Carmen
2 O triângulo escarlate.
Ela até passaria despercebida naquela mesa simples do café, se não fosse pelo rosto marcante. Sentada em um canto localizado no fundo do Wild Food Café, ela bebia uma xícara de chocolate quente com gingerbread. Ela adorava os corredores de Covent Garden – os prédios eram bonitos, conservando uma certa familiaridade que era simplória e aconchegante, que mistura às esquadrias coloridas e as flores formava um belíssimo cenário. Era muito elegante tomar café na cripta da Igreja St. Martin-in-the-Fields mas ela preferia com veemência a popularidade e o calor humano daquele café.
Obviamente, não era a única razão. Uma espiã não deve ser usuária de pontos turísticos com suas milhares de câmeras prontas para memorizar seu rosto e alertá-lo para a polícia de todos os países ao redor. Terminou seu café observando um casal brincando um com o outro no balcão e sorriu. Com delicadeza, examinou o relógio dourado e certificou-se de que já era tarde. Precisava voltar.
Foi até o caixa e com um sorriso discreto, pagou bem mais do que sua conta – a balconista sorriu abertamente com a gorjeta inesperada. Amarrou o trench-coat branco ao redor do corpo e escondeu-se entre as altas golas do casaco. O chapéu ajudou a mantê-la longe da vista alheia enquanto caminhava apressada nas imediações de Neal’s Yard. Não havia recebido mais nenhuma mensagem desde que desembarcara em Chelsea e isso a incomodava. Odiava o desconhecido – o que era uma ironia.
Em poucos minutos havia chegado ao hotel onde estava instalada. Bonito, elegante e discreto. Ela não tinha intenção de sair de Covent Garden tão cedo – também sabia que não seria procurada ali. Atravessou a porta giratória e dirigia-se à escada quando um dos funcionários gentilmente a chamou.
“Senhora Zambrano?”
“Ouí.”
“Correspondência.”
O rapaz lhe entregou o envelope verde fechado com o bordão de cera vermelho. Ele não sabia o quanto ver aquele simples pedaço de papel fazia o coração daquela belíssima mulher palpitar. Ela sorriu, pegando o envelope com cuidado e agradecendo com um leve aceno da cabeça. “Merci beacoup, monsieur Kayne.”
O homem sorriu, encantado. Conhecera muitas turistas mas algo a respeito dessa era muito envolvente. Talvez fosse sua educação e gentileza, talvez fosse a inegável beleza. Ou sua estadia misteriosa. De qualquer modo, para Kayne, era um prazer tê-la ali. Observou enquanto ela subia as escadas com sua magistral delicadeza e logo em seguida voltou ao trabalho.
***
Em seu quarto, ela jogou o trench-coat sobre a cama enorme e caminhou até a escrivaninha. Os cabelos, presos em um coque, lhe caíam nos olhos e ela os afastou com um leve passar de dedos. Vestia uma saia lápis justa e uma regata de cetim, o corpo magro perfeitamente alinhado na cadeira de madeira maciça. Abriu a primeira gaveta e retirou uma espátula, apoiando-a contra o botão de cera endurecido e abrindo a carta.
“Doce Carmen.
Já faz algum tempo desde a minha última carta. Imagino que estivesse apreensiva, e peço desculpas por isso. Sua nova missão pode ser incrivelmente perigosa, e creio que não estou em condições de lhe pedir que a cumpra. Prometi a você que a encontraria, e ainda não posso cumprir.
É importante que saiba que independente da sua decisão, eu a amo. Em seu closet, há três vestidos, comprados de acordo com seu usual gosto. Haverá um baile no Palácio de Whitehall amanhã. O grande rubi de Salazar estará em exposição. Este é o alvo.
Se você rejeitar este pedido, dentro do closet há uma passagem de avião de volta para a sua ilha particular. Você não me deve nada, pode retirar-se da operação quando lhe parecer apropriado.
Como lhe disse, Carmen, eu ainda não posso encontrá-la. Mas se pudesse, lhe pediria para confiar em mim. Há uma tempestade a caminho.
Beijos,
O Corvo.”
Ela releu a carta mais algumas vezes e depois de soltar o pequeno papel marcado com letras douradas, olhou para o próprio reflexo. Seu instinto treinado lhe dizia que sim. Pegue a missão, cumpra o requisito, acerte o alvo e retire sua recompensa. Mas ela havia cometido o erro de envolver seu coração. O Corvo havia deixado de ser um simples empregador. O homem que depositava fortunas em sua conta e lhe pagava viagens ao redor do mundo. No início, havia sido apenas pelo dinheiro. A proposta era tentadora. Grandes quantias por roubos esquematizados, grandes quantias para estar no lugar certo na hora certa. Claro que nem sempre fora fácil – depois de certo tempo, ela tivera que começar a sujar as mãos para concluir algumas missões.
Nunca antes havia lhe incomodado desconhecer a identidade do Corvo. Tudo que ela tinha interesse era no seu pagamento, que sempre aparecia em suas mãos ou em suas contas pontualmente. Mas a relação entre os dois, aos poucos, encontrara curvas e brechas por onde uma camada fina de intimidade decidiu entranhar-se. Ele não lhe dava mais apenas dinheiro. Ele o hospedava nos melhores hotéis. Ele lhe agradava com roupas, com joias, ele lhe mandava flores.
Ele passou a mandar flores em suas datas especiais. Descobriu seu aniversário, descobriu o aniversário da morte de seu pai, descobriu seus sabores favoritos, suas grifes favoritas, inclusive o que a machucava. Ela nunca precisou pedir por nada. Era como se o Corvo a acompanhasse o tempo todo, tudo que ela precisava, tudo que ela almejava – magicamente encontrava um caminho até suas mãos.
Carmen se levantou e caminhou até o closet que estava amarrado com um laço branco. Puxou o nó e abriu as portas com cuidado. Seus olhos brilharam diantes dos três belíssimos vestidos. Um Gucci, um Vera Wang, um Chanel. Todos eram diferentes em suas concepções, desde o vermelho sensual ao nude chiquérrimo. E absolutamente nenhum a desagradava, na verdade ela teria grandes dificuldades em escolher apenas um. Observou os sapatos, as joias, cada detalhe minuciosamente pensado. E no canto, um envelope verde de camurça onde provavelmente estavam suas passagens aéreas.
Ela fechou o closet. O ar parecia ter criado uma densidade maior do que ela podia aguentar, de modo que ela caminhou até o terraço, passando pelas portas de vidro. Observou o sol que dava pequenos sinais através das inúmeras nuvens e respirou fundo. Ela não sabia mais o que ouvir, não sabia o que era seu coração, o que era a sua razão, o que era a espiã e o que era a mulher. Havia misturado a si mesma naquela história de uma maneira que todas suas pontas estavam embaralhadas.
Percebeu que havia um homem fotografando-a da esquina à sua esquerda e respirou grosseiramente.
Robin McLocksller.
Ele não ia desistir nunca? Sabia da obsessão do oficial da Interpol por ela e pela identidade do Corvo. Ouvira relatos sobre a dedicação quase doentia dele, estudando dia e noite seus passos. Não se preocupava com ele – nunca o vira pessoalmente, mas mentaliza um velho rabugento e encrenqueiro que não tinha mais pique sexual para a mulher e, portanto, precisava de um alvo onde gastar suas energias. Ela não podia pisar no solo londrino com seus sapatos caros que ele colocava metade da Interpol e dos oficiais da cidade para vigiá-la dia e noite. Se ele queria prendê-la, por que não o fazia logo? Possivelmente, não tinha sequer acusações suficientes para mantê-la presa e esse fato a fez sorrir.
Ela virou-se e observou a vidraça da porta balcão. Caminhou até a porta, tirou um batom do bolso da saia lápis e desenhou um triângulo vermelho sobre o vidro, entrando no recinto ee fechando a porta em seguida.
***
A duas quadras dali um oficial soltou seu binóculo e apertou um botão em seu rádio de comunicação. “Central, aqui é Asa – B34. Reporto o desenho de um triângulo equilátero. Repito. Um triângulo equilátero.”
***
Robin estava sentado em seu escritório quando a informação chegou ao seu rádio. Ele vasculhou os papéis, derrubando alguns pelo chão. Não encontrando o que queria, xingou-se mentalmente pela bagunça e voltou sua atenção para o imenso painel. Estava ali, em algum lugar. Ele viu e reviu mentalmente as dezenas de fotos até que encontrou o que procurava.
Uma foto do hotel que ela ficara hospedada em Nova York, há dois anos atrás. E uma foto do mesmo triângulo, desenhado na vidraça do terraço – o que aconteceu um dia antes do roubo na Galeria de Arte do Harley Park.
Robin mordeu o lábio e fitou a foto daquele rosto envolto na capa vermelha. Ele retirou o rádio comunicador da cintura e pressionando o botão com o polegar, alertou. “Atenção equipes delta, beta e ômega: Carmen aceitou a missão. Atenção redobrada. Estamos à véspera de um grande roubo.”
Fale com o autor