Carmen

10 Confie em mim.


Era tarde da madrugada, e Robin puxou uma cadeira para perto da cela dela. Contra todo os protocolos, ali estava ele — conversando com uma potencial suspeita não oficialmente. Os policiais do batalhão italiano não davam a mínima para quem era ela — queriam se ver longe do problema o mais rápido possível. Uma criminosa internacional chamava atenção demais, e havia irregularidades que uma auditoria traria a tona rapidamente. Bem, ninguém quer esse tipo de coisa. Para eles, extraditá-la o mais rápido possível era a melhor solução.

"Quando chega o meu vôo?" Perguntou ela.

"Pela manhã. Oito ou nove."

Ela o fitou, e sentada no chão vestindo jeans e camiseta, Carmen quase parecia indefesa. Quase irreconhecível como a mulher que enganara um dos diretores da Interpol e roubara um artefato tão valioso. Seu cabelo ainda estava úmido, e ela estava de tênis e ele sorriu pensando o quão comum ela aparentava ser.

"Está rindo de mim?"

Havia um sorriso nos lábios dela. Ele ajeitou-se na cadeira, as pernas ligeiramente abertas na direção dela. Usava uma camisa social branca e a calça do terno italiano azul marinho, com suspensórios elegantes na cor do terno. As abotoaduras eram de ouro, com as iniciais RM marcadas com distinção. Um verdadeiro cavalheiro, com toda a sua classe e elegância.

Esfregou a sola dos calçados italianos no chão e voltou a encarar a mulher do outro lado das barras de ferro com certa diversão no olhar. "É a primeira vez que você parece comum, só isso."

Ela olhou para a roupa que vestia e concordou. "Sim. É quase inacreditável essa ser a última roupa que vou usar. Tanto Chanel, Gucci e meu último modelito acaba sendo esses trapos."

"Você vai ficar bonita de laranja." Brincou ele.

Ela sorriu, mas ele percebeu que ela não havia sido sincera. Sabia o que a aguardava. O jogo havia acabado. Ela iria para a prisão, e não havia nada a ser feito para desfazer aquilo. Por mais que soubesse que aquela era a sua obrigação, o cumprimento do seu dever como oficial da lei, era pesado para ele.

"Eu sou muito mais comum do que você imagina."

"Eu discordo."

"Você não sabe muita coisa, não é? Para quem acha que meu nome é Carmen."

Ele engoliu em seco encarando-a. Xeque mate. "Você está certa. Não sei. Talvez você possa me contar."

"Porque eu faria isso?" Questionou ela, olhando para o teto enquanto abraçava as próprias pernas e encostava-se mais à parede gelada atrás de si.

"Uma última conversa." Ofereceu ele, e eles trocaram um olhar carregado.

"Pode ser."

"Qual o seu nome?"

Ela riu. "Eu imaginei que você fosse perguntar isso."

"Se não quiser responder, eu compreendo."

"Essa pode ser minha última conversa real, não é? Não vamos impor limites. Meu nome é Regina."

Os olhos dele brilharam. Regina. "É um nome muito mais bonito que Carmen."

"Obrigada." Ela sorriu, genuinamente. "Mas é pessoal e eu não queria vê-lo por todos os lados. Na capa dos jornais. Carmen Sandiego é muito mais comercial."

"Sim." Ponderou ele. "Qual a natureza da sua relação com a The Devil?"

Regina arqueou a sobrancelha. "Você está perguntando como Robin ou como McLocksller?"

"Continua sendo uma conversa informal." Respondeu ele com ambas as palmas levantadas.

"Victoria é uma irmã para mim. Uma irmã com a qual já tive algumas coisinhas que irmãs não devem ter. Mas os laços são profundos. Ela está com problemas?"

"Não, não. Ela realmente se aposentou depois que casou com o Barão." Regina sorriu. "Mas não podemos dizer o mesmo da namoradinha dela."

"Quem?"

"A morena que acompanhou vocês ao pub em Convert Gardens. Ela trabalha para Sidney Glass."

"Eu também já trabalhei para Sidney Glass."

"Acontece que Glass está numa fusão com Baryshnikov. Foi possivelmente assim que Male descobriu que você estava em Londres."

"Que vagabunda!"

"Possivelmente Victoria também não sabe. Ela demonstra ser bastante protetora a seu respeito — duvido que colocaria você em risco."

"Há quanto tempo você vigia meus passos, Robin?"

Um silêncio instalou-se entre eles. Ela permaneceu fitando-o, e Robin desviou o olhar por algum tempo. Pouco tempo depois ele voltou a olhar em seus olhos. "Há anos."

"Anos." Repetiu ela, tentando digerir o gosto daquela palavra em seus lábios. "Por causa do Corvo?"

"Sim."

Ela assentiu e encarou o outro lado da sua cela escura e úmida. "Entendo. O Corvo lhe fez alguma coisa para que você dedicasse tanto tempo e energia em capturá-lo?"

"Por causa dele eu perdi uma pessoa importante."

Ela mordeu o lábio, queria perguntar mas seu orgulho não a permitia. Fitou os próprios pés. "Eu não sou ninguém para lhe fazer mudar de ideia, Robin. Mas eu sempre tive que me virar sozinha. Eu sempre fui auto suficiente, eu sempre fui a minha própria âncora. Quando o Corvo entrou para a minha vida, eu não precisei mais ficar me debatendo na superfície — ele cuidou de mim. Ele me deu assistência, ele estava ao meu lado sempre que eu precisava. Eu sei o que dizem sobre ele, mas até hoje, ele nunca me deixou desamparada."

"Você está prestes a ser deportada. O que isso lhe diz sobre ele?"

"Como eu disse, até hoje ele nunca havia me deixado desamparada. Parece que as coisas mudaram."

"Mas você continua apaixonada por ele."

"Eu o amo. Isso já é parte de mim."

"O que você sentiria se ele nunca mais aparecesse? Você não iria se sentir traída? Você roubou o Rubi por ele. Você deveria entregá-lo."

"Acontece que eu tenho um código. Eu tenho honra. Por mais engraçado que pareça para você — uma ladra com honra. Eu cumpri a minha parte da missão. Eu fiz o que me requisitaram. Como empregador, cabe a ele cumprir a parte dele do negócio."

"Eu não consigo entender."

"Então não tente."

"Se pudesse estar em um lugar neste momento, onde seria?"

Ela riu e a risada dela ecoou pela cela fria. "Chegamos às perguntas clichês. Alguém me dê um tiro."

"Tiros doem."

"Você sabe bem disso. Nunca vi agente especial sem colete. Uma enorme irresponsabilidade."

"Eu não estava em missão. Eu estava em um baile."

"Você nunca deveria tirar o colete. Você é da Interpol."

Ele sorriu. "O que você sabe sobre a Interpol?"

"Mais do que você gostaria." Ela olhou de soslaio para ele. "Assim como eu sei que você instalou aquela câmera no meu hotel mas ela não estava acoplada ao sistema da polícia."

Ele engoliu em seco, limpando a aridez repentina em sua garganta. Ela sabia que ele assistira tudo.

"Não se preocupe." Um sorriso maldoso atravessou os labios carnudos. "Seu segredo está a salvo comigo."

Acanhado, ele esticou-se na cadeira realinhando sua coluna. Se achava incrivelmente esperto enquanto na verdade, ela estava à sua frente e não se gabara disso — o contrário do que ele faria no lugar dela. Percebeu o quanto a havia subestimado. Regina era uma pessoa muito mais íntegra do que ele, uma pessoa consistente. Ela tinha princípios e era leal à eles.

Por um minuto, sentiu-se envergonhado. Ele havia cruzado uma linha ética e ela não se incomodara, sabendo que poderia destruí-lo com aquilo. Mesmo sem o conhecer, ela o poupara. E o que ele havia feito? Colocado a própria atrás das grades. Não que ela o culpasse. Ela o absolvera daquela ação, ciente de que ele era um homem da lei e ela havia cometido um crime. Era apenas uma engrenagem do sistema criminal que girava no seu sentido horário, polícia pega ladrão, ladrão vai pra cadeia.

De repente, ele percebeu que tinha uma escolha. Por mais incoerente que esta lhe parecesse. Robin levantou-se.

"Eu preciso ir." Ela o encarou, inexpressiva. Robin aproximou-se da barra e fitou-a. "Espero encontrá-la antes do vôo. Se não for possível, lhe desejo boa sorte. Você merece ser feliz, Regina. Me desculpe por tê-la colocado nessa situação."

"Você não me colocou aqui, Robin. Você fez o seu trabalho, eu fiz o meu. Simples."

Ele balançou a cabeça, afirmando e afastou-se, sem olhar para trás.

***

Ela não sabia quanto tempo se passara desde que Robin a deixara e ela deitara na fina tira de espuma. Tudo que conseguia ouvir era o alarme estridente que tocava acima de sua cabeça. Como um grito ensurdecedor, o toque ía e voltava, seguidos de luzes vermelhas que vinham de todo lado. Ela aproximou-se da grade e então alguém apareceu correndo.

"Robin, o que você está fazendo aqui?"

Ele tirou um molho de chaves do bolso e abriu a cela com pressa. "Você precisa confiar em mim." Sussurrou ele e ela desconfiou que ela tinha poucos segundos para se decidir. Ela assentiu com a cabeça e ele a segurou pelo punho.

Regina sentiu um pano sendo colocado sobre a sua cabeça, uma espécie de saco, e aquilo a deixaria aterrorizada — mas Robin pediu que ela confiasse e ela aceitara confiar. Nos dois minutos seguintes, Regina sentiu-se ser guiada através de sua própria escuridão pelo que parecia um corredor bem estreito. Acima dela, a sirene continuava tocando e gritos em italiano se distanciavam cada vez mais. Ela sentiu quando o ar fresco bateu contra o seu corpo — eles haviam saído, mas não retirou o saco, Robin estava no comando naquele momento.

Ela ouviu algumas vozes e ele disse algo em polonês, ou o que ela acreditava ser polonês. Uma porta de carro se abriu e Robin colocou a mão sobre a cabeça dela para que ela não a batesse e entrou logo em seguida. Regina estava agoniada mas sabia que naquele momento seu autocontrole era essencial.

Respirou fundo enquanto ouvia Robin dando ordens naquela língua que ela acreditava ser polonês. Segundos depois, ele colocou a mão sobre a dela. Era um gesto simples, inocente. Algo que talvez não fosse significar nada. Mas significou. Regina entrelaçou os dedos nos dedos dele, porque naquele momento ele era a única certeza que ela tinha. Durante o tempo que durou a viagem, que ela não sabia se era muito ou pouco pois seu coração batia descompassado, ela sentiu-se segura. Sentiu-se apoiada. Sentiu pela primeira vez em anos que alguém realmente estava lhe protegendo. Obviamente, o Corvo a protegia. Mas não era físico. Não era verdadeiramente real. Não havia calor.

O carro parou e Robin desceu e a puxou consigo lentamente. Ela podia ouvir o som de turbinas. Eles caminharam alguns metros e Robin delicadamente retirou o saco da cabeça dela. Regina abriu os olhos e o rosto dele foi a primeira coisa que ela viu. Um sorriso de alívio instalou-se em seu rosto enquanto ela olhava em volta. Eles estavam em uma espécie de aeroporto particular, cercados de homens com uniformes jeans cinza escuro. Regina olhou por cima do ombro dele e observou a SVU preta com os vidros escuros.

Robin estendeu a mão para ela e ela identificou seus documentos e sua jaqueta. "Esse avião vai partir para a França em quinze minutos. De lá, acredito que você possa ir para onde quiser sem que eu a rastreie. A piloto se chama Leslie e você pode pedir o que precisar para ela."

Seus olhos se encontraram e ela segurou na mão dele. "Robin, por que está fazendo isso?"

"Eu não sei te responder, Regina." Ele retirou a mão dela da sua e ela assentiu, retomando a postura séria.

"Você arriscou seu emprego. O que vai dizer a eles?"

"Que você escapou. Afinal, você é Carmen Sandiego. Eles vão acreditar. Você é uma lenda, não vai ser difícil.".

Ela sorriu. "Eu não vou me esquecer disso, McLocksller."

Ele acenou e se afastou. Piscou para ela, parecendo um garoto numa careta típica juvenil e sorriu. "Adeus, Carmen."

"A gente se vê."

"Eu espero não vê-la novamente por um bom tempo."

Ela sorriu e colocou a jaqueta sobre o ombro, caminhando na direção do avião.