Carmen
6 Je ne sais pas
Os olhos dele estavam fixos na fila dos nobres convidados que aguardavam liberação de saída quando ouviu o familiar bipe em sua escuta.
"Beta para Major. Carmen está sendo perseguida por três homens. Identifiquei um deles como um dos seguranças de Male Baryshnikov. Devemos interferir?"
Robin desceu as escadas rapidamente. Acenou um sinal paralelo dos braços para Holmes, que assentiu e o acompanhou. "Major para Beta. Eu e o Agente Holmes estamos a caminho. Nos dê coordenadas."
"Há uma van parada à frente da saída lateral. Ela os levará para uma das ruas de intersecção."
Robin atravessou a entrada por trás do volume exacerbado de pessoas com a insígnia em mãos. Correu apressado até o veículo; puxou a porta e adentrou-o, seguido do outro oficial. O veículo rapidamente arrancou na direção oeste.
***
O grande problema dos filmes hollywoodianos sobre espionagem era a falta de veracidade. Mata Hari pareceria um pato se tivesse que correr pelas ruas de Londres com um par de Salvatore Ferragamo. Não havia nada de luxuoso ou sofisticado. Correndo através das vielas, Regina xingou a si mesmo por escolher aqueles sapatos; longe de si questionar a confortabilidade ou a estética (eles eram lindos) mas faziam demasiado ruído para quem precisava de discrição. Nada mais fatal quando se está fugindo de três russos que um sapato barulhento.
Também não iria tirá-los. Longe dela correr pelas ruas como uma adolescente irrefletida aos quinze anos. Ela era uma profissional e iria lidar com a situação. Olhou em volta e observou um deles correndo na direção sul. Na escuridão em que estava submersa — a sombra de um sobrado construído irregularmente na fachada de uma residência — ela analisou suas rotas. Uma das ramificações do sistema de irrigação estava a quinhentos metros. Ela poderia utilizar um carro mas a polícia logo estaria envolvida e ela não precisava de mais pessoas à sua procura. As entradas dos hotéis eram de fato uma cilada de grande proporção e uma escolha óbvia.
"Ela foi para aquele lado, seu pedaço de merda."
Segurou a respiração quando dois deles passaram a alguns metros de si, descendo a rua. Esperou mais algum tempo e correu para a frente, enfiando-se em uma viela escura. Dali ela poderia correr e chegar à Whitehall A3212 e com sorte, estaria cercada de um público muito grande para que eles lhe atacassem. Conseguiria abertura para transitar e se dirigir a um ponto de segurança.
Estava correndo no interior das vielas estreitas quando foi empurrada contra uma das paredes e se desequilibrou. Ouviu alguma coisa em russo mas não entendeu o significado. Mãos firmes seguraram seu cabelo e ela reagiu, socando-o na altura do antebraço e desestabilizando a força de seus membros inferiores. Mas ele era forte e jogou o peso do corpo para cima dela, prensando-a na parede antes de puxá-la novamente pelos cabelos e a jogar no chão. Regina sentiu o baque mas rapidamente olhou em volta; a adrenalina corria ininterrupta em seu sangue, e ela podia sentir o coração disparado — ela não contava que Baryshnikov fosse realmente dar algum passo; encontrou uma pedra e segurou-a firme em seus dedos. Lovak aproximou-se dela, as mãos ásperas procurando o pescoço fino mas ela rebateu, acertando a cabeça dele e derrubando-o.
Regina sabia o quanto esse momento era crucial; os breves segundos em que o poder da decisão paira sobre as suas mãos, o doce e tentador sabor do sangue, a magnetização proveniente da adrenalina liberada pelo impulso violento — e ela sabia que era fácil perder o controle. Ela parou de bater em Lovak. Seus dedos estavam sujos de sangue quando jogou a pedra ao lado do homem desacordado, e voltou a correr. Mas ela havia se distanciado apenas alguns metros quando ouviu um grunhido e não precisou olhar para trás para saber que um dos russos havia encontrado o parceiro ensanguentado. Ela continuou correndo, mas Khoe saiu da escuridão e a segurou, erguendo-a no ar e derrubando-a no chão. O impacto fez com que lágrimas viessem aos olhos dela.
“Traga-a aqui.” Resmungou um deles, e ela olhou em volta. Não havia ninguém. Aquela área, em particular, era de uma movimentação quase inexistente; um perímetro desarticulado. Era por este motivo que ela definira ali como um bom plano de fuga, ela só não imaginava do que precisaria fugir. Forçada a se ajoelhar, ela levantou a cabeça e sorriu para o russo, que lhe deu um tapa no rosto. “Onde está a pedra?”
“Je ne sais pas.” Respondeu, demonstrando toda a calma do mundo.
“Sabemos que está com ela, Carmen. Você vai nos entregar a pedra, viva ou morta. Sua escolha.”
“Não estou com o Rubi. Perguntem aos policiais que me revistaram na Casa dos Banquetes.”
Khoe riu. Ela ouviu a voz dele atrás de sua nuca, mas não se moveu. “Nossa chefe nos alertou sobre você, Carmen Sandiego. Ela quer você, viva ou morta. E acredite, nossa preferência não é levá-la viva.”
Ela engoliu em seco quando o russo à sua frente tirou um revolver Korovin TK da cintura. Não havia plano B, não havia rota de fuga. Pela primeira vez na noite, ela sentiu medo. Onde estava o Corvo agora? Ela estava a segundos de levar mais de um tiro. Não sabia o que sentir, mas sabia que de todos os finais que havia cogitado para a sua vida, nenhum deles a incluía ajoelhada em uma rua escura de Londres em frente a um russo com cérebro de roedor. Ele desativou a trava de segurança com um sorriso diabólico nos lábios finos e rachados pelo frio. “Ultima chance: onde está a porra da pedra?”
“Pergunte à sua mãe, bastardo russo.”
Ele empunhou a arma e mirou nela, mas alguém o atingiu e ergueu-lhe o braço. Um disparo foi feito para o alto e ela engoliu em seco ao identificar o oficial da Interpol. A luta corporal pela posse do revolver continuou; Regina raciocinou rápido e derrubou Khoe. Era demasiadamente fácil para ela disputar do chão; seus conhecimentos de artes marciais lhe serviria de alguma coisa. Segurou a manga do terno barato e puxou o braço, infligindo-lhe uma certa dose de dor enquanto envolvia o pescoço dele com a força das pernas. Não precisou usar muita força; bastou uma pressão contínua na carótida para ele se debater por algum tempo e então desfaleceu. Regina empurrou-o para longe. Olhou por cima do ombro e estava se levantando quando ouviu a voz de Robin gritando seu codinome.
Milésimos de segundo. Ela ouviu um disparo e ele caiu ao seus pés; em sequência alçou a própria arma e atingiu o russo. Sua boca ficou seca quando ela se ajoelhou ao lado dele e notou o sangue no ombro do oficial. “Você está sozinho, McLocksller?”
Ele não respondeu. Um urro de dor fez com que um arrepio percorresse o corpo dela. Ela olhou em volta, certificando-se de que não havia mais ninguém em volta. Desatou o cinto dele e ele a encarou com os olhos confusos quando a sentiu tirando a peça da sua cintura. “Eu não vou machucar você.” Sussurrou. Regina usou o cinto com uma tipóia, mantendo o braço paralelo ao local atingido suspenso e imobilizado. Ela ajudou-o a levantar e passou o braço livre por cima por trás de sua nuca, permitindo que ele a usasse como uma muleta improvisada. “Precisamos sair daqui. Onde está sua equipe?”
“Eu… Eu perdi contato. Minha escuta foi danificada.”
“Merde.”
Regina tentava pensar no que fazer quando faróis fortes lhe cegaram. Sentiu o estomago se revirar com a expectativa de quem estaria dirigindo aquele Vorsteiner branco; os faróis foram apagados e ela sentiu nada mais do que uma sensação absurda de alívio. Sentada no luxuoso banco de couro vermelho, com os longos cabelos loiros escovados para o lado e vestindo um belíssimo casaco de pele, Victoria sorria para ela.
***
"Como sabia onde eu estava?"
"Eu sei o que preciso saber, darling. Você estava em apuros."
Regina olhou para Robin deitado no banco traseiro. Ele transpirava bastante e gemia baixo; possivelmente por causa do armamento contaminado que os russos usavam. Aquela bala precisava ser retirada. Seu olhar cruzou com o da loira quando tornou a olhar para a frente. "O que foi?" Resmungou ela. Victoria parecia ler a mente dela, como se não houvesse possibilidade da morena esconder absolutamente nada.
"O que pensa que está fazendo?"
"Do que está falando?"
Victoria a olhou de soslaio. "Você sabe quem ele é?"
"Sim."
"Carmen..."
"Esse disparo foi feito para me atingir. O que eu deveria fazer? Deixá-lo morrer no meio da rua? Eu não sou essa pessoa e você sabe disso, Vic."
"Para onde vamos?"
"Píer de St. Katherine."
Victoria bufou. "Você está brincando comigo? Vai levar ele para o iate do Corvo? Aliás, melhor assunto para o momento. Onde estava o Corvo quando você quase levou outro tiro? Até quando vai defendê-lo?"
"Victoria. Por favor."
A loira acelerou ainda mais o veículo da McLaren. Estava irritada; Regina insistia nessa versão absurda de amor por alguém que talvez tivesse sido um refúgio no começo — mas distanciava-se dessa definição a cada dia. "Você poderia estar morta nesse momento. Não entende?"
"Eu sei disso."
"Então pense bem no que está fazendo. Se vale a pena continuar nesse sistema. Eu realmente não quero viver em um mundo onde você não exista, baby love. Eu prometi que cuidaria de você, não me desaponte."
Regina e ela trocaram um breve olhar, suficiente para marejar os olhos de cor chocolate da morena.
***
Robin saiu do carro com alguma dificuldade. Sentado em um banco de madeira, observou a interação de Carmen com The Devil. Era quase desleal chamá-las assim naquele momento, pois o contexto não poderia fazer com que parecessem mais inocentes do que qualquer outra pessoa. Carmen era ela mesma na companhia da baronesa; era perceptível o laço afetuoso na maneira que esta sorria, na curva de brilho em seus olhos. Elas trocaram algumas palavras e Victoria beijou os lábios dela por alguns segundos, um encostar de lábios sutil e carinhoso.
Quando a loira se distanciou, voltando para o carro estacionado, Carmen voltou-se para ele. Ela parecia exausta. Colocou o braço dele em volta do seu pescoço e caminharam na direção das embarcações.
***
"Me responda uma pergunta: O que você tem na cabeça?" Questionou ela ao inclinar o ombro e auxiliar um movimento dele ao sentar-se no acolchoado do iate. O silêncio na embarcação indicavam que eles estavam sozinhos ali. Ela havia guiado o veículo por pelo menos trinta minutos, de acordo com seus cálculos. Estavam no mar, mas não longe da costa.
Robin gemeu dolorido e fechou os olhos por alguns segundos. Assim que os abriu novamente, deparou-se com ela à sua frente, o vestido rasgado pela fuga e uma faca em suas mãos. Ela acompanhou seu olhar até a faca e sorriu. "Não se preocupe. Se eu o quisesse morto teria lhe deixado para os russos."
Ele engoliu em seco e ela pegou um isqueiro da mesinha de centro, acionando a chama intensa e colocando a faca sobre ela. "Precisamos tirar a bala antes que infeccione."
"Por que?"
Ela ergueu os olhos e observou o homem ferido que a encarava com olhos inquisidores. Por alguns instantes, eles permaneceram um no olhar do outro acompanhados pelo som tranquilizante do mar. "Se você me conhecesse tão bem quanto diz, McLocksller, saberia a resposta. Eu não sou uma assassina. Eu não gosto de pessoas morrendo por mim. Você me impediu de levar um tiro, e eu estou retribuindo o favor."
"Quem diria que uma ladra teria honra."
"Quem diria que um agente da Interpol se colocaria na frente de uma bala por uma ladra."
Robin olhou em volta e pela primeira vez notou a luxuosidade do iate onde estavam. "Onde está o dono desse iate?"
Ela sorriu enquanto colocava o isqueiro sobre a mesa. "Se eu soubesse, você seria o último a quem eu diria."
Robin balançou a cabeça, sorrindo. Era óbvio. Carmen colocou o cabelo atrás da orelha e aproximou-se dele. Afastou suas pernas e ajoelhou-se entre elas, de modo que a linha de visão de ambos permaneceu alinhada. Com cuidado, seus dedos alcançaram a lapela do smoking e ela pediu permissão através do gesto, e ele concedeu. Ela deslizou o tecido sobre os ombros, retirando a peça dele e colocando-a dobrada sobre o outro sofá. A camisa social branca tinha uma mancha vermelho bordô, e ela desabotoou os botões dessa sem qualquer pressa. Poderia ser uma cena sensual, Carmen Sandiego ajoelhada entre seus joelhos e desabotoando a sua roupa — exceto pelo contexto onde ele estava sangrando e ela enfiaria uma faca em seu peito no intuito de retirar a bala.
Ela imaginava que ele teria um físico bonito, e não ficou surpresa. Policiais eram submetidos a treinamentos extensos e quase sempre necessitavam de sua resistência física, de modo que quando ela retirou a camisa social e jogou-a no chão, seus olhos percorreram o torso do homem com certa admiração. "Vai doer um pouco." Alertou ela e ele somente assentiu com a cabeça. Ela levantou e foi até o banheiro, voltando rapidamente com um pouco de iodo e alguns chumaços de algodão. Com poucos movimentos, ela desinfectou a área.
Ela tateou ao redor e pegou a faca, inserindo-a com firmeza. A dor foi profunda e incômoda, mas durou pouco. Ou a bala estava em algum tecido superficial ou ela era realmente experiente nesse tipo de coisa; independente da resposta, o auge da dor havia passado e ela havia colocado algo metálico em seus dedos. "Segure o algodão no local."
Ele observou-a indo até o bar e preenchendo meio copo com alguma bebida. Carmen voltou e entregou o copo à ele. "Beba. Vai ajudar com a dor."
"Por que você está envolvida nisso?"
Ela sorriu, e pela primeira vez naquela noite, Robin viu o lampejo de algo triste em seu olhar. "Porque eu o amo."
"Como você pode amar alguém que não conhece?"
Ela sorriu. "Você acredita em Deus, Sr. McLocksller?"
"Não é a mesma coisa."
"Como não? Não vemos Deus, mas acreditamos Nele. Devotamos nossa fé e adoração à Ele. Agradecemos ao que Ele nos dá diariamente mas nós nunca o vimos."
"O Corvo não é Deus, Carmen. É um homem covarde que se esconde por trás de uma identidade secreta."
Ela sorriu, encarando-o como se soubesse de algo que ele não sabia. "É a sua opinião. Mas agradeço por compartilhar."
"Você se apaixonaria por um homem comum?"
Ela manteve os labios semiabertos, encarando-o com certa surpresa. "O que é um homem comum, McLocksller? Um agente da Interpol?"
Ele empalideceu e ela sorriu, divertindo-se.
"Não foi isso que eu quis dizer."
"Você é um homem bom, Robin. Precisa encontrar uma mulher que o faça evoluir, que entre na sua vida para adicionar, para transformar. E acredite, eu realmente torço para que você a encontre e seja feliz. Essa vida que ambos temos é vazia e infeliz."
Ele respirou fundo e ela afastou-se, pegando a camisa do chão. "Deve ter alguma camisa limpa no closet, eu vou checar. Deite e descanse. Amanhã voltamos à terra. Não será seguro voltar antes."
Ele assentiu e ela desapareceu para dentro da cabine. Robin respirou fundo. Carmen Sandiego era muito mais complexa do que ele ousava imaginar.
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