Carmen

21 Kairos


Acordou com o calor dele sob ela. Abriu os olhos lentamente, criando uma sensação periférica de espaço; deitada sobre o peito dele, sua coxa direita por cima da dele, seu braço estendido sobre a cintura do mesmo. O coração dele batia devagar, sereno. Com cuidado, desvencilhou-se, deitando sobre o tríceps do mesmo e fitando o rosto adormecido. O rosto belo, másculo, de traços firmes. O rosto que a acompanhava o tempo todo, em seus mais aleatórios pensamentos. Deslizou um dos dedos sobre o centro de seu dorso, fazendo um caminho com a ponta da unha e ele resmungou algo, mas continuou adormecido e ela riu.

Com cuidado, afastou-se dele. Levantou-se da cama, esticando o corpo totalmente ciente de sua nudez. Ergueu os braços, sentindo os músculos expandindo em direções contrárias. Pegou a camiseta dele, e vestiu-a. Puxou uma das golas na direção das narinas e suspirou com o cheiro do perfume dele. O aroma que trazia lembranças vívidas para sua mente; que fazia-o lembrar de como ele a segurava contra seu corpo, da pele quente raspando contra a sua, dos músculos rígidos percorridos pelas suas unhas.

Caminhou até a cozinha na ponta do pé. Ligou a cafeteira, e caminhou até a mesa montada no canto esquerdo do cômodo. Fitou a planta baixa do banco, analisando os detalhes, os corredores, cada localização. Pegou a planta plotada dos tuneis de dentro de sua bolsa, e colocou-a logo abaixo, mantendo-as em paralelo. Vasculhou as similaridades – havia um ou outro caminho que se cruzavam.

Voltou à cafeteira e preencheu uma das canecas com o liquido escuro. As ruínas eram mesmo uma boa ideia? Essa pergunta a atormentava. Uma vez que o pendrive havia sido eliminado, aquela cópia plotada era o que lhe restava. Voltou à mesa, e com uma caneta marcou os pontos de encontro com um xis vermelho. Analisou as entradas frontais. Ela já havia percorrido tudo. Era impossível escavar as chapas de aço. Mas se ela conseguisse entrar naquela sala antes do cofre.... Ela esquematizou os alarmes infravermelhos na tela do notebook e calculou a distância da ventilação. Impossível saltar dali, mais uma possibilidade eliminada.

Respirou fundo antes de permitir que mais um gole longo de café descesse por sua traqueia. Entendia alguma coisa de latim, não era exatamente Natasha Romanoff mas possuía algum conhecimento. Observou um símbolo no canto esquerdo do mapa das ruínas. Aproximou-se, fitando os dois mapas com cautela. Um sorriso estampou-se em seus lábios, e ela bebeu o café rindo. O céu é o limite, dizia o provérbio. No caso dela, o teto. A única parte do cofre não revestida por aço. Ela não precisaria sequer fazê-lo durante o dia. Poderia passar a noite sobre ele, invadi-lo tranquilamente, e sair pelos corredores das ruínas sem se preocupar em ser seguida. Um assalto simples, limpo e calmo.

Como que se livrando de um blecaute, seus olhos se iluminaram como vagalumes brilhando na noite. Mordeu o lábio. Tinha tudo o que precisava bem ali. Seu plano estava quase completo. Pegou os mapas, e os enfiou em sua mochila. Precisava checar as ruínas pessoalmente e trilhar o caminho preciso que faria. Mesmo sem pressa ou sem a pressão da perseguição policial seria incrível fácil perder-se naqueles diversos caminhos. Terminou o café e levou a xícara até a pia.

Voltou para o quarto. Robin ainda adormecia, vencido pelo cansaço. Regina sorriu, e tirou a camisa. Jogou a peça no chão e caminhou na direção do banheiro. Girou a torneira e deixou que a agua quente deslizasse sobre o seu corpo, trazendo reconforto e relaxamento. Fechou os olhos, as mãos apoiadas na parede. Havia coisas a serem concluídas, ela sabia disso. Não podia concluir esse trabalho ainda. Seu último trabalho. Ela sabia o que isso significava. Desfazer-se da persona que a acompanhou por anos; desfazer-se de uma personalidade construída a muito custo e cuidado. Isso a levaria de volta à sua vida, aquela que ela enterrara no passado e fora formidável em manter fora do alcance de suas memórias. Para seus assuntos não resolvidos. Não podia ir embora como se não houvesse nada pendurado em seus calcanhares, como se suas responsabilidades houvessem sido quitadas magicamente. Ela sabia que não.

A agua deslizava gentil, acariciando sua pele enquanto ela tentava não remoer seus pensamentos. Deslizou o sabonete pelo corpo com cuidado, acariciando, acariciando, amando-se sem nenhuma conotação sexual, apenas o prazer de cuidar de seu corpo. O prazer lícito de amar sua própria formação. Lavou os cabelos com a mesma delicadeza e saiu do banho um tanto mais relaxada. Enrolada na toalha, atravessou o quarto e pegou suas roupas. Vestiu-as sem fazer barulho embora desconfiasse que Robin não acordaria tão cedo. Arrumou-se rapidamente, e em menos de dez minutos, estava na rua.

Desceu as ruas despreocupada, um pouco assustada com sua nova possibilidade de vida. Andar pelas ruas sem nada cobrindo seu rosto. Se a liminar de seus documentos fosse falsa, a polícia viria atrás dela rapidamente e ela fugiria – mas ela precisava tentar. Porém, nada aconteceu. Ela era novamente mais uma mulher na multidão e ela quis chorar de alegria. Desceu as escadas para a estação de metrô de Westminster. Aproximou-se do grande painel e procurou a linha que precisava pegar. Jubilee.

Seguiu as orientações penduradas nas placas amarelas e continuou seu caminho até a linha de espera. Demorou apenas segundos para que o veículo adentrasse a plataforma, e ela enfiou-se entre os diversos homens engravatados, vagando para dentro dele. Ela fitou os rostos ao redor, em sua medida rotineira de segurança, para em seguida fitar o sinalizador de estações. Três minutos e quarenta e cinco segundos depois, ela desembarcou na estação de Waterloo. Seus olhos foram capturados coberto pelo desenho que o metal marcava. Simetria fria e calculada, mas que trazia um ar de beleza à um local frio e efêmero. Ela fitou o relógio de quatro faces e analisou seu mapa, entrando à esquerda dele. Havia uma porta escondida no canto de trás da escadaria de ferro S1, sinalizada como escadaria de incêndio.

Entrou por ali, e desceu, parando somente quando esta chegou ao terceiro patamar. Segundo seu mapa, era ali. Fitou a parede, em busca de algo, mas encontrou apenas um alarme de incêndio. Seguiu seu instinto treinado, e tirando o canivete de dentro da bota, desparafusou o mesmo. Havia um interruptor por baixo dele e seus olhos ganharam um lampejo totalmente diferente. Quando acionado, o interruptor abriu outra porta – uma porta literalmente embutida na parede – imperceptível se não tivesse sido aberta. Seu coração acelerou, mas ela manteve a calma.

Passou pela porta, fechando-a atrás de si. Ligou a lanterna e seus olhos rapidamente se adaptaram ao novo feixe de luz. Continuou caminhando pelos corredores agora estreitos. O ar rarefeito e denso, como que comprimido por anos naquele espaço. As paredes, repletas de escritos em latim; o piso escuro que rangia a cada passo; portas e mais portas, recriando a sensação do labirinto do Minotauro. Regina fitou seu mapa e encontrou a porta por onde deveria ir. Abrindo a mesma, fitou apenas a escuridão do outro lado. Podia ouvir tudo acima de si, os passos, as rodas de suas malas, os saltos, conversas, anúncios.

O mundo podia ser ouvido todo dali. Imaginou o que os homens que haviam construído aquele lugar almejavam fazer com suas descobertas. Questionou o valor dos pensamentos de cada um. O que nós daríamos para ouvir o que o outro pensa, o que o outro almeja? Aqueles homens tinham acesso a tudo. Às conversas cotidianas, e aos segredos sussurrados em ligações cheias de culpa e remorso. Os planos malignos e as conversas românticas. Vigiaram os passos da humanidade, e o que conseguiram com aquilo? Possivelmente nada, ou aqueles tuneis não estariam parecendo as catacumbas de Paris. Como se a humanidade soubesse guiar seu próprio passo.... Possivelmente devem ter percebido o quão intragável é a voz da humanidade em sua totalidade e desistiram de lhes dar ouvidos.

Fechou os olhos e mordeu os lábios, criando ainda mais coragem para seguir sua jornada. Esta parte da sua vida precisava ser finalizada, concluída e deixada no passado, mas para isso, ela tinha que ir até o final. Entrou por aquela porta com uma única certeza. Qualquer que fosse o desfecho daquela jornada, ela teria o que estava procurando.

De algum modo, ela voltaria para casa.

***

Mais tarde naquele mesmo dia, Belle deu dois toques com os nós dos dedos na porta do escritório de McLocksller.

“Entre.” Ela entrou em seu campo de visão usando um vestido tubo amarelo, os cabelos presos em um coque e os óculos sobre os olhos. Os saltos altos a haviam favorecido e ela parecia ainda mais bonita e confiante. “Você está linda hoje.” Elogiou ele e ela ruborizou.

“Obrigada.” Por alguns segundos, ela apenas o fitou e ele devolveu o olhar. Ela segurava um envelope pardo, e parecia incerta. Robin sorriu.

“Está tudo bem, senhorita French?”

“Sim, eu...” Ela ergueu os ombros em sinal de rendição. “Gold me pediu para trazer isso a você. Eu acho que é alguma provocação dele, mas de qualquer forma...”

“Pode deixar. Eu sei me cuidar.” Garantiu, estendendo a palma da mão e Belle colocou o pacote ali. Ela apenas o fitou mais uma vez antes de acenar docemente e sair pela porta. O loiro suspirou. Ela não parecia a mesma mulher que o despiu com uma pressa alucinante, mas ele ainda estava tentando lidar com essa memória.

Voltou-se para a sua mesa, e sentou-se. Alcançou seu copo de scotch e fitou o envelope sem abri-lo. Qualquer coisa que Gold colocasse em seu caminho só teria a finalidade de desestruturá-lo. Era alguma alfinetada, alguma provocação para empurrá-lo na direção desejada. Deu um longo gole em sua bebida.

Puxou o lacre do envelope e abriu-o, retirando seu conteúdo com cuidado. Seus olhos rapidamente capturaram o rosto dela na primeira foto. Regina. Mas assim como uma águia avida, ele percebeu que ela não estava sozinha. Notou a roupa que ela estava, notou a data, o horário, e engoliu ruidosamente, a garganta secara de tal forma que a bola de nervosismo desceu rasgando suas cordas vocais. O que ela fazia na companhia de Damon Salvatore novamente?

O restaurante não lhe parecia familiar. As fotos retiradas de algum ponto externo mostravam apenas Carmen Sandiego em um almoço com Damon Salvatore. Ela ria, e parecia completamente à vontade na companhia dele, o que fez o estomago dele contorcer. Lembrou-se das mãos de Damon percorrendo o corpo dela e arrepios percorreram seus braços. Continuou folheando as fotos, observando a proximidade, as trocas de olhares, a conversa sussurrada quando eles se aproximaram de modo que os lábios ficaram incrivelmente próximos. Uma das fotos era apenas a sombra do rosto dela por trás do dele, e o ângulo sugeria o que podia ser um beijo no pescoço ou que ela estivesse cochichando algo, mas infelizmente Robin sentia seu corpo dando crédito à primeira hipótese.

Ele odiou a si mesmo pelo que estava sentido. Por todas as sensações enclausurantes que o sufocavam naquele momento, pela vontade exacerbada de gritar e quebrar tudo ao seu redor. Mas era isso o que Gold pretendia. Enviar aquelas fotos tivera a missão de fazê-lo perder a cabeça, algo que ele não daria de livre e bom grado à Eugene Gold. Tente outra vez, querida. Resmungou, amargo.

Passou as fotos, tentando manter o controle sobre suas emoções. Uma das fotos continha Damon com a mão sobre a mão dela, ambas sobre a mesa e Regina não a tirou. Permaneceu em todas as fotografias sorrindo como se fosse devorá-lo, sobre aquela mesa, exatamente como ele fizera com ela. Mantenha o foco. Alertou seu bom senso, e ele forçou-se a aceitar. Chegaria em casa e conversaria com ela. Processar e digerir toda aquela sobrecarga de ciúmes apenas o deixaria estressado, desconfiado e com raiva. Ele não era mais uma criança, ele era um homem e ele teria que gerenciar seus sentimentos como tal. Empurrou as fotos para a lixeira mais próxima e encheu o copo com mais scotch. Tinha que aguentar firme até chegar em casa.

***

“Eu nunca achei que veria você novamente.” Riu Damon, encarando-a. Ele continuava lindo. Os olhos azuis inquisidores, uma camiseta polo vermelha que apenas o favorecia, os cabelos bagunçados.

“Estou feliz que tenha aceitado almoçar comigo, Damon.” Sorriu Regina. Era fácil para ela lidar com Damon. Ele estava o tempo flertando e se havia algo em que ela era incrivelmente boa, era em flertar. No jogo de puxar e empurrar, ceder e tomar, abrir e fechar. Homens eram seu hobby favorito, e manipulá-los era mais um esporte do que um hábito. Tudo que eles precisavam para ficar aos seus pés era a medida certa de massagem em seus egos e a medida ainda mais correta de indiferença e desprezo. Uma combinação perigosa, porém, fatal e decisiva. Regina bebericou seu vinho branco e fitou o moreno.

“Claro que eu prefiro ver você com menos roupa, mas essa também caiu bem.”

Ela riu, e ele a acompanhou. “Em minha defesa, são roupas de trabalho.”

“Você nunca foi arquiteta, não é?” Questionou ele, e ela apenas confirmou suas desconfianças, balançando a cabeça de um lado para o outro negativamente.

“Não.”

“Eu imaginei. Eu fui o único que não mentiu naquela noite.”

Ela o fitou com um sorriso. “Nenhuma mentira?”

“Tudo bem, eu menti.”

Ela gargalhou. “Eu sabia!! Você não pode me acusar mais!”

“Meu irmão e eu temos negócios ilícitos pela Europa.”

“The Blood Tyx.”

Os olhos dele se arregalaram e ele se debruçou sobre a mesa, fitando-a atenciosamente. “Como você sabe disso?”

“Da droga que vocês desenvolveram e que tem sabor de sangue, e é a nova perdição dos jovens?” Ela havia se debruçado e eles se encararam de perto, a proximidade com a qual ambos haviam se familiarizado depois de uma noite de sexo tórrido. “Eu sou uma pessoa bem informada, Salvatore. Mas ainda assim, você era gostoso demais para eu deixar passar.”

“Você sabia dos meus negócios naquela noite?”

Ela suspirou. “Não. Eu soube depois. Eu gosto de saber com quem eu me envolvi.”

“Achei injusto isso.” Resmungou ele e seus olhos fitaram os lábios dela. “Você sabe bem mais de mim do que eu sei sobre você.”

“Se o consola saber, eu também tenho problemas com negócios ilícitos.”

Ele riu. “Ao menos estamos no mesmo barco. Um brinde a isso.”

Regina ergueu sua taça e tocou na dele. “Cheers.”

Eles beberam o líquido ao mesmo tempo, preenchendo sua boca com o liquido adocicado e suave. A sensação refrescante e acalentadora logo os revestiu. “Eu tenho uma proposta para você.” A voz dela veio calma e suave.

Damon deslizou a mão sobre a dela, acariciando-a. Ela ergueu os olhos e ele continuou encarando-a. “No seu hotel ou no meu?”

Ela riu, mas não tirou a mão. “Por mais tentador que seja ter isso novamente...” Apontou para o corpo dele sem pudor nenhum. “Minha proposta é sobre negócios, Damon. Vai ser arriscado, perigoso e um pouco cansativo, mas é o que você precisa para fazer o seu negócio com Stefan alavancar a um novo patamar.”

O que ela mais gostava sobre ele era seu ímpeto, sua liberdade, sua maneira livre de ver a vida. Um homem bonito, decidido, que arrisca seus limites. Não levou mais do que um minuto para ele tomar o resto do vinho restante em sua taça. Em seguida, debruçou-se para perto dela. Os lábios novamente próximos. “Quanto?”

Regina debruçou-se e percorreu a nuca dele, puxando-o para seu pescoço e alcançando seu ouvido, onde mordiscou o lóbulo da orelha e então sussurrou. “Um milhão de euros.” Ela sentiu a nuca dele arrepiando-se, e se deliciou com isso. Ah, o efeito do dinheiro – não mudava nunca. Um suor frio, um arrepio que percorria a espinha e morria na nuca. O formigamento gostoso nas pontas dos dedos, por dentro das digitais. Ele apenas se afastou o suficiente para que seus olhos ficassem exatamente de frente para os dela.

“Apenas me diga o que fazer. Estou dentro.”

Do lado de fora do Skylon Restaurant, Emma os fotografava. Encostada em uma das pilastras, ela empunhou a câmera profissional e tirou mais algumas fotos. Puxou o cabelo dourado para o lado, e balançou a cabeça fitando a morena. Voltou-se para a câmera e apertou o terceiro botão, iniciando o backup. Segundos depois, a loira se afastou pela varanda externa do restaurante e seguiu caminho pela rua, até seu carro. Discou alguns números em seu celular. “É a Emma. Quero que pegue as fotos que acabei de colocar no nosso servidor e envie para Eugene Gold. Sim, pegue qualquer um dos e-mails falsos.” Desligou o alarme e colocou sua câmera no banco do passageiro, jogando a mochila no banco de trás. Voltou sua atenção para algo que foi dito do outro lado da linha. “Precisamos nos apressar. A garota nos arrumará problemas.”

Desligou o celular e acelerou para dentro da avenida.