Carmen

27 Tempestade


Regina soltou Lola no canil e voltou para o interior da casa. Caminhou até a biblioteca, parando em frente a algumas garrafas. Escolheu o vinho que comprara em Portugal em sua última viagem. Preencheu a taça com o conteúdo, e caminhou em silêncio até a janela que dava vista para o mar, e consequentemente, para o cais. Observou-o caminhando na direção e barco com as mãos nos bolsos da calça. Ele sempre fazia aquilo quando estava nervoso.

“Você está bem, querida?”

Ela virou-se para encarar Rosalinda. Sorriu, dando uma última olhada pela janela antes de se afastar. “Sim. Tudo bem.”

Caminhou até o sofá próximo à lareira apagada e Rosa a acompanhou. “Devo concluir que aquele rapaz é perigoso? Você estava armada.”

“Não, Rosita. Eu não achava que fosse ele, por isso peguei a arma.” Ela deu um longo gole. “Robin não é um perigo para vocês.”

Parecia cansada. Rosa fitou o semblante triste, e em seguida a taça. “Por que eu tenho a impressão que ele é mais do que apenas um amigo?”

Regina a fitou com um sorriso nos lábios podem os olhos estavam marejados. “Rosinha… é complicado.”

“Você o ama?” A porto-riquenha era sempre objetiva em suas perguntas. Uma qualidade admirável que Regina certamente apreciava.

“Sim.”

“Então não é tão complicado assim, mi hija.”

“Eu não sei se posso confiar no que ele diz sentir por mim. Eu tenho medo de me machucar de novo, Rosa.”

“A única maneira de não se machucar é viver em uma caverna longe de qualquer interação humana, Regina. Se houver uma única pessoa, essa pessoa em algum momento irá lhe machucar. Somos seres imperfeitos. Vamos cometer erros vez ou outra.” Rosa colocou a mão sobre a dela, sorrindo. “Ele ama você. Um homem não atravessa o mar sozinho em um barco para simplesmente conversar com uma amiga. Eu vi a maneira como vocês olham um para o outro, e se isso não é amor, eu definitivamente não sei o que pode ser.”

Regina limpou uma lágrima solitária que escorreu pela lateral esquerda de seu rosto. “Ele vai embora ao entardecer.”

“Ele não pode sair na tempestade e vocês dois sabem disso. Pare de ser teimosa. Você realmente tem os genes da sua mãe, não sei como eu aguento as duas.”

Regina riu e virou seu corpo. Deitou-se no sofá, sua cabeça repousada sobre o colo da enfermeira que começou a acariciar os cabelos macios e escuros. Estendeu as pernas, deixando-as pendentes sobre o braço do móvel. “Ele fez você feliz, pequenina?”

“Mais do que achei que poderia voltar a ser, Rosita.”

“Então eu gosto dele. Quer dizer, ele é bonito, mas não o conheço.”

Regina abriu os olhos e fitou-a. “Ele disse que conhece você.”

“Disse? De onde?”

“Disse que ofereceu dinheiro para você cuidar da minha mãe e você recusou. Por que nunca me disse?”

Rosa parou as carícias; encarou os olhos cor de chocolate com surpresa. “Ele é aquele garoto?”

“Deve ser.”

Rosa sorriu, os lábios abertos em um largo sorriso. Regina estreitou os olhos. “O que é tão engraçado? O que você sabe que eu não sei?”

“Eu sabia que vocês iam se reencontrar. Sabe, quando você apareceu na minha porta naquela noite, molhada da cabeça aos pés, chorando — acho que nunca senti meu coração sendo tão partido. Você era uma criança pedindo socorro, Regina. E eu uma enfermeira muito bem paga. Mas do que nos importa o dinheiro se não propagamos o bem? Eu podia ter pego o dinheiro desse menino. Acredite, ele queria ajudar. Ele queria pagar tudo. Ele só pediu que eu não contasse a você. Mas nunca disse porquê. Me deixou um número para o qual eu liguei uma única vez e providenciaram tudo numa rapidez impressionante. Mas nunca mais o vi. Eu fiz minha escolha, eu escolhi cuidar de Cora por você e porque seu pai era um bom homem. Porque ele me ajudou quando precisei.” Riu novamente. “Algo me dizia que sua vida ia cruzar com a daquele menino novamente. Eu acredito que existem forças que nos colocam no caminho das pessoas. Colocaram você no meu e definitivamente, colocaram ele no seu caminho. Você só precisa descobrir a razão.”

“Eu nunca vou ser capaz de agradecer por tudo que fez por mim, Rosa.”

Rosa debruçou-se e beijou a morena na altura da têmpora direita. “Eu que tenho de agradecer pela maravilhosa lição de vida que foi acompanhar seu crescimento. Você se transformou em uma bela mulher. Por dentro e por fora. Henry deve estar muito orgulhoso de você.”

Regina fechou os olhos e segurou as lágrimas armazenadas em suas pálpebras, impedindo-se de chorar. “Não tanto quanto eu estou dele.”

***

Ergueu os braços e deixou o pequeno artesão retirar as medidas de manga. Calculava mentalmente os dias e os fechamentos mensais de seus diversos negócios. Teria que viajar até a Áustria. Negociar com ladrões não era exatamente fácil, mas até eles sabiam que não era um ato inteligente roubar dela. Qualquer um sabia.

Abaixou os braços e fitou seu reflexo. Os cabelos loiros soltos, cachos abertos na altura dos ombros. Sentiu-o delicadamente retirando as medidas de sua cintura. “Você abandonaria tudo que tem por amor, Sr. Biasi?”

Ele ergueu os olhos em silêncio e percebeu que ela olhava em seus olhos através do espelho. Sorriu. “O meu tudo não é exatamente muita coisa, senhorita Baryshnikov. Se o meu tudo fosse relativo ao seu, primeiro eu ia querer ter certeza que é amor de verdade.”

Ela voltou a fitar o espelho. “É mais verdadeiro que qualquer outra coisa que eu tenha.”

“Nesse caso a senhorita tem sua resposta. Seu termo estará pronto amanhã. Posso ajudar com mais alguma coisa?”

“Não. Obrigada.”

Ele saiu, caminhando lentamente. Ela voltou a fitar o espelho. Para sua surpresa, não era a única loira no reflexo. Virou-se, surpresa. “Emma?”

Emma veio até ela com passos firmes; segurou seu rosto e encaixou seus lábios, encostando-a no espelho. Male cedeu, permitindo que a saudade daquele beijo fosse saciada. Gemeu nos lábios da mesma e sentiu Emma pressionando-a contra o espelho. Como o estopim de um incêndio, era essa a sensação térmica dos beijos que compartilhavam.

Emma estava segurando-a pela lapela do terno feminino quando desceu os lábios pelo pescoço da outra e sugou a pele na altura da jugular. “Emma… Você não pode vir aqui e…”

Mas a loira de cabelos longos não lhe deu ouvidos. Continuou a tortura, abrindo o terno e empurrando-o para fora dos ombros, fazendo com que caísse no chão. Male segurou seus pulsos, firme. “O que veio fazer aqui?”

“Conversar.” Sussurrou ela contra Baryshnikov. Afastou-se dela, como que aceitando a distância entre ambas. “Resolver as coisas.”

“É o que faremos. Se depois disso você quiser continuar, não vou te impedir. Mas você não viria atrás de mim se não fosse importante.” Ela respirou fundo. “E eu prefiro decidir assuntos importantes vestida e com as pernas fechadas.”

Emma sorriu. Era uma das coisas que mais admirava em Male — seu foco, sua concentração, a habilidade de permanecer impassível diante da mais crítica situação. A loira mais velha caminhou até a mesa de mogno marrom, e sinalizou para Emma sentar-se. EMMA fitou as montanhas de papéis e perguntou-se o que poderia ser tão burocrático se a maioria dos negócios de Baryshnikov eram ilegais. Male a encarava em silêncio, tentava decidir se estava vendo uma miragem ou se era mesmo real.

“Pode falar, Swan.”

A voz e a frieza lhe alarmaram, mas ela respirou fundo pois não deveria estar esperando outra coisa. “Eu vim pedir desculpas.”

O silêncio comprovou o quanto era surpreendente aquela frase. Male segurou o ar. Não esperava por isso, sob nenhuma hipótese. As palavras ficaram presas em sua garganta.

“Eu preciso pedir desculpas. Principalmente, por não ter sido honesta. Por não ter assumido o quanto amei você.” Emma desviou o olhar, fitando a mesa. “Eu amo Neal. Mas nunca foi e nem nunca será da maneira que eu amo você, Male.”

“Você me deixou. Você foi embora com ele, Emma.”

“Porque eu podia controlar o que eu sentia por ele. Mas não conseguia controlar o que eu sentia por você. Eu fiquei com medo de me tornar fraca. Vulnerável. Então eu fugi.”

Male afastou o olhar, uma lágrima deslizou solitária sobre o rosto delicado. “E me roubou.”

“Você sabe porquê eu roubei o anel. Não foi por dinheiro.”

“Então por que? Me ajuda a entender, Emma.”

Emma tamborilou os dedos sobre a mesa, ansiosa. “Você pretendia me dar um anel de compromisso, uma pedra de diamante gigantesca. E eu pretendia fugir. Mas me assombrava a vida que eu poderia e que eu almejava tanto ter com você. Eu pensei que se eu o levasse comigo, poderia manter as nossas possibilidades. Podia acreditar que em algum mundo, daríamos certo.”

“Engraçado, Emma. Você parece tão inteligente e as vezes é tão ingênua.” Rebateu a russa. “O anel nunca fez diferença alguma. Quando você partiu, você levou meu coração. Foi a maneira perfeita de manter nossa história viva.” Male finalmente encarou os olhos verdes. Pareciam cansados. Pareciam, de certa forma, aliviados. “Eu não culpo você, Emma. Nunca culpei e possivelmente sempre que me procurar eu irei lhe estender a mão. Porque eu amo você. Eu te amo tanto que realmente desejo sua felicidade, mesmo que não seja comigo. Você não me deve desculpas. Nós estamos bem.”

“Mas…”

“Por muito tempo eu fiquei com raiva, mas no fundo eu sabia que era apenas o choro de um coração partido. Você sempre foi quem é, o trabalho sempre veio em primeiro lugar, suas emoções sempre vieram em último. Você sempre foi assim e eu não estou aqui para mudar ninguém. Eu gosto de cada gota do seu oceano, Swan. E apesar do risco de me afogar, eu não pretendo sair da água. Mas se era perdão o que procurava, você o tem. Está livre para ir.”

Mas ao que parecia, não era o que Emma queria. A loira permitiu que os olhos vagueassem pela sala, observando o papel de parede preto com riscas de giz. Observando os quadros antigos, uma paixão pelo cinema antigo que ela achava particularmente atraente. As bordas douradas que ela tinha certeza ser ouro, do mais maciço possível. “Parece que você não está feliz com isso, Emma. O que mais você quer?”

“Eu quero o anel.”

Desapontamento. Ou decepção. Emma tentava desvendar o que havia por trás e olhar alarmante com o qual Baryshnikov lhe encarava. “Você está brincando comigo? Você veio até aqui para pegar aquele anel? Vai se foder, Swan. Por um minuto, eu realmente achei que você estivesse arrependida. Mas eu sempre caio nas suas artimanhas, não é?”

Ela se levantou irritada, caminhando até uma grande placa de gesso com corvos esculpidos e abriu o cofre. Retirou uma pequena caixa de joias e o fechou em seguida. Caminhou na direção de Emma e colocou a pequena caixa sobre a mesa. “Está aqui. Mais alguma coisa?”

Emma levantou-se, acariciando o rosto da russa com cuidado. Seus dedos acariciavam a parte posterior da nuca dela e Emma roubou um beijo suave, puxando o lábio inferior com os dentes. “Emma…” Pediu Male.

Emma sorriu. Frente a frente, com os lábios a poucos centímetros um dos outros, sentindo a respiração acelerada de Male, ela continuou — num tom de voz baixo e sensual. “Eu quero tudo. Eu quero o anel quando você decidir colocá-lo no meu dedo anelar. Quando você fizer o pedido. Quando você voltar a me amar o suficiente para passar uma vida do meu lado, neste momento eu vou aceitar esse anel e a vida que ele representa. Não importa o tempo que eu tiver que esperar, eu não vou sair da Rússia sem você e sem esse anel.”

Lágrimas brilharam nos olhos da russa, mas ela segurou-as com firmeza. Emma acariciava a maçã de seu rosto com o polegar, delicadamente. “Eu não deveria ter deixado você, Male. Mas não vou cometer esse erro novamente.”

Maleficent afastou-se, sob o olhar confuso de Emma. “Eu preciso confessar algo.”

“Me diga que não dormiu com Carmen Sandiego.”

Male riu. “Não dormi, mas você me culparia? Você já viu aquela mulher?”

Emma encarou-a, fingindo estar brava. Mas não discordava da beleza exuberante da ladra internacional. “Então sobre o que é?”

Male caminhou até o cofre novamente, retirando uma pasta azul. Voltou e pousou a mesma sobre as mãos dela, para depois encostar seu corpo contra a mesa. Os olhos de Emma vasculharam os papéis com agilidade, uma técnica de leitura rápida e concisa. “Eu vou mata-lo.” Disse ela erguendo o olhar de fundo verde para a russa. “Como conseguiu isso?”

“Não importa.”

“Aquele inseto da Interpol matou meu pai. Importa sim. Eu vou arrancar as pernas dele.”

“Ele está morto, Emma. Eugene Gold está morto.”

Emma encarou-a por alguns instantes. Havia todo tipo de informação naquele dossiê. Sobre o acidente, sobre seu pai, sobre o Corvo. “Você sabia.” Constatou.

“Sobre o Corvo sim. Sobre seu pai e Gold não. As intenções de Gold nunca foram boas. Para ele a Corvo poderia ser uma fonte de riqueza inesgotável. E quando seu pai discordou, bem, ele agiu.”

“Você o matou.”

“Sim.”

“Por que?”

“Porque você pode ser presidente de uma sociedade de ladrões internacionais. Pode ser fria. Calculista. Sistêmica. Analítica. Mas você não é uma assassina, Emma. Você tem as mãos limpas. E eu prefiro que continue assim. Para mim, é apenas mais uma morte entre outras que eu nem consigo contar.”

“Eu posso fazer isso.”

“Eu sei que pode. Mas não precisa.” Elas se encararam, o silêncio preenchendo todo o espaço com seus sentimentos não pronunciados. “Aquele homem fez você sofrer mais do que qualquer outra pessoa. Não se preocupe, foi um prazer para mim mata-lo.”

Emma sorriu. Levantou-se e caminhou até Male, abraçando-a. Apertando o corpo dela contra o seu e aspirando seu perfume oriental. “Obrigada.” Sussurrou.

Male acariciou os longos cabelos loiros, os olhos fechados. “Não precisa agradecer, loirinha. Eu moveria planetas para te fazer feliz.”

***

A chuva chegou fulminante e torrencial. Nuvens caliginosas cobriram toda a encosta, e o dia escureceu rapidamente; um vento forte invadiu a casa e Regina sentiu o coração apertado. Ela caminhou até a varanda, e o viu checando o motor do barco. Discou o número de David.

“Algum problema, Regina?”

“O que vem aí?”

“Nada que seja preocupante, desde que você fique dentro da mansão. Acione o código para furacão por via de dúvidas.”

Ela mordeu os lábios, em dúvida. “E se eu precisar sair com o barco?”

“Regina, você quer se matar? Qualquer pessoa, por mais experiente que seja como navegadora, vai naufragar nessa tempestade. O mar está fora de controle, e os ventos que vem a noroeste estão indomáveis. Fique dentro de casa.”

“Eu entendi, Nolan.”

Ela desligou o celular, colocando-o sobre a penteadeira. Caminhou até o closet; escolheu uma jaqueta impermeável no tom verde oliva. Vestiu-a, pondo o capuz sobre a cabeça, e logo depois, calçou as galochas. Caminhou até a cozinha com pressa.

“Onde você vai, Regina? Está chovendo muito forte.” Alertou Cora, que estava com um avental e as mãos brancas do que possivelmente era farinha de trigo. Rosa apenas a encarou, mas não fez nenhuma objeção.

“Vou ir buscar o Robin. Ele está tentando fazer aquele maldito barco funcionar nessa chuva.”

“Você o expulsou, não me surpreende que o rapaz queira ir embora. Por isso que você está sozinha.”

Rosa interviu. “Cora, deixe a garota.” Regina apenas fitou a mulher, sorrindo em alivio.

“Eu só estou tentando ajudar. Quando um homem daquele vem à nossa procura, a gente não deixa escapar assim. Ainda mais um com aqueles braços fortes, com aquele sorriso…”

“Meu Deus, mãe! Que horror!” Regina balançou a cabeça negativamente, tentando desvencilhar-se dos pensamentos obscenos. A chuva batia cada vez mais forte contra os vidros temperados, assustando-as.

“Vá logo, Regina.” Pediu Rosa.

Regina não respondeu. Desceu as escadas rapidamente, o coração acelerado. Preocupada que ele já houvesse partido, e que algo acontecesse com ele. Algo pelo qual ela jamais se perdoaria. Passou pela última porta lateral, e desceu as escadarias que davam acesso à areia.

Se há uma coisa estupidamente ruim de se fazer, é andar com pressa na areia molhada da praia — utilizando galochas. Sentia seus pés afundando, e a chuva estava muito mais forte do que ela havia imaginado. O vento a empurrava, e empurrava a chuva de modo que sem ter chegado à metade do caminho ela já estava encharcada. Respirou fundo e avistou o barco. Ele não havia partido, estava tudo bem. Parou e puxou as galochas, ficando apenas de meia. O alívio de peso mostrou-se imediato e ela conseguiu caminhar com mais facilidade. Abriu a jaqueta e livrou-se dela. Continuou caminhando e chegou finalmente à plataforma de madeira. A camiseta de manga longa cinza estava grudada em seu corpo, o algodão fino que não a protegia do vento e dos golpes que a chuva lhe infligia.

Continuou caminhando pelo cais, observando a fúria do mar, as ondas que batiam e se quebravam contra a ponte, molhando-a ainda mais. Quando se aproximou, avistou Robin desatando um dos nós nas cordas que prendiam o barco. A camisa branca havia aderido ao seu dorso e a calça jeans estava ainda mais escura. Os cabelos loiros pingavam, e ela teria achado bonito se não estivesse sentindo um frio e uma angústia assustadora. Ele realmente estava indo embora,

“Robin!” Gritou ela e ele virou-se repentinamente, assustado. Seus olhos aumentaram quando ele a viu ali, completamente vulnerável no meio da chuva. “O que você está fazendo?”

“Indo embora.”

“Você não pode ir embora nessa tempestade, Robin!” Gritou, exasperada. Robin soltou o nó e caminhou até perto dela, mas manteve distância. Ela rapidamente imaginou que era um reflexo pela maneira que ela havia se afastado dele anteriormente.

“E o que você sugere, Regina? Você não me quer aqui.”

“Eu nunca disse isso.”

“Também não disse o contrário. Na verdade, você se esquivou. Eu esperava qualquer coisa, até que você me xingasse, qualquer coisa. Mas você não fez nada! Sequer reagiu!”

“Ok. Nós temos problemas. Isso não quer dizer que eu quero você fazendo uma viagem suicida no meio do temporal, McLocksller!”

“Por que é que você se importa? Que diferença faz para você?” Gritou ele. “Você não dá a mínima! Que diferença faz se estou vivo ou morto para quem nunca mais quer ter notícias minhas?”

“Eu não quero que você morra! É difícil para você entender isso? Eu não odeio você. Pare de ser teimoso! Esse barco vai virar na tormenta!”

“Por que você não volta para o conforto da sua casa e me deixa em paz?”

“Você é um idiota!” Gritou ela.

“Ah e você é a Cinderela, que perdeu não somente um mas os dois sapatinhos de cristal.” Zombou ele, apontando para os pés cobertos pelas meias encharcadas.

Seu rosto queimava. Ela virou os próprios pés e se deu conta de onde estava. Na frente dele, encharcada até a alma. Descalça, com uma camiseta de manga longa e tecido fino atada ao seu corpo como uma segunda pele. O que estava acontecendo com ela? Porque estava discutindo com ele como se eles fossem dois adolescentes tendo a primeira discussão? Robin possuía uma facilidade constrangedora de fazê-la sentir assim, como uma adolescente se apaixonando pela primeira vez.

Lágrimas misturaram-se às gotas de chuva. Seu olhar encontrou com o dele, e ela cedeu, virando as costas para ele e voltando pelo caminho que viera. Ele correu atrás dela, gritando seu nome. Três passos depois, ela parou e virou-se. “O que você quer, Robin?”

“Me desculpe chamar você de Cinderela. Às vezes você me tira do sério.”

“Ah, não. Eu não estou ofendida. Na verdade, me sinto um pouco triste. Eu sou a Cinderela. Eu vivi uma ilusão. Abóboras, vestidos, bailes, um príncipe. Eu tive até uma espécie de fada madrinha. Mas a mágica acaba. Para ela acabou a meia noite. Para mim… Bem, acabou a trinta e seis dias.”

Incrédulo, ele continuou encarando. Surpreso. Ferido. Ela manteve o olhar por algum tempo, mas acabou mirando os olhos no tórax dele. “Ilusão.” Ele riu, amargo. “É isso que você acha que aconteceu. Que eu iludi você. Você não perceberia algo real nem que fosse arremessado contra a sua cara, Regina. Você se faz de cega para não ter que lidar com sentimentos. Era fácil me amar quando eu era um estranho escondido por trás de um título, mas quando eu sou um homem real na sua frente, o que você faz? Você foge. Você não quer amar ninguém. Você tem medo do que sente.”

Ela o encarou como se fosse arrancar a cabeça dele do resto do corpo. “Quem é você para me falar isso? Logo você que passou anos agindo pelas minhas costas, mas não teve a coragem necessária de me confrontar? Você não me ama, Robin. Caia na real. Você tinha uma maldita promessa a cumprir, só isso. Eu não sou a única aqui com medo do que sente. Eu não sou a única que foge.”

“As coisas não são das coisas que você pensa! Pare de ser mimada e tente ver as coisas por uma nova perspectiva!”

“Você tem noção do que é Robin? Esperar por alguém que nunca virá? Ficar anos da sua vida aguardando silenciosamente o momento certo e esse nunca chegar.” Ela passou a mão no rosto, retirando a água que a impossibilitava de encara-lo nos olhos.

“Pelo amor de Deus, Regina!” Gritou ele, frustrado. “Não acredito que você está me falando isso! Justo para mim! Você acha que eu estou aqui por causa daquela promessa?”

“Que outro motivo você teria?”

“Você não sabe o que é esperar uma vida toda por alguém. Mas eu vou te dizer com que se parece. Vou te dizer como é descobrir que a vida da garota que você gostou aos 8 anos de idade está entrelaçada à sua para sempre. Vou te dizer sobre um garoto que sentava atrás de você nas aulas de matemática e ficava puxando a sua trança a aula toda para chamar atenção. Do garoto que comprou o voto de todo mundo para a garota que ia à escola com um boné de baseball e calças de sarja vencesse o concurso da Fiesta de La Maya. Do garoto que fez com que Úrsula Martin fosse expulsa da escola assim ela não te bateria mais nos corredores. Você cruzou minha vida antes dessa promessa, mas eu sempre fui invisível para você. Indiferente. Você acha que eu fiquei feliz quando eu descobri que você era a filha do Henry? Eu sabia o que aquilo significava. Eu jamais conseguiria esquecer de você. Eu teria que lidar com sua presença na minha vida para sempre.”

Ela o fitou, assustada. Os olhos bem abertos, assim como os lábios por onde nenhuma palavra ousava sair.

“Eu tentei ir atrás de você, Regina. Mas Daniel Colter aconteceu. Você se apaixonou. Você estava feliz. Por mais que eu sentisse ciúmes, cuidar de você era entender o que te faria bem e ele fez. Então eu fiquei, à distância. Eu acompanhei cada momento. Cada árvore encalhada com as iniciais, vocês adotando um cachorro, seus planos de casamento. Eu fiz tudo ao meu alcance ler ajuda-lo. O investimento que tirou a hípica do pai dele da dívida. O vendedor que fez o preço do carro dele inacreditavelmente barato.” Robin fitou os pés dela, encharcados. Ela ia acabar gripada. Voltou a fitar os olhos marrom. “Eu teria ido à guerra com ele e carregado o corpo dele para garantir que ele voltasse para você. Mas eu tinha uma irmã a cuidar. Eu fiz tudo que pude para ajudar. Eu assisti o seu luto, sabendo que você nunca vai amar ninguém como amou aquele garoto.” Ele sorriu, entristecido. “Talvez você esteja certa. Não temos chances juntos. Se uma vida toda não foi capaz de nos unir… Mas não duvide do que eu sinto, Regina. Porque eu amei você com tudo que eu tive, por toda uma vida inteira. E é por amar você que eu vou deixa-la em paz.” Ele começou a se afastar. Parou, voltou-se para ela. “Não se preocupe comigo. Eu vou esperar a tempestade passar. As coisas parecem bastante ruins agora, mas você sabe, is always darkest before the dawn. Você precisa voltar e trocar essa roupa. Vai ficar doente.”

Ele continuou caminhando, distanciando-se. Ela o observava, o coração chacoalhando mais do que o mar revolto. Suas mãos tremiam e ela suspeitava que não era do frio. “Robin!” Gritou, e correu atrás dele. Ele parou, e ela se aproximou, parando na sua frente.

Robin não esperava pelo que o atingiu. Somente depois, sentindo o ardor do tapa que ela infligiu em seu rosto, a força dos dedos e da palma que lhe acertaram em cheio um lado do rosto. Ele sabia que merecia. Mas ela não se afastou. Segundos depois, sem que ele pudesse definir o que exatamente estava acontecendo, Regina segurou com as duas mãos no tecido da camisa encharcada e o puxou, encaixando sua boca na dele em um beijo quente e inesperado.