Carmen
1 Prólogo
Ele olhou através das grandes vidraças de seu escritório e por algum tempo, observou os transeuntes perambulando pelas ruas. Westminster era atualmente o distrito mais rico de Londres e isso refletia sobre o semblante das pessoas. Apressadas, fechadas, concentradas. Caminhavam como se estivessem marchando, os olhos presos em seus relógios e as mentes presas às próprias vidas.
Virou-se para dentro da sua sala e seus olhos encontraram o grande painel. Havia fotos dela por toda parte. Fitas vermelhas que ligavam seus últimos paradeiros, fotos dos suspeitos, fotos das vítimas. Telefones, endereços, mensagens criptografadas que não faziam sentido. Ele colocou as mãos nos bolsos de seu caríssimo terno Kingston e caminhou até o painel. À sua frente, havia a foto dela. Seus cabelos negros, seus olhos marcantes e intensos. A boca carnuda, a cicatriz misteriosa. Aquele rosto, que o perseguia durante o dia e durante seus sonhos.
Carmen.
Encarou a foto ao lado da foto dela, a silhueta de um homem. O homem que a encantara. O homem que lhe dava as coordenadas, as orientações, o homem que a mimava e lhe dava tudo, exceto a identidade.
O Corvo.
Robin sabia que estava indo muito além das suas obrigações. Como um oficial regulamentador da Interpol, ele sabia que tinha diversas obrigações. Sabia que possuía um batalhão de operações para gerenciar. Oficiais a serem supervisionados e direcionados. Ninguém poderia afirmar que ele não fazia sua obrigação com maestria – possuía uma caderneta quase infinita de gratificações por seu ótimo trabalho. Possuía mais condecorações que seus superiores. Entretanto, toda a sua perfeição era falha quando o assunto era ela.
Estava obcecado em pegar a criminosa da capa vermelha. Estudava dia e noite tudo a respeito dela, certo de que em algum momento conseguiria ficar um passo à frente da mulher que derrubara agências e governos com um breve estalar de lábios. O telefone tocou e ele caminhou até o aparelho, apertando o botão do vivavoz.
“McLockesller.”
“Comissário Gold está aqui.”
La merde.
“Peça para que ele entre.”
Robin foi até a porta. Gold entrou, os cabelos penteados para trás, o casaco cinza escuro com leves flocos de neve sobre os ombros. Estendeu a mão e cumprimentou-o, antes de caminhar com a ajuda da bengala para dentro do escritório. Sem nenhuma cerimônia, o comissário caminhou até o bar e serviu-se de uma dose de Haig Club Scotch.
“Como vai, McLockesller?”
“Muito bem, Senhor.”
Gold caminhou até o banco acolchoada e sentou-se ali, encarando o loiro à sua frente. “Eu sou um homem ocupado, Robin. Não tenho tempo para enrolação e nosso trabalho não permite enrolações de nenhum tipo.”
Robin apenas assentiu, balançando a cabeça afirmativamente. Entrelaçou suas mãos após sentar-se de frente ao comissário, cruzando as pernas de maneira elegante.
“Você tem duas opções, McLockesller. Ou você encerra a operação Carmen, ou você avança com novas informações. A diretoria tem me pressionado sobre este caso, já que até o presente momento só tivemos gastos e nenhum retorno. Não avançamos em nada quanto à identidade do Corvo.”
“Senhor, eu entendo a preocupação da diretoria, mas garanto...”
“Você não garante nada, Robin.” Interrompeu Gold. Bebeu seu drinque em dois goles longos e profundos, antes de começar a levantar-se. “Você é um dos melhores homens da companhia. Possivelmente a mente mais brilhante que eles já conheceram. Mas mesmo os grandes podem cometer grandes erros. Escolha sabiamente e aja o mais rápido possível pois eles estão nos observando.”
Robin assentiu enquanto o homem retirava-se de sua sala com passos lentos. Assim que a porta se fechou, Robin voltou até a sua mesa e arremessou tudo no chão, furioso. Com os punhos fechados, socou a mesa medieval esculpida em teca indiana, sentindo o impacto do soco em seu centro de dor. Ergueu a cabeça e encarou a foto da mulher misteriosa na capa vermelha.
Eu vou encontrar você, Carmen. Nem que seja a última coisa que eu faça.
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