira.

Só pode ser.

Naruto se arranhou em uma missão e está fazendo um escarcéu por isso.

É apenas isso.

Sakura é quem está cuidando dele. Talvez ela até o dê um soco pela brincadeira absurda.

É tudo que ele pensa enquanto passa pelos corredores observando os números das portas.

Seu chakra está oculto e ele sabe que isso provavelmente o trará problemas mais tarde, mas não quer encontrar ninguém, nem dar nenhum tipo de explicação até ter tirado aquele assunto a limpo.

Trezentos e um.

Há quatro chakras ali dentro.

Uma pegadinha, exatamente como esperava.

Em um rompante abre a porta.

Quatro pares de olhos o observam.

Ino, Naruto, Kakashi e Hinata.

Os olhos da loira estão úmidos de lágrimas. Os demais estão pesados.

Sakura não o olha.

Então ele volta sua visão para o centro do quarto.

Sakura está ali.

Deitada na cama.

Tão magra e fantasmagórica que se não fosse os cabelos opacos caindo ao seu redor ele não a reconheceria.

Ele se aproxima.

Um passo, dois passos, três passos. E está em frente a ela.

Desacordada, os braços ao lado do corpo, roxos de furos.

A boca branca feito papel.

Ela não sorri, não o conforta, nem o dá boas vindas.

Continua ali, imóvel, como se ele não estivesse presente.

Uma máquina irritante apita constantemente.

Batimentos cardíacos.

E o seu coração dispara, o estômago revira, a mente em transe.

A bile sobe até sua garganta. Ele sente o gosto amargo e se controla para não vomitar ali.

Sakura está morrendo.

Sakura está morrendo.

Sakura está morrendo.

Dizia a carta.

E mesmo não querendo, ele concorda.

Sakura está morrendo.

10 de dezembro de 2003

Sasuke, sei que ainda não é Natal, mas não faço ideia de quanto tempo a ave demorará para te encontrar. Espero que chegue a tempo, mas também não muito adiantada. É o primeiro natal que passo mais tranquila, sei que você, de algum modo, voltou para nós. Mesmo não estando exatamente aqui, sei que desistiu da vingança, e está pronto para em breve, recomeçar sua vida. Espero poder te ajudar nessa jornada.

Desejo a você um feliz natal, um ótimo ano novo, que você consiga ficar em paz com a sua consciência e que volte logo para Konoha. Todos nós sentimos muito sua falta. Gostaria de mandar um presente, mas a pobre ave não aguentaria o peso. Talvez você possa me mandar uma resposta, dizendo perto de onde você está e eu mande algo por correio.

Espero uma resposta. Novamente, feliz natal. (Naruto provavelmente vai se empanturrar de peru e de bolo de passas. Gostaria que você estivesse aqui).

Com muito carinho, Sakura.

Notas finais
Opiniões são bem vindas. Em breve + atualizações.