Carmen

9 Veneza.


Ela estava feliz. Caminhando pela Piazza San Marco, no coração de Veneza, Regina era apenas mais uma turista. Usando jeans e uma camiseta branca, um tênis confortável no pé e uma pequena mochila com alguns documentos. Um boné cobria seus cabelos da exposição do sol italiano. O guia que ela pegara das mãos de uma garota tímida no aeroporto lhe dizia que ali havia sido palco de procissões e importantes encontros políticos – embora tudo que ela estivesse vendo era a majestosa beleza, a imponente presença da Basílica Di San Marco.

Ela andou até a entrada da igreja construída em arquitetura bizantina e observou a maneira como as colunas de concreto se alinhavam e formavam uma bela imagem simétrica. Ergueu os olhos e observou a pintura com fundo dourado no topo da grande entrada. Uma das coisas que ela mais adorava na Europa era sua habilidade de transportar o passado ao presente, de lembrar os antecedentes da nação em cada pequeno detalhe artístico.

Ao entrar na catedral, seus olhos brilharam de excitação. O guia dizia oito mil metros de mosaicos, mas ela não havia depositado confiança em uma descrição de tamanho exagerado. Mas aquilo estava além de sua capacidade de imaginação. As paredes pareciam pintadas com o mais puro ouro, um dourado brilhante que reluzia tanto que quase a derretia, por baixo de pinturas renascentistas. O deslumbre não era opcional, ela estava certa disso. Percebeu que havia poucos turistas. Possivelmente estava em um mês de baixa temporada – ela havia se esquecido o que era ter data certa para viajar.

Entrou em um dos corredores e se enfiou nas entranhas daquele mundo dourado. Seu coração vibrava. Ela havia se esquecido o que era isso – ser apenas uma pessoa. Ser apenas uma garota visitando um ponto turístico, um rosto na multidão, alguém vivendo sua vida. Estava tão acostumada à incumbência de ser uma criminosa internacional e ponto de referência que se esquecera da mulher que fora antes. Olhando aquelas pinturas e se enchendo de inspiração, ela se deixou questionar sobre o que estava acontecendo em sua vida naquele momento e o que ela iria fazer dali para frente. Sua missão havia acabado. Ela podia sair da agência, desligar-se do Corvo para sempre e voltar para sua ilha. Nada a impedia de ir embora. Mas por que ela sentia que faltava alguma coisa?

Lembrou-se de Robin e sorriu. Gostou dele. Não que isso importasse, depois de tê-lo traído, ela sabia que ele não mediria esforços para colocá-la na cadeia. Iria investigar Victoria e vigiá-la na tentativa de pegá-la. Estamparia seu rosto a cada cinquenta centímetro das ruas de Londres para que nenhum cidadão esquecesse seu rosto. Não o culpava. Nenhum peão gosta de ser usado, mesmo que no final da jogada a rainha sofra um xeque-mate.

Desceu as escadas e pensou ter visto um vulto logo atrás dela. Decidiu que era hora de ir embora. Não estava em condições de se colocar em situações de risco.

***

Levou menos de cinco minutos. O Hotel Danieli, localizado apenas à duzentos metros da Piazza San Marco, havia se tornado sua casa durante os dias que vinha passando em Veneza. Chamá-lo de casa, no entanto, parecia um gesto de esnobismo quase gutural. Distribuído em três edifícios de supremo luxo construído há séculos atrás, tornava-se uma opção lendária de riqueza e conforto aos visitantes que buscavam arquitetura, história e cultura sem saírem de seus quartos.

Passou pela recepção deslumbrante e pôs-se a subir a escadaria revestida por veludo vermelho. “Senhora Decker.” Acenou um dos funcionários vestido em seu uniforme clássico. “Sua correspondência.”

Ele estendeu o envelope de camurça verde e ela sorriu timidamente, segurando-o. “Merci.”

Caminhou até sua suíte e foi abrindo o envelope no caminho. Uma das vantagens de um hotel tão luxuoso era a privacidade. Poucas pessoas podiam arcar com uma hospedagem dessas. Logo, você não encontrava multidões nos corredores. As pessoas demonstravam grande reserva e discrição, quase como se quisessem ser invisíveis no meio de tanto luxo. Já faziam duas semanas desde que ela deixara Londres. Não havia recebido nenhum sinal dele em Roma, e ela ficara cinco dias lá. Seria uma nova missão?

Entrou na suíte e caminhou até o sofá de veludo branco, deitando sobre ele. Rasgou o envelope fechado com um botão de cera vermelha que portava o desenho de um corvo, e leu o conteúdo. Seus olhos primeiramente deslizaram pelas letras com pressa, mas aos poucos o ritmo foi diminuindo até que seus olhos paralisaram em alguma parte da escrita. Ele não estava propondo aquilo. Não. Era insano, até mesmo para ele. Ela sorriu, embora não estivesse achando nenhuma graça. Não era uma ideia sequer considerável.

Ajeitou-se no sofá, os ombros tensionados enquanto ela ajeitava e coluna e sentava-se corretamente alinhada. Releu o conteúdo da carta novamente. Não ia aceitar – ela sequer podia. Sabia qual seria o desfecho de algo tão estúpido. Ou ela morreria em uma cadeia vagabunda por encomenda dos oficiais que fez de bobos, ou por encomenda de Male. Ou morreria durante a missão. Ela não sairia viva. De repente, como uma estrela cadente cruzando o céu numa noite escura, seus pensamentos se iluminaram e uma linha de raciocínio se fez presente.

Ela havia pedido para sair e ele ia matá-la.

Atordoada, caminhou até a lareira e colocou o envelope e seu conteúdo sobre o fogo, observando em silêncio o papel virar cinzas, desaparecendo quase poeticamente. Não queria acreditar que o homem por quem estava apaixonada a estava enviando em uma missão suicida. É a nossa última missão, eu lhe prometo. O último golpe. Dizia a carta. Teremos dinheiro o suficiente para comprar o mundo todo. Apenas confie em mim.

***

Regina estava no quarto copo de whisky. Não era nem um pouco fã da bebida, achava forte, intensa demais para seu gosto um tanto mais clássico. Mas para aplacar os sentimentos difusos que borbulhavam em seu interior, era mais do que necessário um incentivo extra. Andando de um lado para o outro, ela sentia-se nervosa e ansiosa. Sua mente treinada já estava trabalhando a favor da próxima missão, mesmo ela tendo dito a si mesma que jamais aceitaria tal proposta.

Vamos roubar o tesouro real de Londres.

Ele havia enlouquecido.

Primeiro que ela não tinha nenhuma vontade, nenhuma ânsia ou desejo de voltar às terras londrinas. Londres deixara de ser um local indiferente, era praticamente indesejável e inaceitável para ela. Mas com os contatos certos.... Ela balançou a cabeça, desvencilhando-se daqueles pensamentos. Não ia aceitar. Pegaria um voo na manhã seguinte e voltaria para sua ilha.

Terminou a bebida e caminhou até a varanda. Seus olhos fitaram a Lagoa de Veneza e ela decidiu que iria dar um passeio de gôndola. Um passeio, um jantar no terraço, bebidas caras, vestidos luxuosos. Considerou até terminar seu tour de turismo na Piazza, queria muito ver a Torre do Relógio e o Museu. Mas todos seus planos se desfizeram quando ela ouviu um estrondo e voltou rapidamente para dentro de sua suíte, constatando que não estava mais sozinha.

Ela encarou os três homens vestidos em seus ternos pretos. Um deles tamborilou os dedos ao redor da pistola semiautomática com silenciador. “Não faça nenhum escândalo e nós levamos você viva. Se gritar, levamos você morta enrolada em um tapete. Nossa chefe quer apenas ter uma conversinha com você.”

Ela respirou fundo enquanto encarava cada um individualmente. Um deles deu um passo à frente, e ela estendeu a mão delicadamente enquanto balançava a cabeça negativamente. “Não precisa. Eu acompanho vocês.”

***

Desceu a escadaria com total tranquilidade, e um sorriso doce no rosto. Nenhum deles ousaria dizer que ela estava calculando uma fuga. Das poucas certezas que possuía, uma delas era que Male Baryshnikov iria matá-la assim que possível. Ou torturá-la primeiro e depois matá-la. De qualquer perspectiva, era bem ruim. Respirou fundo e se concentrou na decoração elegante feita em murano revestido até que finalmente estavam fora do hotel.

Caminharam na direção da Piazza. Dois deles estavam atrás dela e o outro ao seu lado. Ela calculou a distância. Não havia como chegar à Basílica. A Torre estava fora de alcance também. Lembrou-se então do Palácio dos Doges. A construção feita em arquitetura gótica à beira da Lagoa, onde estacionavam as gondolas e embarcações. Percebeu um grupo de adolescentes se aproximando e contou os segundos até que os grupos se misturassem. Ela teve pouco tempo de movimentação, mas foi mais do que eficaz. Desvencilhou-se deles e correu. Podia senti-los à suas costas, mas não parou nem sequer se permitiu o luxo de olhar para eles. Correu, enfiando-se entre a multidão. Empurrou algumas pessoas, pediu desculpas e continuou correndo contra o tempo.

Assim que chegou à ponte de madeira, pulou na água e torceu para que eles não tivessem visto. Posicionada entre os barcos, ela os ouviu resmungando em russo e correndo de um lado para o outro. Quando não obteve mais sinais deles, subiu em uma das gondolas.

“Ei mocinha. Você tem que pagar primeiro para usar.”

“Párdon.”

Ela saiu da embarcação, mas assim que colocou os pés na madeira da ponte percebeu que um deles havia lhe visto e estava voltando. Regina tentou correr, e então esbarrou em alguém que foi acidentalmente jogado contra uma das embarcações. Ela demorou um segundo para perceber que era um policial. Ela havia agredido acidentalmente um policial. Ele levou um assopro aos lábios e soprou, e ela começou a correr assim que aquele som ressoou na sua cabeça. Mas o estrago estava feito. Ela não conseguiu correr muito, pois dois oficiais da polícia a pegaram e imobilizaram seus braços.

Observou os russos que assistiam a cena. Eles trocaram olhares e rapidamente desapareceram entre a multidão. Ela sabia que estava encrencada, mas de certo modo estava feliz por ainda estar viva.

***

Robin estava assinando um relatório quando Gold entrou sorridente em seu escritório. Era quase cômico como a bengala era quase desnecessária quando ele estava animado. Quase como se as pernas criassem vida própria. “Estou ocupado.”

O velho sorriu, ignorando a resposta seca. “Eles a pegaram.”

“Quem?” Questionou, totalmente sem interesse e sem tirar os olhos dos seus papéis. Gold caminhou até ele e colocou a mão sobre a mesa, impedindo-o de ler. Robin ergueu os olhos com uma irritação perceptível, encarando seu superior.

“Carmen.”

A mudança no semblante do oficial foi gritante. Seus lábios se entreabriram. “Quem pegou Carmen?”

“A polícia italiana. Parece que ela se envolveu em um mal-entendido. Eles iam apenas lhe dar uma intimação, mas assim que chegaram na delegacia, descobriram quem ela era. Vão deportá-la para Londres amanhã ao amanhecer. ” Gold sorriu e caminhou até o bar. “Onde você guarda os uísques mais caros? Essa notícia merece uma comemoração digna. ”

Robin ainda tentava processar a notícia. Carmen, em um mal-entendido? Algo não fazia sentido. “Deveríamos trazê-la hoje.”

“Não tem porque apressar os italianos. Eles já fizeram um belo trabalho.”

Robin levantou-se e caminhou até sua vidraça, observando a movimentação típica de Westminster. Seu coração estava acelerado, mesmo contra sua vontade; a possibilidade de voltar a encontrar Carmen o perseguia desde que ela o fizera de bobo. Sabia que uma noite era mais do que suficiente para que o Corvo a tirasse da delegacia, principalmente se levado em consideração a falta de aptidão e competência dos batalhões italianos. Ela escaparia por entre seus dedos de novo.

Não podia deixar isso acontecer. Pegou a parte superior de seu terno e a vestiu. “Onde você vai?”

“Resolver um assunto.” Respondeu. “As bebidas estão na terceira porta do segundo armário. Faça bom proveito.”