Carneirinho e as Cento e Uma Noites

4 De Mãos Dadas com a Tormenta


Notas iniciais
“Te quero, Te quero, não pela recompensa, pelo castigo Te quero. Pois tenho alcançado todos meus desejos, Menos o prazer de minha paixão pelo tormento.” (Al Hallaj)

Com muito custo ele venceu a resistência das pálpebras ainda pesadas pelo sono e abriu os olhos, que lentamente se acostumaram à quase total escuridão que reinava no quarto real, quebrada apenas pela luz trêmula de uma lamparina e pelos fracos raios de luar que ousavam adentrar no amplo recinto. Antes mesmo que abrisse os olhos, suas lembranças de poucas horas antes o embriagaram, ativadas pelo cheiro suave daquele sobre o qual ainda se encontrava perfeitamente aninhado. Uma das mãos delicadas ainda repousava em sua cabeça, enquanto a outra permanecia unida à sua. Não se lembrava de ter segurado a mão do jovem escravo antes de adormecer... Mas aparentemente a mão dele buscara a sua naquele toque sutil que o acompanhara em seu breve sono.

Como macio travesseiro de sua face, o peito dele subia e descia em movimentos tão leves que poderia-se duvidar que estivesse respirando, tal era a profundidade de seu sono. Levantou a cabeça de seu peito para poder captar o que a penumbra da lamparina permitia. Havia luz suficiente para que pudesse passear o olhar pelas feições graciosas daquele Carneirinho adormecido, o que levou seus lábios a esboçarem um sorriso terno. Descobria agora que aquela criatura conseguia ser ainda mais bela como estava agora... completamente adormecido, entregue às asas benignas do sonhar. Sua face relaxada exalava ingenuidade e singela pureza, como se nada fosse capaz de manchar sua nata inocência... nem mesmo a tempestade violenta de volúpia na qual mergulharam não muito tempo antes. Como isso era possível?

O prazer contemplativo de observá-lo e comparar sua expressão com a anterior... com aquela face transformada pelo desejo explosivo que o tomara tão completamente, em tão completa entrega... rapidamente suscitou ao nascimento de um novo anseio em seu íntimo. Félix já sentia o apelo da própria carne urgindo em seu baixo ventre. Demandante, seu membro estava voltando à vida e exigindo um pouco mais daquele oásis disfarçado de escravo inocente que lhe fazia companhia esta madrugada. Queria, precisava de mais daquela face transfigurada pelo êxtase, ansiava por mais daqueles olhos se agitando, um mar violento em ondas de desejo irrefreáveis.

O que o poderoso Sultão quer, o poderoso Sultão sempre consegue. Queria sim demandar novamente aquele corpo tenro e cheiroso junto ao seu. Puxá-lo do mundo da inconsciência somente para deixá-lo mais uma vez fora de si, fora desse mundo e de qualquer outro. Tudo que precisava fazer era acordá-lo... então porque a relutância em quebrar o encanto daquela face adormecida? Que pecado poderia haver em reinvindicar, mais uma vez, o que era de todo e completo direito seu?

Sem mais pensar em perguntas inúteis, nas quais seu membro já latejante se interessava minimamente... Félix içou-se por cima dele e ainda com a mão entrelaçada na do jovem escravo, abaixou-se para depositar um leve toque de sua língua no peito coberto por finos pêlos loiros, que logo se eriçaram em resposta à carícia. Passeou com os lábios pela pele macia até chegar a um dos mamilos rosados, o qual foi delicadamente envolvido e sugado, até que se endurecesse de encontro à sua língua molhada que agora lhe dedicava total atenção. Levantando o olhar para a face dele, flagrou um leve ofêgo escapar pelos lábios agora entreabertos, enquanto o ritmo de sua respiração se alterava para um sobe e desce mais perceptível. Era assim que o resgataria do mundo dos sonhos... instigando seu corpo com carícias e beijos, até poder fitar novamente o desejo nascente nos olhos verdes brilhantes, quando se abrissem...

Decidido, Félix estendeu os carinhos úmidos de sua língua por todo o peito dele, dedicando igual atenção a cada pedaço de pele nua e já trêmula pela excitação ainda inconsciente. Para acelerar seu despertar, moveu uma mão livre para o baixo ventre dele onde um membro rosado e tumescente já encontrava o caminho de volta à vida antes mesmo que seu dono o fizesse. O desejo do escravo cresceu em sua mão, vigoroso e pulsante, em resposta rápida ao estímulo provocante que sofria.

A respiração do loiro era mais rápida agora, os lábios se entreabriram mais um pouco, o toque da mão dele na sua se intensificou. Correspondeu aquele aperto ao mesmo tempo em que seus lábios se aproximavam do pescoço alvo e ali se aninhavam, em suaves e mornos beijos. Aumentou o ritmo com o que o masturbava, até que um gemido baixo escapasse dos lábios entreabertos para anunciar-lhe que ele estava finalmente despertando. Levantou o olhar para captar as jades perfeitas se abrindo... Sono e excitação travavam uma batalha ali, por entre as pálpebras ainda meio cerradas. Não demorou até que a última saísse vencedora...

– Amo... – foi o sussurro rouco que premiou seus ouvidos e aumentou a pulsação em seu baixo ventre.

– Carneirinho... – aproximou-se de seu rosto e tomou seus lábios em um beijo brando, cálido por ora... mas não por muito tempo antes que a paixão tomasse as rédeas do desejo já crescente em ambos. Os lábios se separaram e ele mergulhou no mar já agitado daqueles olhos. – Quero você... mais uma vez... – para reforçar o que dizia, apertou na mão o refém que era seu membro pulsante, que respondeu ao aperto endurecendo-se mais entre seus dedos longos.

– Sim, meu Amo... – foi a resposta já ofegante, coroada por um sorriso lânguido, como se um escravo de fato pudesse ter a escolha de negar algo ao seu senhor. Mas a palavra “não” pegara carona em um tapete voador e voara para bem longe daquela expressão já tão ansiosa em agradar seu Amo... As íris do verde mais vívido já brilhavam de antecipação, e promessas veladas de deleite futuro dançavam nas pupilas dilatadas.

Afastando a mão de seu baixo ventre, Félix deitou-se por sobre o corpo alvo e fez com que suas ereções se beijassem lascivamente em deliciosa fricção, enquanto voltava a distribuir carinhos molhados de sua língua pela pele de seu peito cada vez mais arfante, do qual um par de mamilos avermelhados pela excitação despontavam na pele branca. Ainda esfregando-se nele provocativamente, deslizou uma mão por trás do pescoço do loiro, repousando os dedos longos em volta de sua nuca, em suave carícia pelos fios enrolados nascentes ali, ao mesmo tempo que invadia com um beijo mais profundo sua boca ávida e quente. Gemidos entregues já escapavam pelo espaço que conseguiam encontrar entre os lábios sôfregos, famintos. O desejo já se reacendera vigoroso em ambos e abria caminho resoluto através do contato febril de pele contra pele, suspiro contra sussurro, ofêgo contra murmúrio.

Rezava uma lenda antiga que a segunda tempestade sempre vem mais branda que a primeira... Mas essa nova tormenta que se iniciava prometia contestar veementemente essa noção, a julgar pela ânsia que percorria ambos os corpos como uma corrente infinita de pele e suor. As mãos de Félix ajudavam a alimentar essa corrente, passeando por todos os lugares do corpo rosado que conseguiam alcançar, enquanto seus membros intumescidos se beijavam incansavelmente entre os dois corpos colados. Mas ele não era o único a se deixar levar pela nova onda avassaladora de tesão que já os comandava. As mãos do Carneirinho também faziam sua parte traçando caminhos ardentes por seu pescoço, ombros e costas. Eram uma nova entidade de carne moldada pela volúpia e pelo desatino, perfeita e única, e impossível de ser desfeita por meras mãos humanas, que dirá divinas...

Separando finalmente os lábios do beijo envolvente, Félix ergueu o rosto para encarar seu Carneirinho refastelado abaixo de si, mais uma vez à mercê do que quer que seu desejo pudesse ordenar. Sorriu, ao se dar conta de como o queria agora. Seu sorriso lascivo aumentou ao vislumbrar os olhos verdes se arregalando de surpresa, quando o jovem escravo foi puxado pelos ombros e em um movimento ligeiro, rolado na cama por cima do Sultão, invertendo as posições. Os corpos ainda colados, as ereções ainda aglutinadas... Mas agora o escravo o olhava de cima. Por alguns momentos, se encararam sem nada dizer, se comunicando apenas com a respiração entrecortada que trocavam por entre lábios entreabertos, os narizes quase colados, as peles inseparáveis.

O loiro o encarava ainda confuso, como se aquela súbita inversão de papéis lhe fosse difícil de assimilar. Mas o tesão não podia aguardar mais do que a fricção de seus membros urgia entre eles. Em nome dessa urgência e em nome do novo prenúncio de tempestade que podia ler nas íris esverdeadas, Félix agarrou com firmeza os quadris do Carneirinho e gentilmente, indicou-lhe a direção do membro pulsante que nada pacientemente esperava pelos cuidados necessários, na forma das nádegas muito brancas e firmes que começaram a se abaixar sobre ele. Seus dedos mergulharam naquela pele alva com leve crueldade premeditada, ao mesmo tempo que a ponta de seu pênis tumescente começava a ser envolvido pela carne quente e ansiosa do jovem escravo. Quando sentiu que nenhuma navegação seria mais necessária, suas mãos abandonaram a pele alva e foram buscar as mãos dele que repousavam em seu peito, tomando-as nas suas e envolvendo-as.

Desta vez, eu te seguro aqui junto a mim, Carneirinho... e seja lá qual o paraíso que você visitar quando chegar a sua hora... eu vou com você.

Um arrepio a mais percorreu seu corpo ao vislumbrar uma sombra de sorriso nos lábios úmidos, como se o fervor que os unia lhe concedesse poderes temporários de ler seus pensamentos.

Dessa vez fora bem mais fácil a invasão, fosse por ser a segunda vez, fosse também pelo aumento de expressões de prazer que desfilavam na face do loiro acima dele. Félix soltou um suspiro disfarçado de gemido, ao sentir-se quase todo dentro dele, um invólucro ardente e perfeito para o encaixe sublime de seus corpos. Os movimentos ritmados começaram lentamente, para logo evoluir para um sobe e desce enlouquecedor a cada vez que penetrava-o mais profundamente e era tragado por toda sua febril rendição.

Seria tão fácil entregar-se à tentação de simplesmente nada fazer... à languidez de prostar-se inerte e se deixar comandar pelo tesão crescente do doce escravo que o envolvia naquele aperto ardente e cada vez mais exigente... Mas ele não seria o poderoso Sultão se não se erguesse de seu íntimo uma débil atitude que fosse para mostrar àquele Carneirinho que ele até podia estar por baixo... mas de onde olhava agora, ainda era o senhor da situação. Por isso, apertou as mãos que segurava nas suas e elevou os quadris para aumentar o ritmo dos movimentos, como quem diz: “Ei, eu ainda estou aqui...”

Já era difícil reunir em sua mente meia dúzia de palavras coerentes que fossem para formar um simples pensamento, quando bem diante dele, o espetáculo mais sexy e ensandecedor tomava corpo... um corpo alvo, neste momento rosado de excitação e contorcido que o engolia cada vez mais naquele túnel quente e deliciosamente apertado. A pressão daquele túnel abrasador era tamanha que Félix teve que fechar os olhos por alguns momentos para fugir da visão da face enlevada dele e daquele par de olhos verdes faiscantes de pura volúpia.

Talvez eu tenha me enganado... Talvez... eu não seja senhor de mais nada agora... Muito menos da minha própria sanidade...

A quem queria enganar? Jamais conseguiria ficar muito tempo com os olhos fechados... Como fugir por muito tempo da visão de perfeição infernal que parecia querer engoli-lo por inteiro naquela fome desmedida? Impossível... Rendido, abriu os olhos e concentrou-se em guardar para si, no silêncio somente quebrado por gemidos baixos e sofridos, a imagem daquele rosto entregue e divinamente encantador acima dele... As esmeraldas brilhantes queimavam em franca luxúria agora através de pálpebras semi-cerradas. A candura dos cachinhos loiros e suados em sua testa contrastava enormemente com o rubor que tomava as faces crispadas pelo prazer mais insano... Pecado e inocência de mãos dadas, em aperto mais ferrenho do que aquele que suas mãos ainda compartilhavam.

Sim, esse era seu Carneirinho ensandecido... E em volta do imenso mastro de prazer de que tanto ele se orgulhava, o corpo quente do jovem escravo loucamente dançava e se contorcia absorto no próprio enlevo e desvairio. Se chamasse o mais talentoso artista para pintar o retrato da exuberância... não passaria de um reles rascunho amador se comparado ao retrato de cores vivas com que era agraciado na madrugada que avançava. E a cor mais viva a se destacar entre todas era o verde turbulento dos olhos que não abandonavam os seus por um segundo que fosse.

Não resistiria por muito mais tempo... Félix já sabia, e nem precisava confirmar. Podia vislumbrar pelo canto do olho o orgasmo arrebatador que sondava seus sentidos. Sem nenhuma sutileza ele vinha abrindo caminho, resoluto e galopante, clamando seu quinhão, exigindo seu alívio... E por falar nisso...

Com esforço levantou levemente a cabeça para fitar o baixo ventre daquele que o envolvia em tão inefável entrega... somente para constatar estarrecido que desta vez, não seria necessário nenhum estímulo a parte para que o loiro atingisse seu próprio gozo. Era o que indicava o membro intumescido com sua ponta úmida que apontava acusador em sua direção... E considerando o balançar daqueles quadris acima dele e a batida ritmada das nádegas alvas de encontro ao seu próprio baixo ventre... não se importaria em se confessar plenamente culpado por qualquer crime ... estava mais do que pronto para aceitar seu castigo, contanto que se encerrasse naquela prisão de carne quente e ardente em volta dele.

Félix manteve os olhos abertos fixos no Carneirinho acima dele o máximo que pôde antes que seu gozo finalmente o derrotasse, com o início dos poderosos espasmos que já começavam a transpassá-lo sem nenhuma misericórdia. Não que ele desejasse alguma... Antes que as ondas de sensações prazeirosas o tomassem completamente e o fizessem cerrar os olhos em grata agonia, ele ainda foi capaz de entrever o jovem loiro jogando a cabeça para trás em demente rendição, enquanto um gemido mais longo escapava por entre os lábios ofegantes e úmidos... O aperto de suas mãos ainda unidas se intensificou como se nenhum dos dois ousasse desfazer aquele toque no auge do frenesi de seus corpos perfeitamente encaixados.

– A... Amo... – A súplica na voz mais gemida do que falada era o golpe final nos últimos resquícios de auto-controle que o fincavam na realidade. Ele se forçou a abrir penosamente os olhos, enquanto os espasmos de prazer consumiam suas entranhas em puro fogo. O semblante de seu Carneirinho mais uma vez arrebatado pelos arroubos do próprio desafogo o capturou na mais doce perdição que jamais imaginara sofrer... Por isso não lutou mais para segurar o grito rouco e gutural que escapou por entre lábios crispados, ecoando pelo quarto real, quando Félix sentiu-se esgotar-se em prazer líquido dentro dele, não muito tempo antes que o bálsamo morno do gozo do jovem escravo também se despejasse na pele suada de sua barriga.

Os gemidos de ambos tornaram-se murmúrios incompreensíveis até extinguirem-se completamente. Os últimos espasmos ainda encontravam seu caminho para fora de seu corpo exaurido quando um brilho singular se destacou na face ainda enlevada do Carneirinho perdido nos momentos finais do próprio desatino. Como uma jóia solitária, uma lágrima deslizou pelo rosto de olhos ainda escondidos pelas pálpebras cerradas. Félix foi capturado pelo brilho daquela lágrima e acompanhou com o olhar quando ela caiu, desfazendo-se em minúsculos fragmentos líquidos em seu peito. Ainda se davam as mãos quando o loiro enfim deixou-se desabar em cima de seu Amo, pleno em sua saciedade, entregue em sua exaustão... Naquele momento, os dois amantes se tornaram dois escravos do alívio compensador que aos poucos se amainava com a respiração voltando ao ritmo normal.

Dentro da escuridão de seus olhos fechados, Félix deixou-se permanecer um pouco mais assim, apenas descansando os sentidos da explosão de cores e sensações pela qual seu corpo fora mais uma vez aquebrantado com tanta intensidade. Ainda segurava as mãos do Carneirinho nas suas, mas aquele aperto agora remetia menos ao desespero e mais ao acalento. Sentiu-o se mover languidamente sobre seu peito, e quando a respiração quente e suave do loiro beijou a pele de seu pescoço, soube que ele escolhera aquele vão para se aninhar, como se ansiasse se esconder da dura realidade que os olhos abertos poderiam lhe trazer. Um desejo mudo por prolongar um pouco mais o momento de êxtase recém experimentado. Félix podia compreender essa necessidade, porque era exatamente assim que se sentia... Com um suspiro satisfeito limitou-se a aceitar o aconchego daquela face junto ao seu pescoço, até que nenhum movimento pudesse ser percebido além do sobe e desce suave de suas respirações.

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Notas finais
Capítulo especialmente dedicado à Marcele D. Querida amiga... espero que goste da surpresa. :) Em nossos sonhos, esses dois estarão eternamente de mãos dadas... e que as Asas do Sonhar digam amém. Beijos! :)