Carmen
22 Corvos
“Pare o carro, Stu.” Pediu ela ao motorista. Vestindo um sobretudo perto, calça e botas também pretas, alguém poderia dizer que ela estava indo ao cemitério de Highgate. Os cabelos louros estavam enrolados em um coque no topo de sua cabeça, e um par de óculos de sol escondiam seus olhos. Saiu do carro e sem se preocupar com o motorista, entrou no parque.
Hampstead Health possuía uma beleza um tanto triste e melancólica, e por isso havia se tornado um de seus lugares favoritos em Londres. As árvores estavam secando, causando um efeito outonal à paisagem. Emma umedeceu os lábios e soprou o ar frio antes de fitar seu lugar favorito. Minutos depois, sentou-se no banco de madeira em frente ao lago. Sentiu o cheiro da madeira fresca, ouviu o som da água, olhou para o visual fotográfico.
Não havia ninguém ao redor e ela se permitiu respirar de maneira devagar e suave, soltando a tensão de seus ombros. Manteve os olhos à frente, fitando a água. Memórias do passado a arrebataram, trazendo lágrimas aos seus olhos. Poucos segundos depois, a avalanche de emoções a abraçou. As lágrimas escorreram sem aviso, os soluços explodiram em seu tórax, a dor voltou ainda mais dilacerante.
“Eu fiz uma promessa e vou cumprir.” Repetiu, como se alguém pudesse ouvi-la. Apoiou os cotovelos sobre os joelhos e levou as mãos ao rosto, permitindo que finalmente toda a dor que escondia viesse à tona. Minutos de um choro profundo e sentido, minutos de vulnerabilidade onde a poderosa Swan desmoronava. Longe de tudo e de todos.
Passado o súbito desabafo, limpou seus olhos e se ajustou no banco de madeira. Deixou sua respiração se estabilizar aos poucos. Levantou, tirando o sobretudo e deixando-o ali. Vestindo apenas um jeans preto, uma camiseta de manga longa e botas da mesma cor, Emma se aproximou de uma árvore à sua esquerda. Sorriu quando encontrou as letras talhadas no tronco.
AH
ES
RH
Mordeu o lábio e lutou contra a vontade de chorar novamente. Caminhou até a beira do lago. Sua postura havia voltado ao normal, firme e autoritária. O raciocínio foi retomado e ela fitou o relógio dourado em seu pulso. Era hora de agir.
***
Killian estava tendo um dia de cão. Gold o atormentava o tempo todo com casos corriqueiros, como que propositalmente o afastando das investigações de alto calão. Ele jamais faria aquilo com McLocksller. Por um segundo, arrependeu-se de ter aceitado aquele cargo.
Milah o odiava. Desde que tomara esse novo rumo em sua carreira policial, havia esquecido o que era sua vida. Não a via durante a semana, poucas vezes tinha tempo de vê-la durante os finais de semana. Muitas vezes estava bêbado demais para encara-la. Gold estava envolvido com alguma investigação particular, e isso o estava estressando mais do que o normal.
Sequer Belle estava passando ilesa pelo furacão. Vez ou outra ouvia os gritos dele ressoando pelos corredores. Desceu as escadas e chegou à recepção. Angela estava atendendo ao telefone e Nicole estava atendendo dois oficiais. Uma loira exuberante passou pela revista. Killian encostou-se à bancada aguardando o término da ligação, os olhos ainda atentos na revista. A loira estava toda de preto e as botas até o joelho lhe deixaram incrivelmente sexy.
Suspirou quando esta foi liberada e caminhou até ele. Seus olhos verdes fitavam-no com atenção. Ao se aproximar o suficiente do balcão, ela parou. Permaneceu em silencio, e ele ficou em silêncio até que ficou demasiadamente incomodado com a maneira que ela o encarava. “Posso ajudá-la?”
“Sim, Killian Jones.” Respondeu ela e ele posicionou-se em alerta. Como ela sabia seu nome? Quem era esta mulher?
“Como sabe meu nome?”
Ela sorriu, encarando-o. “Eu sei tudo sobre você e tudo sobre este lugar. Mas permita eu me apresentar. Meu nome é Eleonora Salazar, e eu sou o Corvo.”
***
Quando entrou no apartamento, Regina sentiu o perfume dele. Imaginou que ele tivesse chegado há pouco tempo. O som do noticiário estava relativamente alto e ela entrou na ponta do pé, embora ele não houvesse movido um centímetro — provavelmente ele não havia notado sua chegada.
“O que ela está fazendo…” Resmungou ele, inerte ao que quer que estivesse passando no televisor.
“Ela quem?” Perguntou Regina, e Robin virou-se assustado. Seus olhos fitaram os dela e ela percebeu um misto de emoções indistintas naquele olhar. Algo sinalizou dentro de seu peito.
Afastou seu olhar dele e fitou a manchete com letras garrafais. O Corvo havia se entregado. O Corvo era uma mulher? Ela atravessou a sala sem pedir licença e caminhou para frente da televisão. O jornalista dizia que ela havia se entregado no esquadrão da Interpol em Westminster e que estava sob custódia para interrogatório. Regina mordeu o lábio. Aquilo não era parte de seu plano. Seu coração gritava descompassado pelo fato de que a pessoa pela qual ela havia se apaixonado era totalmente oposta ao que sua mente havia elaborado. O Corvo é uma mulher.
O que ela pretendia com aquilo? Será que era uma maneira de atrapalhar os planos de Carmen ou era uma maneira de ajuda-la a cumprir a missão? Fora ela quem escolheu cada pequeno presente e detalhe com o qual fora presenteada todos esses anos? Sua cabeça parecia que ia explodir. Nada disso fazia sentido. Talvez Regina estivesse em perigo. Lembrou-se de uma das cartas, onde o Corvo dizia que entregaria sua identidade para protegê-la. Chacoalhou a cabeça, apreensiva. Não ia defender o Corvo ou suas ações. Não mais.
Olhou para o lado e não o viu ali. Caminhou até o quarto, e observou-o se vestir. “Aonde você vai?”
“Eu preciso ir até lá, Regina. Eu preciso conversar com ela.”
Ele se enfiou no terno Kingsman, e caminhou apressado até a bancada. Puxou os cabelos para trás e Regina caminhou até ele, passando a gravata por trás de seu pescoço e dando o nó com cuidado. Robin parecia nervoso, incrivelmente nervoso. Ela não queria pensar naquilo, mas se deu conta do que aquilo significava. Robin era obcecado pelo Corvo. Obcecado por uma mulher linda, inteligente e agora, disponível. Engoliu seu ciúme e respirou fundo, finalizando o nó da gravata.
Ele parecia distraído. Apesar do baque inicial e do choque de gênero — ela sempre vira o Corvo como um homem — Regina estava muito mais estável com as notícias do que o agente. Talvez porque não era ela quem ocupava sua mente e seu coração. “Tome cuidado, Robin.”
A voz dela pareceu ter despertado de um transe, e ele a encarou. Enfiou os dedos nos cabelos escuros e puxou seu rosto, encaixando suas bocas. Regina amoleceu em seus braços, cedendo e abrindo sua boca para dar acesso a língua quente e sagaz que a tomava. Ela puxou seus cabelos, tentando aplacar o que sentia e ele a apertou ainda mais contra si, devorando-a. Quando se afastaram apenas pela necessidade de ar, ele a manteve no seu abraço e beijou sua testa. “Eu só estou estressado. Me desculpe.”
“Tudo bem.” Sussurrou ela. Ela beijou-o na altura da têmpora esquerda. “Apenas volte para mim.”
“Eu nunca a deixei, Regina.” Com isso, ele se virou para pegar sua bolsa e ela voltou para sala, com o intuito de ocupar seus olhos e calar o turbilhão de emoções em seu peito.
***
Respirou fundo. O ar entrou lenta e preguiçosamente, encontrando caminho por seu sistema respiratório. Fitou seu reflexo na vidraça do edifício. O cabelo bagunçado, os olhos azuis predatórios. Sorriu. Do lado de fora da Agência Central de Correios, acendeu um cigarro mentolado apenas para aplacar seu nervosismo.
Aguarde o dinheiro cair na sua conta. Foi o que ela lhe disse. Ele não teria que agir às escuras e isso o agradava muito. Soprou a fumaça e pensou nela, seus gemidos, a maneira como ela montara nele. Uma mulher excepcional. Tinha a ligeira impressão de que nunca mais teria outra oportunidade, e contentou-se com isso. Carmen Sandiego era um mistério.
O telefone tocou e ele atendeu rapidamente. “Damon, o que está acontecendo? Tem um milhão de euros na minha conta. Isso é coisa sua?” Damon riu. Mesmo perante uma situação absurda — aquela quantia fazia a palavra absurdo perder a força — Stefan permanecia calmo, no controle da situação.
“Sim, maninho. É para colocar a Blood Tyx na rua.”
“Onde você arrumou tanto dinheiro? Damon, você está…”.
“Eu estou ocupado. Pegue o dinheiro e comece a trabalhar. Temos um negócio a gerenciar. Eu te vejo em breve.”
Desligou o celular. Carmen fizera sua parte, e ele cumpriria a sua. Não ousaria brincar com uma mulher que tem um milhão de euros à disposição. Vestiu a luva de couro, pegou o envelope de camurça verde e caminhou para dentro da agência. Ele caminhou até o corredor correspondente ao indicado por ela. Abriu-a, rodopiando a chave ali. Retirou um mapa do Louvre que tinha a Monalisa sobre um círculo de caneta esferográfica vermelha.
Fechou o mesmo. Assim que se virou para sair do corredor, dois homens fecharam a saída pela esquerda. Virou-se para a direita apenas para confirmar que havia mais dois bloqueando a passagem do outro lado, e não se enganou. Um deles retirou uma arma da cintura e a empunhou, mirando em seu peito. “Coloque os papéis no chão lentamente e erga as mãos onde possamos ver.”
“Sem gracinhas ou o tiro virá pelas costas.” Disse um dos homens, mas Damon não ousou olhar para trás. Com cuidado, colocou o envelope e o mapa no chão, levantando as mãos em seguida. “Afaste-se sem movimentos bruscos e fique de frente para a parede, senhor.”
Carmen não o alertou sobre a abordagem, mas ele concluiu que era um imprevisto. Só havia adiantado o processo, porém ele estava preparado para isto. Os homens se aproximaram com cuidado, e Damon observou um deles se debruçando e pegando os papéis, enquanto sentia a outra dupla algemando seus pulsos. Um deles fitou o envelope e depois fitou Damon, os olhos arregalados.
“Jesus Christ! É ele.”
Seu parceiro parecia confuso. O mais novo ergueu o envelope. Segundos depois, eles o abriram e checaram o conteúdo. Ao terminar, o mais velho fitou o moreno algemado à sua frente. “Parece que alguém quebrou suas asas, Sr. Corvo. Você está preso.”
Damon sorriu. Tudo corria conforme o plano original.
***
“Pegamos o verdadeiro Corvo.” Sibilou Killian.
Emma riu, deliciada. Olhou ao seu redor, a pequena sala coberta por um tom cinza combinava com a grande vidraça escura; onde com certeza uma dúzia, ou talvez mais policiais, assistiam avidamente o interrogatório do Corvo. Seus pulsos estavam livres, porém o calcanhar estava preso à cadeira de aço fundida ao chão. À sua frente, Killian e Gold a fitavam. Gold parecia estudar cada uma de suas feições.
“Isso faz de mim um falso Corvo? Oh, acho que vou me sentir ofendida.”
“Você sabe as implicações de seu caso? Quer mesmo entregar-se por todos esses crimes?” Questionou o moreno.
“Me diga uma coisa, agente Jones. Você me viu titubear ou algo assim? Pareço nervosa para você?” Ela sorriu, intimidando-o. “Não estou preocupada. Mas vocês deveriam. Enquanto estão aí brincando de gato e rato, outros crimes podem acontecer.”
“Encontramos a caixa postal alugada com o cartão de seu marido Neal. E adivinha só quem estava saindo de lá com um envelope a ser entregue para Carmen Sandiego?”
Os olhos dela mudaram de brilho. Ela se endireitou. Fitou Gold que não despercebeu sua mudança de atitude. “O que você disse?”
“Ela não sabia.” Acusou o velho. “Não sabia sobre o envelope. Sobre quem temos na outra sala.”
Killian fitou Gold, depois ela. “Parece que nem tudo está sob o seu controle, Sra. Salazar.”
Emma fitou o mais velho com desprezo. “E está sobre o seu, Comissário Gold? Como irá explicar que seu terminal apagou todas as evidências contra uma criminosa que você mesmo sabe estar envolvida sexualmente com um de seus funcionários? Uma criminosa que o senhor vendeu a uma traficante russa?”
Gold sentou suas bochechas tomando um tom cor de rosa. Seu rosto queimava tamanha sua raiva. Tamanha sua vontade de matar aquela mulher à sua frente. “O senhor sabia que Robin McLocksller passou a noite no apartamento da senhorita French?”
“É o suficiente, Sra. Salazar!” Alertou Killian, aumentando o tom de voz. Gold saiu da sala completamente irritado. Eles acompanharam sua saída com os olhos. Quando o moreno se voltou contra ela, apertou o botão por baixo da mesa e cortou a comunicação com a galeria.
“Ele pode matá-la dentro da delegacia. Tome cuidado com quem brinca, senhora.”
“Seja honesto comigo. A imprensa está sobrevoando vocês como urubus sobre a carniça. Ele não vai tentar nada. Havia jornalistas por todos os lados quando me entreguei. É um caso público, senhor Jones.”
Killian chutou seus pés, ciente da imobilidade da Interpol para com o caso. Ela estava certa. “Até que vocês consigam provar que eu sou ou não sou O Corvo, vocês não podem fazer nada. A diferença é que antes que perceba, eu já estarei muito longe.”
“Você está anunciando uma fuga?”
“O interrogatório acabou, Jones.”
Da porta, McLocksller fitava-o e não parecia nem um pouco feliz.
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