Carmen

16 Emma


Robin estacionou na garagem de seu prédio. Respirou fundo, olhando ao redor com atenção. Afrouxou sua gravata, os olhos perdidos em algum lugar no painel de seu carro. Retirou o celular do bolso frontal de sua bolsa e discou alguns números enquanto passava os dados pelo cabelo loiro. Uma voz feminina foi ouvida do outro lado, identificando-se.

“Resolva esse impasse com a sua protégeé Baryshnikov.”

“O que a Male fez dessa vez?”

“Ou você a tira do meu caminho, ou eu a tirarei do nosso. Meus métodos são bastante eficazes, você sabe.”

“Considere resolvido.”

A ligação foi encerrada e ele alongou a musculatura do pescoço antes de sair do carro.

***

Regina fitava o notebook a sua frente com irritação. Sobre a mesa, havia a planta baixa do Cofre Nacional de Londres, e ao lado a lista de funcionários, seus horários e suas funções. O problema era que o cofre onde os títulos do Tesouro Real ficavam era o mais impossível de ser infiltrado. Não havia passagem. Paredes com mais de um metro de espessura e revestidas de chapas de aço para impedir escavações.

A única saída de ventilação era muito bem calculada, tendo o formato de uma caixa de sapato. Nem mesmo uma criança conseguiria passar por ela. Considerou as opções. Painel eletrônico protegido por vigia e por duas portas veladas. A camada de concreto temperado e chapas de aço eram ainda maiores no solo, vetando a possibilidade de um túnel. Seus olhos fitaram o notebook, plugados em todas as câmeras de segurança. La merde. Não havia como entrar, sem ser pela porta da frente. Uma porta pesada, feita de titânio fundido com aço, com o sistema de trancas mais complexo existente.

Se o Corvo lhe dera essa missão, é porque havia um jeito. Ele não escolhia aleatoriamente. Ele sabia de algo que ela ainda não descobrira, mas não iria demorar. Ela ouviu o barulho de chaves e a porta se abrindo. Segundos depois, ele apareceu à sua frente. Seus olhos azuis a encararam com intensidade e ela quase suspirou. Ele era demasiadamente bonito, ela tinha que admitir.

“Oi.”

“Oi.”

Ele fitou a planta baixa estendida sobre a mesa por segundos e voltou a encará-la. “Trabalhando?”

“Sim.” Ele afastou-se, caminhando na direção do quarto. Minutos depois, voltou sem o terno e com a camisa aberta até o meio do ventre. Ela não se virou para olhar para ele, mas pressentiu a presença dele atrás de si. “E não temos comida.”

“Vou pedir delivery. O que você vai querer?”

“Shawarma.”

Ele fitou as costas dela. “Sério? Comida árabe? Você não poderia pedir uma pizza ou macarrão?”

Ela virou-se com um sorriso contido nos lábios. “Você me deu o poder da escolha. Lide com isso.”

Robin coçou a nuca, pensando. Soltou os ombros, claramente descontraído. “Vou procurar no aplicativo. Qualquer coisa estarei no banho.”

Ela o observou se afastar na direção da suíte com um pensamento malicioso. Minutos depois, desvencilhou-se de seus devaneios. Tinha que se concentrar e achar uma saída para o seu verdadeiro problema.

***

Já era quase madrugada quando sua cabeça começou a latejar. Guardou seus documentos em uma bolsa de couro marrom e fechou o notebook. Podia ouvir o som do jogo de beisebol.

Caminhou até a sala com a garrafa de vinho, e ele rapidamente se recompôs, sentando-se ereto no sofá. Ela sorriu com seu gesto, mas passou por ele e sentou-se no chão, passando os dedos pelo tapete felpudo abaixo de si. “Cansada?” Perguntou ele.

“Exausta. Minha cabeça vai explodir.”

“Você ficou horas estudando aquilo. Talvez se você não encontrou nada porque não há nada a ser encontrado.”

Ela virou o rosto para observa-lo melhor. Robin ficava irresistível com aquelas calças de moletom universitário e sabia disso. O elástico prendia-se à parte baixa de sua pélvis destacando os músculos que faziam caminho para dentro da sua calça. Ela se perdeu entre o abdômen e os braços grossos e definidos. Quando se deu conta de que ele havia percebido, ela encarou os olhos azuis. “Tem que haver alguma coisa, McLocksller.”

Ele queria fazer tantas perguntas mas sabia que ela recuaria ao interrogatório. Infelizmente ele a observava o suficiente para notar quando algo estava errado. Podia ver no semblante delicado as linhas da preocupação. “O que aconteceu, Regina?”

“Por que pergunta?”

“Daria para contar nos dedos as palavras que trocamos desde que cheguei. Apesar de não achar você a pessoa mais comunicativa que já conheci, deu para notar um comportamento atípico.”

Contar ou não contar. Era este o dilema que a atormentava. Ao mesmo tempo que seus instintos primitivos lhe diziam para confiar, sua vasta experiência lhe dizia o contrário. Nesta luta interna, suas facetas se debatiam como gladiadores.

“Eu preciso te mostrar uma coisa.” Começou ela, retirando um papel dobrado do bolso de seu short. Estendeu a ele, e Robin desdobrou a foto. Gold e uma mulher pareciam íntimos em um café qualquer. Ambos sorriam e ele tocava sua mão.

“Gold tem uma namorada. Não é grande coisa, apesar de ela ser bonita demais para ele.”

“Robin, essa mulher é a minha mãe.”

Ele sentou-se em posição de alerta. “Sua mãe? Como eles se conhecem? Desde quando? Ela sabe que você é Carmen Sandiego?”

“Vamos com calma, cowboy. Eu já tenho problemas suficientes para acrescentar um interrogatório caseiro.”

“Desculpe.” Pediu ele, levantando e sentando-se para sentar ao lado dela. Seus ombros se tocaram e ela deitou a cabeça no ombro dele, entrelaçando seus dedos nos dele. “Eu sei que é ruim ter sua mãe envolvida nisso. Mas você precisa descobrir qual a natureza do relacionamento deles.”

“Eu sei. Eu só… Estou com medo. Estou com um pressentimento ruim sobre este roubo. Parece que algo vai ser errado.”

“Abandone essa ideia. Vá embora. Você não tem porque arriscar sua vida.”

Ela se virou para encará-lo. “Eu não posso. Eu não vou voltar atrás da minha decisão de entrega-lo. E para isso, preciso completar a missão.”

Robin permitiu-se olhar nos olhos dela. Na profundidade de sentimentos, dores e histórias misturados naquele tom de chocolate aveludado. Olhos emoldurados em um rosto perfeito; lábios rosados e volumosos decorados por uma cicatriz quase imperceptível. Ele queria muito beija-la, mas o clima entre eles havia se tornado instável. Não era uma boa ideia arriscar tudo.

“Por que não? O que é tão importante?”

“Ele sabe o que aconteceu entre nós. Você não vai estar seguro enquanto ele estiver solto.”

Ela estava protegendo-o. Regina estava arriscando tudo para dar a ele a oportunidade de continuar vivendo em paz. “Por que você se importa? Não me deve nada, Regina. Eu não espero que faça isso por mim.”

“Porque eu gosto de você. Eu realmente gosto de você, McLocksller. E não quero que se machuque.”

Robin beijou o topo da cabeça dela, abraçando-a e lutando contra a vontade de a beijar. “Então confie em mim. Vamos encontrar uma saída para isso. Juntos.”

***

Envolta em um lenço da Hermés, Male observava o rio Tâmisa. Escurecia gradativamente, embora o sol tivesse se despedido há pouco tempo. Posicionada no centro da passarela de observação da Tower Bridge, ela aguardava. Não entendia o charme que aquelas torres feitas de ouro e concreto tinham de tão interessante, mas havia desistido de entender pontos turísticos de qualquer forma. Bastava aquela outra torre de arame no meio de Paris.

Revirou os olhos e apertou o sobretudo contra seu corpo. A temperatura estava em um iminente declive; e estar há 65 metros do chão não era exatamente um ponto a seu favor.

“Você sabia que essa ponte foi feita em 1894?” A voz familiar tirou Baryshnikov de seus devaneios. Ela se alinhou, encarando a mulher à sua frente. Ela continuava tão linda como sempre e isso a entristeceu de uma maneira indireta.

“Uma coisa tão obsoleta deveria ser vetada.”

Ela sorriu. “É um ponto turístico, Male. Você sabia que ela foi propositalmente construída para ornar com a London Bridge?”

“Um ponto turístico fabricado sob encomenda. Não me surpreende.” Sibilou a russa, e observou a mulher à sua frente debruçar-se sobre a barra de contenção e fitar as águas abaixo delas. O trânsito continuava fluindo elegantemente como se fosse uma paisagem registrada em um quadro metropolitano. Por algum tempo, permaneceram em silêncio. Apesar de ter esperado por este encontro por muito tempo, Maleficent Baryshnikov não estava preparada para ele. Remexia nervosamente suas mãos dentro do bolso de seu sobretudo Carolina Herrera, tentando manter-se calma.

“Você precisa parar.”

A voz veio fria. Locada em um lugar inóspito entre uma ordem e uma ameaça. Ela não se virou para encará-la.

“Eu só quero o que me pertence.”

“Não é seu se você pretendia me dar, Male!” Respondeu a misteriosa mulher, que vestia um terno feminino Armani, muito bem atado ao seu corpo. Ela estava maravilhosa, os cabelos dourados caindo delicadamente em seus ombros. Virada de frente para a russa, ela parecia nervosa. “Eu não tenho culpa do que aconteceu! Não era parte do plano. Você – não era parte do plano.”

“Você me roubou e eu não era parte do plano?”

“Não era parte do plano me relacionar com você. Eu nunca deveria ter cedido.” Seus olhos verdes expressavam sinceridade, e Male começava a sentir arrependimento de ter ido até ali. Aquelas palavras perdurariam em sua existência por muitos anos.

“Você não cedeu uma vez. Você cedeu várias e várias vezes. O suficiente para me fazer comprar aquele diamante extravagante. E então o roubou.” Male respirou fundo, os olhos marejados. Caminhou até ela, e seus corpos ficaram perigosamente próximos. Ela fitou os lábios finos e suspirou. “Por que quer o diamante se não vai ficar comigo?”

“Male... Eu o amo.”

“Você não ama aquele moleque de merda. Ele é uma distração para você. Um passatempo.”

“Não fale do que não sabe.” A loira caminhou até ela e tirou o grande anel do dedo anelar. “Fique com isso, e faça a gentileza de me esquecer.” Colocou-a na palma da mão da russa, afastando-se na direção contrária.

“Emma...” Chamou ela.

A loira parou e virou-se parcialmente a fim de olhar para a outra mulher com atenção. “Saia do caminho, Male. Eu estou pedindo porque me importo com você. Se você continuar atrapalhando, Robin fará as coisas do jeito dele e eu não posso te proteger.”

“Ele está envolvido. Você está consentindo com isso?”

“Isso não lhe diz respeito. Pegue seus russos e volte para casa. As coisas vão ficar bem feias e é mais seguro para você estar longe.”

Male segurou na barra de contenção, seu coração acelerado. “O que você vai fazer, Emma?”

Mas Emma não respondeu. Continuou caminhando na direção contrária, até que minutos depois havia desaparecido.