Carmen
7 Me desculpe.
Carmen levantou cedo. Robin não havia dormido a noite toda, não pela dor — ele já não sentia praticamente nada — mas pela confusão em sua mente. Ao mesmo tempo que não queria deixá-la ir, seus instintos o alertavam. Se não fosse por ela, ele estaria morto.
Ela apareceu com um vestido cinza, os cabelos bem penteados, o rosto impecável. Carmen Sandiego, ao seu dispor. Era quase como se ela fosse uma bela pintura, sendo inacreditável lembrar que se tratava de uma criminosa que empunhava armas com a facilidade que uma dama segura uma escova de cabelo. Ela sorriu e estendeu uma camisa social para ele, e ao vestir ele percebeu ser exatamente o seu número.
"Ficou bom."
Ele concordou, e ela sorriu. Robin colocou o smoking de volta e alinhou-se. "Eu não posso deixar você ir."
"Nem se eu prometer me comportar?" Brincou ela, passando a língua pelos dentes e sorrindo provocativa enquanto o encarava. "Caia na real, McLocksller. Você não pode me manter. Se fosse me prender, já teria feito. Vocês vigiam cada passo meu. A verdade é que eu sou a isca com a qual vocês querem fisgar o Corvo. Tudo bem por mim. Você já me revistou e o Rubi de Salazar não está comigo. Qual a próxima alegação?"
Robin ponderou sobre o que ela dissera e entendeu que não havia contra argumentos válidos. Ela estava certa. Ergueu os ombros em rendição e ela sorriu. "Vamos. Temos que chegar em Saint Katherine."
***
Enquanto guiava o iate, Regina teve tempo de pensar no que havia acontecido. Onde estava o Corvo naquele momento? No momento em que ela tomaria um tiro pelas costas? Se não fosse pelo homem ferido na cabine interna do iate, ela poderia estar morta. Os capangas de Male a pegariam e ela não gostaria de pensar no que fariam com ela depois.
Será que ela estava indo longe demais? Por ele? Robin não fazia ideia de que ele ainda era uma parte do plano e era melhor assim. Sentia-se culpada por isso. Ele não era um homem ruim. Era um homem decente, talvez um tanto obstinado pelo motivo errado, mas moralmente correto. Ela esquecera o que era ter um homem se importando com algo mais do que seu corpo descoberto e por alguns segundos, desejou beijar aqueles labios. Segundos dos quais ela se arrependeu. Não se envolver nas missões era a primeira lição de qualquer bandido inteligente e ela não ia pecar em algo tão simplório.
Ia deixá-lo em Saint Katherine e ia desaparecer.
"Tudo bem?"
A voz dele capturou sua atenção e ela virou-se para ele sem soltar a direção. "Tudo." Ele estava bonito, havia arrumado os cabelos e lavado o rosto, parecia muito melhor do que na noite anterior. Com as mãos no bolso e aquele smoking bem cortado, ela riu. Ele tinha noção de quão facilmente identificável era?
"Você está rindo de mim?"
"Me desculpe."
Robin sorriu, o que chamou atenção dela pois ele era demasiadamente londrino e muito sério. "Ao menos posso ter o privilégio de saber o motivo?"
"Estou pensando o quanto é fácil identificar você. Esse terno, seu cabelo, sua postura. Tudo grita agente secreto. É um tanto cômico."
"Você está falando sério?"
"Eu não deveria lhe contar isso. Mas sim. Até uma criança é capaz de identificar vocês."
Ele fitou-a em silêncio, pensativo. "Vou pensar a respeito depois. Obrigado."
"Posso fazer uma pergunta, Sr. McLocksller?"
Ele balançou a cabeça, encarando seus olhos cor de chocolate. "Robin. Me chame de Robin."
"McLocksller é melhor." Cortou ela, fria. "Vou entender como sim. Há uma mulher em sua vida? Filhos? Existe um humano por trás do agente mega eficiente?"
Ele sorriu de novo e ela adorou.
"Eu não tenho tempo para muita coisa que não seja meu trabalho. É o que me faz ser, como você diz, mega eficiente."
"Trabalho não é nada sem uma âncora que nos mantenha sãos."
Ele pensou naquelas palavras e considerou uma frase muito nobre. "Correto. E o que mantém você sã, Carmen?"
"Se eu tivesse uma âncora, vocês nunca mais ouviriam falar de mim."
Ele encarou o píer se aproximando e ambos permaneceram em silêncio, meditando sobre as próprias respostas e sobre quão reveladoras essas pareciam ser.
Eles atracaram no cais. Robin auxiliou para que ela descesse e ela sorriu. Parados ali, eles se encararam por alguns segundos. "Daqui você consegue encontrar seu caminho?" Perguntou ela, sorrindo.
Ele assentiu com a cabeça e debruçou-se, beijando a bochecha dela e permanecendo com os lábios sobre a sua pele alguns segundos a mais do que o necessário. Ela sorriu com a intenção dele e encolheu os braços, como se estivesse com frio.
"Fique com o meu smoking. Você vai ficar resfriada."
"Não precisa."
"Eu faço questão." Respondeu ele, retirando a peça e colocando sobre os ombros dela. Ela o puxou pela camisa branca e roçou seus lábios nos dele. Mas não o beijou.
"Me desculpe."
Antes que ele entendesse pelo que ela estava pedindo desculpa, ela afastou-se, voltando para o iate e desatando o nó. Robin permaneceu observando enquanto a embarcação se afastava do píer. Quando estava a uma distância segura, Robin observou-a retirar o smoking e retirar algo de um dos bolsos.
Ele semicerrou os olhos. Era uma brincadeira, não era? De longe, ele observou a grande pedra vermelha nas mãos dela e o sorriso perverso com o qual ela o presenteava. O Grande Rubi de Salazar estava com ele, o tempo todo. E ele havia sido enganado por Carmen, mais uma vez.
Carmen acenou para ele antes de ligar o motor e afastar-se rapidamente. Ele encarou o chão, incrédulo.
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