Carmen
14 Bugatti Veyron
Regina acordou com o aroma peculiar de hambúrguer. Fitou o visor acima da televisão de led e percebeu que ainda era madrugada; apesar da penumbra noturna havia um feixe de luz vindo da cozinha. Com cuidado se desfez do leve edredom e caminhou até a origem dos sons. Robin estava sentado à bancada com um lanche visivelmente não saudável em mãos, acompanhado de uma cerveja. Ele arqueou as sobrancelhas ao vê-la. “Eu acordei você?”
“Você, não. Mas o cheiro disso daí sim.”
Ela abriu a geladeira e retirou a garrafa de vinho; alcançou uma taça no caminho e se sentou ao lado dele, encostada à bancada.
“Descobri a fraqueza de alguém.” Riu ele apontando para a garrafa. Ela sorriu, preenchendo a taça com o líquido viscoso.
“Meu vício é mais saudável que o seu.” Respondeu ela apontando para o lanche; ele concordou balançando a cabeça. “Não conseguiu dormir?”
“Não.”
Ela o fitou por algum tempo. Sabia que algo mais o estava incomodando. Do pouco que conhecia dele, podia dizer que ele era demasiado transparente com suas emoções. Pelo menos quando ao redor dela. Não tinha certeza se podia confiar nele; dependia de acreditar em seus instintos e ela não tivera boas experiências fazendo isso. Mas algo a mantinha ali e se ela estava disposta a viver o que quer que estivesse acontecendo verdadeiramente, precisava ser honesta consigo mesmo e com ele. “Robin eu tenho que te contar uma coisa.”
“Sobre o Corvo?”
Ela manteve a taça no ar com os olhos arregalados. “Como?”
“Eu vi o envelope no quarto.” Ele terminou seu lanche e virou seu corpo na direção dela. Ela ainda estava o encarando surpresa e com os lábios entreabertos. “Eu não abri. Não é minha correspondência e eu não estou investigando você, pelo menos não dentro do meu apartamento. Ele caiu de uma sacola quando fui pegar meu notebook, mas eu o coloquei no lugar.”
“Você não disse nada.”
“Eu não sou a polícia aqui dentro, Regina. Não vou interrogar você. Não tenho o direito de pedir satisfações da sua vida.”
“Tem o direito de desconfiar.”
“Talvez.”
Ela bebericou o vinho mais uma vez. Virou-se então para ele. “Espere aqui.”
Ela cruzou o apartamento e voltou em questões de alguns instantes. Ele percebeu o envelope em suas mãos quando ela se aproximou, e ergueu as mãos em rendição. “Você não tem que me mostrar nada se não quiser, Regina.”
“Se eu não quisesse que você soubesse dele, você não saberia. Então pegue e leia.” Ela estendeu o envelope e voltou a se sentar no balcão quando ele o retirou de suas mãos. Com cuidado, abriu-o e desdobrou o papel timbrado.
"Carmen,
Desconheço as razões pela qual ousou envolver-se com esse homem. Espero, pelo bem de todos os envolvidos, que seja parte de um plano calculista para realizar o trabalho ao qual foi designada. Sei que está irritada comigo, entretanto negócios são negócios. Não jogue comigo. As instruções são as mesmas de sempre com respeito a entrega.
Eu sei que lhe pedi muito mas garanto que é o último trabalho. Você estará livre para ir. E por fim poderemos ficar juntos.
Não me desaponte.
O Corvo."
Robin colocou o papel dobrado novamente no interior do envelope. Ele colocou o envelope sobre a bancada e Regina virou-se de frente para ele. “Onde estava?”
“Veio com as compras.”
“Ele sabe sobre nós e não parece muito feliz.”
“Eu quero que ele se foda.”
Ela bebeu mais um gole. Robin não tinha certeza se ouvira bem. Carmen Sandiego havia mandado o Corvo se foder. Ele queria emoldurar aquele momento. Mas antes de vangloriar-se, ele tinha muitas dúvidas a serem sanadas.
“Qual é o trabalho?”
Era a pergunta que ela temia. O divisor de águas que definiria se McLocksller estava com ela ou contra ela. Estava detalhando um crime a um oficial de justiça; não existia mais lógica para tal momento de sua vida.
“Roubar o Tesouro Real.”
Ele riu. Genuinamente. Mas após notar que as feições do rosto delicado não haviam mudado, ele parou. “Você está falando sério? É suicídio, Regina. Até mesmo para você. Estamos falando do patrimônio de um país de primeiro mundo. Não dá para colocar no bolso de alguém.”
Ela sorriu com a referência. “Mas dá para colocar na conta de alguém.”
“Você acha que foi uma boa ideia me contar?”
“Se eu conseguir, o dinheiro não vai para as mãos do Corvo. Eu vou entregá-lo.”
“O quê? Vai entregar o homem pelo qual está apaixonada?”
Regina sentiu-se ofendida com aquela pergunta mas não o permitiu perceber. Ela respirou fundo, decorando pequenos detalhes da cozinha sofisticada antes de mergulhar nos olhos verdes dele novamente. “Levou algum tempo, McLocksller, mas eu percebi o que estava acontecendo. Isso não é um relacionamento real. Nunca foi. Ele me deu segurança por algum tempo e eu sou grata por isso. Mas eu poderia ter morrido. Inúmeras vezes. Eu não vou mais arriscar a minha vida por uma pessoa que não faz questão de estar comigo. O Corvo pode ter sido um amigo carinhoso, mas não um amante. Eu estava cega ou talvez carente demais para perceber. Ele precisa resolver seus problemas com a justiça e com Baryshnokov. Eu não posso mais me sacrificar por ele.”
Ele a olhou com deslumbre. Não sabia o que pensar. Uma ladra com honra, definitivamente. Um caráter admirável, ele tinha obrigação de admitir. Não esperaria nunca uma atitude deste porte vinda dela; não por falta de confiança mas por ser totalmente fora de padrões anteriores. Regina pretendia entregar o objeto de sua obsessão e ele sequer seria recompensado por isso. Killian receberia toda a glória. O pensamento o enfureceu.
“Você pode se vingar deles e me ajudar ao mesmo tempo. Imagine a repercussão que vai ser quando a imprensa publicar que Carmen Sandiego e um agente da Interpol faliram a Família Real. Que desbancaram um império centenário de aristocracia? Gold terá muito a explicar. Assim como Killian.”
Ele pareceu um tanto surpreso mas não ofendido com a ideia. De fato, era uma ótima vingança. Podia imaginar Gold e Jones contra um mar de tablóides sedentos por reputação. Era quase refrescante. Também era uma maneira de se certificar que nada aconteceria com ela, e ele odiou-se internamente por se importar tanto.
“Você não precisa responder agora. Só me prometa pensar no assunto.” Respondeu ela. Em seguida pegou o envelope e levou-o até o fogão. Acendeu uma chama e com a espátula, manteve-o no fogo até desmanchar-se em cinzas. “Eu limpo o fogão amanhã. Tente dormir.”
Ela estava prestes a sair da cozinha quando ele caminhou até ela. Eles permaneceram na penumbra, ele acariciando a pele de seu pulso com o polegar delicadamente. “Robin?” Questionou ela, retribuindo ao olhar intenso que ele lhe dirigia. Ele deslizou os dedos pela lateral do seu rosto, colocando alguns fios atrás da orelha dela.
“Eu quis beijar você desde o momento que cheguei.”
“Não estou te impedindo, McLocksller.”
Ele enfiou a mão entre seus cabelos e seu pescoço, deslizando-a até a nuca onde segurou com firmeza e a puxou para um beijo cálido. Ela manteve as mãos na cintura dele, brincando com o elástico da samba canção que ele usava. Robin a guiou até a parede, encostando-a nela e continuou, suas línguas deslizando e acariciando uma a outra. A fome que os envolvia era compulsória e intensa; ele desceu uma das mãos e subiu o vestido dela até o quadril onde ele apertou com posse a fazendo gemer na sua boca. Ela deslizou os lábios para fora do beijo dele, fazendo uma trilha de beijos que percorreu seus ombros, tórax, clavícula, até que ela plantou uma série de delicados beijos em seu pescoço. Robin voltou a beija-la, segurando em seus cabelos, apertando-a contra si. Ela gemeu e ele segurou na barra do vestido escuro mas Regina colocou as mãos sobre as dele e o fez parar. Robin cessou o beijo e afastou-se apenas um pouco para que pudesse olhar em seus olhos. “Eu fiz algo errado?”
Ela inclinou-se na ponta dos pés e beijou seus lábios com cuidado. “Você não fez nada de errado. Eu...” Ela respirou fundo buscando a estabilidade que precisava para concluir aquela frase. “Nós não podemos continuar fazendo isso. Só vai tornar mais difícil nos separarmos quando tudo acabar. Não temos chances juntos.”
“Regina.”
“Não faça eu me apaixonar por você, McLocksller. Eu não suportaria ter o coração partido.”
Ela saiu do vão entre ele e a parede e voltou para a sala de estar. Robin permaneceu fitando a parede, tentando aplacar o que sentia e tentando compreender o que havia acontecido. Ele a queria. Não compreendia porque era tão ruim que ela se apaixonasse por ele. Afinal, contra todas as forças legislativas, sociais, lógicas que os cercavam – ele havia se apaixonado por ela, incondicionalmente.
***
Regina acordou cedo. Robin ouviu-a cozinhando o café da manhã e embora não estivesse pronto para ter uma conversa normal depois do que ela havia dito, ele não tinha escolha. Quando saiu do banho sentiu o cheiro adorável de bacon e percebeu que sentiria falta da presença dela. Haviam se passado dois dias mas ele não tinha companhia ali desde que comprara o imóvel; era uma nova realidade.
Saiu do quarto quase pronto. O cabelo escovado para trás, a camisa social branca, a calça do terno social italiano cinza. A gravata perfeitamente atada ao seu pescoço completava o visual. Ele entrou na cozinha e sentiu os olhos dela analisando-o de cima à baixo. “Aprovado?” Brincou.
“Com certeza. Vai impressionar o porteiro.” Rebateu ela com um sorriso e colocou um prato à frente dele na mesa. Ele reparou que ela vestia jeans escuros e botas de cano alto também pretas. Usava um moletom cinza escuro com capuz.
“Você vai sair?”
“Sim.”
Ela sentou-se à mesa e começou a comer. Robin deu mais uma garfada em seus ovos com bacon e bebeu o café. “Regina... Eu falei sério quando avisei sobre você ser uma procurada. Seu rosto está sob cada câmera da cidade.”
“Eu vou com você e você me deixa no estacionamento do The Montcalm.”
“Trabalho?” Questionou ele com uma das sobrancelhas arqueadas.
“Não. Victoria.”
Ele consentiu, ciente da intensidade dos laços que ligavam as duas mulheres. Se existia algo próximo a família ou amigos para Carmen Sandiego, esse alguém era a baronesa. Não achava seguro que ela se arriscasse; Gold ou Baryshnokov estariam à espreita. Mas ela era Carmen Sandiego. Sabia com maestria como cuidar de si mesma e como cuidar dos outros. Sua preocupação era desnecessária.
“Tudo bem.”
Ele cogitou a possibilidade dela estar indo embora. De não retornar mais ao apartamento. Mas decidiu que não estava sob seu controle. Liberdade era tudo que ele podia oferecer.
***
“Eu disse que ia impressionar o porteiro.” Brincou ela ao saírem no subsolo.
Ele sorriu. “Hernandes é um idiota.”
“Não o culpa por sentir atração por você. Não é difícil.” Respondeu ela, fazendo-o parar; ela no entanto continuou andando com um sorriso diabólico no rosto. “Qual é o seu carro?”
Ele acionou o alarme e ela sorriu vislumbrada para o automóvel que apitou. Revestido com uma tintura preta e uma faixa laranja, era um dos modelos mais impressionantes da Bugatti Veyron.
“Como um agente da Interpol tem um carro de dois milhões de dólares?”
“Se eu contar vou ter que te matar.” Sorriu ele. Eles adentraram o automóvel e em segundos estavam nas ruas. Ele observou seus olhos fixos na paisagem externa. “Você não gosta mesmo de Londres, não é?”
“Eu gosto de Covent Garden.”
“Aquela região é praticamente o oposto do resto de Londres.”
“Não me leve a mal mas... É tudo muito cinza. Sofisticado. Minimalista. Tudo em seus milimétricos lugares; todos em seus respectivos afazeres. Um país elegantemente separado em cérebro (Oxford) e pernas e braços (resto de Londres). Vocês são muito... britânicos.”
“Vou considerar como elogio.”
“Pode ser.”
Rapidamente eles adentraram o estacionamento do The Montcalm e Robin estacionou elegantemente ao lado da escadaria de incêndio. Ela sorriu. “Você daria um ótimo criminoso.”
“E você daria uma ótima agente da Interpol.”
“Mon dieu! Não. Com certeza não nasci para usar tailleur cinza escuro. Fere meu coração.”
Robin riu. Ela tinha essa habilidade natural de fazê-lo sorrir, de tornar seu dia mais leve. Ela era como um raio de sol numa manhã nublada. Ela desatou o cinto. “Regina.” Chamou ele e sinalizou para que esperasse. Colocou a mão por baixo do banco e retirou um revólver Thunderbelt, estendendo-o na direção dela. Regina fitou a arma e então o fitou. “Robin...”
“Regina, pegue a arma. Você não está segura. Pode ser sua única defesa se algo der errado.”
“Eu não sou essa pessoa.”
“Não se trata de ser uma pessoa ou não. Se trata de legítima defesa e isso não é um crime. Eu não vou deixar você sair sem a arma.”
Ela respirou fundo e pegou o revólver. Ativou a trava de segurança e colocou-o dentro do bolso frontal do moletom. Com cuidado, colocou o capuz. “Fique segura.” Pediu ele. Ela mordeu o lábio e então o segurou com as duas mãos pela lapela do terno asseado, puxando-o para si. Suas bocas se encaixaram de maneira firme, o calor alastrando-se em seus corpos, as línguas se satisfazendo. Ela sugou a língua dele como se fosse sugar sua alma e o deixou. “Fique seguro também, McLocksller.”
Vestiu os óculos escuros e saiu do carro, correndo na direção de escadaria.
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