Carmen

23 Cora


Regina desembarcou no aeroporto Madrid-Barajas cedo naquele dia. O rosto, enrolado em um lenço da Hermés e o cabelo sobre um boné branco e azul. O ar da Espanha lhe fazia um bem e ela sentiu-se em casa novamente. Caminhando para a saída pela alameda de resgaste das malas, ela apertou sua mochila contra si e continuou caminhando. Não encontrara com Robin – ele havia se trancafiado na fortaleza da Interpol desde que Eleonora Salazar se entregara, mas deixou um bilhete avisando sobre sua pequena viagem.

Passou na frente das grandes vidraças, cuja perspectiva proporcionava uma visão panorâmica dos pavilhões de embarque e seus respectivos terminais. Observou um avião da Delta manobrando e permitiu-se parar ali. A sensação de nostalgia a acolheu; lembrou-se de quando era apenas uma criança em seus oito anos de idade, e seu pai a levava para ver os aviões decolando e pousando. Seus olhos se fecharam instantaneamente e ela lembrou-se da sensação das mãos dele sobre os seus ombros, a voz dele acima de sua cabeça chamando sua atenção para as máquinas que voavam sobre a sua cabeça. Como ela sentia a falta dele.

Abriu os olhos, agora marejados, e continuou seu caminho. Desceu as escadas e pegou o elevador, chegando em alguns minutos ao subsolo onde um profissional bem vestido a aguardava com seu carro alugado. O processo foi rápido e eficiente – ela já havia preenchido toda a documentação, restando apenas uma ou outra assinatura. Colocou a mochila no banco do passageiro e seguiu seu caminho.

***

Demorou apenas trinta minutos para chegar ao seu destino. Localizada nos pés da Serra de Guadarrama, a cidade de 50 mil habitantes, era um pequeno oásis de simplicidade no meio da modernidade súbita de Madri. Colmenar Viejo era sua casa, dona de suas melhores lembranças – de seus pais, da sua infância, de uma vida que parecia tão distante que quase não poderia ser sua.

Enquanto atravessava as ruas moldadas por arvores, observando os conjuntos arquitetônicos revestidos com tijolos preservados, ela se deixou levar por suas lembranças. Fazia anos que ela não voltava, e a culpabilidade dessa afirmação caiu sobre seus ombros. Os ipês roxos brilhavam, trazendo beleza à um local que já possuía sua própria magia. Fazer aquela viagem seria difícil, mas ela sabia disso quando embarcou no avião.

Entrou na Calle de La Mosquitona, e rapidamente alcançou o número 65, entrando no estacionamento da Residencia de Mayores AMMA. Parou o carro, pegou sua mochila e caminhou até a recepção. Aquele lugar já era demasiadamente bonito e bem cuidado quando ela o conheceu. Mas naquele momento, as melhorias haviam sido tão extraordinárias que parecia até mesmo um novo lugar. Um novo prédio. Lembrou-se da agonia que sentiu na primeira vez que pisou ali e suspirou, percebendo como ela havia mudado desde aquele momento. Como sua vida havia se transformado.

Chegou à recepção. Seus olhos vasculharam o ambiente registrando os detalhes; a parede de vidro com desenhos floridos, as luminárias suspensas próximas ao balcão, os sofás brancos, as plantas vívidas, o quadro de avisos, as flores rosas – tudo ali lhe dava uma sensação de familiaridade, de lar. Aproximou-se do balcão revestido de madeira escura, e fitou a atendente sorridente. Seus cabelos loiros estavam presos em um coque e ela tinha um olhar bondoso.

”Olá, como posso ajuda-la?”

“Eu vim para uma visita.” Respondeu Regina. “Cora Mills.”

Ela percebeu um leve brilho atravessando o olhar da senhora que a fitou por alguns instantes com mais atenção, mas nada disse. “Regina Mills?”

“Sim.”

“Você poderia apresentar um documento com foto, senhorita Mills? Apenas por precaução?”

Regina sorriu, retirando do bolso lateral de sua mochila o passaporte. “Sem problemas. Eu ficaria mais preocupada se você não pedisse. Eu pago caro para manter minha mãe em segurança.”

“Nós fazemos o melhor, senhorita.” Respondeu a mulher, com um sorriso nos lábios. Devolveu o documento, e discou alguns números. “Visita para a Mills.” Virou-se para Regina. “Aguarde um minuto. Rosalinda virá buscá-la.”

***
Regina aguardou um pouco mais de um minuto, mas não se importou. Estava sentada, com os pensamentos distantes quando ouviu o som dos saltos baixos batendo; seu coração acelerou e ela levantou-se. Seus olhos lacrimejaram quando ela viu a pequena mulher, os cabelos pretos e lisos amarrados em um rabo de cavalo. Vestia calça e camisa azul claro, tênis e tinha em seus lábios o sorriso mais reconfortante que ela já vira na vida; os traços da idade presentes em seu rosto lembravam Regina de quanto tempo havia se passado.

“Rosa!” Exclamou ela e correu ao encontro da mulher, abraçando-a apertado. Lágrimas vieram com uma força arrebatadora e ela nada pode fazer a não ser deixá-las escorrer pelo seu rosto enquanto sentia a mão dela acariciando seu cabelo.

Mi hija, senti su falta.” Regina afastou-se e Rosa limpou as lágrimas do rosto dela, segurando seu rosto e beijando-a na testa. “Há quanto tempo você não aparece aqui, Regina. Achei que não voltaria.”

“Eu sei, Rosa. Perdóname.”

Ajeitando-se, ela arrumou os cabelos desalinhados de Regina e fitou o corredor. "Vamos."

***


Regina caminhou até a casa 08 ao lado de Rosa. Seu coração estava acelerado, e sua boca secara no caminho. Sentia a garganta arranhando a cada vez que tentava engolir uma saliva inexistente. Fitou o jardim florido e as rosas vermelhas, e mesmo sem saber sentiu os cuidados de sua mãe ali. Sabia que ela continuava apaixonada por suas rosas, vermelhas como o sangue, altivas e firmes sobre cabos fortes. Rosa manteve-se em silêncio.

Subiram os três degraus da entrada e passaram direto pela varanda. Um pequeno apanhador de sonhos com penas nas extremidades chamou sua atenção, mas ela rapidamente fitou o interior da casa pela porta que se abriu à sua frente.

Ela só havia visitado sua mãe uma vez desde que está fora para a residência definitiva. Das outras vezes, relativamente poucas, Cora estava no quarto temporário. Ela havia reformado tudo e lágrimas vieram aos seus olhos novamente quando ela percebeu quão parecido aquela casa ficara com a casa em que cresceu. Os mesmos quadros, os móveis quase idênticos, a posição dos artigos de decoração e os tapetes felpudos. O luxo que Cora Mills não podia arcar, mas que queria ostentar.

Entraram na cozinha e seu coração subitamente veio ao seu pescoço quando a viu. Havia mechas de cabelos brancos entre os cabelos ruivos, e ela estava elegantemente vestida com uma calça preta social e uma camisa social salmão. Havia um avental sobre o seu corpo, e ela estava escrevendo algo em um bloquinho. Regina não aguentou a complexidade de sentimentos que se apossou dela, e antes que Rosa pudesse impedi-la circulou a cintura de Cora e a abraçou com força. O cheiro de seu perfume Chanel adentrou as narinas de Regina e seus olhos lacrimejaram. Ela estreitou o laço, tentando manter o calor de seu abraço enquanto pode. Sentiu a mulher relaxar e aos poucos se distanciou.

"Ora, ora." Brincou Cora ao virar-se e fitar Regina. Havia um sorriso suave em seus lábios. "Eu não sou muito fã de abraços mas um abraço gostoso desse é sempre bem vindo. Quem é esta moça tão bonita, Rosalinda?"

"Mãe..."

Rosa a interrompeu. "Essa é Isabella, ela é assistente social. A mãe dela mora na casa 705. Ela só está visitando os moradores para saber como estão, essas coisas."

Regina engoliu o bolo de magoa e dor acumulado em sua traqueia. O que mais ela esperava? Inspirou profundamente e foi soltando o ar gradativamente. O sorriso de Cora alargou-se. "Que trabalho maravilhoso, minha querida! É bom termos rostos novos para conversar. Sem ofensas, Rosita."

"Não me ofendi." Disse a morena, sentando-se ao lado de Regina e discretamente acariciando suas costas. Para ela, Regina nunca deixara de ser aquela jovem de dezesseis anos desesperada por ajuda. A jovem com os olhos molhados e o sorriso triste que implorou para que cuidasse de sua mãe. Sabia o quanto era dificil para ela lidar com a doença de sua mãe e com suas complicações.

Cora levantou-se e jogou alguns ingredientes no vasilhame. Começou a bate-los esquanto voltava sua atenção para Regina. "Você me lembra a minha filha, Isabella. Faz alguns dias que não a vejo. Ou fazem anos. Eu não sei. Ela é bonita assim como você."

"Como ela chama?"

"Regina." Um sorriso diferente cruzou os lábios dela e a mais nova precisou de autocontrole para manter a serenidade.

"É um nome bonito."

"Sabe... Isadora, você visita bastante sua mãe?"

"As vezes."

Cora censurou-a, franzendo o cenho. "Nós velhos, queremos atenção. Somos meio criancinhas, sabe? Regina me abandonou aqui. Ela não vem me ver."

"Talvez ela trabalhe muito para pagar este lugar para a senhora."

Cora sentiu uma pontada em seu braço. Rosa levantou e foi até ela. O tremor involuntário da doença havia evoluído. Rosa continuou batendo os ingredientes por ela.

"Ela poderia morar comigo em um buraco. Eu não ligaria. Eu sacrificaria tudo pela minha filha. Essa casa aqui não significa nada quando eu poderia ter a companhia dela e eu não tenho, porque Regina acha que quero todo esse luxo e eu não quero. Assim como sua mãe. Não queremos isso... queremos um lar. Queremos nossa família."

Foi impossível para Regina segurar as lágrimas. Cora caminhou até ela e mesmo com as mãos trêmulas, segurou o rosto da filha e secou seu rosto. "Calma, querida."

"Me desculpe. Fiquei emocionada pela minha mãe."

"Isso acontece. Mas vamos beber um drinque e voltar a falar de trabalho. Do seu trabalho." Riu.

"Você não pode beber." Alertou Rosa, que preenchia as formas com o conteúdo do vasilhame.

Cora revirou os olhos, bem humorada e se voltou para Regina. "Ela não me deixa fazer nada. Parece a polícia."

Regina riu. Apesar da progressão de seu estado, Cora parecia feliz. Estava sorrindo, estava bem vestida, o rosto bonito. Ela não se lembrava de Regina e isso cortava sua alma em camadas que nem mesmo ela conhecia mas parecia estar bem consigo mesma.

"Você recebe muitas visitas, senhora Mills?"

Cora riu. "Até parece. Se não fosse Rosa eu estaria caducando sozinha."

"Teve aquele senhor de bengala, no dia do café." Resmungou Rosa. O dia do café, pelo que Regina recordava do contrato, era passeio monitorado à lugares de convivência comum como cafés e restaurantes.

Cora parou de sorrir. Regina acompanhou cada detalhe de sua expressão facial e a mudança foi súbita e assustadora. Seu semblante transformou-se. "Aquele homem não tinha boas intenções."

"Porque diz isso?”

Cora a encarou com frieza, mas isso não a intimidou. Na verdade, para Regina aquele ato era um alívio, uma sensação refrescante de que a antiga Cora Mills se encontrava em algum lugar no interior desta Cora. “Você está gravando esse encontro ou algo assim, querida?”

“Não, sra. Cora. É uma visita informal.”

“O que vou lhe dizer não é exatamente um assunto confidencial do tipo ‘vamos todos morrer’, mas eu não gostaria que fosse divulgado.”

“Sem problemas.” Cora guiou Regina até o sofá. Rosa continuou no balcão lendo uma revista, mas Regina sabia que ela estava atenta ao que estava acontecendo. Cora ajeitou os cabelos, num gesto delicado que fez a mais nova sorrir.

“Quando meu marido faleceu naquele acidente de carro, ele não estava sozinho.”

Os olhos de Regina se arregalaram no mesmo instante. Como assim, não estava sozinho? Sua mãe nunca lhe dissera isso. Por que diria agora, para uma estranha? Suas vozes internam gritavam para que ela dissesse algo, mas seu cérebro a avisava de que ela era uma desconhecida para Cora naquele momento. Não podia arriscar agora. Precisava de todos os pedaços dessa história.

“Ele estava com o melhor amigo e sócio, Dr. Hopper. Mas Archie era um homem influente e tinha muitos negócios. Ele sabia que muitas pessoas o queriam morto. Archie era um homem muito bom. Ele ajudou tantas vidas, tinha vários filhos adotivos e lhes dava a melhor vida que poderiam almejar, não somente financeiramente, mas emocionalmente.”

“Isso quer dizer que o acidente não foi um acidente.”

“Isso.” Cora respirou fundo, fitando a mesa de centro. “Alguém sabotou o carro de Henry pois sabia que eles sairiam juntos. Archie era uma pessoa pública naquele momento, de modo que o corpo dele foi retirado da cena assim que o acidente aconteceu. Henry não sobreviveu por muito tempo para ser levado.”

Regina sentiu suas entranhas vibrando, contorcendo-se. Suas mãos tremiam. Tantos anos depois ela descobrira outra novidade sobre a morte do pai – e uma novidade tão atormentadora que ela mal conseguia respirar. Não somente seu pai estava morto, ele havia sido assassinado. Não somente morrera, como morrera para proteger seu amigo – o mesmo amigo que Gold estava caçando.

“Mas Archie Hopper está morto?”

“Sim. Se Archie estivesse vivo, ele já teria vindo ao meu encontro.”

“Era isso o que o homem da bengala queria?”

“Aquele homem sabia sobre o acidente. Sobre Archie e Henry.” Cora engoliu sua saliva, desconfortável. “Ele sabia coisas demais e agiu sorrateiramente para me cortejar, tentando fazer com que eu lhe falasse mais a respeito.”

“E o que você disse?”

Cora riu. “Bem, eu posso estar velha e doida, mas não sou nenhuma boba. Eu flertei. Não dei nada relevante a ele.”

Regina tentou ligar os pontos. Como Gold sabia de tudo aquilo? A menos que.... Ela não tinha como provar. Poderia acusa-lo de estar envolvido, mas era parcial e sem embasamento. Podia até ser que ele havia sido o culpado e que a falta de provas de que Archie Hopper estava morto lhe deixasse inquieto, mas ela nada podia fazer sem uma confirmação. Cora colocou a mão sobre a sua, observando que estava tremula.

“Não fique nervosa. Está tudo bem.”

“Eu sou um pouco emotiva.” Mentiu, tentando reconfortar sua mãe.

“Regina também é assim.” Cora mordeu o lábio inferior, os olhos rapidamente se enchendo de lágrimas. “Como sinto a falta dela! Ela era uma adolescente muito irritante, sabia? Sempre teimosa. Nunca me ouvia em nada. Mas ela sempre teve esse coração grande e cheio de sentimentos puros. Ela sempre cuidou de mim, sempre viu o bom em mim mesmo quando eu era uma perversa. Talvez ela esteja certa em me deixar aqui, não é mesmo? Eu não traria boas lembranças a ela.” Seu semblante triste fez o coração de Regina partir-se em dois. “Ela sofreu muito com a morte de Henry. Aquilo a transformou para sempre.”

“Vocês me dão licença?” Pediu Regina, a voz embargada. Não aguentaria segurar por muito tempo a tempestade em seu peito. “Preciso checar se minha mãe está bem.”

“Claro. Mas volte!” Sorriu Cora. “É um prazer conversar com você.”

***

Do lado de fora da casa, ela deixou as lágrimas emergirem. O choro, que ela segurou desde que entrara na casa, finalmente explodiu em seu peito e veio à tona. Regina sentou-se no chão e os soluços vieram. Era isso o que sua mãe pensava dela. Que Regina a abandonara para morrer ali. Que Regina não se importava, ou que tinha ressentimento dela.

Dor e arrependimento batiam contra o seu coração, como se o espancasse. Cada batida tinha um peso exorbitante contra o seu peito. Ouviu passos, mas não se preocupou. Sabia exatamente quem era. Rosa apareceu segundos depois em seu campo de visão e sentou-se ao seu lado, puxando-a para um abraço. “Oh mi hija, ela não faz por mal.”

“Eu sei, Rosa. Eu sei. Mas não deixa de doer.”

“No fundo ela sabe que você não a abandonou aqui.”

“Não precisa mentir para mim. É o que ela pensa sim. Minha mãe acha que eu a odeio.”

Rosa apertou Regina contra seu peito, fazendo com que a mais nova deitasse a cabeça em seu ombro. “Ela não se lembra, pequena. Ela não se lembra como eu. Não se lembra quando a doença estava em seu estado crítico e você foi bater na porta da minha casa, naquela noite chuvosa pedir que eu cuidasse dela. Quando você trabalhou catorze horas por dia para pagar os remédios dela. Regina, ela simplesmente não se lembra. Você sabia que isso aconteceria.”

“Eu não esperava que doesse tanto.”

“Às vezes ela tem lapsos de realidade, mas eles estão cada vez mais distantes. Ela não faz mais conexões mentais com tanta facilidade. Lembranças são raras. O fato de ela lembrar algo sobre este acidente é impressionante.”

Regina chorou contra os ombros da porto-riquenha como uma criança. Rosa apenas a apertou contra seu corpo, reconfortando-a. Amava Regina como se fosse sua própria filha; havia acompanhado a jornada da garota que fizera de tudo para garantir o melhor que podia à Cora. Sabia que ela estava envolvida com algo perigoso, já havia visto seu rosto em noticiários, mas não se sentia no direito de indagar nada. Quando sentiu que esta havia se acalmado e relaxado, delicadamente acariciou seu rosto e beijou-a sobre a testa. “Acalme-se, leve o tempo que precisar. Eu vou estar lá dentro com ela. Não posso deixa-la sozinha por muito tempo.”

Regina acenou, afirmando e segundos depois, Rosa voltou para o interior da casa.

***
Emma sorriu quando Robin entrou na sala de interrogatório pela quarta vez. Mas diferentemente das outras vezes, ele entrou sozinho. Finalmente, pensou ela. Seu rosto estava sério, e ele não a encarara desde que passara pela porta. Assim que se sentou, ele apertou o botão que bloqueava as comunicações com a galeria. Ela sorriu, e o fitou com um sorriso no olhar.

Robin finalmente a encarou.

“Que merda pensa que está fazendo, Emma?”

Ela sorriu, encarando-o. “Estou tentando ajudar você, Robbie.”

“Me ajudar? Você está sendo de que serventia dentro dessa sala? Arriscando tudo que construímos?”

Ela parou de sorrir e se debruçou para a frente, encarando-o com raiva. “Você está arriscando tudo o que construímos para transar com Carmen Sandiego.”

“Ela não tem absolutamente nada a ver com isso.”

“Tem, e você sabe muito bem disso.” Sibilou Emma. “Se não fosse por ela, você já teria feito suas obrigações. Este caso já teria sido encerrado. Mas você se apaixonou. Você titubeou.”

“Você também se apaixonou em uma missão. Vamos deixar isso bem claro, Emma. Pare de apontar o dedo para mim como se eu fosse um grande lunático. Você fez Male comprar aquele diamante do tamanho do mundo e depois a dispensou sem nenhuma compaixão.”

“Eu terminei com ela por nós.”

“Não me venha com essa conversinha.”

“Alguém aqui leva votos a sério, Robin. Promessas a sério. Ao menos um de nós...”

Ele bateu na mesa com o punho fechado. “Cuidado com o que fala, Swan. Você sabe muito bem até onde eu fui para manter uma promessa.”

A respiração de ambos estava rarefeita. Emma o fitava com a mesma intensidade, a mesma emoção trancafiada e as montanhas de coisas não ditas. Robin ajeitou a gravata, desconfortável. Já fazia mais de vinte e quatro horas que não voltava para casa e Regina deveria estar uma pilha de nervos por causa disso.

“Isso nunca será fácil, Robin. Quanto mais rápido você aceitar, mais rápido sairemos dessa.”

“Eu não quero fazer isso. Não com ela.”

“Eu não acho que você tenha escolha.”

Robin abaixou a cabeça por segundos e puxou seus próprios cabelos num sintoma de desespero acometido. Emma se debruçou sobre a mesa e tocou seu rosto. Acariciou-o com a parte posterior de sua palma, deslizando os dedos pela barba rala. Segurou-o, deslizando o polegar pela maça de seu rosto. Ele fechou os olhos, aceitando o carinho e relaxando sobre o seu toque. Ele levantou-se e caminhou até ela, puxando-a para um abraço. Emma deitou a cabeça em seu peito, sentindo a mão dele sobre seus cabelos em um afagão carinhoso.

“Eu senti sua falta.” Confessou ela, e ele a apertou ainda mais contra si.

“Eu também senti a sua, loira.”

***

Quando Regina voltou para o interior da casa, ela encontrou Cora rindo com Rosa. Pareciam entretidas em uma conversa aleatória. Ela parou ali contra o batente e as observou em silêncio. Suas duas mães. Como eram cúmplices, amigas, irmãs. Rosalinda era a pessoa em que Regina mais confiava em toda a sua vida.

Seu coração rapidamente inflou de alegria. Sua mãe era feliz. Era só isso o que ela precisava. Tudo bem se Regina seria para sempre uma desconhecida para ela, ela podia lidar com isso. Ela só não podia mais lidar com a situação daquela maneira. Rosa fitou-a e sorriu, o que chamou a atenção de Cora. Quando a mesma se virou, seu semblante mudou. Regina perguntou-se se ela já havia esquecido de Isabella, ou Isadora também. Teria que inventar outra identidade.

“Regina?”

Seu coração parou.

Cora veio caminhando na direção dela, em silêncio, o olhar assustado. Regina não se moveu, completamente apavorada e confusa. Cora tocou seus braços, o coração batia acelerado; ela tocou seu rosto e seus olhos estavam marejados. “Meu Deus, Regina! É você mesmo! Como eu senti sua falta, filha.”

Regina só recobrou sua consciência do estado de choque que se encontrava quando Cora a abraçou, apertando-a firme contra si. Voltou a chorar, mas dessa vez de felicidade. Sua mãe lembrou-se dela. Talvez durasse cinco, dez ou mesmo trinta minutos. Mas ela se recordara. Rosa limpava algumas lágrimas atrás dela, e isso fez Regina sorrir. “Eu achei que não a veria novamente, querida.” Confessou Cora, ainda agarrada ao corpo da filha.

“Mãe, me desculpe. Por favor.”

“Não preciso desculpar você, Regina. Você veio me ver. Isso que realmente importa.”

O abraço perdurou por minutos. Nenhuma das duas queria cortar a corrente de calor e sentimentos que emanava de uma para a outra, a sensação de pertencimento, a conexão entre elas. Assim que se afastou, Cora limpou suas lágrimas novamente – mas dessa vez ela sabia quem estava à sua frente.

“Você está tão bonita. Uma mulher elegante, e bela.” Regina riu, ainda se recuperando das emoções que chacoalhavam seu emocional.

“Você está bem, mãe?”

“Eu estou fazendo o melhor que posso com o que esta doença me permite, querida. Às vezes eu sinto muitas dores musculares e Rosita tem que fazer as coisas por mim. Às vezes que esqueço coisas obvias, como meu próprio nome. Os remédios são sensacionais, mas eles não vão extinguir a doença por completo.”

Regina assentiu, ouvindo com atenção. Cora beijou seu rosto, emocionada. “E você, o que veio fazer aqui?”

Era aquilo que ela precisava responder. Não somente à Cora, mas a si própria. Às mudanças em sua vida, às mudanças em sua essência, em seu coração. Se ela continuaria adiando as decisões que lhes eram pertinentes, ou se tomaria dianteira perante os obstáculos. Encarou sua mãe nos olhos, mantendo o silêncio por minutos. Depois de algum tempo, deixou o ar sair de seus pulmões. “Eu vim buscar vocês duas. Nós vamos para casa.”

***

Regina desembarcou no aeroporto Heathrow pouco depois da hora do almoço. Sentia-se extremamente leve, com uma paz interior que ela jamais ousou almejar. Ciente de que a essa hora sua mãe e Rosa deveriam estar chegando à ilha, um sorriso escapou de seus lábios. Suas coordenadas para David e Mary Margareth haviam sido bem especificas. Conhecia Mary desde a infância e sabia que podia confiar no casal de militares para que recepcionassem as duas à ilha e lhes explicassem tudo o que precisavam saber.

Em poucos dias, ela estaria a caminho de casa também. Seu telefone tocou e ela sorriu para o nome exibido no display.

“Oi Vic.”

“Darling! Você conseguiu! You’re a fucking genius, Regina. I can’t stand!”

“Do que está falando?”

“O roubo ao Cofre Nacional, dahling. Está em todos os noticiários! Se bem que se você está fugindo, nós nos falamos depois e....”

Regina parou de escutá-la. Com o coração batendo tão forte que ela podia senti-lo na sua bile, ela se aproximou de um televisor na qual diversos turistas viam as notícias. O Tesouro Nacional do Reino Unido havia sido roubado. Mostraram fotos do corte preciso feito no teto do cofre, e as letras miúdas alegavam que a polícia estava em perseguição dos suspeitos. A suposta mulher que se entregara como Corvo também havia escapado da Interpol e era a principal suspeita do crime.

“Regina, você está aí? O que está acontecendo?”

Com a boca árida e o gosto metálico e ferroso de sangue em sua língua, Regina finalmente respondeu. “Só um há um problema, Victoria. Eu acabei de voltar de Madrid.”

“Então...” O silêncio do outro lado mostrava que a loira havia entendido a dimensão do problema.

“Alguém roubou esse Tesouro, mas não fui eu.” Fitando as imagens que passavam repetidamente no vídeo do jornal, ela continuou, seu coração desabando em pedaços. “E eu tenho a ligeira impressão de que alguém me traiu.”

Notas finais
Glossário. Mi hija (espanhol) Minha filha.