Carmen

8 St. Martin-in-the-Fields.


Ela nunca fora muito religiosa. Possuía suas crenças em um Deus bom, digno e amoroso, mas não aprendera sobre o ritual de devoção que era exercido pela maioria. Mas entre os poucos lugares que a agradavam em Londres, St Martin In the Fields tinha a sua posição. A igreja que mais parecia uma construção greco romana com suas enormes colunas de concreto e o inalcançável pé direito refletia algo menos pesado e um tanto mais espirituoso do que as grandes catedrais de aparência assustadora. Ela adentrou o local com seu vestido justo preto e o chapéu da mesma cor. As luvas pretas e o salto alto completavam o visual completamente escuro; à primeira vista ela aparentava ser apenas uma elegante viúva presente naquela missa.

Sentou-se em uma das últimas fileiras dos bancos de madeira; uma madeira escura e muito bonita. Havia algo na essência londrina, algo muito intrínsecado ao passado histórico que fazia com que tudo tivesse essa aura de nobreza e aristocracia. Fitou o teto e admirou por algum tempo as belíssimas pinturas divididas pelo que aparentava ser uma moldura de ouro líquido. O padre falava algo sobre a descrença do Faraó nos avisos divinos e como isso trouxe sobre ele a pesada responsabilidade por todos as pragas horrendas que acometeram o seu povo. Regina respirou fundo e fitou as pessoas que assistiam atentamente, buscando algo que não estava ali. Ela não estava em paz. Esperava que o Corvo entendesse seu recado.

Dentre todos aqueles anos em que servira atentamente aos serviços dele, tivera dois contratempos. Um deles, ela precisava admitir — era de sua culpa e autoria. Ela desobedecera uma orientação, ela quis agir por conta própria, e o resultado foi que por pouco aquela não havia sido sua última missão. Mas dessa vez, ela estava seguindo o cronograma. Ela fez exatamente como lhe foi dito. Mas acabou com uma arma apontada para si.

Se o tiro a tivesse acertado, não haveria nada que o Corvo pudesse fazer. Ele não voltaria no tempo. Se não fosse McLocksller, ela estaria morta. Se não fosse Victoria, ela estaria em apuros. Estava com raiva de seu protetor, fosse quem fosse. Não sentia mais a reconfortante segurança que costumava usar sobre os ombros como um casaco de pele. A Interpol com certeza a queria morta agora, e se não toda a agência, ela sabia alguém que com certeza queria. A incerteza estava de volta, depois de muitos anos. Sua mente treinada lhe dizia para voltar ao seu lar, uma ilha esquecida no meio do oceano onde ninguém a encontraria. Mas se ela ia embora, ela iria embora sem dúvidas — estava se cansando delas e estava se cansando dos segredos.

Será que Robin a odiava? Possivelmente. Lembrou-se da reação dele ao ver o Rubi em suas mãos, do olhar semicerrado; a incredulidade transparente de quem havia sido passado para trás. Sentia-se mal por ser desleal. O plano original era simples, Robin tiraria a pedra do Palácio de Whitehall sem perceber; ela tiraria a pedra dele sem ele perceber. Mas a situação complicou-se e de todas as possíveis complicações que ela havia imaginado, ele salvando a sua vida foi a mais inesperada delas. Sua diretriz a guiou a seguir o plano. Ele demonstrou ser um genuíno cavalheiro e ela usou isso para aproveitar-se dele, provando que realmente — era um homem decente demais para ela.

Regina estava olhando para o padre quando uma mulher levantou e encarou-a por algum tempo. Era jovem, tinha cabelos castanho escuro compridos e bem cortados em cascata, olhos dourados e uma face delicada. A mulher levantou-se e caminhou em direção às escadas de acesso ao subsolo, mas antes de desaparecer, levantou o pulso com discrição e demonstrou a tatuagem em seu pulso com rapidez, certificando-se de que somente ela a visse. Regina deu a si algum tempo, aguardando se outra pessoa reagiria ao gesto quase secreto, mas não houve nenhuma mudança. Esperou mais alguns minutos em silêncio, o coração começando a acelerar com a ansiedade latente. Levantou-se e caminhou na direção das escadas por onde a outra mulher havia saído.

***

FLASHBACK

Longe dali, em um gabinete cheio de grandes janelas localizado no distrito de Westminster, um celular tocou duas vezes e foi prontamente atendido.

“McLocksller.”

“Encontramos a embarcação.”

“Algum sinal da pedra ou de Carmen?”

“Negativo, Sr. Porém encontramos algo que pode interessar.”

“Me mande as fotos.”

Robin desligou o telefone e caminhou até sua mesa, ignorando Gold, Killian e Klaus. “Você está no meio de uma reunião, Robin.” Alertou Klaus.

“Uma porcaria de reunião desnecessária.”

“Não estaríamos em uma reunião desnecessária se você não tivesse ficado distraído com a beleza de Carmen Sandiego e tê-la deixado escapar.” Resmungou Klaus.

Robin sorriu e ergueu seu corpo de maneira elegante dentro de seu terno Kingston. “Se eu não tivesse sido abandonado na cena de um crime pela minha equipe, teríamos Carmen e teríamos o Rubi de Salazar. Entretanto, um oficial de alçada menor, um suboficial do meu esquadrão – nosso querido Agente Killian Jones que inclusive está aqui presente ordenou que abortassem a missão alegando que eu havia sido abatido. Pense duas vezes antes de apontar esse dedo cheio de hipocrisia para mim, Klaus. Ou vou começar a falar sobre a mulher de quem você visita quando está de folga.”

Robin fitou os olhos nas fotos que estavam chegando ao seu email. Em uma das vidraças do caríssimo iate, ela havia desenhado um corvo. Pela cor e consistência do material, ao agentes facilmente deduziram ser algum tipo de batom. No interior do corvo, havia uma palma estendida, mas parecia ter sido feita com outro tipo de tintura. Robin terminou de ler o relatório de primeira instância.

Sangue. Ela havia marcado sua palma com o próprio sangue. Ele sabia todos os detalhes, códigos, cada mensagem que ela havia trocado com o Corvo durante os anos e aquilo não se encaixava em nenhuma categoria. O que ela estava tentando dizer?

***

O Café in the Crypt podia ser definitivamente definido como uma das preciosidades de Londres. Uma cafeteria na cripta da igreja. Soava ao mesmo tempo luxuoso e sombrio. Regina desceu as escadas com o coração apertado, os dedos deslizando pelas paredes chuviscadas com um bicentenário concreto. Um dos garçons passou por ela e sorriu, fazendo com que seu espírito suspirasse um pouco menos apreensivo.

Avistou à morena em uma das mesas do canto, acompanhada de duas taças de vinho. Preocupava-se com a identidade dela. Poderia o Corvo ser uma mulher? Ela nunca havia considerado esta hipótese. Apesar das paredes de tijolos batidos e concreto fragmentado, o mobiliário era consideravelmente moderno. Balcão de madeira; mesas bem desenhadas cobertas por jogos feitos de bambus importados e cadeiras macias. Caminhou até a mesa onde a misteriosa mulher a esperava e sentou-se.

“Espero que goste do vinho. Foi o melhor que encontrei no cardápio.”

Regina encarou a dona da voz aveludada. “Quem é você?”

Ela sorriu. Seus dentes perfeitos reluziram quando ela olhou em volta como quem achava aquela situação muito engraçada. “Eu não sou o Corvo, Carmen. Eu apenas trabalho para ele. Meu nome é Ruby Lucas.”

“Seu verdadeiro nome ou seu nome de trabalho?”

“Diferente de você, eu só tenho um nome.”

Regina ponderou sobre a resposta e se permitiu bebericar um gole do vinho. Era fabuloso. Observou a mulher dobrar a manga de sua camisa de mangas longas e puxar o cabelo delicadamente para o lado. “O Corvo entendeu a sua mensagem. É por isso que estou aqui. Eu nunca vim à campo. Nunca precisei passar recados por ele, então devo supor que é um assunto importante?”

Regina bebeu mais um gole de sua taça. “Você é a porta-voz.”

“Que dedutiva você. Qual o assunto?”

“Eu quero falar com ele. Não com você. Me desculpe se parece rude ou grosseiro da minha parte, mas eu me arrisco demais por este trabalho. O mínimo que ele deveria fazer é me dar o que eu pedi.”

“Você sabia que as quartas feiras tem show de jazz aqui?” Brincou a morena de cabelos longos, fazendo com que Regina revirasse os olhos e tentasse se levantar; mas à menção de movimento, Ruby parou de brincar e segurou em sua mão com cuidado. “Carmen. Desculpe. Ele disse que você diria algo assim.”

“E mesmo assim enviou você.”

“Ele me pediu que trouxesse isso.”

Ruby retirou então do bolso um celular descartável e entregou em suas mãos. Assim que seus dedos alcançaram o aparelho, ela o sentiu vibrar. Ergueu o olhar para a mulher mais jovem à sua frente, que sorriu discretamente. “Essa mensagem não é para mim.”

Regina desativou a trava automática e encontrou um aplicativo de mensagens instantâneas aberto.

THERAVEN: Olá, Regina.

DISPOSITIVO87: Como vou saber que é você mesmo? Isso parece uma armadilha.

THERAVEN: Me faça qualquer pergunta.

DISPOSITIVO87: O nome do meu pai.

THERAVEN: Henry Mills.

DISPOSITIVO87: Um dos defeitos do diamante Katherine.

THERAVEN: Ele tinha uma deformidade causada por uma pinça de lapidação.

Ela sorriu.

DISPOSITIVO87: O batom que estou usando.

THERAVEN: Apple’s pie, da Chanel. Está convencida?

Um sorriso brotou em seus lábios enquanto ela pressionava o touchscreen da tela com ansiedade. Ela nunca havia realmente conversado com ele, não ao vivo, não em tempo real. Era uma nova realidade e fazia com que aquilo soasse ainda mais vividamente em sua cabeça. Era real, e estava acontecendo.

THERAVEN: O que você precisa?

DISPOSITIVO87: Eu preciso de respostas.

THERAVEN: Todas que desejar.

DISPOSITIVO87: Como eu vou saber distinguir você no momento certo? Eu não sei nada sobre você. Qualquer um poderia inclusive se passar por você se tiver as informações certas.

THERAVEN: Você está certa.

DISPOSITIVO87: Eu não faço questão de estar certa. Eu quero sair. Se eu não posso ter você, eu não quero mais o trabalho.

THERAVEN: Regina, você não pode me deixar.

DISPOSITIVO87: E você, pode? O que teria acontecido se aquele policial não tivesse se colocado na frente de uma bala por mim? Você contrataria outra garota e faria dela sua nova número um? É assim que eu sou significativa? Eu não quero mais. Vou deixar a agência.

THERAVEN: Regina, confie em mim. Nós vamos nos encontrar em breve. Eu prometo.

DISPOSITIVO87: Promessas são apenas palavras cheias de ar.

THERAVEN: Eu sei que as coisas parecem ruins agora. Mas eu quero que guarde algumas palavras: It’s always darkest before the dawn.

DISPOSITIVO87: O que eu devo fazer com que esse punhado de nada em forma de frase?

THERAVEN: Basta apenas não esquecer. Vai ser nossa mensagem secreta. Você vai deixar Londres?

DISPOSITIVO87: Irei para a Itália. Você pode me encontrar lá se quiser (:

Antes que ele respondesse, ela devolveu o celular à Ruby. Com um movimento delicado, Ruby colocou o celular dentro de sua taça preenchida com o caro vinho. Regina sorriu. Obviamente, aquela conversa não podia existir e agora ninguém saberia da existência dela a não ser ambos.

“Há mais algo que possa fazer por você?” Questionou Ruby.

Regina balançou a cabeça, sorrindo. “Um voo para a Itália.”