Carmen
15 The Montcalm
Caminhando pelos corredores do hotel, Regina relembrou-se dos lábios dele. Macios, quentes, ávidos. O tipo de beijo que a fazia arrepiar por completo, como um balão de ar quente ascendendo de dentro de seu tórax. Concentre-se. Fitou o tapete cinza centralizado no corredor das suítes reais; um tapete cinza com desenhos de linhas ondulantes num tom de vermelho. Demasiadamente macio, mesmo para ela que vestia botas. Ela sempre admirou hotéis de luxo e esse nada deixava a desejar. As lâmpadas embutidas nos rodapés traziam a qualquer transeunte a sensação de estar em uma passarela. As paredes revestidas por um tom pastel ornavam com as portas de madeira Wengué, os números e os apetrechos de cada suíte apareciam destacados e translúcidos na folha de suas portas.
Ela parou na frente da suíte 507. Respirou fundo, e bateu. Instantes depois, a porta se abriu e ela entrou, sem sequer olhar para frente. Já corria risco demais perambulando pelo corredor do hotel sob a mira de suas câmeras de segurança. Tirou o capuz e sentiu-se mais leve.
“Olá para você também.” Resmungou Victoria, após fechar a porta. Ela passou por Regina e foi até a mesa, pegando a garrafa de champanhe pelo gargalo. Em pé, levou a garrafa aos lábios e engoliu um longo gole da bebida.
Regina manteve-se onde estava, encarando a loira à sua frente. Victoria parecia mais bonita e elegante a cada vez que se encontravam. Ela usava um vestido branco, com um design que muito lhe lembrava os antigos cortes de Dolce & Gabbana. As alças finas realçando sua clavícula, o caimento da seda favorecia seu corpo. Victoria caminhou até uma poltrona acolchoada e sentou-se, esticando as pernas sobre o braço da mesma.
“Qual é o problema agora, Victoria?”
“Por que você voltou?” Sibilou a loira.
Regina riu, balançando a cabeça negativamente. Mas não se moveu. Permaneceu no mesmo lugar, questionando-se sobre quão boa havia sido sua iniciativa de ter aceitado aquele encontro.
“Estou feliz em vê-la também, merci.” Respondeu, a voz mergulhada em ironia. Seus olhos vasculharam a suíte pela primeira vez. Luxo não era a palavra adequada. Havia algo de nobre, algo sobre a realeza, uma palavra de patamar imperial a ser inventada para descrever aquele lugar. Havia algo em como o grande espelho decorado instalado na parede refletia os móveis desenhados em vidro por grandes esculpistas; o jogo de cores; os materiais macios e inimagináveis que cobriam os pequenos sofás; as plantas exóticas e perfumadas que decoravam o mobiliário. Ela podia imaginar como era o quarto, e seus olhos brilhavam por antecipação.
“Eu só estarei feliz em revê-la se souber o motivo pelo qual voltou.” Continuou Victoria, que havia colocado a garrafa sobre a mesa de vidro temperado e remexia nervosamente no colar de pérolas cintilantes em seu pescoço. Regina suspirou e moveu-se, caminhando sem rumo, apenas admirando o local. Não tinha ideia do que dizer. Como sua única amiga, a baronesa a conhecia como ninguém – e isso a deixava aterrorizada.
Regina caminhou até a poltrona do outro lado da mesa. Sentou-se, ficando frente a frente com sua amiga e cruzou as pernas, apoiando os braços nos confortáveis braços do móvel e levando o dorso da mão aos lábios. Seus olhos se distanciaram por algum tempo.
“Você aceitou a missão?” Ela podia sentir a fragilidade da pergunta no tom de voz de Victoria. Sua amiga tinha medo da resposta, talvez porque soubesse que não existia outra resposta. Premeditava o que viria e isso a preocupava. Quando seus olhos encontraram o de Victoria, ela pode ver o que havia neles. Para sua surpresa, não existia raiva. Apenas preocupação. “Por favor, diga que não aceitou.”
A morena sorriu com o semblante triste. Victoria fechou os olhos e segurou o lábio inferior com os dentes, tentando manter o controle de suas emoções. Regina morreria antes de completar aquela transação. Ninguém derrubava um país como Londres sozinha. Nem mesmo Carmen Sandiego. Não conseguia entender porque era tão difícil para a morena entrar em um avião e voltar para o sossego bucólico de sua ilha particular. Regina era a família que ela tinha, fora seu marido e ela não estava disposta a abrir mão disso nem por todo o Tesouro Real.
“Espero que tenha uma ótima explicação para isso.” Concluiu, incapaz de fitar os olhos castanho chocolate.
“Eu tenho. Você vai me ouvir, pelo menos?”
“Vou tentar.” Respondeu, levantando-se e caminhando até a janela. Fitou o movimento das ruas, o sol forte que ascendia lá fora; os veículos que preenchiam seus lugares nas ruas movimentadas de Westminster. Regina veio caminhando devagar e aproximou-se dela, sentando-se fora do alcance da janela sobre uma bancada de marfim.
“Eu vou entregar o Corvo e ficar com o dinheiro.”
Os olhos azuis rapidamente fitaram Regina como se ela tivesse dito que assassinaria o presidente dos Estados Unidos da América. Victoria deixou de respirar alguns segundos, até que recobrou a consciência de que a mulher ao seu lado realmente havia proferido aquelas palavras.
“Você vai entregar o Corvo?” Regina assentiu, a cabeça subindo e descendo num sinal de confirmação não verbal. Victoria continuou encarando-a. Começou a duvidar se o que estava acontecendo era mesmo real ou uma alucinação causada pelo champanhe. “Carmen Sandiego entregará seu mentor, chefe e amante para a Interpol?”
Regina havia deixado de sorrir, o que convenceu a baronesa de que ela falava sério. “Regina... Isso é....” Victoria saiu da janela, caminhando desnorteada pela suíte. Voltou a sentar-se na poltrona acolchoada. “O que aconteceu? Como você decidiu isso? Quer dizer...”
“Robin e eu...” Começou ela, mas um olhar de Victoria a fez calar. A loira parecia ter tido algum insight imediato.
“Você está envolvida com aquele agente da Interpol.” O silêncio da morena a estimulou a continuar. “Você transou com ele? Meu deus, o que você tem na cabeça mulher? Ele está à espreita para colocar você atrás das grades, pelo amor de Deus!”
“Se ele me quisesse presa não teria me ajudado a fugir em Veneza.”
“Dane-se Veneza, Regina!” O autocontrole de Victoria estava esvaindo rapidamente. “O Corvo vai matar você se desconfiar dessa traição! Parece que você esqueceu quem ele é.”
“Eu não sei quem ele é, carajo! Você sabe? Isso explicaria muita coisa, não é mesmo?”
Victoria olhou para ela como um animal ferido. Ambas haviam passado da conversa rarefeita para acusações carregadas em questões de minutos. “Está me acusando de trair você?”
“Me diga você, The Devil.”
“Eu não sei quem ele é, Regina. Mas se soubesse, não lhe diria. Eu jamais diria a você. Por que você iria correndo atrás dele, se jogar aos pés de um homem que não a merece. De um homem que a manipula com esses presentes esdrúxulos e você sequer percebe que é você quem paga por eles.”
“Shut the hell up.”
“A verdade machuca, não é, Carmen Sandiego? Descobrir que seu conto de fadas é na verdade um relacionamento abusivo. Descobrir que – voilá— você não é tão esperta quanto pensa.”
Regina caminhou até ela, com passos pesados. “Quem é você para me falar isso? Dentre todas as pessoas, logo a ladra que abandonou o trabalho para casar com nada menos que um barão.” Regina sorriu maliciosamente. “Amor verdadeiro, com certeza.”
Regina não soube dizer como nem de onde Victoria retirou aquele revolver. Com um movimento rápido, a loira empunhou a arma e apontou para ela; o gatilho imediato para Regina foi retirar o revolver que Robin havia lhe dado e apontar para a loira. Os olhares se cruzaram, e Regina pensou no que aquilo significava. Estava errado. Ela estava apontando uma arma para Victoria em defesa do Corvo? Victoria era sua família.
Recuperando sua consciência, ela abaixou a arma. Victoria observou seu gesto, atenta. “O que está fazendo? Erga sua arma agora. Vamos resolver isso.”
Regina caminhou na direção dela, aproximando-se até sentir o cano do revólver em seu peito. Ela encarou os olhos azuis com calma. “Se você quiser, você atira. Eu não vou atirar em você. Eu jamais deveria sequer ter apontado um revolver. Você é minha família, e eu a amo, Vic. Eu sinto muito por toda essa bagunça.”
Com os olhos marejados, Victoria soltou a arma e abraçou a morena, apertando-a contra si. “Você é uma péssima melhor amiga, darling.” Seus braços acariciavam as costas dela enquanto Regina sorria em seu pescoço.
“Eu sei.”
***
Sentadas no chão entre garrafas de champanhe, elas retomavam o ritmo de suas conversas regulares. Com cumplicidade. Regina estava bebericando uma das garrafas direto no gargalo quando ouviu-a perguntar.
“Quer dizer que ele vai te ajudar? O tal agente.”
“Sim. Mas só na parte burocrática. Com o acesso.”
“Ele pode fazer muito mais que isso. Ele é da Interpol.”
Regina abaixou os olhos, colocando uma mecha de seu cabelo por trás da orelha esquerda. “Eu não quero que ele se machuque, Vic.”
Demorou algum tempo, mas ela finalmente percebeu o que acontecia ali. Era por isso que ela estava pronta para entregar Corvo. Era por isso que havia retornado. Regina estava apaixonada por aquele homem. Ela havia se recusado essa opção pois Carmen Sandiego não se apaixonava. O único homem que conseguira conquistar o coração daquela mulher estava morto, e desde então ela havia se envolvido com muitos, mas não amara nenhum.
Até aquele momento.
“Você está apaixonada por ele.”
Regina a encarou por alguns segundos. Seus ombros relaxaram e ela confirmou, com os olhos tristes. “Sim.”
“Mas... se vocês já estão se ‘dando bem’ e o Corvo será preso, por que não pensam em ficar juntos? Você sabe – levar uma vida maçante e tranquila como um casal normal?”
“Porque ele é um homem sensacional, Victoria. Ele merece uma pessoa melhor do que eu.”
A baronesa a observou por alguns segundos, reprovando seu comportamento de mártir emocional. Regina nunca se permitia ser feliz e isso era incrivelmente irritante. Esse homem havia sacrificado muito de si por ela. Ele poderia perder, não somente seu emprego ou sua liberdade, mas sua vida ao ajuda-la e mesmo assim, ali estava ele. Não o conhecia muito bem, mas de repente, sentiu-se tentada a torcer para que eles ficassem juntos. Ele faria muito bem a ela, com certeza. Depois de tudo que Regina lhe contara, sobre como ele também estava na mira de seu chefe – eles só conseguiriam passar por aquele abismo juntos.
“Eu não fui feita para essa vida.” Resmungou a morena.
Victoria revirou os olhos, levantando-se. “Pare de falar besteira.” Caminhou até a sua bolsa, sobre a mesa e retirou um envelope pardo.
“O que é isso?”
“Algo que você precisa saber.”
Percebendo a mudança no tom de sua amiga, Regina rapidamente levantou-se e foi em sua direção. Victoria estendeu o envelope e aguardou silenciosamente que a morena o abrisse. Assim que ela o fez, seu semblante se reteve declarando seu completo choque.
“Como isso é possível?”
“Não subestime seus inimigos, Carmen.”
Regina engoliu em seco, e deixou as fotos caírem no chão enquanto caminhou até a mesa e pegou uma das inúmeras garrafas, arremessando-a contra a parede.
Com cuidado, Victoria recolheu as fotos e colocou-as sobre a mesa. Encarando-a novamente, perguntou-se como Cora Mills conhecia Gold e desde quando eles eram amigos tão íntimos.
***
Robin caminhava descontraído pelo estacionamento. Ouviu passos atrás de si e olhou brevemente para trás, mas não viu ninguém. Seguindo seu reflexo, colocou a mão sobre a arma em sua cintura. O perímetro não era exatamente bem iluminado o que lhe prejudicava em questão de visão, mas ele não se preocupou.
Continuou caminhando, e ouviu passos atrás dele novamente. Virou-se com a arma em punho, mas não encontrou ninguém. Quando se virou para o corredor da letra M, ele a identificou. Não precisou mais do que segundos; aproximou-se de seu Bugatti Veyron e encontrou Maleficent Baryshnikov sentada sobre o capô. Os passos às suas costas se intensificaram, mas ele já imaginava que se tratavam de seus capangas russos; ele não se deu ao trabalho de confirmar.
“O que você quer?” Questionou ele.
Ela sorriu, os olhos brilhando em animação. Os lábios pintados de vermelho escarlate emoldurando um sorriso diabólico, o corpo definido coberto por um smoking feminino e justo. Os cabelos loiros caíam dourados sobre seus ombros, o topo da cabeça coberto por um chapéu também preto.
“Você sabe o que eu quero, Robin.”
“Isso não está em negociação, Male.”
“Exato. Eu não estou negociando. Ela tem uma coisa que me pertence e eu quero de volta.”
“Supere essa porcaria.” Resmungou, aproximando-se de seu carro. Com apenas um movimento, ele segurou as pernas dela e as puxou, sentando-a à sua frente. Seus rostos nivelaram-se e eles trocaram um olhar de desprezo. “E saia de cima do meu carro.”
“Você está estragando tudo, McLocksller.”
“Eu não pedi sua opinião. Você não tem algum negócio ilegal para gerenciar na Polônia, ou na Holanda ou em qualquer outro lugar que não me incomode?”
“Você sabe o que ela dirá sobre isso.” Brincou ela, com um sorriso maldoso nos lábios.
Robin respirou fundo e a puxou pelo braço, aproximando-a ainda mais de si mesmo. “Você sabe o que eu tenho a dizer? Não fique no meu caminho. Você não está exatamente em uma posição que a favoreça e eu posso piorar isso em diferentes níveis. É o que quer? Que eu resolva ficar contra você?”
“Não.” Respondeu, a voz saindo em um tom baixo e desconfortável.
“Eu imaginei que não.” Robin desligou o alarme do carro e colocou sua bolsa no banco do passageiro. “Outra coisa.” Disse ele, voltando a se aproximar dela. “Eu não esqueci o que seus protegidos russos aprontaram comigo em Londres. Não pense que não haverá retorno.”
“Você não era o alvo e sabe muito bem disso.”
Robin sorriu. Ele se aproximou dela e debruçou-se sobre seu rosto, direcionando um sussurro em seu ouvido. “Alguém pagará por isso, Male. Você está avisada.”
Segundos depois, ele entrou em seu veículo luxuoso e desapareceu pelos corredores estreitos. Male fitou o chão por algum tempo, engolindo sua própria saliva numa tentativa absurda de umedecer sua traqueia. Respirou fundo e ergueu os olhos, fitando seus seguranças. “Isso é culpa de vocês, idiotas.”
Sem paciência, ela retirou um revolver do bolso e atirou na cabeça de um deles.
Fale com o autor