Carmen
3 Sexy, mas não tão sexy.
Ela estava lendo o jornal enquanto bebia a terceira taça de champanhe. Não que lhe fosse interessante qualquer fato sobre Londres — não era sua cidade favorita, nem estava entre as que ela apreciava verdadeiramente. Preferia os encantos de Paris, preferia a elegância de Veneza, preferia a espontaneidade da Grécia.
A campainha do quarto tocou e ela apenas ergueu o olhar. Não esperava ninguém e obviamente, O Corvo não bateria na sua porta como se fosse o serviço de quarto. Caminhou lentamente até a gaveta e retirou sua Ruger 380 com cuidado, desativando a trava de segurança. Como se nada tivesse acontecendo, caminhou até a porta e recostou-se ali.
"Qu'est que c'est?" Perguntou, e aguardou em silêncio.
"A britânica mais maravilhosa que você já teve o privilégio de conhecer. Hurry up, abra antes que eu morra de tédio."
Ela sorriu, abrindo a porta sem delongas. À sua frente estava Victoria, vestida com um longo branco e um espalhafatoso casaco de pele também branco por cima da peça. Seus cabelos loiros brilhavam com certo fulgor dourado, e ela sorriu, os olhos azuis fitando os seus.
"Você está linda, baby girl." Victoria caminhou até ela e beijou seus lábios num selinho leve, caminhando para dentro do quarto. "O que estamos bebendo?"
Quando Regina voltou-se para a mesa, Victoria já estava sentada tomando seu champanhe. Balançou a cabeça negativamente com um sorriso nos lábios e pegou outra taça do balde, preenchendo-a com o líquido viscoso.
"Como você está, Vic?"
"Formidável, darling. Formidável. O barão de Couttintand é um porre porém ele me dá exatamente tudo o que eu quiser."
Carmen bebericou sua bebida, enquanto escutava. A voz de Victoria sempre fora sexy e misturada ao seu sotaque, era uma arma poderosa. "Como soube que eu estava na cidade?"
"Darling, darling. Todo mundo sabe quando você está na cidade. Que nome está usando mesmo.. Alguma coisa Zambrano?"
"Eva Zambrano."
"Nome bonito, by the way." Colocou a taça sobre a pequena mesa e debruçou-se para a frente, focando sua atenção na morena. "E o que a trouxe de volta? Pelo que me lembro, você não é uma fã apaixonada de Londres. Deixe-me adivinhar: o Corvo enviou você?"
"Sim."
"Depois de todo esse tempo, Regina?"
Era tão raro ser chamada por esse nome que ele sempre lhe causava um certo baque. Era como se por alguns segundos, ela viesse à superfície e respirasse; como se tivesse consciência de quem era. Mas era um sensação efêmera — tão pouco aparecia, tão rápido desaparecia. Lembrou-se do passado distante onde conhecera a loira, duas mulheres sentadas em uma cela na delegacia central de Amsterdã. Por algum motivo, sentiram-se incrivelmente confortáveis na presença da outra. Conversaram por horas sobre suas vidas, sobre seus crimes, sobre as implicações de suas escolhas. Daquele momento em diante, pareciam estar entrelaçadas pelo destino. Regina ajudou-a se safar de uma emboscada em Roma. Victoria salvou-a de uma prisão eminente na Suíça.
Não poderiam explicar o que as motivara à primeira estância, mas criaram um laço de confiança e cumplicidade, certas de que não importava o que acontecesse — estavam sob a proteção uma da outra.
"Victoria, é o meu trabalho."
A loira a olhou com ironia. "Você não está tentando me convencer disso, está? Save it. Está apaixonada pelo Corvo. Se não estivesse, teria desistido quando quase foi morta naquela emboscada."
"Foi um deslize."
"Ele supostamente estava no controle, Regina!"
A morena bebeu mais um gole e sorriu, embora seus olhos tivessem perdido um tanto significativo do brilho. "Eu não sei o que sentir sobre ele. É possível amar uma pessoa que você nunca viu?"
"Nada é impossível no amor, Mills. Mas vamos parar com esse assunto porque é de fato muito depressivo. Qual o alvo?"
Ela arqueou uma das sobrancelhas. "Você sabe que é confidencial, mesmo para a famosa The Devil."
"Eu tentei!" Respondeu a loira, erguendo as mãos para o alto enquanto sorria alegremente. "Você vai passar o dia todo neste hotel, no caso podemos sair para beber e dançar a noite? Please, darling."
Ela poderia dizer não. Com certeza encontraria diversas desculpas, motivos, razões, motivações para argumentar sua decisão de se manter reclusa em seu belo quarto de hotel. Mas Victoria era uma de suas poucas amigas, e ela sabia que um pouco de ar fresco não lhe faria mal.
"Ouí, Vic. Eu vou sair com você a noite. Considere marcado."
"Graci. Adorei! Vou para casa, pois tenho que adular meu querido marido. Mas eu volto ao anoitecer para buscar você. Coloque algo sexy, mas não muito sexy porque se não vou ser obrigada a te arrastar para casa eu mesma." Riu, e Regina mordeu o lábio, sabendo que Victoria não estava apenas blefando. Anos de amizade lhe ensinaram muita coisa sobre a sexualidade da amizade delas.
"Estarei pronta, mademoiselle Devil."
Victoria caminhou até ela e a abraçou forte, seus braços ao redor da cintura da morena. "Eu estava com saudades, baby girl."
"Eu também, love."
Levou dois segundos para que Victoria desaparecesse, tão leve como uma brisa dissipando-se no ar. Regina conferiu no relógio quanto tempo possuía, e resolveu que precisava sair para comprar algo sexy, porém não muito sexy.
***
"Alguma visita?"
Robin respirava audivelmente. Os representantes das equipes estavam sentados ao redor da larga mesa de vidro. Vestidos com seus trajes oficiais, observavam com polidez e respeito o homem no terno azul marinho.
"A única visita que Carmen recebeu foi da baronesa de Couttintand. A visita durou 35 minutos, e elas ficaram sobre o spot visível todo o tempo. Inclusive a suspeita tem posse de armamento, pois foi identificada uma Ruger 380 automática sobre o mobiliário."
"Obrigado, Tenente Campbell. O que sabemos sobre a baronesa?"
"Tem ficha criminal mas está oficialmente aposentada desde o casamento. Conhecida como The Devil, assaltou diversos cassinos, quebrou um banco em..."
"Sei quem ela é." Interrompeu Robin.
"Você acha que ela é a conexão do Corvo com a suspeita?" Questionou Mark, responsável pela equipe Delta.
"O Corvo não usa conexões. Ele está sempre em contato direto com Carmen. Se ela fosse interligada ao Corvo não teria aparecido tão abertamente sabendo que seria vigiada. Ela está limpa."
Os oficiais o encaravam esperando alguma decisão. Depois de certo tempo, ele respirou fundo e voltou e encará-los, fitando profundamente seus olhos. "A operação Carmen não caracteriza urgência. Portanto, equipe Alfa e Ômega estão dispensadas. Passarei vocês ao comando do Sub Inspetor Killian Jones. Eu acompanharei a equipe Delta, que continuará atuando na operação. Entendidos?"
"Sim senhor." A resposta soou unânime no coro formado pelas vozes dos três oficiais. Assim que os representantes das equipes dispensadas saíram, Robin virou-se para Mark. O ruivo estava em posição de alerta.
"Qual é a coordenada, Senhor?"
"Me diga que temos algo, agente Frost."
"Eva Zambrano está na lista de convidados do baile de máscaras no Palácio de Whitehall. É um grande evento beneficente com a exposição de joias imperiais. É o mesmo nome com o qual a senhorita Carmen está hospedada.”
Robin ponderou sobre a nova informação. “Qual é a peça de maior valor em exposição nesse baile?”
“O grande rubi de Salazar, senhor.”
“É o alvo. O Corvo só trabalha com joias de valores exacerbados.”
“Devemos impedir que a peça seja incluída na amostra?”
“Não. Tive uma ideia melhor.” Robin limpou a garganta. “Iremos ao baile também.”
***
Longe dali, nas Docas de St. Katherine alguém atracou um Azimut Grande 140’. Um iate como aquele, e com a sua incomparável proporção de luxo chamaria demasiada atenção se não estivesse localizado na marinha mais luxuosa localizado ao centro de Londres. Dali, o acesso ao Rio Tâmisa era fácil.
Vestida em um terninho cinza, ela desceu do iate. Carregava apenas seu casaco e o celular. Não que houvesse necessidade de qualquer outro item quando se tinha um exército de guarda costas russos, treinados por uma vida para fazer qualquer coisa por ela. “Zanic, descubra onde ela está hospedada.” O loiro rapidamente caminhou pelos cais e desapareceu para dentro da cidade e ela continuou seu caminho até a limusine que a aguardava.
Dois deles a acompanhavam lealmente. “Khoe, quero que ligue ao Sidney Glass e peça para ele me encontrar no meu hotel.”
“Qual deles, senhora?”
Ela sorriu abertamente, embora eles não pudessem ver. “Deixe-me pensar… No Royal Garden Hotel. Diga a ele para trazer a nova coleção Dolce e Gabbana. Preciso de um belíssimo vestido para o baile de amanhã.”
O motorista elegantemente abriu a porta da limusine, e ela entrou. Os olhos azuis checaram cada detalhe e ela suspirou, satisfeita. Virou-se para os dois homens em seus ternos escuros e revirou os olhos. “O carro de vocês chegará em alguns minutos. Apesar do meu hotel ser estritamente seguro, não ousem se atrasar. Vocês sabem como eu sou com atrasos.”
Ela fechou a porta, e o motorista arrancou em seguida.
“Para onde iremos, senhora Baryshnikov?”
“Para o Royal Garden. Obrigada.”
Ela fitou as ruas por onde passavam, com um tédio absoluto no olhar. Não entendia o interesse das pessoas por aquele pedaço de terra imperial, monárquico e aristocrata, metido a ditar regras sob uma supérflua superioridade. Sua Rússia era, de fato, um lar muito melhor.
***
No escritório de McLocksller, o dispositivo de alerta piscou sinalizando uma mensagem urgente.
Mulher Dragão desembarcou em St. Katherine. Male Baryshnikov está em Londres.
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