Carmen
4 Cittie of Yorke
Havia anoitecido e Regina estava terminando de se maquiar. Adepta de sua natural beleza, utilizava bem poucos artifícios. Um batom vermelho escuro, uma camada generosa de rímel, olhos esfumaçados com um pouco de sombra preta. Adicionado ao vestido atado ao seu corpo como se fosse uma segunda pele, ela poderia chamar a si mesma de perigosa combinação. O vestido tubo na cor vermelha ia até metade das suas coxas mas permitia que ela colocasse um punhal leve sob a sua coxa esquerda, na altura da cinta liga.
Ela estava atravessando a sala quando um envelope verde foi colocado por baixo de sua porta. Sua inicial vontade era correr até a porta e abri-la rapidamente como se fosse encontrar o próprio Corvo parado ali. Mas quantas vezes ela própria não havia feito isso para encontrar absolutamente ninguém nas imediações?
Abriu o envelope e seus olhos suavizaram quando viu a familiar caligrafia.
"Doce Carmen.
Espero sinceramente que se divirta hoje. Não se sinta invadida, eu só procuro me informar do estritamente necessário. Não quero, de maneira alguma, que sinta-se vigiada ou aprisionada.
Victoria é uma mulher muito carismática e tenho certeza que cuidará bem de você. Procure se divertir. É visível o quanto está tensa desde que desembarcou em território britânico e me pergunto se eu sou um dos motivos — se não o principal deles a lhe causar isso.
Divirta-se. Porém, tenho um pedido a fazer. Male está na cidade e ambos sabemos que ela virá atrás de você. Ela vai vigiar você pois acha que nos encontraremos e eu sou o único responsável por isso. Você precisa de um bode expiatório, Carmen.
Escolha um entre os muitos homens que demonstrarão interesse em você e deixe que acreditem que sou eu. Não, não precisa fazer absolutamente nada que não queria. O fato de ser vista com um homem será suficiente para ocupar a Herdeira do Fogo e a Interpol.
Como eu lhe disse, há uma tempestade chegando. Mas eu não vou permitir que nada te aconteça, Carmen. Se for necessário, minha identidade será revelada.
Confie em mim.
O Corvo."
Se for necessário, minha identidade será revelada. Por alguns segundos, Regina mordeu o lábio inferior. Ele faria isso por ela? Cederia uma das identidades mais bem reservadas e disputadas pelos condados policiais de todo o mundo? Estava sorrindo por conta de uma frase em uma carta e sentiu-se completamente idiota. Foi até a lareira e fez a mesma coisa que fazia com todas as cartas que recebia, observou-a queimar até sua completa extinção.
A campainha tocou e Regina caminhou até a porta. A risada de Victoria denunciou-a, e a morena abriu a porta sorrindo.
"Uau!" Brincou ela, escorada em uma morena de cabelos mesclados entre tons de preto, caramelo e chocolate. Victoria usava um vestido curto e de alças finas branco, e era incrível como branco lhe caía perfeitamente bem. Deixava-a poderosa, com ares de suprema elegância e poderio financeiro. "Eu disse não-tão-sexy, Carmen!"
Regina agradeceu mentalmente pelo fato da amiga ter preservado sua identidade, mesmo sabendo que não deveria ter esperado outra coisa. As duas entraram na suíte, e Victoria apresentou sua convidada. "Carmen, mon amour, essa é Úrsula. Uma grande amiga. Sweet heart, essa é a famosa Carmen Sandiego."
Três beijinhos foram lançados ao ar, e Úrsula segurou com cuidado nos braços de Carmen. "Você é uma lenda! Só não imaginava que fosse tão bonita quanto dizem."
Regina engoliu a vontade de perguntar quão amigas elas eram — simplesmente não lhe dizia respeito, embora ativasse sua curiosidade. Se Victoria confiava nela, não havia motivos para pensar o contrário. A morena vestida um jeans e uma decotada frente única de cetim verde esmeralda, que realçava sua pele bronzeada. Victoria caminhou até Regina e beijou sua bochecha enquanto apertava sua cintura. "Pelo visto, você não volta para casa sozinha."
As duas sorriram. Regina caminhou até sua bolsa, certificando-se de que não esquecera de nada. "Aliás, para onde iremos?"
"Para o Cittie of Yorke."
Regina balançou a cabeça afirmativamente. Certificou-se de que nada estava fora do lugar, e virou-se para as duas mulheres que sussurravam uma para o outra e riam, cúmplices.
"Vamos. Precisamos de carro?"
"Não. Viemos com a limusine, baby girl."
Regina sorriu, encarando os olhos azuis da amiga. "Quanto luxo, baronesa."
"Você sabe, darling. Money is a girl's best friend."
***
Sob uma primeira impressão superficial, Regina permitiu duvidar-se do gosto de Victoria. A estrutura arquitetônica da fachada não era exatamente moderna. Remetia ao revivalismo do Tudor britânico, muito popular entre os séculos 15 e 17. Mas ao adentrar aquele imóvel, foi necessária uma sagaz reconsideração — o salão era espaçoso e luxuoso. Havia uma balcão de madeira maciça e nobre, as diversas garrafas delicadamente enfileiradas, os galões de chopes diversos geometricamente colocados sobre o encanamento especial.
Os boatos é de que havia sido uma grande catedral, de modo que as mesas se encontravam em pequenas cabines aconchegantes e discretas, algo como cabines antigas de um confessionário. Combinada à típica iluminação tênue dos pubs londrinos, criava uma atmosfera íntima e insinuante, independente da sua intenção.
Obviamente, a intenção de Victoria e Ursula era bem diferente da intenção dela. E havia muita coisa que Regina e sua amiga não poderiam conversar na frente da morena, não devido ao fato de ela não ser confiável ou ser — o caso é que Carmen Sandiego era procurada demais para permitir-se ser exposta para qualquer pessoa. Úrsula desceu os lábios pelo pescoço de Victoria e mãos começaram a deslizar para todos os lados, de modo que Regina decidiu que era hora de dar uma volta pelo perímetro.
Caminhou até o balcão e encostou-se ali, debruçada sobre a madeira antiga. Passou os dedos pelo cabelo, e jogou-os para o lado. Ouviu a risada de Victoria, mas não se deu ao trabalho de olhar para elas — sabia que a amiga estava tendo ótimos momentos. Uma das garotas veio até ela e Regina pediu mais uma Ale beer. Com a garrafa em mãos, caminhou até uma pequena mesa perto de um dos alvos na parede. Depositou ali sua garrafa, pegou um punhado de dardos e começou a arremessá-los. Depois de ter acertado quatro dardos no círculo verde mais próximo do alvo central, ela ouviu uma voz masculina logo atrás dela.
“Não sei se é uma coisa boa para um homem estar na sua mira.”
Ela virou-se e analisou o rosto do homem a abordava e decidiu que ele era mesmo lindo. Cabelos pretos e lisos, olhos incrivelmente azuis e pele cintilante de tão branca. Havia algo naquele olhar que era felino, praticamente como um predador analisando a presa. Ele sorriu, sem nenhuma intenção de esconder a malícia.
“Depende do que eu estiver mirando neste homem.”
Ele aproximou-se e estendeu a mão. “Damon Salvatore.”
“Carmen.”
“Importa-se de eu acompanhá-la?”
Ela sorriu, encarando-o. “Na verdade, uma companhia bonita vem a calhar.”
“É um elogio significativo. Obrigado.”
“Me poupe. Olhe para esse rosto. Você sabe é bonito, Mrs. Salvatore.”
“Assim como a senhorita.”
Ela sorriu para ele, encarando fundo os olhos azuis. Bebeu mais um gole da sua long beer sem quebrar o contato visual, enquanto o próprio moreno também bebia a sua. Pegou mais alguns dardos e jogou contra o alvo, acertando o círculo verde continuamente.
“Você mora aqui, Damon?” Perguntou, mas sequer olhou para ele.
“Não. Sou de Barcelona, vim apenas acompanhar meu irmão Stefan.”
“E o que você procura aqui?”
Ele mordeu o lábio e ela considerou aquilo extremamente sexy. Era um exemplar imperdível de homem. Fazia tanto tempo que ela não estava com ninguém — mal se lembrava da sensação. Perdera-se naquela paixão absurda por um homem que não fazia ideia de quem era.
“Eu não vim procurando nada. Mas posso dizer o que encontrei.”
Regina sorriu. Estendeu o dardo para ele. “Se você acertar o alvo em vermelho, nós vamos para um lugar mais reservado.”
Damon aproximou-se dela, e sussurrou contra seus lábios. “Pode pegar o carro.”
***
Sentados sobre o sofá, eles estavam confortáveis e muito mais íntimos. Victoria nada argumentou sobre a saída da amiga do pub — olhou para o espanhol por cima do ombro de Regina e sussurrou o quanto ela havia se dado bem, despedindo-se. Ali no acolchoado branco do sofá macio, e com uma taça em mãos, ela sentia-se muito mais leve. Damon havia retirado o terno e estava apenas com a camisa social azul que realçava seu olhar matador.
“É um hotel magnifico.”
“Eu não tenho reclamações.”
“Você já construiu hotéis como esse?”
Por um minuto, Regina perguntou-se se ele era louco — mas lembrou-se da mentira que contara dessa vez. Sobre ser arquiteta. Sobre estar em Londres apenas para um congresso internacional de arquitetura sustentável. Usar demasiados disfarces tinha a sua desvantagem.
“Na verdade eu construo com um grupo de arquitetos. Temos uma cadeia, então os projetos são elaborados por um de nós e analisados pelos outros. Então as vezes, posso dizer que determinado prédio foi ideia minha.”
“Parece um tanto barato, mas é meio irônico uma obra de arte construir outra.”
“Você tem razão, Mrs Salvatore. É uma cantada muito barata.”
Ele sorriu, e encostou a cabeça no sofá. “Você tem musica aqui, Carmen?”
“Tem um aparelho sobre a bancada, porém nunca mexi nele.”
Damon levantou e caminhou até o aparelho. Ela mordeu o lábio e observou-o encostado na bancada, manuseando o aparelho. A roupa social definia seu corpo de maneira ousada, tornando visível os músculos que o tornavam ainda mais atraente. A camisa social se ajustava ao seu braço, contornando os feixes de músculo ao redor de seu tríceps. Seus olhos estavam sob o quadril dele quando ela identificou a voz de Stevie Wonder e ele se virou sorrindo.
“Me concede essa dança?”
Ela sorriu, colocando a mão sobre a dele. Ele a puxou e a enlaçou, enquanto eles dançavam, passos lentos, estudados, os dedos dele deslizando pelas costas dela, parando sobre a linha de seu cóccix. Regina tinha uma das mãos sobre a nuca dele, acariciando-o ali. Ela adorava a voz de Stevie.
“Estou me segurando para não arrancar esse vestido do seu corpo. Se não é o que você quer, é melhor eu ir embora Carmen.”
O sussurro rouco ressoou contra a pele dele, arrepiando-a. “Não seja por isso.” Ela respondeu e virou-se de costas e afastou o cabelo. Damon delicadamente deslizou o zíper, a ponta de seus dedos deslizando pelo corpo dela e causando-lhe leves arrepios. O vestido caiu aos pés dela, e ele desatou o fecho do sutiã, derrubando-o também. Regina gemeu quando ele a abraçou, e ela sentiu seu corpo contra suas costas nuas. As mãos dele cobriram seus seios em uma massagem delicada enquanto ele beijava seu pescoço.
Regina virou-se rapidamente e ele desceu as mãos para as nádegas dela enquanto apertava-as contra si. Ela rapidamente abriu os botões da sua camisa, as unhas deslizando através do abdômen musculoso. Puxou o cinto dele, e desabotoou a calça dele, abrindo o zíper e permitindo que a calça caísse aos pés dele e embolasse ali.
“Como você quer, Carmen?” Sussurrou ele, beijando o pescoço dela e acariciando aquele rosto que o hipnotizava.
“Você senta no sofá e me deixa cuidar disso.”
Ele sorriu, e ela o empurrou de modo que ele caiu sentado, encantado com ela. Regina prendeu-o pelo olhar enquanto deslizava a calcinha por suas pernas e jogava-a no chão, confiante da sua aparência. Caminhou até ele e sentou-se naquele colo macio, rebolando devagar sobre ele. Uma mão dele emaranhou-se nos cabelos negros e puxou com força, fazendo-a gemer enquanto eles se perdiam um no corpo do outro.
***
Longe dali, em uma sala escura, Robin observava a mesma cena. Ele bebia seu Haig Club Scotch enquanto olhava para a tela de seu notebook. Carmen jogou os cabelos para o lado enquanto rebolou mais uma vez no colo do sujeito e gemeu audivelmente.
Robin fechou o notebook com força. Segundos depois, arremessou seu copo e a garrafa do caro uísque contra a parede.
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