Carmen
13 Verde.
Quando Robin saiu do elevador, ele deu alguns passos no corredor revestido por carpete vermelho escuro e parou logo em seguida. Em silêncio, ele fechou os olhos e respirou devagar analisando os sons. Não ouviu absolutamente nada a não ser o som dos sistemas de ventilação. Era previsível ela ter partido e ele não conseguia compreender porque sentia-se desapontado. Ela era Carmen Sandiego. Fugir era sua principal ferramenta de trabalho.
Caminhou até seu apartamento, girando a chave na fechadura. Assim que abriu a porta, o cheiro o enlaçou. Ela não havia desaparecido. Ele sorriu, involuntariamente, e tirou o terno, colocando-o sobre o mancebo. Caminhou até a cozinha, observando-a. Estava com uma roupa nova – ele não possuía um vestido preto daqueles em nenhum canto de seu guarda-roupa. O vestido era curto, de modo que ele tinha uma visão privilegiada das pernas; o avental branco estava amarrado na altura da sua cintura, o laço no meio das costas. Ela havia preso o cabelo em um coque. Ela virou-se para pegar algum pote e seu olhar cruzou com o dele. Pareceu surpresa – o que era completamente inesperado. Aquele era seu apartamento, não era? “Oi. ”
“Achei que tivesse ido embora. ”
“Se você quiser que eu vá, eu vou.” Ela parecia incerta sobre ele estar falando sério ou brincando; Robin aproximou-se da geladeira, abrindo-a e pegando uma cerveja. “É claro que não. Só fiquei surpreso. ” Ele recostou-se ao balcão e puxou umas das banquetas. Ela o fitou por algum tempo, pensando em algo e virou-se, levando o pote de tempero italiano com ela.
“Você saiu do apartamento. ” Constatou Robin, sem nenhuma convicção na voz.
“Foi o vestido que me denunciou, não? ” Respondeu ela, sem virar-se para olhá-lo. Robin deixou que seu olhar delineasse seu quadril e suas pernas e então fitou o olhar no armário da cozinha.
“Você não pode andar nas ruas de Londres. É uma foragida da Interpol. Se alguma câmera pegou o seu rosto...”
“Eu não saí do prédio.” Fechou as panelas e virou-se para ele, caminhando até o balcão. Ela debruçou-se sobre o móvel, ficando na altura do rosto dele, de maneira que ela podia encará-lo de perto e de maneira atenciosa. Eles estavam a dois palmos de distância, os olhos trancados no olhar do outro. “Eu conheci seus vizinhos, coisa que você deveria fazer. Seu porteiro achava que você era gay e coitado, até tinha esperanças de ser notado. Mas eu disse que sou sua namorada e ele disse que até que enfim você trouxe alguém para este apartamento.” Ela riu deliciada e ele não esboçou reação nenhuma. “Eu fiz as compras pela internet e coloquei o endereço do apartamento do andar de cima. Sabia que o proprietário dele nunca apareceu?”
“Não.” Respondeu ele, fitando-a sem perder os olhos brilhantes e o sorriso debochado. Regina brincava com a colher, lambendo o molho dela de maneira provocativa.
“Como eu disse, você deveria conhecer melhor seus vizinhos. Tem uma senhora adorável do segundo andar que faz um bolo de cenoura espetacular.”
“Você disse que era minha namorada?” Ele arqueou as sobrancelhas com um sorriso malicioso nos lábios; Regina brincou com a colher, pousando-a sobre os lábios dele e Robin abocanhou-a, sugando todo o resto do molho enquanto ela a puxava delicadamente.
“Não se anime, cowboy. É improvável que eles assimilem o rosto da namorada de um dos vizinhos ao meu rosto caso vejam em algum anúncio da tevê. Mas se eu fosse apenas uma estranha, com certeza desconfiariam de mim.”
Fazia sentido, e ele sabia disso. “Como você teve tempo de fazer tudo isso?”
“Robin, conversar com as pessoas leva minutos. Tente fazer, no futuro.”
“Talvez.” Resmungou ele, e bebeu mais um pouco da cerveja. Ela continuou encarando-o, como se tentasse encontrar algo em suas feições. Ele não saberia explicar o que era. Queria tê-la em sua vida o tempo todo, mas ao mesmo tempo vivenciava a incerteza da presença dela. Ela poderia sumir a qualquer momento e ele não a impediria. O peso daquele dia impulsionou-se contra seus ombros e ele suspirou.
“Eu assisti à coletiva de imprensa.” A voz dela o acertou como uma pedra. “O que foi aquilo?”
“Gold sabe que eu ajudei você a escapar.” Ele a encarou por algum tempo, o momento de flerte desaparecendo no meio da aura de seriedade e preocupação. “Você não está segura aqui, Regina. Nem no meu apartamento. Ele virá atrás de mim e se encontrar você...”
“Por que ele viria atrás de mim?”
“Ele vendeu você à Baryshnikov.”
“O quê?” Ela afastou, contrariada. A jugular saltou em sua pele, tornando-se visível e o maxilar enrijeceu, demonstrando seu estado contrariado e defensivo. “Quem esse homem pensa que é?”
“Ele é perigoso, Regina.”
“Assim como Male. O que acha que ela fará comigo se me pegar?” Ela deu meia volta; colocou uma das mãos sobre a testa e andou de um lado para o outro até que se virou para Robin que a observava, com a mesma expressão de gravidade em seu rosto masculino. “Quanto?”
“Eu não faço ideia.”
O silêncio instalou-se entre eles. “Vá tomar um banho. Falamos disso depois do jantar. Eu não quero perder o apetite.” Finalizou ela, e ele simplesmente observou-a enquanto ela pegava uma taça de vinho que estava sobre a mesa e ele sequer havia notado e caminhou até o sofá da sala, sentando-se ali e ligando a televisão. Resignado, ele bebeu os últimos goles de sua cerveja e caminhou na direção de sua suíte.
***
Eles jantaram em silêncio. Não era, de fato, como se necessitassem de conexão verbal – estavam confortáveis na presença do outro como se fossem velhos amigos, exceto pelas circunstâncias adversas onde ele deveria estar caçando-a e colocando-a atrás das grades de uma estação policial. Vez por outra, Robin observava-a e ela retribuía o olhar, como que perguntando a ele o que ele queria.
Um sorriso atravessou o rosto dele antes de levantar-se e levar seu prato até a pia de mármore. Puxou as travessas, os vasilhames, tudo que ela havia deixado pelo caminho. Ela era bem bagunceira. Maravilhosa como cozinheira, ele tinha o dever de admitir. Não comia nada tão bom há muito tempo; mas tudo que ela utilizou, deixou em qualquer lugar que achou. Ele riu, ligando a torneira e pegando a bucha ao seu lado. Distraído, nem percebeu quando ela apareceu até que ela colocou o prato sobre os pratos que ele estava lavando. Ela não disse nada, mas deu a volta nele e pegou um dos guardanapos secos, passando a polir sua porcelana antes de guardá-la nos devidos lugares. Ele paralisou-se por algum tempo observando-a e ela o encarou contrariada. “O que foi? Não posso ajudar?”
“Pode.” Respondeu ele com um sorriso nos lábios e ela revirou os olhos.
“O que você pretende fazer a respeito do seu chefe?” Perguntou ela, empilhando os pratos no armário. Ela estava na ponta dos pés e o vestido subiu um pouco mais, mas Robin escolheu voltar seus olhos para a louça que estava esfregando.
“Não sei.” Ele sentiu seu maxilar rangendo. Estava com raiva, definitivamente. Raiva de ter sua dedicação lançada ao rio Tâmisa, raiva de ter sido diminuído em frente da imprensa. Ele estava prestes a receber uma condecoração real e aquele coletiva havia diluído todas as suas chances de reconhecimento. “Mas não vou deixar isso passar. Gold irá me pagar. Todos eles irão pagar.”
Ela encostou no armário e o fitou. Observou seu abdômen maravilhosamente definido, másculo, a calça de moletom de uma faculdade importante. Ele tinha como ser mais homenzinho? Riu. Seu riso chamou a atenção dele.
“Rindo de mim ou para mim?”
“Adivinha.”
Ele jogou um dos panos nela, mas ela o pegou no ar. Dobrou o tecido e colocou-o sobre a bancada. Realizando aquela atividade remotamente doméstica, ele tentava entender o que havia acontecido com a sua vida. A mulher que ele vigiara por anos estava secando a sua louça, em seu apartamento. Seu chefe condecorado havia realizado um acordo com uma das mafiosas mais perigosas do continente europeu. Ele havia sido rebaixado em um cargo, seu subalterno sem qualquer qualificação retomara suas investigações. Regina não ficaria ali para sempre. Ela não aceitaria se tornar uma namorada gentil e atenciosa que lava sua louça e cozinha para você e fica aguardando o namorado voltar do trabalho. Condenou-se por ser tão idiota. Era claro para ele que ela nem gostava dele o suficiente para namorar.
“Pare.” A voz dela soou calma e ele despertou de seu transe psíquico.
“Que?”
“Você pensa demais, McLocksller. Você analisa demais. Sintetiza demais. Tenta dividir as informações em fatos em partículas cada vez menores numa tentativa ridícula de encontrar algo oculto ou alguma informação subliminar quando simplesmente não há. A vida não é criptografada, agente. Permita-se viver. Deixe que algumas coisas sigam seu caminho naturalmente.”
Ela se afastou dele, pegando a taça de vinho e caminhando na direção do sofá de chenille azul escuro. Notou o travesseiro e o edredom pequeno dobrados no canto do mesmo. “O que está fazendo?”
“Vou dormir no sofá hoje. Espero que não se importe.”
Robin coçou a cabeça. Qual era o problema dela? Suspirou, resignado, e voltou ao seu quarto para pegar seu notebook. Ainda era um oficial, e enquanto não descobrisse o que ia fazer, precisava cumprir suas obrigações como se absolutamente nada houvesse acontecido. E era isso o que faria. Gold não podia desconfiar de maneira alguma que uma retaliação estava a caminho. Caminhou até a mesa de canto em seu quarto. Havia uma pilha de roupas dela, sacolas de lojas entre outras coisas. Uma sacola da La Perla lhe chamou a atenção, mas ele não ousou abri-la. Retirou cuidadosamente o notebook que estava sob algumas sacolas, mas não com a devida habilidade. Uma delas caiu no chão e o conteúdo caiu em seus pés.
Ele abaixou-se e voltou as vestes para seu local originário, mas algo lhe chamou a atenção. Um envelope verde, de camurça. Ele já havia visto vários desses, mas nunca pessoalmente. Nunca havia tocado um deles. Virou o envelope, e encontrou o botão de cera com o desenho de um corvo.
A tentação que percorreu seu corpo e o instigou a abrir o envelope era grande, imensa para sua plenitude como homem – mas ele não cedeu. Com certa contrariedade, voltou o envelope para dentro de uma das sacolas. Ele havia feito contato com ela. E ela não havia dito nada. Caminhou até o batente e observou a morena deitada no sofá assistindo algum talk show completamente superficial. Em uma guerra interna, ele se questionava sobre o quanto estava envolvido por Carmen Sandiego. Ele estava agindo com o coração ou com a razão? Ele podia confiar nela? Ou estava prestes a cometer um nefasto equívoco?
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